19
de
fevereiro
Para rir e para chorar
1) L’Illustre Molière (http://www.sesisp.org.br/cultura/teatro/l-illustre-moliere.html)
Como já mencionei tantas vezes por aqui, o SESC e o SESI é que sustentam a vida e qualidade do teatro em S. Paulo, sobretudo na capital.
Esta peça, com entrada gratuita, ali no teatro do SESI da Paulista, é prova contundente disso. O teatro de 450 lugares lota, a fila para retirada de ingressos é monumental, a de espera por desistência idem. e o espetáculo é rico, de excelente qualidade.
O espaço desse teatro do SESI padece de alguns problemas crônicos e simples de solução, sobretudo se considerarmos que está sob o guarda-chuva da Fiesp. Antes, na ante-sala do teatro, havia uma dezena de cadeiras. Agora, nenhuma! Não consigo entender como gente da área (e não são os únicos, infelizmente) viciosamente não pensa em oferecer conforto mínimo a idosos (grande parte do público atualmente), gestantes, pessoas com alguma deficiência. Custa colocar umas dezenas de cadeiras ou bancos? Em que isso atrapalha alguma coisa? Espero que as pessoas que hoje não cuidam desse aspecto vivam muito e gostem de ir ao teatro, para ficar desconfortavelmente em pé antes de o espetáculo começar. Ah, que elas tenham varizes, artroses, artrites, assim a coisa será mais pedagógica ainda.
Outro ponto que não dá para entender: há uma estrutura para uma cafeteria montada, e há bastante tempo, mas cadê café, água, etc.? E os banheiros precisam de uma repaginada urgente. Ah, e não tem ninguém de limpeza durante os espetáculos, ou seja, 450 pessoas circulando por ali, um monte usando os banheiros e ninguém para manter a coisa limpa. Dá para acreditar?
Não consigo entender falhas tão toscas em um órgão ligado à mais poderosa federação de indústrias do país. Supostamente, órgão que congrega gente proativa, visionária, realizadora. E com caixa, seguramente. A coisa é que por aqui acha-se, de uma forma pueril e patética, que arte não combina com business, com organização, com resultado, com cidadania, com pragmatismo. Arte é uma coisa à parte, acima do bem e do mal. Francamente, nem Molière acreditava nisso. E por patrocinarem, visando benefícios fiscais e institucionais obviamente, diversão e arte, o pessoal do andar de cima acha que já está bom assim e ponto. Ooooh, miopia…
A peça é uma combinação de textos de obras de Molière com passagens de sua vida. Ótimo, pois além de nos proporcionar a possibilidade de contato com textos do autor ainda sabemos de detalhes de sua vida afetiva, criativa, problemas com seu mecenas, sua saúde, sua visão do negócio, os meandros de sua companhia.
O figurino é muito bonito, rico. O cenário é simples, mas interessante, funcional.
Guilherme Sant’Anna, como Molière e personagens de suas peças, está fantástico. Igualmente bem estão os demais atores, sobretudo Mateus Monteiro. Os atores/atrizes cantam, e bem, e há música ao vivo (o cravo faz toda a diferença). Iluminação perfeita. O programa distribuído gratuitamente é muito bem feito.
A mágica é a atualidade do texto (aliás a tradução/adaptação estão ótimas), a visão clara e crítica, a ironia refinada. Esse mesmo texto fala há séculos aos homens de todos os tempos. Nele reconhecemos nossas mazelas, nossas bençãos, nossos contemporâneos. Atemporal, tão simplesmente.
O espetáculo fica até 26/2, os ingressos são distribuídos no dia da apresentação a partir de 12h (quarta a sábado - espetáculo às 20h30) ou 11h (domingo - espetáculo às 20h).
Não perca de jeito nenhum.
2) Palácio do Fim (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=211601)

O tema é instigante, moderno. A peça baseia-se em histórias reais: soldado americano em Abu Ghrabi; cientista inglês que denuncia a não-existência de armas nucleares no Iraque (motivo do conflito); mulher iraquiana que teve a família e ela também torturadas pelo regime de Saddam Hussein.
Coisa de americano? Coisa de gente, da Humanidade. Cada um com sua verdade, cada um com suas justificativas, cada com sua visão do mundo, de si, de seus contemporâneos, cada um com sua revolta.
Vera Holtz, magnífica como sempre; Antonio Petrin, ótimo, e até Camila Morgado, em quem não levava muita fé, numa performance convincente, comovente.
Já vi algumas coisas com José Wilker, nem sei se dirigidas por ele, mas a memória não era boa. Esta peça o redimiu para mim. Evidentemente que o cast, sobretudo VHoltz e APetrin, já garantem muito da qualidade. Verdade também que o espetáculo foi visto pelo diretor em NY e trazido para cá, portanto não precisa inventar muito. De todo jeito, tem mérito, sim.
CMorgado é a soldado americana que apareceu em tantas fotos, foi demonizada (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lynndie_England), transmite com realismo o que são realmente aqueles que lutam nessas guerras (já vimos tantos filmes de soldados americanos em guerras pelo século XX e é tudo igual): gente sem preparo, muitas vezes ignorante do mundo e de si, com uma visão deturpada do inimigo, facilmente arrebanhados e dirigidos por líderes políticos (nem semrpe da melhor estirpe), e por aí vai. VHoltz é a matriarca sobrevivente que perde parte da família para a crueldade irracional e incontida das milícias iraquianas. Comovente. Palácio do fim era o nome dado a uma central de torturas do regime iraquiano. E nem é preciso dizer que euem tem armas ou o poder, pode tudo contra o outro. E Petrin, com discurso e voz afável, mostra como alguém que num momento é importante, vital, torna-se cruelmente descartável no instante seguinte por reconhecer que errou, que falhou como ser humano íntegro. Coisa de gângster mesmo (http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Kelly).
A peça está no SESC Consolação até 11/3. Não gratuitamente como a de Molière, mas os preços do SESC são mais que justos e acessíveis. Não perca esta também.


Além da simpatia que Cyrano desperta por sua aparência, criatividade, poesia, há muito humor. A plateia ri bastante com um texto sem obviedades. A peça vai até 5/2, mas vai ser difícil conseguir ingressos. Por sorte, comprei o meu na sexta e foi o últiminho para sábado. Vale muito ver. O espetáculo tem mais de 2,5 horas, mas não cansa, encanta. Se tiverem sorte de conseguir um ingresso (os preços no CCBB são imbatíveis de tão baratos), não percam!









