Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

19

de
fevereiro

Para rir e para chorar

1) L’Illustre Molière (http://www.sesisp.org.br/cultura/teatro/l-illustre-moliere.html)

L

Como já mencionei tantas vezes por aqui, o SESC e o SESI é que sustentam a vida e qualidade do teatro em S. Paulo, sobretudo na capital.

Esta peça, com entrada gratuita, ali no teatro do SESI da Paulista, é prova contundente disso.  O teatro de 450 lugares lota, a fila para retirada de ingressos é monumental, a de espera por desistência idem. e o espetáculo é rico, de excelente qualidade.

O espaço desse teatro do SESI padece de alguns problemas crônicos e simples de solução, sobretudo se considerarmos que está sob o guarda-chuva da Fiesp.  Antes, na ante-sala do teatro, havia uma dezena de cadeiras. Agora, nenhuma! Não consigo entender como gente da área (e não são os únicos, infelizmente) viciosamente não pensa em oferecer conforto mínimo a idosos (grande parte do público atualmente), gestantes, pessoas com alguma deficiência. Custa colocar umas dezenas de cadeiras ou bancos? Em que isso atrapalha alguma coisa? Espero que as pessoas que hoje não cuidam desse aspecto vivam muito e gostem de ir ao teatro, para ficar desconfortavelmente em pé antes de o espetáculo começar. Ah, que elas tenham varizes, artroses, artrites, assim a coisa será mais pedagógica ainda.

Outro ponto que não dá para entender: há uma estrutura para uma cafeteria montada, e há bastante tempo, mas cadê café, água, etc.? E os banheiros precisam de uma repaginada urgente. Ah, e não tem ninguém de limpeza durante os espetáculos, ou seja, 450 pessoas circulando por ali, um monte usando os banheiros e ninguém para manter a coisa limpa. Dá para acreditar?

Não consigo entender falhas tão toscas em um órgão ligado à mais poderosa federação de indústrias do país. Supostamente, órgão que congrega gente proativa, visionária, realizadora. E com caixa, seguramente. A coisa é que por aqui acha-se, de uma forma pueril e patética, que arte não combina com business, com organização, com resultado, com cidadania, com pragmatismo. Arte é uma coisa à parte, acima do bem e do mal. Francamente, nem Molière acreditava nisso. E por patrocinarem, visando benefícios fiscais e institucionais obviamente, diversão e arte, o pessoal do andar de cima acha que já está bom assim e ponto.  Ooooh, miopia…

A peça é uma combinação de textos de obras de Molière com passagens de sua vida.  Ótimo, pois além de nos proporcionar a possibilidade de contato com textos do autor ainda sabemos de detalhes de sua vida afetiva, criativa, problemas com seu mecenas, sua saúde, sua visão do negócio, os meandros de sua companhia.

O figurino é muito bonito, rico. O cenário é simples, mas interessante, funcional.

Guilherme Sant’Anna, como Molière e personagens de suas peças, está fantástico. Igualmente bem estão os demais atores, sobretudo Mateus Monteiro.  Os atores/atrizes cantam, e bem, e há música ao vivo (o cravo faz toda a diferença). Iluminação perfeita. O programa distribuído gratuitamente é muito bem feito.

A mágica é a atualidade do texto (aliás a tradução/adaptação estão ótimas), a visão clara e crítica, a ironia refinada. Esse mesmo texto fala há séculos aos homens de todos os tempos. Nele reconhecemos nossas mazelas, nossas bençãos, nossos contemporâneos. Atemporal, tão simplesmente.

O espetáculo fica até 26/2, os ingressos são distribuídos no dia da apresentação a partir de 12h (quarta a sábado - espetáculo às 20h30) ou 11h (domingo - espetáculo às 20h).

Não perca de jeito nenhum.

2) Palácio do Fim (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=211601)

O tema é instigante, moderno. A peça baseia-se em histórias reais: soldado americano em Abu Ghrabi; cientista inglês que denuncia a não-existência de armas nucleares no Iraque (motivo do conflito); mulher iraquiana que teve a família e ela também torturadas pelo regime de Saddam Hussein.

Coisa de americano? Coisa de gente, da Humanidade.  Cada um com sua verdade, cada um com suas justificativas, cada com sua visão do mundo, de si, de seus contemporâneos, cada um com sua revolta.

Vera Holtz, magnífica como sempre; Antonio Petrin, ótimo, e até Camila Morgado, em quem não levava muita fé, numa performance convincente, comovente.

Já vi algumas coisas com José Wilker, nem sei se dirigidas por ele, mas a memória não era boa. Esta peça o redimiu para mim. Evidentemente que o cast, sobretudo VHoltz e APetrin, já garantem muito da qualidade. Verdade também que o espetáculo foi visto pelo diretor em NY e trazido para cá, portanto não precisa inventar muito. De todo jeito, tem mérito, sim.

CMorgado é a soldado americana que apareceu em tantas fotos, foi demonizada (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lynndie_England), transmite com realismo o que são realmente aqueles que lutam nessas guerras (já vimos tantos filmes de soldados americanos em guerras pelo século XX e é tudo igual): gente sem preparo, muitas vezes ignorante do mundo e de si, com uma visão deturpada do inimigo, facilmente arrebanhados e dirigidos por líderes políticos (nem semrpe da melhor estirpe), e por aí vai. VHoltz é a matriarca sobrevivente que perde parte da família para a crueldade irracional e incontida das milícias iraquianas. Comovente. Palácio do fim era o nome dado a uma central de torturas do regime iraquiano.  E nem é preciso dizer que euem tem armas ou o poder, pode tudo contra o outro. E Petrin, com discurso e voz afável, mostra como alguém que num momento é importante, vital, torna-se cruelmente descartável no instante seguinte por reconhecer que errou, que falhou como ser humano íntegro. Coisa de gângster mesmo (http://pt.wikipedia.org/wiki/David_Kelly).

A peça está no SESC Consolação até 11/3. Não gratuitamente como a de Molière, mas os preços do SESC são mais que justos e acessíveis.  Não perca esta também.

28

de
janeiro

Arrazoado teatral - antes que eu me esqueça…

Resuminho:

  1. Vi, no final de semana passado, Sombras - A nossa tristeza é uma imensa alegria ( http://www.tnsj.pt/home/espetaculo.php?intShowID=253) com a trupe do Teatro São João do Porto.  Apresentaram-se no SESC Pinheiros. Bonito ver o português dito por nossos colonizadores. Muito fado, muita projeção, iluminação bacana, figurino idem, músicas lindas, danças inquietantes.  Na verdade, o espetáculo é um jeito de colocar o fado em cena de várias formas, mostrando a alma nostálgica e poética do povo português.  Há também história (D. João de Portugal, Madalena de Vilhena, D. Sebastião, Alcácer-Quibir, Inês de Castro…). Para entender o que vai pela cena é importante ler o programa do espetáculo ou as projeções que já estão on quando se entra na sala de teatro antes de tudo começar.  O espetáculo ficou pouquíssimo tempo em cartaz. A companhia esteve no Brasil há uns anos. Se voltar, vale conhecer.
  2. No feriado, fui ver  R&J de Shakespeare- Juventude Interrompida (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=209517 ), no SESC Belenzinho. Sessão lotada.  E não é para menos. A peça do escritor Joe Calarco (http://www.joecalarco.net/index.htm ) é uma releitura interessante da obra de Shakespeare.  Quatro rapazes em cena que se alternam em todos os papéis da tragédia. Especial destaque a Rodrigo Pandolfo que atua como Julieta/Benvólio/Frei João.  Não há trocas de roupa, só um outro adereço é agregado; o cenário é sempre o mesmo (aliás, muito interessante pelo tamanho da sala e distribuição dos espectadores).  Texto+ atuações + direção + iluminação criam a mágica necessária. Há riso, há tensão, e sobretudo muita poesia.  O espetáculo fica mais umas semanas em cartaz. Se puderem, vejam!
  3. E ontem foi dia de ver Cyrano de Bergerac no CCBB (http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10168,1,0,1,1.bb?codigoMenu=9904&codigoEvento=4445&codigoRetranca=184 ).  O texto é bem conhecido, sobretudo por filmes (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyrano_de_Bergerac_(pe%C3%A7a_de_teatro) ). Acho que o mais recente e famoso foi o filme em que Depardieu (1990) interpreta a personagem.  A tradução/adaptação do texto está magnífica.  Os atores também (a temporada começou em dezembro, foi interrompida no final do ano, e vai até 5/2) estão muito bem.  Bruce Gomlevsky que faz o Cyrano está estupendo!  Há algumas trocas de roupas, essenciais, o cenário é o mesmo de começo a fim mas usado de forma pragmática e criativa. Cyrano de Bergerac Além da simpatia que Cyrano desperta por sua aparência, criatividade, poesia, há muito humor. A plateia ri bastante com um texto sem obviedades. A peça vai até 5/2, mas vai ser difícil conseguir ingressos. Por sorte, comprei o meu na sexta e foi o últiminho para sábado. Vale muito ver. O espetáculo tem mais de 2,5 horas, mas não cansa, encanta.  Se tiverem sorte de conseguir um ingresso (os preços no CCBB são imbatíveis de tão baratos), não percam!

11

de
dezembro

Não tem jeito

Quem tem minha idade ou mais sempre passa por isso: a gente vê muita coisa que remete a outra, e a outra, e a outra: déjà vu. É que já vimos tanto!  Se a gente focou, prestou atenção e tem certa memória não há escapatória. Devo ter escrito por aqui, em algum momento, que um filme me lembrava outro lá detrás, ou um ator lembrava outro, e por aí vai. Mesmo com os bilhões de terráqueos, não somos tão exclusivos, criativos, geniais. Batidinho mas verdadeiro: nada se cria de fato.

E mais uma vez tive a sensação de déjà vu ao assistir a Os nomes do amor (http://www.imdb.com/title/tt1646974/). Um filme de Michel Leclerc. Acho que não vi nada desse diretor antes. Estrela o ótimo Jacques Gamblin, que vi em Enfim viúva (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/09/15/enfim/). Acho que só ele mesmo para segurar o rojão.

A história é mais déjà vu ainda: quarentão sério, solteirão, encontra mocinha tresloucada (e põe tresloucada nisso), apaixona-se, ela dá uma canseira no homem, mas ao final dá tudo certo, afinal ela apresenta a ele a vida que ele nem sabia que existia.

Sara Forestier, que faz a mocinha trop liberée, está bem, o papel é que trop. Sabe postura tipo anos 60/70, sobretudo por conta de droga, falta de referência, contracultura, revolta, etc., etc.?  Pois é: deu-me a impressão de ver um filme um tanto idos de 70 ou algo assim. Aliás, olhando para o rosto bonito de La Forestier dá até para ver Bardot rondando por ali. Não é loirinha, mas tem muito a ver. O que reforça esse parâmetro é a nudez da moça, usada de uma maneira tão gratuita que nem dá para acreditar que isso ainda seja feito em pleno século XXI.  Claro que o corpo da moça é lindíssimo, mas não era para tudo isso, até porque a barreira do nu no cinema já foi vencida lá atrás, com Marilyn, com Bardot, com Welch e tantas outras.  Vejam que post interessante: http://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/07/o-cinema-e-o-nu-pura-gema-feminina.html.

Mesmo a história sendo tão batidinha, poderia ter um olhar criativo mas não teve. Há momentos divertidos, outros em que se percebe a confusão, ou conflito pessoal da personagem de Forestier, mas tudo bem rasinho.  A fotografia tem momentos inspirados, e a trilha é boazinha. O que sobra mesmo é a lição de que é preciso dialogar sempre, vida em comum requer abertura, sinceridade para dar certo. Ah, e em vez de querer ter razão, melhor baixar a bola e escutar o coração (Nooossaaa! Ficou lindo isso!).

Dito isto, não recomendo o filme, não. Tem coisa melhor por aí (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/12/05/aaaah-agora-entendi/).

Ontem fui ver uma peça no SESC Pinheiros: Nariz pra fora d’água (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=206155).  A peça está muito bem na imprensa (http://www.globoteatro.com.br/em_cartaz/index/1016/). O SESC tem esse condão mágico mesmo que não haja atores conhecidos no palco. Sorte de quem tem peça por lá.

A peça é curtinha (uma hora mais ou menos). O texto é de Gabi Brites, que ocupa o palco sozinha. É a história com referências autobiográficas da atriz/autora: como o pânico chegou, como ela consegue viver com ele, ou sobreviver a ele. Tema conhecido também, certo? Verdade, mas no palco mostrado de um jeito muito interessante. Filmes, projeções, iluminação, cenário minimalista, tudo agrega.  Primeira vez que assisto a uma projeção atuando em tempo real. Apesar do tema sério, dá para rir muito. Gabi está muito à vontade em cena, usa com maestria os recursos tecnológicos.  Só acho que faltou uma finalização melhor. Fica até 17/12 no ar, e acho que vale dar uma olhada.

10

de
dezembro

Olha a baciada

Devido às atividades profissionais atuais, um tanto “despadronizadas” em termos de dia/hora, tenho ido ao teatro e cinema, claaarooo, mas está um tanto complicado escrever sobre minhas andanças.  Daí que…estou escrevendo menos (alguém notou?), mas com conteúdos mais extensos. Mas isso passa…

Primeiramente, Prêt-à-porter 10 no SESC Consolação (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=200547). Um projeto coordenado por Antunes Filho. E por que 10? Porque já teve o 1, 2, 3…fácil assim.

Esta crítica é muito boa e dá a dimensão do que vi: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,antunes-filho-busca-naturalismo-em-seu-pret-a-porter-10,763806,0.htm.  Foram três cenas, escritas e interpretadas pelos atores do Centro de Pesquisa Teatral do SESC. A primeira, Adorável Callas, prometia, mas para mim não chegou lá.  Uma enfermeira cuida de uma artista aparentemente famosa. A intenção era boa, mas o resultado não decolou.  Não sei se pelas atrizes, pelo texto em si. A segunda cena, O homem das viagens, foi bem melhor. Não só pelo texto inusitado (o homem revela em dado momento um desequilíbrio pessoal pouco comum - pelo menos acho e espero que pouco comum), como pela atuação do casal em cena. Cruzamentos, a terceira cena, em que um empresário judeu, com traumas devido a sua participação em algum momento dos conflitos no Oriente, relaciona-se de maneira pouco usual com um de seus funcionários, foi a mais divertida, mas para mim o melhor texto ainda foi o da segunda cena.  Enfim, quase duas horas de espetáculo, com cenários pragmáticos montados ali na frente da plateia pelos próprios atores, figurino sem grandes firulas, e que passaram muito rapidamente e prazerosamente.

Depois foi a vez de Hécuba (http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2245/gabriel-villela-acerta-na-recriacao-da-tragedia-hecuba), lá no longíssimo Teatro Vivo. Espantosa a energia, o domínio de cena contínuo e na medida de Walderez de Barros.  O pessoal da terceira idade está arrasando, viu? Walderez, Fernanda Montenegro (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/11/06/diferentes-mas-iguais/), Beatriz Segall (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/01/eu-nao-sou-do-contratalvez-so-um-pouquinho/)…A meninada que se cuide…

Lembro-me de Walderez de Barros, que foi mulher de Plínio Marcos, na tv desde sempre, e em algumas peças no Aliança Francesa, se não me engano. Sempre apreciei seu trabalho, mas a encontrei soberba em Hécuba.

Quanto ao Gabriel Villela, vi há uns dois meses Crônica da Casa Assassinada (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/14/ainda-da-tempo/), também sob sua direção.  Um diretor criativo, produtivo e que tem sua marca inequívoca.

O texto de Eurípides é forte, trágico (ué, chama-se tragédia grega, ou não?). Hécuba, mulher de Príamo, tem dois filhos mortos e se vinga por isso.  Traição, agressão, dor, muuuitaaa dor.   O texto é muito bonito, pesado, sim, mas bonito.

Figurinos e máscaras do coro muito coloridos (lindos, lindos!) contrastam com as roupas e maquiagem de Hécuba.  O efeito no palco é maravilhoso.

O espetáculo fará pausa durante o período de Natal e Ano Novo, mas retorna em meados de janeiro de 2012.  Vale ver por Villera, por Eurípides, e sobretudo por Walderez.

E last but not least, O Grande Inquisidor (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=208591), no SESC Pompeia, com Celso Frateschi. Não é preguiça, gente, mas para que vou reinventar a roda? Esta crítica também está bem completa: http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-grande-inquisidor-mais-um-dostoievski-nos-palcos,538868,0.htm.

O texto magnífico, retirado de Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski, apesar de curtinho (a adaptação leva uns 45 minutos), faz pensar, é denso, dinâmico.  Estão ali: regimes totalitários, manipulação de massas, certezas/incertezas de crenças e muito mais.   A atuação forte de Frateschi (primeira vez que o vejo no palco, antes só na tv), a maquiagem contundente, a música inicial, a iluminação, o cenário minimalista, hipnotizam o espectador. Bom, pelo menos eu fiquei hipnotizada.  A grandiosidade das ideias: liberdade, livre arbítrio, natureza humana, dominação, poder, manipulação, idealismo, é acachapante. Incrível como de repente minha visão de mundo no que se refere a esses conceitos foi sacudida.

A peça fica até 18 de dezembro, então dá tempo de ver.

27

de
novembro

Em dia com a cultura, ura, ura, ura…

Aproveitando uma passadinha pela Paulista, fui ver a exposição Carlos Scliar, Da Reflexão à Criação ((http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Scliar)), que está na CEF Cultural do Conjunto Nacional (http://www.caixacultural.com.br/html/main.html). Pintor, ilustrador, gravurista, etc.  Produção de seis décadas. Gostei sobretudo das serigrafias mais recentes. Scliar fez parte do Grupo Santa Helena (http://pt.wikipedia.org/wiki/Grupo_Santa_Helena), lutou pela FEB, viveu em Porto Alegre e São Paulo.

Entre as obras expostas há referências à vida no campo, às personagens do Sul (Chinoca de 1962, Guri de 1962, entre outros). Não conhecia e gostei muito.  A exposição fica até 8/1/2012, entrada gratuita.

E na quinta pela manhã foi a vez de ensaio aberto na Sala S. Paulo.  Sinfonia no.2 - Ressurreição, de Mahler (http://www.osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=1758), regida pela maestrina mexicana Alondra de la Parra, com a participação de Ludmilla Bauerfeldt  (soprano) e Jennifer Johnston (mezzo soprano). Participaram também o Coro da Osesp e o Coral Lírico de Minas Gerais.  A maestrina foi brilhante.  Não gosto muito de Mahler, mas essa sinfonia com a OSESP e sob a regência da Sra. de la Parra encantou-me. Ela é muito jovem, de um vigor hipnotizante.  Não tenho dúvida de que no concerto da noite tenha sido ovacionada.

Foi o último ensaio aberto do ano, pelo menos para mim.  Em 2012 tem mais.

E para fechar o roteiro: A Valquíria de Wagner no Municipal (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/theatromunicipal/programacao/index.php?p=9164), que é parte da tetralogia O Anel dos Nibelungo ( Das Rheingold (O Ouro do Reno), Die Walküre (A Valquíria), Siegfried e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses)).

O Anel é baseado na mitologia ou lendas nórdicas.  Dê uma lidinha: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Die_Walk%C3%BCre). Rings a bell?  Claro!  Tolkien (http://pt.wikipedia.org/wiki/J._R._R._Tolkien), O Senhor dos Anéis.  Muitos beberam na mesma fonte, sem dúvida.

A ópera levou 4,5horas.  Houve um intervalo de 40 minutos (absurdo!) e outro de 20 minutos. O primeiro permitiu que algumas dezenas de pessoas jantassem rapidamente no restaurante do próprio Municipal. Por que não deixaram a opção de jantar ao final do espetáculo? Quem terá tido essa ideia mais que infeliz? Com isso e com o atraso no início, saí de lá à 0h30. É brinca???

Da mesma forma que em Rigoletto (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/21/de-mentiras/), impressionou-me a qualidade dos cantores, o cenário fantástico e a iluminação mágica!  Coisa de primeiro mundo mesmo. O figurino também era muito interessante.

A ficha técnica é a seguinte (assisti ao espetáculo de 25/11):

LUIZ FERNANDO MALHEIRO direção musical e regência.
ANDRÉ HELLER-LOPES concepção, direção cênica e cenografia.

RENATO THEOBALDO cenografia. MARCELO MARQUES figurinos. FÁBIO RETTI iluminação.
ARTEMUNDI PRODUÇÕES CULTURAIS LTDA. produção
elenco: MARTIN MUEHLE (Siegmund); LEE BISSET dias 17, 21 e 25 e EIKO SENDA dias 19 e 23 (Sieglinde);
GREGORY REINHART (Hunding); JANICE BAIRD (Brünnhilde);
STEFAN HEIDMANN (Wotan); DENISE DE FREITAS (Fricka);
MONICA MARTINS (Gerhilde); MAÍRA LAUTERT (Ortlinde); KEILA DE MORAES (Waltraute);
LAURA AIMBIRÉ (Schwertleite); VERUSCHKA MAINHARD (Helmwige);
LÍDIA SCHÄFFER (Siegrune); ADRIANA CLIS (Grimgerde); ELAYNE CASEHR (Rossweisse).

E para vocês se situarem, assistam a este vídeo::http://youtu.be/G2ZbYvXGwEI.  Lembraram?  Platoon, Darth Vader…Wagner é mais que update

Foi muito bom o Municipal ter voltado à ativa. Espetáculos chegando a muitos, preços acessíveis em geral.  Tomara que 2012 seja tão bom ou melhor que 2011.

20

de
novembro

Pulando de SESC em SESC

Não há dúvida: o SESC, com suas produções, é que sustenta e dá vida ao teatro e shows em SP atualmente. E não falo pelos grandes nomes que ocupam seus palcos, mas justamente pelos que não estão na mídia, não são conhecidos do grande público. Sem o suporte do SESC eles não teriam a chance de mostrar seu trabalho, focar na criatividade, já que bilheteria não é o problema.  E isso não é impressão, absolutamente. É só pegar a Vejinha, por exemplo, nos dois últimos meses e ver quantas peças que estão ou passaram pelos palcos do SESC foram destacadas como sendo de boa ou ótima qualidade.  E não são só as adultas, as infantis também. E o preço então?  Para os comerciários é até covardia, nem vou dizer para não deprimir o pessoal, mas mesmo os preços para o grande público são muito acessíveis. Os teatros são bons, a infra à volta é boa, enfim, melhor impossível.

Em 3 SESCs vi 3 boas produções nesta última semana:

1) As Desgraçadas (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=203804) - fica até 6/12 no SESC Consolação

A peça é apresentada às segundas e terças às 21h, no Espaço Beta, um teatro pequenino no 3o. andar. Horário alternativo, sem dúvida, mas bem interessante.

A peça baseia-se em As Criadas de Jean Genet. A Cia. Auroras leu, burilou, procurou em adaptação de Zé Celso (As Boas) um caminho e chegou lá.

Três atrizes em cena: duas empregadas domésticas e a patroa.  Uma das empregadas é a malandrona que cutuca, obtém informações, usa seu conhecimento para obter privilégios. A outra, a babá, idolatra a patroa, gosta e respeita a casa em que trabalha, e acaba se tornando vítima das maquinações da outra empregada.  A patroa, desestabilizada por um rompimento com o marido, vitimiza-se e nem do filho quer saber de fato. Usa-o também para dominar sobretudo a babá. O texto é fluido, muito próximo de nossa realidade. A empatia é grande.

Tem riso, suspense, drama, tudo muito bem balanceado.  O espaço de representação é pequenino mesmo, mas o cenário, muito criativo, agrega à cena.  O figurino é contido, mas interessante.

Uma noite de segunda-feira muito proveitosa.

2) Bicho Monjaleu (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=205859) - fica até 18/12 no SESC Pinheiros, sempre aos domingos às 15h e 17h.

Eu adoro uma peça infantil e as do SESC são, em geral, muito boas. A história é comum: um pai vende as filhas sob ameaça, tem um quarto filho que, crescido, vai atrás das irmãs.  Gira o mundo, encontra um amor e passa por perigos para casar com sua amada.   A peça é uma adaptação de conto popular recolhido por Silvio Romero.

Apenas Wanderley Piras em cena, e não precisa de mais nada. Ele faz dois personagens de carne e osso, a voz de bonecos (sim, eles são parte importantíssima da apresentação), manipula-os, monta o cenário, enfim, é um mil-e-um.  Muita movimentação, muita energia. Nem imagino como é que ele consegue fazer duas sessões na mesma tarde.

A coisa começa lentinha, assustei-me com o vocabulário, sobretudo porque havia basicamente crianças bem pequenas no teatro. Bem rebuscado. Mas depois o texto ameniza, e há bordões, refrões, que ajudam a garotada a entender a história.  As personagens são muito carismáticas, sobretudo os bonequinhos.

Só achei que duas coisas poderiam ser diferentes: mesmo que com base num conto popular, os tempos são outros e o público é muito especial (mirim).  Penso que o pai vendendo as filhas poderia ser mudado para “o pai dando as filhas em casamento”, ou “o pai permitindo que as filhas vão trabalhar com os cavaleiros”.  A venda não me passou boa impressão, imagino para as crianças. Gostaria também que os bonecos fossem maiores.  Eles têm o tamanho de Barbies um pouco maiores.  O teatro era pequeno, mas mesmo assim o pessoal do fundão não deve ter conseguido ver direito os lindos bonecos. Se fossem maiorzinhos, o público aproveitaria mais.

Uma delícia de peça.

3) Tio Vânia (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=206682) - acabou hoje; estava no SESC Vila Mariana

Peça de Tchekhov (http://pt.wikipedia.org/wiki/Anton_Tchekhov) da virada do século XIX/XX. A diretora, Yara de Novaes, também dirigiu A Mulher que Ri (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/06/18/de-pecinhas/), que vi n’Os Fofos há um tempo. A encenação é pelo Grupo Galpão (http://www.grupogalpao.com.br/port/home/).

Conflito familiar, que se passa na propriedade rural da família. Tio Vânia que ama Helena, que ama o médico, que é amado por Sonia, e assim vai. Oras, a vida é assim, ou não é?  Ontem, hoje e sempre. Rússia rural, o pessoal bebendo vodka até quase ter um coma alcoólico, pobreza, arrogância, desilusão amorosa, mas há muitos momentos bem humorados. Tchekhov é assim. Felizmente.

Os atores estão bem azeitados. A montagem é quadradinha a meu ver, mas funciona e bem.  O cenário é uma personagem a mais.  Pragmático, criativo, leve, plástico.  Aliás, um dos itens dos espetáculos que tenho visto que mais tem me encantado é o cenário: minimalista ou grandioso, não importa, agrega muitíssimo.  A iluminação de Tio Vãnia também estava linda.

Ainda bem que deu para ver.

16

de
novembro

Dançando conforme a música

Coincidentemente, nesta semana, vi dois espetáculos de dança muito diferentes.  Um em dvd e outro no SESC Pinheiros.

1) Naturalmente - Antônio Nóbrega (http://www.conectedance.com.br/materia.php?id=9)

Pasmem! Apesar de ter lido e visto várias entrevistas com Antônio Nóbrega (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_N%C3%B3brega), nunca tinha visto um espetáculo com ele.  Em uma passagem por um dos SESCs comprei o DVD de um espetáculo realizado no Pinheiros no ano passado: Naturalmente - Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira.

Uma delícia!  E que multiperformer e pessoa interessante é o ANóbrega!

O espetáculo tem de tudo: “pedagogia” - o performer instrui o público sobre como chegou ao espetáculo, explica músicas e movimentos utilizados; dança - claaarooo, de várias naturezas, populares mas diferentes entre si, ou seja, um conjunto rico; instrumental - tanto ANóbrega, quanto o grupo que o acompanha são ótimos.

Movimentos vigorosos, harmoniosos e fluidos. Três bailarinos mágicos no palco (além de A. Nóbrega, as bailarinas Maria Eugênia e Marina).  O figurino é singelo e belíssimo, incrementado por adereços e máscaras muito interessantes.

Enfim, um dvd que vou guardar para rever, tal sua suavidade, alegria, beleza.

E a partir de agora atenção redobrada para tentar ver Antônio Nóbrega em ação ao vivo.

2) 2Mundos (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=205936), no SESC Pinheiros

O espetáculo (http://www.marianamuniz.ato.br/agenda2.html) só é apresentado às quartas-feiras durante o mês de novembro.  Eu não conhecia o trabalho de Mariana Muniz e o achei muito interessante.

Está no programa:

“2MUNDOS é um projeto de Dança-Teatro inspirado no universo da cultura surda, fruto de investigações da bailarina e atriz Mariana Muniz - responsável pela Cia. Mariana Miniz de Teatro e Dança -, e que dá continuidade à pesquisa da Cia. sobre as intersecções entre dança e teatro, movimento e palavra, poesia e dança, numa exploração radical da comunicação através do corpo/voz.”

Movimentos encantadores. Músicas tocadas, declamadas, Libras (Língua Brasileira de Sinais): um conjunto muito harmonioso.  Figurino único, mas bem bonito.  Só achei falta de algo mais como cenário. O palco estava muito peladinho.

Não sou muito de balé/dança, como já mencionei por aqui, mas não desperdiço a oportunidade de ver/conhecer.  Recomendo o espetáculo pelo inusitado (pelo menos assim achei).

Na plateia havia um casal de surdos (não sei se mudos também).  Vendo-os ali, da mesma forma que já vi cegos entre os que veem, é que a gente percebe de fato quão difícil é o mundo para essas pessoas. Heróis! Além dos vários filmes sobre cegos, os menos lembrados surdos ou mudos também estão em filmes interessantes que nos despertam para esses mundos paralelos.  Nesta semana (outra coincidência), revi uns trechos de Filhos do Silêncio (http://www.imdb.com/title/tt0090830/), de 1986, com um William Hurt jovem e lindíssimo (eu acho, né?!).  Vale ver ou rever.

30

de
outubro

Parede + tela + palco

1) Queremos Miles (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/busca.cfm?conjunto_id=9054), SESC Pinheiros

Como já mencionei tantas vezes, o SESC monta exposições primorosas. A exposição sobre Miles Davis (http://pt.wikipedia.org/wiki/Miles_Davis) não é diferente. Não sou muito de jazz, blues, e por aí vai, mas não deixo de ver espetáculos, mostras, filmes sobre o tema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/05/09/que-semaninha/).  Fiquei surpresa com a produtividade desse ícone do jazz, que transitou também por beebop, blues, funk (isso, quem diria!), cool, música eletrônica, “n” instrumentos, não só o famoso trompete. O acervo exposto é imenso: instrumentos personalizados e de uso do músico e de um de seus grupos musicais; fotos, fotos, fotos; partituras com anotações de Miles e companheiros; cartas, bilhetes; quadros pintados pelo músico; roupas; várias gravações que podemos ouvir com ou sem fone de ouvido; projeção de filmes; capas de discos; vários objetos pessoais. Enfim, é preciso ir com tempo para apreciar com calma.

A exposição foi montada seguindo a linha cronológica da vida do artista, mas de uma maneira lúdica, muito interessante, com várias ilhas para os momentos mais marcantes, e.g., seu trabalho com Charlie Parker, Gil Evans, sua passagem pela Prestige, Columbia, a evolução ou movimento para a realização de cada LP, de cada lançamento.

Como tantas pessoas do mesmo quilate, Miles subiu aos céus e desceu ao inferno: talento a qualquer prova; dinheiro; drogas; mulheres; problemas graves de saúde. 65 anos repletos do melhor e do pior.

Interessante saber de sua educação musical refinada desde moleque, principalmente considerando um país envolto em racismo, e de como ele não parava ou se contentava e sempre procurava novas linguagens para se expressar musicalmente. Mais interessante ainda: eu só conheci um Miles mais velho (de uns 50 anos). Cristalizei-o dessa maneira na cabeça. Surpresa ao ver o rapaz negro pimpão, bonito, charmoso, elegante, low profile, em tantas fotos. Justamente depois da depressão, drogas, etc., veio aquela aparência que ficou em minha memória: um homem um tanto folclórico, de roupas chamativas, cabelo esculpido, rosto vincado. Tão diferente do jovem que encantou o mundo lá pelos idos de 1945/50.

Para os aficionados, uma viagem deliciosa. Para quem não conhece ou gosta tanto do gênero musical, uma descoberta!

A mostra vai até janeiro, no 2o. andar do SESC Pinheiros.

2) Um pouco mais perto (A little closer - http://www.imdb.com/title/tt1528309/)

E tome Mostra (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/26/ceu-e-terra/)!

3 personagens: mãe, filhos adolescentes (um de 16 e outro de 12).  Cidadezinha americana. Mulher sem marido (pelo filme não dá para saber se ele morreu, evadiu-se, ou o quê). Um filme lento, mas interessante. Produção baratíssima, seguramente.

Mulher de uns 30 que trabalha para sustentar a casa, os filhos. Vê-se que não tem qualificação e faz trabalho braçal. Meninos, sobretudo o mais velho, descobrindo sua sexualidade. O mais novo, dispersivo, com problemas na escola.  O filme começa com uma cena bizarra: um acidente com uma furadeira. No começo parece que é uma família totalmente desestruturada, mas nada disso: gente comunzinha, que enfrenta problemas que muitos enfrentam. Dinheiro curtíssimo. Mas o que dói mesmo é ver a falta de horizonte, o porvir massacrante que se abate sobre todos: a mulher que procura um companheiro e ganha sexo rápido; o menino que tem sua primeira relação sexual com uma amiguinha e, se nada de muito diferente acontecer, vai transar com outras amigas, conhecidas, casar com uma delas, arrumar um trabalho, ter filhos iguais a ele; o mais novo que tem problemas de foco, atenção, é mimado, vai aprontar sempre e ser amparado pela mãe e pelo irmão, afinal não é má pessoa.  Ooooh, vidinha besta!

No entanto, no meio de tudo há, por incrível que possa parecer, carinho, atenção, amor sólidos.  A cena final (aliás, como esses filmes da Mostra gostam de terminar abruptamente, sem mais essa nem aquela…) é isso que transparece: o APESAR DE TUDO…

O filme poderia ser uma tese sobre a vida do americano médio, não aquele de grandes centros, mas aquele que constitui de fato a população e força do país.  Mais esclarecedor, impossível!

3) Eu era tudo pra ela e ela me deixou (http://www.faap.br/teatro/index.htm), no teatro FAAP

Primeiramente uma observação sobre o FAAP. Acho que já comentei como o teatro em si é ruim, desconfortável, mesmo depois de reformado há um tempo.  No entanto, não posso deixar de comentar um aspecto importantíssimo atualmente (acho que não mencionei claramente antes): a venda de ingressos. É o único teatro (fora os alternativos) que conheço que faz a venda de entradas por telefone, no próprio teatro. Não cobram taxa! Isso faz com que os ingressos ali raramente passem dos R$ 50, mesmo com gente que está na mídia em cena. Chega-se ao teatro, está tudo lá, organizado, certinho. E sem taxa! E mais: nos dias de espetáculo, disponibilizam estacionamento gratuito. É limitado, evidentemente, mas gratuito. Ou seja, quem chegar antes estaciona de graça com toda segurança. O teatro, entre plateia e mezanino, deve ter uns 350 lugares, pouco mais ou menos.

Agora a pergunta que não quer calar: se eles podem fazer tudo isso, sem lançar na conta do espectador preços, taxas escorchantes, sobretudo considerando o “plus a mais” do estacionamento, por que os outros teatros não podem? Hein, hein, hein, hein??? Mistério daqueles para os quais sabemos a resposta: incompetência, preguiça de fazer o dever de casa, desejo de lucro fácil, e mais que tudo falta de respeito pela inteligência e bem-estar do público de teatro.  E interessante que nunca vi nenhum movimento da classe teatral, tão cônscia, participativa, informada, sobre o tema.  Com preços justos, realistas, adeus à meia-entrada estudantil. Com essa combinação, todos ganharíamos.

A peça tem Marcelo Médici em uma dezena de papéis e Ricardo Rathsam que está muito bem. Direção de Mira Haar (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/11/15/musica-musica-musica/).

Havia visto Marcelo Médici em Cada um com seus pobrema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/02/19/cada-um-com-seus-pobrema/). Espetáculo divertido, mas que exigia menos do ator em termos de troca de figurinos, adaptação à personagem. O ator é uma figura simpática, pelo menos foi essa a impressão que me ficou de algumas entrevistas a que assisti. Seu carisma conquista a plateia.

A peça explora algo muito parecido com O Mistério de Irma Vap (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/03/30/o-domingo-prometia-mas-nem-tanto/), com o próprio Médici e Cassio Scapin, a que também assisti.  Uma reedição do ótimo espetáculo encenado por Nanini e Latorraca na década de 80.  Em Irma Vap havia uma centena de trocas de roupas, pois os dois atores representavam meia dúzia de personagens cada um, ou pouco mais.  E essa é a fórmula de Eu era tudo pra ela.  Médici, que aprendeu direitinho o ofício, transita por uma dúzia de personagens, homens e mulheres, e faz trocas de figurinos em segundos. Claro que só trocar a roupa não é tudo. Ele encarna mesmo a nova personagem como mágica.  O espetáculo é divertido, todo personagem agrega um riso à peça. E na mesma linha de Irma Vap há uma história com sequência tresloucada e envolta em mistério crescente.

Interessantíssimo o cenário de Marco Lima!  Tudo se passa ali, diante dos olhos da plateia. Uma casa que se transforma em várias; áreas externas que se transformam em internas; tudo manipulado por um dos atores, sem esforço, em segundos. Super bem bolado!  A iluminação também faz a diferença. E palmas para quem idealizou e para quem confeccionou o figurino: funciona feito relógio.

Um espetáculo levinho, cumpre o prometido, i.e., fazer o espectador rir (uns mais, outros menos), e não é dos mais caros. Quer diversão descompromissada e de bom nível? Vale ver.

28

de
outubro

Decadence avec elegance (http://letras.terra.com.br/lobao/446178/)

No caso o mais correto seria SANS (SEM).  Esqueci-me de comentar no post anterior sobre a plateiaprincipalmente no início do espetáculo de ontem, quando há uns 20/30 minutos de dança no silêncio.  Lembrei-me imediatamente da peça Sete Minutos de Antonio Fagundes, lá pelo início da década passada (2002/2003) (http://www.bibi-piaf.com/sete_minutos.htm). Na peça, o ator/autor discorria sobre sua relação com a plateia. Falava dos atrasos, dos ruídos, da tosse, dos pés apoiados sobre o palco, etc., etc.  E olha que nem havia a disseminação atual do celular, hein! Pois é, ator às vezes tem de ter mesmo nervos de aço.  Lembrei-me de um fato emblemático: fui ver Otelo (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u359070.shtml) há uns anos com Diogo Vilela no teatro da Fecomércio, ali atrás do MASP.  Imaginem, Otelo…e não é que uma perua na fileira da frente não desligou o celular e aquilo começou a tocar. E nada de ela desligar.  Alguém ligava, tocava, tocava e tentava de novo, e tentava de novo, e nada.  Até que uma amiga acabou se enfezando e disse a ela para desligar ou sair.  Imagino que a debilóide não sabia como desligar o aparelho.  Já pensou? Você no palco, com texto dificílimo, longo, e uma criatura como essa na sua plateia?

E ontem não teve celular, mas teve de tudo: muita, mas muita tosse. Sei que o ar-condicionado acaba favorecendo isso, daí as famosas balinhas distribuídas antes do concerto na Sala SP (eram distribuídas pelo menos, hoje não sei como está). Mas a considerar pela tosse generalizada só me resta uma conclusão: este povo está doente! E as pessoas que bebem sua aguinha com goladas ruidosas, as moças que mexem em suas bolsas (havia duas atrás de mim) achando que aqueles ruídos não serão ouvidos por ninguém sobre a face da Terra. E os que, com aquele silêncio, respiração suspensa de todos, insistem em comentar alguma coisa? Agora o mais divertido foi o seguinte: uma moça, com um super black power sentou na fileira da frente. Sorte que a plateia desse teatro é bem inclinada. Que me desculpe a maravilhosa Elisa Lucinda (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/14/ainda-da-tempo/), que diz que não existe cabelo ruim, e mostra as mil e uma utilidades e graças do cabelo crespo, “armado”, em seu espetáculo, mas o cabelo daquela moça era comparável a um capacete de motociclista, ou um chapéu coco.  Alguém iria com esses acessórios ao teatro? Pois é, não é porque é cabelo que não atrapalha.  Uma tiara, uma fita, um lenço, quem sabe, hein? Felizmente a moça não era alta e foi embora em dado momento do espetáculo. E o sem-número de bocejos em alto e bom som?  Somos bárbaros mesmo…

Hoje vi mais uma demonstração de nosso despreparo como público.  Aliás, por mais que eu reconheça que quem sustenta muitos espetáculos é o público de mais idade, não sei se há um problema de audição generalizado, mas é duro aguentar as velhinhas, sobretudo elas, falando alto no cinema, no teatro.

Fui renovar minha carteira do SESC e vi que haveria uma sessão da peça Os amigos do amigos (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=201668http://vejasp.abril.com.br/teatro/os-amigos-dos-amigos), baseada em texto de Henry James (http://pt.wikipedia.org/wiki/Henry_James), às 15h30.  O SESC em geral faz isso: há uma sessão numa quinta, numa sexta nesse horário, de alguma peça, para o pessoal de mais idade. O preço também é mais camarada. Como queria ver a peça, que termina amanhã, e não tinha tido a oportunidade, comprei meu ingresso (essas sessões são tranquilas, em geral / http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/08/26/miscelanea-total-ii/) . O teatro não estava cheio, longe disso. Talvez 50% da lotação. E é o teatro pequeno daquele SESC, aproximadamente uns 100 lugares.  Eu e mais um rapaz éramos os caçulas.  E como conversam as senhorinhas. Muitos psius! depois elas se calaram.  Mas não foi fácil.

A peça é muito interessante. Além do texto elegante, as duas atrizes em cena revezam-se em três papéis, sem sair do palco, sem trocar de roupa, apenas com alternância de expressão facial, corporal, e sobretudo vocal.

É a história de um homem e uma mulher que, apesar de tentativas por anos, não se encontram. E aparentemente têm muito em comum. Há um certo mistério, suspense em dados momentos. O desfecho é contido, triste e um tanto inesperado.  O cenário e a trilha agregam bastante.

Ainda bem que pude ver o espetáculo. Só tem sessão hoje à noite e amanhã.

28

de
outubro

Gritos e sussuros

GRITOS

Bem, também não é tudo isso. É mais um “soltar a voz” mesmo.

Terça-feira light e recebo torpedo de um amigo: tenho ingressos para a ópera Il Guarany, quer ir comigo?

Aqueles que acompanham meus posts sabem que sou um pessoa contida, quietinha, caseira, desentusiasmada…portanto, minha resposta imediata foi: YYYEEESSSS!

A ópera estreava no Teatro São Pedro (http://www.apaacultural.org.br/saopedro/), hoje totalmente reformado, porém inserido numa área barra pesadíssima. E põe pesada nisso. Estou acostumada a andar por aí (centro da cidade de dia e de noite - pós-Municipal; entorno da Sala S. Paulo, Pinacoteca, e por aí vai), mas aquilo ali é algo inimaginável.  Verdadeira miséria humana.  Caminhei da República até o teatro, na R. Barra Funda. Se for de metrô, desça na Mal. Deodoro, aí é bem perto, mas não menos feio e decadente. Fui a pé, para acompanhar meu amigo.  Passei por dezenas de pessoas sentadas, se drogando, escapei de umas seringas e agulhas empunhadas por seus usuários já totalmente zuretas, vi uma moça fazendo cocô ali no meio-fio, calças arriadas.  Enfim, excelente região para lembrar quem somos de fato.

Chegando ao teatro (que alívio!), a coisa já é mais amena. Tudo mais tranquilo, limpo, organizado, mas que o poder público deveria estar mais presente na região, sobretudo a polícia, isso não resta dúvida.

Acho que nunca estive naquele teatro. Se estive, foi antigamente demais.  O teatro foi abandonado e recuperado recentemente.  Está bem bonito. Não é muito grande, mas tem uma plateia muito boa (visão ótima), cena até modesta para um teatro de ópera, e balcões que parecem oferecer boa qualidade de visão.  A acústica é muito boa também.

Era estreia para convidados, mas não se justifica não haver um programinha distribuído.  Como não conheço os cantores, imagino que tenha visto Edna d’Oliveira, soprano, no papel de Ceci. Arrasou!  Todos estavam muito bem. Apenas o coro não me agradou no início, mas depois engatou.  Os cenários eram modernos, pragmáticos, e plásticos.  O figurino também estava muito bacana.

Não sou de óperas, mas uma boa ópera, uma boa montagem valem sempre a pena (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/21/de-mentiras/). Il Guarany (http://pt.wikipedia.org/wiki/Il_Guarany) surpreendeu. O que eu conhecia de fato eram trechos, sobretudo aquele que toca (ou tocava) no início da Hora do Brasil. Aliás, o menos encantador para mim.  O todo da ópera é muito bonito. O libreto é bacana (o texto é traduzido e projetado em um “legendário” acima do palco).  Para quem leu O Guarani (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Guarani) fica a impressão de estar “relendo” o romance em música. Muito interessante.

Sou do tempo em que se lia obrigatoriamente O Guarani na escola (ginásio) e em que se estudava na universidade. Fiz Letras na USP e em um dos semestres de Literatura Brasileira estudamos a fundo a obra. Em minha cabeça, Peri era o grande o astro, sempre.  Na ópera, a bola da vez é a Ceci: disputada por um monte de pretendentes, tem o maior tempo em cena.  A única coisa que estranhei (sempre digo, tem gente crica, viu!) foi a idade dos cantores que representaram Ceci e Peri. Pelo menos da plateia pareciam bem passados dos 20/25, e sempre entendi da obra de Alencar que as duas personagens eram bem jovens. Vai saber… Gosto de ler ou reler livros que são/foram a base de filmes, peças, para tirar dúvidas, comparar, mas neste caso não vai dar. Por mais que ache importante não teria paciência (acho). Quem sabe um dia…

Foram 3 horas e tanto de espetáculo, mas valeu muito. Lindíssimo, sobretudo pelo talento da direção e do pessoal em cena. A orquestra do teatro também é de qualidade ímpar. Pena que a temporada seja curtíssima.

Tomara que possa ver outras espetáculos por ali, mas da próxima vez vou de metrô mesmo.

SUSSUROS

Nem tanto, está mais para “momentos de silêncio”.

Ontem fui ver a companhia Rosas (http://www.rosas.be/) de Anne Teresa de Keersmaker, belga.

E quem diria, está rolando um barracão entre a companhia e a Beyoncée, pode? Vejam a notícia: http://goo.gl/iRzU9. Considerando a linha de trabalho da companhia, se o clipe da cantora chega pelo menos perto, não há muita dúvida: copiaram mesmo.

O Rosas danst rosas, espetáculo de ontem (hoje novamente é esse, sábado e domingo é outro espetáculo - http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/busca.cfm?conjunto_id=9064), que está no SESC Pinheiros, ficou mais para mim como uma prova de resistência dos bailarinos e do público.  Muita gente saiu durante o espetáculo, mas imagino que a coreógrafa faça um jogo consciente e saiba que isso vai acontecer.

Não sou muito fã de balé “mudernu”, mas Rosas danst rosas não foi um sacrifício, para minha surpresa.  São apenas 4 bailarinas em cena, que repetem milhares (podem crer, são milhares) de vezes os mesmos movimentos.  O figurino é singelo, o cenário idem.  No início, há um movimento ou trecho sem música.  E os movimentos se repetem à exaustão.  Francamente, admirei. Imaginem movimentos totalmente sincronizados sem música, no silêncio!  Tente fazer o mesmo movimento, e.g. levantar um braço e depois outro, baixar um e outro, algumas dezenas de vezes. Lá pela enésima vez você já vai confundir tudo, garanto.  As moças foram um relógio pelas duas horas de espetáculo.  Eu terminei o espetáculo cansada fisicamente! Depois de saírem do palco só com um massagista, e dos bons, para aquelas moças não terem um colapso muscular.

A trilha sonora reforça a mesmice, a rotina, o mecânico.  O espetáculo é originalmente de 1983, portanto a Sra. De Keersmaeker foi corajosa, viu!

O programa do espetáculo apresenta-o assim: “Em rosas danst Rosas, a repetição de música e movimento iniciada em Fase é ainda mais desenvolvida. A música de Thierry De Mey e Peter Vermeersch foi criada siultaneamente e em interação com a coreografia. No espetáculo, quatro bailarinas atual com intenso vigor físico. A condução de seus “corpos-máquina” é incrementada por uma série de movimentos cotidianos, gerando narrativas emocionais reconhecidas pelo espectador.”

Verdade, é o sem horizonte, é o sem saída. Coincidentemente vi um filme da Mostra (Um pouco mais perto - comentarei em outro post), ontem à tarde, que é exatamente isso, só que não tão evidente ou massacrante.

Um amigo achou o negócio chato, eu também não recomendaria e não veria de novo (acho), mas se você gosta de ver coisas diferentes, está com tempo e paciência, vale experimentar, nem que seja para sair no meio.

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