
Esta é uma homenagem à Elessandra, que escreve lindos textos, é uma pessoa especial e minha amiga. O Caio (meu colega de trabalho) e eu fizemos uma leitura/gravação rápida (e quando digo rápida é rápida mesmo – a gente tem de produzir as coisas em 5 /10 minutos, afinal estamos no trabalho), que foi valorizada à milionésima potência pelo Keizo (sugeriu a música, fez as imagens, colocou no youtube, desde o outro lado do mundo…Arigatô gosaimas! Aliás não tenho como agradecer o entusiasmo, a rapidez e a qualidade de tudo o que o Keizo já fez para mim: Miriana e agora Terra de Gigantes!).
Abaixo do link, está o texto da Elê. Como gravamos com gravador não muito bom, em mono (o Keizo é que me disse), sugiro que leiam pelo menos rapidamente o texto e depois acessem o youtube. Espero que gostem (eu gostei muito de tudo: ler, gravar, assistir. Pure joy!). Elê, Keizo, Caio – banzai!
http://www.youtube.com/watch?v=M9qfBnCSQFk
Antes, uma verdade aplicável a todos os meus amigos, porque se são meus amigos é porque é assim que acontece, senão não os consideraria amigos. Bjs.
Some people come into our lives and quickly go.
Some people move our souls to dance. They awake us to
new understanding with the passing whisper of their wisdom.
Some people make the sky more beautiful to gaze upon.
They stay in our lives for awhile, leave footprints
on our hearts, and we are never ever the same.
(FW)
Terra de Gigantes – Elessandra Paula
Ando eu bandolando, perambulando pela noite.
Vigiando a lua para que ela não fuja. Cuidando das estrelas para que não caiam.
É tarde, se faz tarde.
Mas o relógio não pensa. Não pesam as horas. Só pesam os anos.
Criança na cerca à beira da estrada de terra – o que faz você a essa hora acordada?
- Espio a lua para que não fuja.
- Então somos dois. Também eu estou a vigiá-la.
- Não, não. Eu só estou espiando. Vou esperar até o sol nascer para esperar que ela derreta. Não é isso o que acontece todas as manhãs? O sol vem e derrete a lua, que é feita de queijo?
- Quem te contou essa estória?
- Foi meu vô. Ele me disse que todas as noites o sol vem de mansinho, devagarinho. E de pouco em pouco vai aquecendo a lua que sem perceber vai se derretendo. Por isso que o céu fica assim meio amarelinho. Queria ver como é.
- Bom, acho que a lua não se derrete mais. Isso acontecia com as outras luas. Essa lua é mais nova e mais esperta, ela não se deixa derreter. Ela se esconde. E o sol fica o dia todo procurando por ela. É por isso que ele vai de um lado ao outro durante toooodo o dia. E quando escurece é porque a lua conseguiu fugir e o sol está lá do outro lado do mundo procurando por ela.
- Ahhhhhhhhhh
- Mas você pode olhar para aqueles campos ali na frente, está vendo?
- Ali é a plantação de algodão do meu vô!!
- Hummmmm… na verdade é uma plantação de nuvenzinhas. Elas são assim pequeninas até o dia em que precisam subir lá para o céu, quando precisam chover.
- Mas meu vô nunca me disse isso!
- Acho que é porque ele nunca quis te deixar triste. As nuvenzinhas são tímidas e não vão para o céu se alguém as espia.
- Ahhhhhhhhhh
No meio da conversa me dei conta de que meu espiar não era o mesmo espiar desta doce criança. Há muito que são diferentes.
- E as estrelas? Você sabe de onde vêm as estrelas?
- Ah, essa é fácil. Se você tiver pensamentos bons eles se tornam estrelas, ora essa!
- É isso mesmo (confesso que o que tinha em mente era tão mais prosaico)
- E o vento?
Com um olharzinho de dúvida e ar de curiosidade vi que essa me dava à chance de me recuperar da lição que havia tomado das estrelas.
- Ora, é o sopro do gigante! Se o vento é bom é porque o gigante está feliz. Se o vento é ruim é porque está mal humorado.
- Ué, mas que gigante é esse? Nunca vi nenhum gigante!
- E quem coloca as frutas lá no topo das árvores? Quem não deixa os ninhos caírem? Quem você acha que faz as pipas enroscarem nos telhados?
- Ah, então é isso é? Sempre desconfiei que essas coisas não aconteciam sozinhas!
- Pois é. Mas ele é muito cuidadoso. Não gosta de ser visto por ninguém. Você está vendo aquelas árvores bem lá embaixo? Logo depois do rio?
- Aquelas bem altas? Onde não dá para ver nada?
- Isso mesmo. Ele mora depois daquelas árvores. Onde ninguém consegue vê-lo.
- Um dia eu vou lá. Não gosto quando ele prende a pipa do meu irmão. Ele fica muito triste.
E eu que não acredito mais em gigantes, mas que ainda me entristeço com pipas presas em telhados, me dou por vencido pela banalidade das minhas ilusões. Pelos meus desinteresses.
E para onde foi você, inocência? Onde esqueci a ternura? O que fiz com a fantasia?
E eu que não sou Pessoa e que às vezes nem mesmo sou posso vez ou outra brincar de contar estória, fazer verso, enganar, me furtar o juízo.
Assim volto a ser o gigante da estória. Volto eu a perseguir a lua. E, por que não, volto eu a ser a criança pendurada na cerca.
Me despeço de minha amiga criança com uma reverência e lhe rogo não vá incomodar o gigante.
- Prometo!
- Pois bem.
E saio andando de costas. Olhos para uma menina que espero não cresça.
No céu um sol nascido, lua já derretida. O gigante acorda.
É um novo dia, como um outro qualquer.