Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

26

de
março

O Mineiro - Elessandra Paula

Sou mineiro. Passei minha vida enfiando a picareta em rochas. Uma vida buscando algo além delas.

Nem sempre a recompensa vinha. O mundo é feito mais de rochas que de pedras reluzentes e belas. Para mim, o mundo sempre foi um buraco escuro, iluminado por um facho de luz que saía do alto do meu capacete. Se dia ou noite, descobria somente quando saía do meu buraco. Às vezes, passava 3, 4 dias enterrado na escuridão só para achar uma lasca qualquer que pudesse valer alguma coisa.

Não sou de pedras que cintilam, prefiro o âmbar. Aquele que escorre das árvores e que em milhares de anos se torna pedra. É mais humano e ainda assim tão vil. Espero um dia meu sangue se torne pedra, assim como o âmbar.

Mas passo meus dias cavando, escavando, triturando rochas e fazendo cavernas.

Cada lasca que tiro das paredes tira de mim a energia da qual me faço.

Não tenho medo do escuro, não tenho medo de estar aqui, sozinho, procurando por pedras.

O escuro me disfarça, me trai e me ilude. Tenho uma picareta nas mãos e quase não tenho fé. O que poderia temer?

Não tenho medo de desbarrancos, não tenho medo de que o mundo desabe em mim.

Tenho medo da luz. Não a luz fraca que sai de meu capacete, mas a luz do dia e a luz dos homens. Pois esta revela menos que a escuridão, faz de mim apenas um homem de rosto sujo, de mãos calejadas e roupas maltrapilhas. Faz dos outros serem o que não são.

Por isso prefiro meu ofício.

E continuo a golpear as rochas como se estivesse golpeando minha própria vida. Esta, dura como a pedra e escura como esta caverna.

Quem sabe um dia serei eu, este solitário mineiro, a descobrir que de tanto viver com rochas, de tanto respirar o pó que se impregna em meus pulmões, tornar-me-ei uma delas. Uma pedra. Sem valor nem brilho e brutalmente arrancada de entre várias outras pedras enquanto minha picareta cavava meu próprio destino.

24

de
janeiro

Terra de Gigantes - Elessandra Paula

Esta é uma homenagem à Elessandra, que escreve lindos textos, é uma pessoa especial e minha amiga.  O Caio (meu colega de trabalho) e eu fizemos uma leitura/gravação rápida (e quando digo rápida é rápida mesmo – a gente tem de produzir as coisas em 5 /10 minutos, afinal estamos no trabalho), que foi valorizada à milionésima potência pelo Keizo (sugeriu a música, fez as imagens, colocou no youtube, desde o outro lado do mundo…Arigatô gosaimas! Aliás não tenho como agradecer o entusiasmo, a rapidez e a qualidade de tudo o que o Keizo já fez para mim: Miriana e agora Terra de Gigantes!).

Abaixo do link, está o texto da Elê. Como gravamos com gravador não muito bom, em mono (o Keizo é que me disse), sugiro que leiam pelo menos rapidamente o texto e depois acessem o youtube.  Espero que gostem (eu gostei muito de tudo: ler, gravar, assistir. Pure joy!).  Elê, Keizo, Caio – banzai!

http://www.youtube.com/watch?v=M9qfBnCSQFk

Antes, uma verdade aplicável a todos os meus amigos, porque se são meus amigos é porque é assim que acontece, senão não os consideraria amigos. Bjs.

Some people come into our lives and quickly go.

Some people move our souls to dance. They awake us to

new understanding with the passing whisper of their wisdom.

Some people make the sky more beautiful to gaze upon.

They stay in our lives for awhile, leave footprints

on our hearts, and we are never ever the same.

(FW)

Terra de Gigantes – Elessandra Paula

Ando eu bandolando, perambulando pela noite.

Vigiando a lua para que ela não fuja. Cuidando das estrelas para que não caiam.

É tarde, se faz tarde.

Mas o relógio não pensa. Não pesam as horas. Só pesam os anos.

Criança na cerca à beira da estrada de terra – o que faz você a essa hora acordada?

- Espio a lua para que não fuja.

- Então somos dois. Também eu estou a vigiá-la.

- Não, não. Eu só estou espiando. Vou esperar até o sol nascer para esperar que ela derreta. Não é isso o que acontece todas as manhãs? O sol vem e derrete a lua, que é feita de queijo?

- Quem te contou essa estória?

- Foi meu vô. Ele me disse que todas as noites o sol vem de mansinho, devagarinho. E de pouco em pouco vai aquecendo a lua que sem perceber vai se derretendo. Por isso que o céu fica assim meio amarelinho. Queria ver como é.

- Bom, acho que a lua não se derrete mais. Isso acontecia com as outras luas. Essa lua é mais nova e mais esperta, ela não se deixa derreter. Ela se esconde. E o sol fica o dia todo procurando por ela. É por isso que ele vai de um lado ao outro durante toooodo o dia. E quando escurece é porque a lua conseguiu fugir e o sol está lá do outro lado do mundo procurando por ela.

- Ahhhhhhhhhh

- Mas você pode olhar para aqueles campos ali na frente, está vendo?

- Ali é a plantação de algodão do meu vô!!

- Hummmmm… na verdade é uma plantação de nuvenzinhas. Elas são assim pequeninas até o dia em que precisam subir lá para o céu, quando precisam chover.

- Mas meu vô nunca me disse isso!

- Acho que é porque ele nunca quis te deixar triste. As nuvenzinhas são tímidas e não vão para o céu se alguém as espia.

- Ahhhhhhhhhh

No meio da conversa me dei conta de que meu espiar não era o mesmo espiar desta doce criança. Há muito que são diferentes.

- E as estrelas? Você sabe de onde vêm as estrelas?

- Ah, essa é fácil. Se você tiver pensamentos bons eles se tornam estrelas, ora essa!

- É isso mesmo (confesso que o que tinha em mente era tão mais prosaico)

- E o vento?

Com um olharzinho de dúvida e ar de curiosidade vi que essa me dava à chance de me recuperar da lição que havia tomado das estrelas.

- Ora, é o sopro do gigante! Se o vento é bom é porque o gigante está feliz. Se o vento é ruim é porque está mal humorado.

- Ué, mas que gigante é esse? Nunca vi nenhum gigante!

- E quem coloca as frutas lá no topo das árvores? Quem não deixa os ninhos caírem? Quem você acha que faz as pipas enroscarem nos telhados?

- Ah, então é isso é? Sempre desconfiei que essas coisas não aconteciam sozinhas!

- Pois é. Mas ele é muito cuidadoso. Não gosta de ser visto por ninguém. Você está vendo aquelas árvores bem lá embaixo? Logo depois do rio?

- Aquelas bem altas? Onde não dá para ver nada?

- Isso mesmo. Ele mora depois daquelas árvores. Onde ninguém consegue vê-lo.

- Um dia eu vou lá. Não gosto quando ele prende a pipa do meu irmão. Ele fica muito triste.

E eu que não acredito mais em gigantes, mas que ainda me entristeço com pipas presas em telhados, me dou por vencido pela banalidade das minhas ilusões. Pelos meus desinteresses.

E para onde foi você, inocência? Onde esqueci a ternura? O que fiz com a fantasia?

E eu que não sou Pessoa e que às vezes nem mesmo sou posso vez ou outra brincar de contar estória, fazer verso, enganar, me furtar o juízo.

Assim volto a ser o gigante da estória. Volto eu a perseguir a lua. E, por que não, volto eu a ser a criança pendurada na cerca.

Me despeço de minha amiga criança com uma reverência e lhe rogo não vá incomodar o gigante.

- Prometo!

- Pois bem.

E saio andando de costas. Olhos para uma menina que espero não cresça.

No céu um sol nascido, lua já derretida. O gigante acorda.

É um novo dia, como um outro qualquer.

15

de
janeiro

Sempre existe alguém - Elessandra Paula

Sempre existe alguém

Em um velho banco de praça me sento

E lá escrevo para aqueles de quem nunca me esqueço

Àqueles que sempre vejo

Àqueles que sempre sorriem

Àqueles que sempre me alegram

Àqueles que me divertem

Àqueles que se amarguram

Àqueles que amam

Àqueles que vivem

Àqueles que são sós

Àqueles que nunca vejo

Àqueles que sonham

Àqueles que choram

Àqueles que sinto saudade

Àqueles que sei que nunca mais verei

Àqueles que sei que sentirei falta

Àqueles que andam por aí

Àqueles que nem conheço

Àqueles que muitas vezes me esqueço

Àqueles que me entristecem

Àqueles que me iluminam

Àqueles que amo

Afinal, a todos aqueles que para mim existem

26

de
dezembro

Mais um presente…este é um dos meus preferidos!

A Tartaruga de Tina

Milton Ayres (12/12/2006)

Tina andava cansada de tantos relacionamentos malsucedidos e decidiu que era hora de ficar só por um tempo. Achava que ultimamente só conhecia pessoas loucas e desequilibradas, por isso resolveu curtir sua solidão. Para não enlouquecer, algumas amigas lhe sugeriram que comprasse um cachorro, mas ela não era muito chegada aos animais. Pelo menos não se imaginava chegando em casa todo dia e sendo recebida com um pulo nas coxas, muito menos comprando ração, limpando sujeira ou levando seu bichinho pra passear. Não! Decididamente não queria ter este tipo de trabalho. Era livre, independente e gostava dessa liberdade. Antes continuar sozinha. Foi então que uma jogada do destino lhe trouxe às mãos uma bela tartaruguinha de pouco mais de 5 centímetros. Foi amor à primeira vista! A danadinha logo se adaptou ao seu novo lar e andava correndo por todo lado. Bem, correndo é modo de dizer! Ela caminhava lentamente de um lado a outro do apartamento. Às vezes se perdia embaixo de um móvel, se enroscava nos fios da televisão, mas Tina estava sempre atenta para que nada de mal lhe acontecesse. Descobriu até que existia uma ração própria para tartarugas. Quem diria! Um belo dia resolveu que Britney, sim, este era o nome da bichinha, precisava de um cantinho só seu, para que pudesse dormir à noite sem ser incomodada e, principalmente, para que não corresse o risco de ser pisoteada pela dona sonolenta de madrugada. Tina, então, num lampejo de criatividade, pegou uma fralda, que sabe lá Deus por que motivo mantinha em casa, e com muito jeito construiu-lhe uma casinha. Era algo parecido com um iglu branco e fofo. Soube depois que a idéia da fralda fazia grande sentido sendo a tartaruguinha um bebê, como me dissera a própria mãe orgulhosa. A casinha logo se mostrou prática na hora de limpar o cocô da Britney, pois Tina não precisava ficar procurando a sujeira pela casa, já que a danada da bichinha havia aprendido a fazer suas necessidades na fralda. E sempre que isso ocorria, Tina agarrava a bichinha pelo casco e imediatamente a enxaguava numa vasilha de água, para lhe higienizar as partes íntimas. Mas Britney logo se sentiu incomodada com essa operação de desmonte do iglu para limpeza e dos forçados banhos de assento e passou a fazer cocô do lado de fora da casa. Talvez até por uma questão de higiene, já que ela dormia dentro da fralda. Fosse qual fosse o motivo, Tina ficou muito chateada com esta revolta súbita de sua cria e decidiu que era hora de tomar uma providência. Afinal, Britney já estava ficando grandinha. No dia seguinte, abriu outra fralda e construiu novo iglu ao lado do primeiro. Depois disso foi ao escritório, recortou um papelão, rabiscou algumas palavras nele e voltou ao banheiro onde ficava a residência de sua pequenina. Alguns dias mais tarde, numa festa, Tina exibia orgulhosa para as amigas uma foto tirada com seu celular. Nela se viam dois iglus branquinhos e em um deles a espertíssima Britney com sua carinha lampeira de fora. Sobre cada um deles uma plaquinha de papelão escrita a mão: QUARTO e BANHEIRO.

Nota do autor: Após um mês, Britney passou a apresentar um comportamento estranho ao ouvir as palavras “cocô” e “banho”. As amigas de Tina deixaram de visitá-la depois que ela passou a espalhar placas com os nomes das coisas pela casa. E Tina nunca mais voltou a se relacionar seriamente com ninguém depois destes acontecimentos.

26

de
dezembro

Um presente de Natal para vocês.

Olá! Espero que todos tenham tido/ainda estejam tendo um bom Natal.  Meu post sobre o assunto vai vir amanhã ou depois, mas neste ínterim um presente de Natal pra vocês. Mais um lindo texto da Elê. bjs.

A Caixa

Homem alto, cabelos negros que se desarrumavam ao vento

Taciturno, sempre carregando uma caixa de sapatos debaixo do braço, despertava a

curiosidade daqueles que o viam com freqüência.

De tantas idas e vindas, dele pouco se sabia.

Como nunca disse palavra, não se sabia se era mudo. Sabia-se que escutava, não se sabia,

porém se ouvia.

Ao ser perguntado sobre sua família, apontava para a caixa.

Ao ser perguntado sobre sua casa, apontava para a caixa.

Ao ser perguntado sobre o que tinha na caixa, olhava fixamente nos olhos de quem o

perguntava e subitamente dava de ombros.

Incompreendido e sem amigos, era tido como tolo e até deficiente.

Não se importava com os olhares à sua volta. Importava-se com o horizonte. Era lá que seu

olhar estava.

Não se importava com os comentários à sua volta. Importava-se com sua caixa. Esta que

não deixava de lado, esta da qual não se separava.

Só não sabia bem como carregá-la. Sem jeito e sem posição, velha, suja e amassada, a

levava para todos os cantos.

Dia desses, sentado em um desses bancos de praça, em um dos raros momentos em que

deixou de lado a caixa, um moleque passou e a levou. Saiu correndo pela rua só para tirar

uma com o sujeito que, desesperado, foi atrás do moleque para recuperar sua preciosa

caixa.

Foi quando se ouviu o arrastar de pneus e o barulho surdo do choque do metal contra o

corpo do ser que caia sem vida no asfalto quente da avenida.

Desesperado e sem saber o que fazer, o moleque correu até o local do acidente e abrindo

caminho entre a aglomeração que se formava deixou sem levantar suspeitas a caixa ao lado

do corpo já sem vida.

No dia seguinte saiu estampado no jornal local: “atropelado e morto homem que levava o

coração em uma caixa de sapatos”.

Elessandra Paula

7

de
dezembro

Super Parque de Diversões

O autor deste texto foi novamente à Super Casas Bahia para assistir ao show da Disney (Tarzan desta feita).  Eu não me lembrava disto, então resolvi publicar para que quem não conhece tenha uma boa idéia, pelos olhos de quem conhece e sabe escrever sobre o assunto.  Claro que o texto é sobre uma edição anterior, mas não deve estar muito diferente, pelo que entendi.  Bjs.

Super Parque de Diversões
(Milton Ayres - 26/11/2006)

Em sua quarta edição, a Super Casas Bahia virou um super parque de diversões com um certo ar de Parque da Disney. Explico: a parceria entre a Disney e as Casas Bahia já ocorre desde o ano passado, mas este ano os investimentos na área de lazer da loja foram muito maiores. O show principal, chamado “Sonho e Fantasia Disney”, com uma hora de duração, 23 quadros, 70 atores e os famosos personagens da Disney vindos dos EUA, é o atrativo maior da loja. Para assisti-lo, o visitante deverá fazer compras ou apresentar notas das Casas Bahia no local, emitir um cartão de crédito Casas Bahia ou ainda adquirir produtos nas lojas da Disney, instaladas estrategicamente ao lado dos teatros. Há ainda outros quatro shows gratuitos, com 15 minutos de duração, espalhados pelo pavilhão do Anhembi: Show das Princesas – Cinderela e A Pequena Sereia, Power Rangers e Árvore de Natal do Mickey. O Show das Princesas ocorre em dias alternados e os outros, diariamente. Os ingressos são retirados ao lado do palco central, onde fica a árvore de Natal do Mickey. Em todos os shows há a presença dos personagens Disney. No Show das Princesas e dos Power Rangers as crianças podem ainda tirar fotos com eles no final. No show da árvore de Natal, um casal de jovens atores canta e conduz o show, junto do Mickey, da Minnie, do Pateta e do Pato Donald. Mas o show principal é o que guarda as maiores emoções. Dentre os 23 quadros, vemos desfilar as lindas canções e os personagens de Alladin, A Bela e a Fera, Pocahontas, O Rei Leão, A Pequena Sereia, Toy Story, Mogli, Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, Peter Pan, Pinóquio, O Corcunda de Notre Dame, Hércules, Lilo & Stitch, entre outros. Dois casais de atores-cantores, entre eles a ótima Simone Gutierrez, costuram os quadros, cujo tema deste ano são os sonhos. Como novidade, há um quadro só de vilões. O figurino é riquíssimo, o cenário simples e criativo, a coreografia bem feita, as vozes são afinadas, a direção musical de Daniel Salve é excelente e os efeitos especiais e a iluminação completam o clima de magia. O teatro com capacidade para quatro mil pessoas ainda tem dois telões ao lado do palco, onde são projetados trechos dos desenhos animados da Disney, e televisores de plasma pendurados na platéia para quem senta mais ao fundo. A organização, que este ano ficou a cargo da Banco de Eventos, é impecável. E ao fim do espetáculo, como nos parques da Disney, você sai dentro de uma lojinha cheia de brinquedos, DVDs e acessórios com os personagens. Se depois de tudo isso você ainda quiser se divertir um pouco mais, vá ao cinema 4D, que exibe um filme sobre o nascimento das galáxias até os dias de hoje. Muito bom! E se estiver achando que isso ainda é pouco, o super parque de diversões da Super Casas Bahia tem também uma pista de patinação, uma parede de escalada, arvorismo, lan house, cyber café, área de recreação infantil, espaço gourmet, pista de bike, salão de beleza, espaço para customização de roupas, área de massagem e uma enorme praça de alimentação com nomes bem conhecidos: Bob’s, Bon Grillê, Casa do Pão de Queijo, Vivenda do Camarão, Burger King, Habib’s etc. O estacionamento para dez mil veículos é gratuito. Há também transporte gratuito em vários pontos da cidade. E, claro, não podia faltar também a casa do Papai Noel para você fazer um pedido e tirar fotos com o bom velhinho! Mas se essa diversão ainda não for suficiente para você, basta atravessar a ponte sobre a marginal. O Playcenter fica quase ali em frente.

6

de
dezembro

Arte Moderna (Milton Ayres) - 27/03/2006


Edvaldo era segurança há três anos, mas nunca tinha trabalhado em uma galeria de arte antes. Já no primeiro dia, ao entrar para falar com o contratante, achou esquisito aquele monte de objetos espalhados pelas salas e paredes. Eram restos de plástico misturados com pedaços de lata, cacos de espelho, arames retorcidos e tiras de pano que mais pareciam saídos de um grande lixão. Mais tarde soube tratar-se de uma exposição de arte moderna contemporânea. “Então isso é que é arte?”, perguntava a si mesmo ao fazer a ronda diária antes de abrir as portas da galeria e mesmo depois de fechá-las. Não conseguia entender. Assim sendo, concluiu que até sua filhinha de 4 anos seria capaz de empilhar um monte de objetos retirados do lixo e fazer sua própria obra de arte. Mas Edvaldo, como muitas outras pessoas, não havia estudado História da Arte, nem pesquisado a trajetória daquele importante artista para entender o significado de suas obras no contexto atual e muito menos a extensão do conceito de arte. Por isso, quando alguém saía da exposição tecendo altos comentários sobre aquilo tudo, ele sempre acabava na maior gargalhada. Eram tantas pessoas querendo se fazer de entendidas, soltando ohs! e ahs! de admiração, que Edvaldo até já se acostumara. Um dia, porém, notou que as pessoas pareciam bem mais admiradas que o normal. Faziam longos comentários sobre o real sentido de uma certa peça em exibição, sobre o questionamento proposto pelo maravilhoso artista, pela conotação social que poderia haver por trás daquela obra tão singela, pelo humor e pela ironia que perpassavam a obra de arte, pela simplicidade do objeto em contraponto com a complexidade de significações suscitadas por ele, pela genialidade do artista, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Apesar de aquele ser um dia comum, como todos os outros, percebeu uma movimentação muito maior dentro da galeria. Às vezes, algumas pessoas que saíam voltavam mais tarde trazendo outros visitantes para conhecer aquela obra maravilhosa. Aos poucos, juntando uma informação daqui, outra dali, conseguiu identificar qual era a sala a que o público se referia com tanto entusiasmo. Mas algo não batia. Pela descrição, parecia que as pessoas estavam se referindo a um cubículo vazio, que fazia um “L” com a última sala de exposições, servindo apenas como passagem para a área de serviços da galeria e onde, obviamente, não havia obra alguma exposta. O telefone também não parou de tocar naquele dia, mas como o dono da galeria não estivesse, sua secretária anotava os pedidos de jornalistas e de emissoras de televisão que queriam fazer uma reportagem sobre uma tal obra específica do artista que estava expondo naquela data. A secretária, que também nada sabia informar sobre a misteriosa obra de arte, prometeu retornar as ligações no dia seguinte, assim que seu chefe voltasse. Fim do expediente. Edvaldo estava preparando-se para trancar a porta de entrada quando encostou um caminhão na calçada em frente e dele saltou um rapaz, trazendo um extintor de incêndio que havia sido enviado para manutenção e recarga. Edvaldo pegou o extintor, assinou um recibo qualquer e caminhou até a última sala, mais precisamente o cubículo que servia de passagem para a área de serviços, e pendurou o extintor na parede. Foi quando notou um balde de plástico vermelho, cheio de água, encostado na parede, esquecido ali por uma das faxineiras na parte da manhã. Um pouco acima do balde, um adesivo fixado na parede branca, ainda há pouco vazia, como tantos outros espalhados pela galeria ao lado das obras de arte, esclarecia todo o mistério: “Em caso de incêndio, vire de cabeça para baixo".

25

de
novembro

Minha Estação - Elessandra P. G. Silva

Tento ver a vida de longe

Assim não me assusto
Me escondo atrás do poste e finjo que não é comigo
Espero que os vândalos passem

Na expectativa do próximo bonde, continuo esperando
Em vão
Pois escolhi o destino errado
Meu bonde não passa por aqui

Tenho que sair do esconderijo
Deixar que me vejam
Ser vista
Mas isso me assusta

Me aconchego a meu canto
Me recolho
Não vejo nada a meu redor
A não ser a minha própria inquietude

Me retraio a espera do meu bonde
Mas ele não vem
Mudou de caminho
Sem que eu soubesse

Olho para esquina e não vejo nada
Olho para o alto e vejo somente a luz da lua
No chão a minha sombra
Reflexo da minha covardia

Ninguém me cerca
E ainda me escondo
Não saio daqui nem por decreto

Mas aí vem meu bonde
Corro e pulo para dentro dele
Sei que é ele
Mas, sinceramente, não sei para onde vai
Só sei que é ele

Respiro. Não olho em volta pois sei que olham para mim
Baixo minha cabeça e rezo baixinho
Não sei bem porque
Nem sei bem para quem

Bonde, bonde
Não sei para onde me levas
Mas sei que quero seguir
Não tenho coragem de guiar meu destino
Só quero que me leve

Ah, esta vida…
Conflituosa
Por ora nos dá o caminho
Por ora nos dá o bonde
Mas nunca os dois…
Qual deles escolher?

Prefiro ser timoneiro que imediato
Escolhi isso da minha vida
Esta história de medo é bravata
Conto que conto por diversão

Não me escondo atrás de postes
Não espero que meu bonde passe
Nem sempre tenho a chance de escolher o meu caminho, é verdade
Nem sempre escolho o bonde e nem sempre ele passa
Minha sombra nunca será o reflexo do meu embaraço
E sempre, sempre saberei para quem e porque rezo.

24

de
novembro

Pérolas da gurizada (Silvia M. C. de Souza)

Em meio às brincadeiras, lá vem Eusébio: “ Professora, professora, ‘marra o teni’ pra mim?”

Professora - (zelosa…) O que você quer, Eusébio?
Eusébio - “Marra meu teni”, professora?
Professora - Não entendi, Eusébio.
Percebendo que algo estava errado.
Eusébio - A-MAR-RA meu “teni”?
Professora - Ah, agora melhorou, mas ainda falta a palavra mágica, não é?
Eusébio - ??
Professora - Por… Como é que se fala, mesmo?
Ele pensa mais um pouco:
Eusébio - A-mar-ra meu TE-NIS ?
Professora - Por…por… – ajuda para que ele se lembre da maneira educada que ela ensinou para se pedir algo.
Eusébio - POR-QUE TÁ DE-SA-MAR-RA-D0 !!

22

de
novembro

Na Carne - Milton Ayres - 29/5/2006

(mmayres.blog.uol.com.br)

Seus pensamentos estavam a mil. Àquela hora da manhã era bem comum isso acontecer. Enquanto executava as mesmas tarefas diárias, mecanicamente, seus pensamentos viajavam soltos por seu mais profundo eu. A preocupação com o final do mês chegando e com as contas que ainda tinha pra pagar. Os probleminhas de saúde de sua mãe, agora com quase setenta anos. O filho pequeno que andava tendo dificuldades na escola e ela não sabia como resolver. A filha adolescente que começava a namorar e vivia pensando em viagens, baladas e roupas novas. O marido que não a ajudava em nada. Era como se não se importasse com os problemas da casa que ela tinha de enfrentar. Algumas vezes suspeitou que ele já não a amava como antes. Que talvez tivesse encontrado outro alguém em suas andanças, em suas viagens de negócios, em sua rotina de gerente comercial de uma empresa de médio porte. Mas nunca descobriu nenhuma evidência. Também, o que faria se descobrisse? Ruim com ele, pior seria se ele a abandonasse com todos aqueles problemas que agora rememorava. Uma vez pegou seu marido cochichando ao telefone. Noutra, ela atendeu e ouviu a pessoa batendo o fone no gancho. Uma noite seu marido chegou atrasado para o jantar dizendo-se sem fome. Havia um perfume diferente no ar, mas ela preferiu ignorar. Jantou sozinha com as crianças. Das noites em que recusara seu marido alegando uma dor de cabeça, agora ela sentia falta. Ele é que se desculpava ultimamente, alegando muito cansaço e stress no trabalho. Mesmo assim não quis acreditar que alguma coisa pudesse estar desmoronando entre eles. Todo dia levantava-se com a mesma determinação e punha-se a fazer as tarefas domésticas com resignação. Havia sido preparada para aquilo. Tinha recebido uma educação austera e nunca ousara contestar seus pais. Cresceu e preparou-se para levar a vida que agora levava. Não podia reclamar. Sua irmã mais nova enfrentou a família e hoje se encontrava numa posição mais confortável. Separada e sem filhos, gozava os benefícios que a vida de uma executiva moderna e independente podia proporcionar. Não precisava dar satisfações de sua vida a ninguém. Ela, porém, se via refém de tudo. Tinha muitas responsabilidades com a família e ninguém para se queixar ou pedir ajuda. As amigas trabalhavam fora; não estavam acostumadas com a rotina doméstica. Ademais tinham empregadas. Ela não! Sempre sozinha, era obrigada a cuidar de tudo. Compras no supermercado, os remédios da mãe, material escolar para os filhos, roupas, sapatos, as contas de água, luz, telefone… Não sobrava tempo nem para que ela ajeitasse o cabelo, fizesse as unhas, cuidasse da pele, uma boa massagem. Não! Ela não tinha esse direito. Mas provavelmente a moça com quem seu marido vinha se encontrando há alguns meses tivesse direito a tudo isso. Talvez ela fosse linda, jovem, perfumada, de cabelos escovados, maquiada, unhas bem tratadas, inteligente e desocupada. Sim, porque ninguém poderia se manter linda todo o tempo se não fosse desocupada. Ela era prova disso. Ao final do dia, encontrava-se quase sempre descabelada, com as mãos cheirando a alho, a pele ressecada, sem nenhum encanto. De repente, as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos sem que ela se desse conta, tão absorta estava em seus pensamentos. Passou o braço no rosto, enxugando-o, e continuou a picar cebola, inconsolável. Do outro lado da pia, alguns bifes aguardavam temerosos a hora em que eles seriam violentamente espancados para que a paz voltasse a reinar naquele coração sofrido. Mas só até a manhã seguinte.

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