- Estou cheio de mastigar vidro.
- Como assim?
- Isso. Mastigar vidro. Não enxergo o que tenho em minha frente e acabo mastigando vidro. E o pior, só percebo depois que engulo.
Este é a penitência de Aloísio. Sujeito rebelde, nervoso, que vivia nos confins do Judas. Nunca soube segurar sua revolta e sua indignação perante o mundo. Com ele era tudo resolvido na bala.
No tiro seco. No pé d’ ouvido. Dialogar não era com ele. Não gostava sequer de dizer palavra. Uns dizem que ouvia demais. Que muitos sofreram pela sua mão o que sequer expressaram pela boca.
Mas a vida é assim. Nem sempre quem ouve escuta, nem sempre quem fala diz alguma coisa. Mas o pior, o pior mesmo, é escutar o que não foi dito.
E Aloísio vivia assim. Sem nervos. Sua intolerância era tão grande, mas tão grande, que nem o próprio som de seu respiro ele suportava.
Vivia às turras com sons, com vozes, com tudo que se mexesse. Não era infeliz. Isso, não. Vivia bem, dizia aos dois seres esquisitos com o qual se dignava a dirigir palavra.
Olhava para os lados, apertava as pálpebras, respirava fundo (se irritava com o som, é claro), e mirava todos à sua volta, olho no olho. Ninguém em sã consciência sustentava essas encaradas, até que um dia alguém se atreveu a olhá-lo de frente, de lado, de tudo quanto é jeito. Foi aí que surgiu uma incrível discussão sem palavras.
Quem inventou a frase “olho no olho”, nem sequer imaginou como as coisas podiam se seguir desta maneira. Era um verdadeiro desafio. Aloísio se sentira invadido. Como que engolido por um não sei que, vindo de não sei onde. Pela primeira vez na vida Aloísio se sentiu gente. Mas não arredou pé, ou melhor, olho. Continuo fitando a estranha figura até que decidiu se aproximar.
E ficou surpreso ao notar que desta outra boca não saía som. Que seu respirar era leve, silencioso. Deixou cair o olhar por uma fração de segundo e ao voltar os olhos sentiu um frio na espinha. Tentou falar. Passou a mão nos bolsos, mas não encontrava arma alguma. De repente, sentiu-se despido. Desprovido de sua confiança e de sua alteza.
Foi quando do nada, sentiu um dedo em seus lábios. Fechou os olhos por segundos e ao abri-los não mais via ali a personificação daquilo que mais o havia apavorado em toda sua vida. Pavor, adoração, já não mais sabia.
Aloísio perdera-se. Confuso, aturdido, não soube o que recém lhe acontecera.
Sentiu que pela primeira vez havia encontrado alguém por quem se identificara. Sentiu-se menos rebelde, menos revoltado.
- Neste mundo que é só meu pode ser que caiba mais alguém – pensava
Foi quando decidiu ter com o seu amigo (se é que podemos chamá-lo assim) no bar da esquina. Sentou-se, nem precisou chamar ninguém, e lá veio o prato que comia todos os dias.
Na primeira garfada sentiu um trincar na boca, mas pouco se importou. Foi ao engolir que viu que algo estava errado. A comida lhe raspava a garganta, como se cortasse seu esôfago e chegasse em cacos ao estômago.
Pensou haver engolido uma pequena pedra ou algo parecido e deu uma olhada fulminante na direção do dono do bar.
Mais uma garfada e a mesma sensação. Deixou os talheres no prato e tomou um grande gole d’água. Foi a mesma coisa. A partir deste dia, Aloísio mal se alimentava, lembrava continuamente do momento anterior ao fatídico almoço, de quando tudo para ele havia virado vidro.
Aloísio não era um sujeito perspicaz. Nada nele se assemelhava a inteligência, astúcia ou sagacidade. Era um sujeito simples e bruto. Contudo, fora suficientemente atento de se lembrar do leve toque em seus lábios e dos distantes olhos que o fitaram.
Passou a acreditar que fora enfeitiçado.
Mas nada, nem ninguém nesse mundo pode dizer que o que Aloísio vira fora verdade. Ninguém assistiu a cena. Nada foi revelado a ninguém além do próprio Aloísio.
Nossa imaginação possui asas, é verdade. E talvez tenha sido este o fim de Aloísio.
O homem que não suportava ouvir tornara-se um torturador de si mesmo.
Não, esta estória não tem um final feliz, nem um final infeliz. Não possui moral, não possui fadas, feiticeiras, mandingas, nem lições éticas.
Palavras machucam, é verdade. Seja quando ditas, seja quando ouvidas, seja, principalmente, quando presas lá no fundo da garganta, no fundo da alma.
Ao nosso Aloísio, pouco podemos oferecer. Em pouco podemos correr a seu socorro. Pois pior que mastigar e engolir vidro, é dizer a alguém que o que se sente seja somente arte de sua imaginação.