Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

14

de
fevereiro

Sou coerente

Tentei deixar passar nas várias vezes a que fui ao MASP nos últimos tempos, mas tem um momento em que o sentimento de repulsa vem à tona.  Eu odeio o MASP meeesmooo (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/06/05/eu-odeio-o-masp/)!

Além de ser o museu mais caro da cidade é o que mais destrata o visitante e o que menos se preocupa em dar-lhe conveniência, conforto, serviços.

Como hoje é terça, a entrada é gratuita.  Na bilheteria, um cartazete dizendo isso em português. Não dava para traduzir aquelas 10 palavrinhas e colocar um cartazete em inglês? Afinal, pela localização, seguramente é o museu que mais recebe estrangeiros, então não custa facilitar a vida de quem vem com boa vontade deixar $ por aqui. E a boa vontade do moço da bilheteria (sim, um, e num dia de visita gratuita!)? Uma flor! Não tem bom dia, pois não, obrigado. A cara dele é de quem tem um fígado destroçado, sem esperança.

Aí passa-se pela revista e arco magnético.  Eu já abro a bolsa e ponho na mesa. A vigilante que mexa no que ela quiser. Como está muito calor, sempre tenho uma garrafinha d’água na bolsa. A vigilante disse-me que eu deveria deixá-la no guarda-volumes, pois é proibido entrar com líquidos no museu. Tudo bem, eu sou uma pessoa civilizada, responsável, mas quem vai saber, né? Dirigi-me ao guarda-volumes, coloquei minha bolsa no balcão e a abri para retirar a garrafa e deixá-la ali. O funcionário responsável mais que afoito e grosseiramente disse-me: Essa bolsa não precisa ficar aqui. Pode levar. E eu que vou discutir com ele? Tivesse eu ácido ali, e eu entraria com o material no museu autorizada por um funcionário de quinto escalão.

Mora da história: eles (e acho que eu também) pagam um zilhão por um sistema de segurança que faz de conta que funciona, mas não funciona.

Aí vamos pegar o elevador. Poderia ir pela escada, mas já estava ali mesmo, então…

Vejam bem, eu vou ao MASP quantas vezes por ano? Umas 5, 6? Pois é, e sempre que pego o elevador com aquele funcionário (velhinho de casa) ele está ao telefone (celular privado, naturalmente).  As pessoas vão entrando, quando ele se digna a desligar o celular pede que todos lhe entreguem os bilhetes. Imagine só a cena: umas 10/12 pessoas no elevador, gente alta, gente baixa, todo mundo tendo de fazer  chegar (teoricamente) o ingresso a ele. Olha a confusão! Isso porque ele estava ocupado numa ligação e não pôde cumprir sua obrigação de pegar os canhotos dos tíquetes.

Aí entra uma moça, estrangeira. Ela traz um guarda-chuva. O ascensorista, que no máximo é monolingue, agarra o guarda-chuva e diz a moça em bom português: Não pode entrar com isso. Tem de deixar no guarda-volumes. Felizmente de mímica o ascensorista é bom.  Ele apontava para fora, então a moça entendeu o que deveria fazer. Como ele segurou o elevador para pegar os tíquetes (parágrafo anterior), deu tempo de a moça voltar.  Aí nosso rapaz monolingue e supereducado disse a ela: P R E C I S O D A E N T R A D A, D O T Í Q U E T E (isso, em português e em letras de forma. Quem não entenderia?). A moça não entendeu (coitada!). Ele repetiu mostrando um tíquete. Aí ela entendeu. Tem gente limitada nesta vida, ou o quê? O ascensorista fez tudo isso com impaciência, afinal tem cada um por aí…

À exposição: Roma - A vida e os imperadores. Um conjunto admirável de obras. Se fosse na Pinacoteca, haveria um cronograma muito bem feito, que tornaria tudo muito claro, esclareceria o que os visitantes veriam com riqueza de detalhes, num contexto. Mas lembrem-se, estamos no MASP… Pelo menos as identificações das peças e textos de cada seção estavam em português e em inglês. Salvou-se uma alma!

Algumas observações de uma chata (eu):

  1. alguns textos das etiquetas de identificação eram tão miúdos! Por quê? Faltou espaço, papel, tinta? Não dá para fazer a coisa proporcionalmente confortável?
  2. Deu a impressão que alguém cansou no meio do caminho. Nas etiquetas de identificação havia uma pequena descrição de quem era este ou aquele deus, e de repente: Príapo e nada a respeito (todo mundo sabe quem é, certo?). E mais alguns assim. Por que será?
  3. havia peças impossíveis de ser vistas na lateral, pois não havia iluminação (nenhuma) para isso. Quem montou pensou: para quê?
  4. por que a altura das etiquetas de identificação não fica sempre à altura da visão? Eu, que tenho 159cm tive de me dobrar muitas vezes para conseguir ler. Imagine aquele pessoal de 170, 180cm. Não me digam que é difícil, ou que não tem jeito de ficar bom. Um brasileiro já foi ao espaço, então deve haver uma solução para esse teorema;
  5. por que um folder tão pobrinho? Não dava para fazer uma coisinha melhor com tanto apoio corporativo, patrocinadores, e com o ingresso abusivo cobrado?
  6. a cafeteria continua a mesma caca;
  7. a lojinha é aquela coisa antiquada, ruinzinha, fraquinha.
Well, acho que é só folks.
Dá para entender, pelo que está ali (há alguns vídeos interessantes), por que os romanos cresceram, dominaram e feneceram. A estrutura social, política, militar ensinam muito.  O poder dos imperadores, sua influência, seus vícios, suas qualidades (http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_imperadores_romanos), a postura multicultural, globalizante, o que ficou para o mundo moderno (sistema jurídico, político, hidráulico, etc.), tudo muito evidente.
Vale muito a pena ver esse acervo único que veio ao Brasil pelo primeira vez. É riquíssimo, interessantíssimo. Vai até 22/4 (http://masp.art.br/masp2010/), então não percam. Mas tentem ir numa terça/free, assim a raiva é menor.

27

de
novembro

Em dia com a cultura, ura, ura, ura…

Aproveitando uma passadinha pela Paulista, fui ver a exposição Carlos Scliar, Da Reflexão à Criação ((http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Scliar)), que está na CEF Cultural do Conjunto Nacional (http://www.caixacultural.com.br/html/main.html). Pintor, ilustrador, gravurista, etc.  Produção de seis décadas. Gostei sobretudo das serigrafias mais recentes. Scliar fez parte do Grupo Santa Helena (http://pt.wikipedia.org/wiki/Grupo_Santa_Helena), lutou pela FEB, viveu em Porto Alegre e São Paulo.

Entre as obras expostas há referências à vida no campo, às personagens do Sul (Chinoca de 1962, Guri de 1962, entre outros). Não conhecia e gostei muito.  A exposição fica até 8/1/2012, entrada gratuita.

E na quinta pela manhã foi a vez de ensaio aberto na Sala S. Paulo.  Sinfonia no.2 - Ressurreição, de Mahler (http://www.osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=1758), regida pela maestrina mexicana Alondra de la Parra, com a participação de Ludmilla Bauerfeldt  (soprano) e Jennifer Johnston (mezzo soprano). Participaram também o Coro da Osesp e o Coral Lírico de Minas Gerais.  A maestrina foi brilhante.  Não gosto muito de Mahler, mas essa sinfonia com a OSESP e sob a regência da Sra. de la Parra encantou-me. Ela é muito jovem, de um vigor hipnotizante.  Não tenho dúvida de que no concerto da noite tenha sido ovacionada.

Foi o último ensaio aberto do ano, pelo menos para mim.  Em 2012 tem mais.

E para fechar o roteiro: A Valquíria de Wagner no Municipal (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/theatromunicipal/programacao/index.php?p=9164), que é parte da tetralogia O Anel dos Nibelungo ( Das Rheingold (O Ouro do Reno), Die Walküre (A Valquíria), Siegfried e Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses)).

O Anel é baseado na mitologia ou lendas nórdicas.  Dê uma lidinha: (http://pt.wikipedia.org/wiki/Die_Walk%C3%BCre). Rings a bell?  Claro!  Tolkien (http://pt.wikipedia.org/wiki/J._R._R._Tolkien), O Senhor dos Anéis.  Muitos beberam na mesma fonte, sem dúvida.

A ópera levou 4,5horas.  Houve um intervalo de 40 minutos (absurdo!) e outro de 20 minutos. O primeiro permitiu que algumas dezenas de pessoas jantassem rapidamente no restaurante do próprio Municipal. Por que não deixaram a opção de jantar ao final do espetáculo? Quem terá tido essa ideia mais que infeliz? Com isso e com o atraso no início, saí de lá à 0h30. É brinca???

Da mesma forma que em Rigoletto (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/21/de-mentiras/), impressionou-me a qualidade dos cantores, o cenário fantástico e a iluminação mágica!  Coisa de primeiro mundo mesmo. O figurino também era muito interessante.

A ficha técnica é a seguinte (assisti ao espetáculo de 25/11):

LUIZ FERNANDO MALHEIRO direção musical e regência.
ANDRÉ HELLER-LOPES concepção, direção cênica e cenografia.

RENATO THEOBALDO cenografia. MARCELO MARQUES figurinos. FÁBIO RETTI iluminação.
ARTEMUNDI PRODUÇÕES CULTURAIS LTDA. produção
elenco: MARTIN MUEHLE (Siegmund); LEE BISSET dias 17, 21 e 25 e EIKO SENDA dias 19 e 23 (Sieglinde);
GREGORY REINHART (Hunding); JANICE BAIRD (Brünnhilde);
STEFAN HEIDMANN (Wotan); DENISE DE FREITAS (Fricka);
MONICA MARTINS (Gerhilde); MAÍRA LAUTERT (Ortlinde); KEILA DE MORAES (Waltraute);
LAURA AIMBIRÉ (Schwertleite); VERUSCHKA MAINHARD (Helmwige);
LÍDIA SCHÄFFER (Siegrune); ADRIANA CLIS (Grimgerde); ELAYNE CASEHR (Rossweisse).

E para vocês se situarem, assistam a este vídeo::http://youtu.be/G2ZbYvXGwEI.  Lembraram?  Platoon, Darth Vader…Wagner é mais que update

Foi muito bom o Municipal ter voltado à ativa. Espetáculos chegando a muitos, preços acessíveis em geral.  Tomara que 2012 seja tão bom ou melhor que 2011.

30

de
outubro

Parede + tela + palco

1) Queremos Miles (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/busca.cfm?conjunto_id=9054), SESC Pinheiros

Como já mencionei tantas vezes, o SESC monta exposições primorosas. A exposição sobre Miles Davis (http://pt.wikipedia.org/wiki/Miles_Davis) não é diferente. Não sou muito de jazz, blues, e por aí vai, mas não deixo de ver espetáculos, mostras, filmes sobre o tema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/05/09/que-semaninha/).  Fiquei surpresa com a produtividade desse ícone do jazz, que transitou também por beebop, blues, funk (isso, quem diria!), cool, música eletrônica, “n” instrumentos, não só o famoso trompete. O acervo exposto é imenso: instrumentos personalizados e de uso do músico e de um de seus grupos musicais; fotos, fotos, fotos; partituras com anotações de Miles e companheiros; cartas, bilhetes; quadros pintados pelo músico; roupas; várias gravações que podemos ouvir com ou sem fone de ouvido; projeção de filmes; capas de discos; vários objetos pessoais. Enfim, é preciso ir com tempo para apreciar com calma.

A exposição foi montada seguindo a linha cronológica da vida do artista, mas de uma maneira lúdica, muito interessante, com várias ilhas para os momentos mais marcantes, e.g., seu trabalho com Charlie Parker, Gil Evans, sua passagem pela Prestige, Columbia, a evolução ou movimento para a realização de cada LP, de cada lançamento.

Como tantas pessoas do mesmo quilate, Miles subiu aos céus e desceu ao inferno: talento a qualquer prova; dinheiro; drogas; mulheres; problemas graves de saúde. 65 anos repletos do melhor e do pior.

Interessante saber de sua educação musical refinada desde moleque, principalmente considerando um país envolto em racismo, e de como ele não parava ou se contentava e sempre procurava novas linguagens para se expressar musicalmente. Mais interessante ainda: eu só conheci um Miles mais velho (de uns 50 anos). Cristalizei-o dessa maneira na cabeça. Surpresa ao ver o rapaz negro pimpão, bonito, charmoso, elegante, low profile, em tantas fotos. Justamente depois da depressão, drogas, etc., veio aquela aparência que ficou em minha memória: um homem um tanto folclórico, de roupas chamativas, cabelo esculpido, rosto vincado. Tão diferente do jovem que encantou o mundo lá pelos idos de 1945/50.

Para os aficionados, uma viagem deliciosa. Para quem não conhece ou gosta tanto do gênero musical, uma descoberta!

A mostra vai até janeiro, no 2o. andar do SESC Pinheiros.

2) Um pouco mais perto (A little closer - http://www.imdb.com/title/tt1528309/)

E tome Mostra (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/26/ceu-e-terra/)!

3 personagens: mãe, filhos adolescentes (um de 16 e outro de 12).  Cidadezinha americana. Mulher sem marido (pelo filme não dá para saber se ele morreu, evadiu-se, ou o quê). Um filme lento, mas interessante. Produção baratíssima, seguramente.

Mulher de uns 30 que trabalha para sustentar a casa, os filhos. Vê-se que não tem qualificação e faz trabalho braçal. Meninos, sobretudo o mais velho, descobrindo sua sexualidade. O mais novo, dispersivo, com problemas na escola.  O filme começa com uma cena bizarra: um acidente com uma furadeira. No começo parece que é uma família totalmente desestruturada, mas nada disso: gente comunzinha, que enfrenta problemas que muitos enfrentam. Dinheiro curtíssimo. Mas o que dói mesmo é ver a falta de horizonte, o porvir massacrante que se abate sobre todos: a mulher que procura um companheiro e ganha sexo rápido; o menino que tem sua primeira relação sexual com uma amiguinha e, se nada de muito diferente acontecer, vai transar com outras amigas, conhecidas, casar com uma delas, arrumar um trabalho, ter filhos iguais a ele; o mais novo que tem problemas de foco, atenção, é mimado, vai aprontar sempre e ser amparado pela mãe e pelo irmão, afinal não é má pessoa.  Ooooh, vidinha besta!

No entanto, no meio de tudo há, por incrível que possa parecer, carinho, atenção, amor sólidos.  A cena final (aliás, como esses filmes da Mostra gostam de terminar abruptamente, sem mais essa nem aquela…) é isso que transparece: o APESAR DE TUDO…

O filme poderia ser uma tese sobre a vida do americano médio, não aquele de grandes centros, mas aquele que constitui de fato a população e força do país.  Mais esclarecedor, impossível!

3) Eu era tudo pra ela e ela me deixou (http://www.faap.br/teatro/index.htm), no teatro FAAP

Primeiramente uma observação sobre o FAAP. Acho que já comentei como o teatro em si é ruim, desconfortável, mesmo depois de reformado há um tempo.  No entanto, não posso deixar de comentar um aspecto importantíssimo atualmente (acho que não mencionei claramente antes): a venda de ingressos. É o único teatro (fora os alternativos) que conheço que faz a venda de entradas por telefone, no próprio teatro. Não cobram taxa! Isso faz com que os ingressos ali raramente passem dos R$ 50, mesmo com gente que está na mídia em cena. Chega-se ao teatro, está tudo lá, organizado, certinho. E sem taxa! E mais: nos dias de espetáculo, disponibilizam estacionamento gratuito. É limitado, evidentemente, mas gratuito. Ou seja, quem chegar antes estaciona de graça com toda segurança. O teatro, entre plateia e mezanino, deve ter uns 350 lugares, pouco mais ou menos.

Agora a pergunta que não quer calar: se eles podem fazer tudo isso, sem lançar na conta do espectador preços, taxas escorchantes, sobretudo considerando o “plus a mais” do estacionamento, por que os outros teatros não podem? Hein, hein, hein, hein??? Mistério daqueles para os quais sabemos a resposta: incompetência, preguiça de fazer o dever de casa, desejo de lucro fácil, e mais que tudo falta de respeito pela inteligência e bem-estar do público de teatro.  E interessante que nunca vi nenhum movimento da classe teatral, tão cônscia, participativa, informada, sobre o tema.  Com preços justos, realistas, adeus à meia-entrada estudantil. Com essa combinação, todos ganharíamos.

A peça tem Marcelo Médici em uma dezena de papéis e Ricardo Rathsam que está muito bem. Direção de Mira Haar (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/11/15/musica-musica-musica/).

Havia visto Marcelo Médici em Cada um com seus pobrema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/02/19/cada-um-com-seus-pobrema/). Espetáculo divertido, mas que exigia menos do ator em termos de troca de figurinos, adaptação à personagem. O ator é uma figura simpática, pelo menos foi essa a impressão que me ficou de algumas entrevistas a que assisti. Seu carisma conquista a plateia.

A peça explora algo muito parecido com O Mistério de Irma Vap (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/03/30/o-domingo-prometia-mas-nem-tanto/), com o próprio Médici e Cassio Scapin, a que também assisti.  Uma reedição do ótimo espetáculo encenado por Nanini e Latorraca na década de 80.  Em Irma Vap havia uma centena de trocas de roupas, pois os dois atores representavam meia dúzia de personagens cada um, ou pouco mais.  E essa é a fórmula de Eu era tudo pra ela.  Médici, que aprendeu direitinho o ofício, transita por uma dúzia de personagens, homens e mulheres, e faz trocas de figurinos em segundos. Claro que só trocar a roupa não é tudo. Ele encarna mesmo a nova personagem como mágica.  O espetáculo é divertido, todo personagem agrega um riso à peça. E na mesma linha de Irma Vap há uma história com sequência tresloucada e envolta em mistério crescente.

Interessantíssimo o cenário de Marco Lima!  Tudo se passa ali, diante dos olhos da plateia. Uma casa que se transforma em várias; áreas externas que se transformam em internas; tudo manipulado por um dos atores, sem esforço, em segundos. Super bem bolado!  A iluminação também faz a diferença. E palmas para quem idealizou e para quem confeccionou o figurino: funciona feito relógio.

Um espetáculo levinho, cumpre o prometido, i.e., fazer o espectador rir (uns mais, outros menos), e não é dos mais caros. Quer diversão descompromissada e de bom nível? Vale ver.

17

de
outubro

Assim que eu gosto

Montes de coisas interessantes, lindas, e de graça.

1) Mariko Mori no CCBB (http://www.bb.com.br/portalbb/page508,128,10168,0,0,1,1.bb?&codigoMenu=9904)

A exposição terminou ontem (domingo).  Fiquei muito curiosa pela nave espacial imensa montada no saguão do centro cultural.  E a gente podia embarcar nela. Então não poderia perder.

As obras da Sra. Mori (http://en.wikipedia.org/wiki/Mariko_Mori) são bacanas, “mudernas”, interativas (disso gostei muito).  Mais que de valor artístico, imagino, suas obras são lúdicas, estão aí para intrigar, encantar, divertir.  Mais que isso, não.

Além dos vídeos um tanto quanto sem pé nem cabeça, pelo menos para meu intelecto e que não deixam de ser interessantes, há instalações com luzes que se alternam, ETs que adquirem vida quando tocados (muito simpatiquinhos- vejam neste link goo.gl/UXrtt), aquarelas e vídeos pelos andares, e a espaçonave. Aaaah, a espaçonave…ninguém soube informar direito (shame!) mas parece que ela é feita de fibra de carbono. O interior é de um material que parece um gel denso: confortável, molinho. Entram apenas 3 pessoas de cada vez, a sessão leva uns 10 ou 15 minutos.  Há uma área de preparo em que se deve vestir uma meia antiderrapante e um chinelo, além de eletrodos.  Na base da escada, dexa-se o chinelo e aí só de meia. A portinhola é meio baixa, incômoda de passar, mas nada dramático. Os eletrodos são conectados a um equipamento no interior na nave e interferem nas projeções: se a pessoa está nervosa ou ansiosa as projeções assumem tal e tal cor e forma, se está tranquila tal e tal, e funciona, viu!  Uma experiência no mínimo curiosa.  Valeu ver.

2) Caixa Cultural - Sé (http://www.caixacultural.com.br/html/main.html)

Lá vi três mostras interessantes (vai entrar uma nova no dia 22).

Primeiramente Gian Calvi (http://www.giancalvi.com.br/). Ilustrações lindas, lindas: para selos, para revistas, para livros, para tudo.  Imagens bonitas, coloridas, criatividade a toda. O título da mostra, Gian Calvi - 50 anos vendo as coisas de outro jeito, não poderia ser mais apropriado. Reinvenção constante, plástica, lúdica, e que faz refletir.  Para minha sorte consegui um catálogo da mostra que não tem farta distribuição. Dá para ver e rever muitas vezes e se encantar sempre. A exposição fica até novembro.

Depois  Rubens Gerchman (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rubens_Gerchman). Outra mostra colorida, que faz bem aos olhos. A série Beijo é fantástica.  Não conhecia a obra do artista (serigrafia, litografia), fiquei fã.  Fica até dezembro, vale ver.

E por último: Direitos humanos - imagens do Brasil.  Um conjunto de umas 50/60 imagens sobretudo do período da ditadura recente.  Há fotos chocantes, sem dúvida.  Para quem visitou as exposições dedicadas ao tema na Estação Pinacoteca é um bom complemento. Há fotos inéditas inclusive, segundo a CEF.  A identificação das fotos está muito bem feita, portanto, mesmo para quem não conhece o tema, a exposição é bastante pedagógica, instrutiva. Também fica até novembro.

24

de
setembro

Quantidade também pode ser qualidade

Nesta semana, fui ver mais um Ensaio Aberto na Sala S. Paulo. Esses espetáculos são tudo de bom. A gente vê a orquestra praticamente pronta, de um ângulo interessante (do Coro), a um preço ótimo (R$ 10/inteira).  O ensaio, em geral, leva umas 2 horas mais ou menos. Se há convidados, eles estão ali fazendo o que farão no concerto “de verdade”.  Nesta semana fui ver Kristjan Järvi (http://www.kristjanjarvi.com/), regente, e Yuja Wang ao piano, interpretando Leonard BERNSTEIN - On The Town: Três Danças, Sergei PROKOFIEV - Concerto nº 3 para Piano em Dó maior, Op.26 (a pianista só participou desta),  Sergei RACHMANINOV - Danças sinfônicas, Op.45.

O maestro, que vive nos EUA, é modernoso em sua postura.  É dado como “novidadeiro”.  É carismático, foi simpático com a orquestra, fez suas críticas e correções.  Tem uma postura corporal interessante. A pianista é bem low profile.  Entrou quietinha, tocou sua parte e foi embora sem mais.

No intervalo um café gostoso no meio dos músicos que também são gente, oras!, e precisam de um café, uma água, de um respiro.

A OSESP sempre vale a pena, principalmente nessas condições de preços módicos. O ambiente é ótimo, só que tem gente que vai para esses ensaios e não tem noção de onde está. Conversam, comentam, e em voz alta. É brinca?  Só olhando feio…e olhe lá. Popularizar também tem seu lado ruim.

O próximo grande ensaio será no dia 13/10, com Maria João (pianista).  Tentei comprar, mas já estava esgotado, afinal os lugares no Coro são poucos.  Fica para outra.

Aproveitando a proximidade, fui à Estação Pinacoteca. Primeiramente, almoço no Flor. Gostosinho, barato, i.e., custo x benefício ok, além de ficar num espaço amplo, arejado, tranquilo. Depois passada na lojinha, modesta, mas com umas coisas bacanas. Soube ali que o Paulo von Poser, (http://pt-br.facebook.com/pages/Paulo-von-Poser/119873548300), que tem obras bacanas, doa desenhos para a Pinacoteca produzir itens como lápis, cadernos, etc. Bacana, né?

Na Estação vi de novo a mostra da Fundação Nemirovsky (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/07/02/ready-steady-go-o-final/) (http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=539&mn=100). Acho que não vou me cansar nunca de vê-la.  Aliás, só nesse dia uma amiga chamou-me a atenção para o fato (que está em letras garrafais) de que a casa (maravilhosésima) da família foi demolida em 2005.  Que coisa!  Não vi passeata, protestos, nada…Um dia passo na R. Guadelupe 778 para ver o que está por ali agora.

Também vi uma exposição de fotos: http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=562&mn=100. Gostei de uma coisa ou outra, mas não sou bom termômetro para avaliar mostras de fotos, já que não sou fãzona da mídia.

Voltei à mostra do Memorial da Resistência ali mesmo. Explorei um pouco mais as mídias disponíveis, vi coisas de que não lembrava. E no espaço do Memorial, a grande surpresa: Arpilleras da resistência política chilena (http://www.pinacoteca.org.br/pinacoteca/default.aspx?c=exposicoes&idexp=560&mn=100). Então…você já tinha ouvido falar disso? Eu não.

Uma exposição linda, emocionante.  Segundo folder “a arpillera é uma técnica têxtil que possui raízes numa antiga tradição popular. Foi iniciada por um grupo de bordadeiras de Isla Negra, localizada no litoral central chileno.” E foi uma arma poderosa, reconhecida mundialmente, na luta contra a ditadura chilena. Os painéis são lindos, lindos! Contam tragédias e alegrias de um jeito único. Há até uma animação feita com base nas telas.  Fiquei boquiaberta, encantada! Só vendo ali de pertinho para ter a dimensão do que esse trabalho representou/representa. Há peças de várias partes do mundo. Gente que viu no trabalho das bordadeiras seu verdadeiro valor. Vale muito conhecer, ou ver/rever.

E para arrematar: Eu te amo mesmo assim, no repaginado Teatro Itália (http://teatroitalia.com.br/). Mas antes, claaroo, uma passadinha no Dona Onça que, não me perguntem por que, ainda não tem sua página…em tempos tão internéticos e considerando a qualidade da casa não dá para entender. De todo jeito, a casa é ótima. Experimentei um dos pratos novos, ótimo para a noite em vias de esfriar: capeletti num brodo de funghi neri e musse de morango. Ambos deliciosos. A coisa não é barata: pratos (sem couvert), água, serviço, quase R$ 75.  Mas a comida e o lugar compensam, eu acho, uma visita de vez em quando.

O espetáculo Eu te amo mesmo assim (http://vejasp.abril.com.br/teatro/eu-te-amo-mesmo-assim) foi recomendado por um amigo. Como confio no taco dele, fui. Ainda bem, senão teria perdido um musical de altíssima qualidade. Nenhum cenário, sem troca de figurino, dois atores no palco (Laila Garin - voz maravilhosa, ótimas interpretações de músicas e texto; Osvaldo Mil - voz não tão maravilhosa, mas muito boa, interpretações idem, carismático), Banda Podre (hein?), linda iluminação. Não precisou mais que isso para conquistar a plateia. Quem diria: textos de A arte de amar de Ovídio (isso, ele mesmo, 43AC-17DC) com poucas adaptações, intercalados por músicas muito bem escolhidas e interpretadas.  Uma hora e meia aproximadamente de um espetáculo delicioso.

O teatro recebeu uma ajeitada, o café é bacaninha e com bom atendimento. Faltou mexer nas poltronas que são vetustas, mas ainda assim não desconfortáveis de todo. No mais, atendimento cortês, bom preço, palco bacana, banheiro limpo, mas antiquésimo.

Interessante a escolha do texto. Coincidentemente, li A Arte de Amar há 3 anos quase que exatamente (http://mskeller.blog.terra.com.br/2008/10/29/o-que-e-o-que-e-ou-melhor-quem-e-quem-e/) e, à época, surpreendi-me com as certezas, modernidade, coragem do autor milenário. Tudo que está por todas as revistas femininas, livros que tratam de relacionamento homem x mulher, auto-ajuda na área tem um pézinho em Ovídio.  Vale ler o livro que, além de tudo, é bem humorado.

Se puder, veja o musical que fica até meados de outubro por aqui. Pertinho do metrô, local de fácil acesso.

13

de
setembro

De grão em grão…

Ou de filme em filme, de peça em peça…e por aí vai.

1) Viagem de Lucia (Il Richiamo - http://www.imdb.com/title/tt1463167/)

Por que um filme não tem informação no Imdb, nem em sites italianos comme il faut?  Porque grande coisa não deve ser, oras!

O filme acabou sendo bem agradável para mim, porque boa parte se passa em Buenos Aires e é falada em espanhol, e depois passa ao italiano. As duas protagonistas, Lucia e Lea, são italianas que vivem e se conhecem na Argentina.  Foi interessante porque voltei a estudar italiano e a contaminação pelo espanhol é meu drama.  No entanto, ver as duas línguas juntinhas, em alternância, foi muito interessante e gostoso. Realmente são irmãs.  Pudera a gente fazer desse jeito.  Mas não, então dá-lhe estudar para eu não fazer o maior pasticcio ou lio.

A história é um tanto confusa. Há uma parte específica em que até me perguntei se eu tinha perdido alguma coisa, dormido, ou sei-lá-eu-o-quê, tal o salto ou a quebra injustificados, eu diria. Duas mulheres de perfis completamente diferentes: uma jovial, alegre, meio irresponsável, novinha, e a outra séria, profissional, casada.  Elas se conhecem porque uma quer ter aulas de piano e a outra, devido a problemas de saúde, deixa o trabalho de aeromoça e passa a dar aulas de? P I A N O.  Olha que coisa…

As diferenças ficam evidentes no início da relação e parecem intransponíveis, evoluindo rapidamente para uma relação homossexual. Um negócio bem vertiginoso.  Pronto, contei.  Bem, espero que vocês não vejam o filme. Não que seja pior do que muitos a que assisti, mas tem coisa melhor por aí.

A fotografia é bonita em vários trechos, a música assim-assim, agora o enredo, que até pode ser a vida de muita gente, é mal costurado, então vira um negócio inverossímil. Achei as atrizes principais até que simpáticas, bonitas, mas há momentos em que, sobretudo Francesca Inaudi, Lea, perde a oportunidade de sair do raso. Não foi um filme ruim, mas eu esperava muito mais.

2) Trio Canzona - SESI Paulista (http://www.sesisp.org.br/home/2006/centrocultural/Prog_Music_Result5.asp?id=83)

Tenho ido outras vezes ao SESI para os espetáculos de música gratuitos (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/05/uma-festa/).  Desta vez, música barroca. Bem interessante sobretudo pelas explicações que os músicos nos dão ao interpretar as peças.  O trio alterou um pouco a programação, tocando mais Bach do que estava no programa. Foi muito bom!

Nunca tinha visto um cravo como o que utilizaram, nem havia estucado o fagote barroco (acho).  Uma horinha de música às 12h, no domingo. Uma delícia!

3) Nelson Leirner (http://www.sesisp.org.br/home/2006/centrocultural/Prog_expo.asp)

Também no SESI Paulista, e gratuita.  Novamente uma exposição muito bem montada.  Olhando para os milhares de itens de “coleção” ali expostos, dá até uma “angústia” de pensar no trabalho para arrumar e desmontar tudo aquilo.

A exposição é colorida, bonita, divertida.  Gostei mesmo das gravuras e nanguins, mas o restante da exposição também é muito interessante.  Ah, e a Disney, Super Poderosas, Turma da Marvel, etc., agradecem. Vá ver para entender.

8

de
setembro

Guilherme de Almeida

Sim, eu sei, eu sei…quem???? Pois é, apesar do nome, de ser considerado o “Príncipe dos Poetas”, de ter uma produção extensa, etc., etc., etc., quem aí leu de fato um livro ou livros de Guilherme de Almedia? (meu amigo Fabrício não vale). Um pouco de informação: http://pt.wikipedia.org/wiki/Guilherme_de_Almeida.

Eu conhecia o autor desde a escola, mas beeem por cima. Sempre essa cara séria, de poucos amigos. E o que ele fez? Participou da Semana de 22; teve um trabalho conjunto com vários modernistas; lutou na Revolução Constitucionalista; tem um monte de livros e poemas, livros aliás avançados em termos de conceito, em termos gráficos; traduziu de monte em várias línguas; é o autor do texto que está lá no Obelisco do Ibirapuera e está enterrado ali;escreveu hinos como A Canção do Expedicionário - eu sabia de cor e sabia que ele escreveu a letra (ouçam: é bem bacana - http://www.suacara.com/expedicionario.htm). E só!  Sóóóóó?

Em dezembro, pouco após a reabertura, fui visitar a Casa de Guilherme de Almeida (http://www.casaguilhermedealmeida.org.br/). Pertence ao Estado, foi vendida por sua esposa após sua morte. Post da época: http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/12/16/quase-pedi-agua/.

Voltei lá nesta semana. A casa está linda (acho que mais que antes). Muito bem cuidada, a área para atividades culturais ganhou bancos, está muito bem estruturada. Pude rever o “pequeno tesouro”, como disse meu amigo: obras de Tarsila, Anita, Brecheret, Di Cavalcanti, Segall…G. de Almeida era respeitado, querido e esteio de muitos pelo visto.  Foi um prazer voltar à casa. A visita monitorada, como da outra vez, foi excelente. Pessoal preparado, que gosta daquilo, que quer valorizar o espaço.

É um lugar para visitar muitas vezes, já que o acervo é interessantíssimo.

Desta vez ganhei cópia de dois textos do poeta.  Transcrevo abaixo, pois acho que vale muito lê-los. Espero que gostem tanto quanto eu.

obs.: grafia atual

A Casa da Colina

-Que ideia a sua, ir morar naquele fim de mundo!

Era o que me diziam os amigos quando, há doze anos, construí a minha casa nesta colina, a oeste do vale do Pacaembu.

Fim de mundo?…-Podia mesmo parecer isso. Rua curva, corcovada, de um só quarteirão e com três casas somente (a minha foi a quarta) separadas por terrenos sem muro nem cerca e eriçados de mato hirsuto e anônimo – era apenas uma estrada rústica. A nota agreste: - ponto alto e deserto exposto a descabeladas ventanias que assobiavam noite e dia; e, numa árida escarpa, a uns quarenta metros dos meus muros, o ninho de todos os gaviões que erguiam voo – Pinhé! Pinhé! – e iam, lá longe, fisgar os pardais da Praça da República. A nota fúnebre: - no jardim da casa fronteira, uma lâmpada triste, única iluminação da rua, pendia de um “L” invertido feito de fortes vigas de perobas que formavam exatamente uma forca; e atrás, em pano-de-fundo, parte pobre de um cemitério, uma encosta semeada de túmulos e cruzes. A nota gloriosa: - no horizonte, ao norte, fechando a perspectiva de rua, o recorte pontudo do Jaraguá, o “Senhor do Plaino”, primeira numeração de ouro no Brasil, e, sobrelevando o apinhado central, a sudeste, o Banco do Estado, ascensional, alo obus de louça, com a sua ogiva de luz fluorescente nas noites caladas. A nota simbólica: - com o Estádio Municipal, que é toda a alegria da Vida, de um lado, e , de outro, a necrópole do Araçá, que é toda a tristeza da Morte, assim, entre os dois extremos da contingência humana, a minha rua ia indo filosófica, indiferentemente. A nota pessoa: - aí assentei a minha casa, porque o lugar era tão alto e tão sozinho, que eu nem precisava erguer os olhos para olhar o céu, nem baixar o pensamento para pensar em mim.

E a minha casa me fez fazer, entre os meus “Dez Versos para a Casa da Colina”, este verso:” A estrada sobe,pára, olha um instante, e desce”…

Ora, eu subi, parei, olhei, um instante, e fiquei. Fiquei vivendo a vida daquele suposto fim de mundo, que era de fato um começo. Começo de um pequeno mundo que eu vi, dia a dia, ir-se fazendo em torno de mim. Todo aquele caos primitivo foi-me pouco a pouco, encantando. Quando das grandes chuvas, o lamaçal, escorrendo pela rampa, fazia atolar-se ali embaixo, nas valetas de confluência, automóveis e guinchos. Os “chauffeurs” de praça deixavam a gente na esquina, recusando-se a subir, com medo da derrapagem. Um muro do cemitério ruiu, certa noite, minado pela enxurrada a gorgolejar, levando ladeira abaixo ossadas humanas…

Assim mesmo, mais duas ou três casas ergueram-se, bonitas e corajosas, na minha estrada. E, por uma bela manhã do ano 1950, surgiram autoniveladoras, rolos compressores, caminhões despejando pedra britada e tambores de piche, aplainou-se o leito carroçável; assentaram-se os meios-fios; e, de ponta a ponta, desdobrou-se pela estrada uma grossa, negra e lisa passadeira de borracha.

Asfaltada a rua, multiplicaram-se logo, nos terrenos baldios, as tabuletas com uma designação de metragem e um número de telefone. E foram desaparecendo as tabuletas e aparecendo uns homens que abatiam o mato e deitavam-lhe fogo. Outros, com caminhões descarregando enormes tábuas servidas. Mais outros, construindo com tijolos usados uma espécie de maloca, que tinha um fogareiro dento, fumegando. Outros mais, que nivelavam o terreno, esticavam barbantes presos a pequenas estacas, desenhando no chão um problema geométrico. E ainda outros, trazendo pedras, tijolos, telhas, cal, cimento, areia e cerâmica, e abrindo fossas retilíneas das quais subiam, verticais ao mando de um fio de prumo, puras, viçosas, claras, as casas novas. Não tardou muito, a Light plantava, ao longo dos passeios cimentados e gramados, oito postes de concreto: e na ponta dos seus braços de cano de ferro, acenderam-se, numa só noite, as oito lâmpadas. Foi a festa da rua.

Começou a haver, então, criançada batendo bola, empinando papagaios, pedalando bicicletas, riscando a giz no asfalto a “amarelinha”. Carros estacionados a frente das casas. Gente conversando nos portões. A buzina do tripeiro e o pregão do fruteiro. Domingos de “short”. Corretores e interessados, que chegam de automóvel, param junto aos poucos lotes restantes à venda, farejam, tomam nota e…

Que ideia, a minha, vir morar tão perto do centro!

Ela está ali mesmo, a Cidade Desumana, a seis minutos de auto e quinze de ônibus. Ali mesmo, onde a joalheria dos cartazes-luminosos enfeita as noites turbulentas. Ali mesmo…Que ideia a minha!

Mas, não. Eis o noturno da minha mansarda encarapitada nesta colina, isolada na altura. Corro os caixilhos da janela. E ouço São Paulo. O bojo acústico do Pacaembu está aí embaixo. Ausculto-o. Nele reboa e chega-me aos ouvidos – como se escuta nas conchas um oco marulho de distante oceano – o surdo murmúrio da urbs absurda. E ela me parece tão longe, tão longe, que isto aqui, graças a Deus, é mesmo um fim de mundo.

Guilherme de Almeida / sem referência de data ou fonte

Escada de Minha Mansarda

Março, 28

Íngreme, estreita, escura e curva é a escada que sobe para minha mansarda.

Capaz de desanimar os velhos fôlegos cardíacos, nunca, entretanto, intimidou meu já muito vivido coração. Pelo contrário: leva-me leve, alado como os anjos da escada de Jacó.

Jamais me arrependi de tê-la subido. Sempre me arrependi de tê-la descido. Porque é mesmo uma ascensão ir pelos seus degraus acima: um desprendimento do rasteiro, numa ânsia de quietude, isolamento e sonho, para o pleno ingresso nos meus Paraísos Interiores. E porque sempre uma degringolada ir pelos degraus abaixo: uma humilhante devolução ao mundo de todo o mundo, uma expulsão de réprobo atirado impiedosamente às ganas da caterva.

Escada de minha mansarda…

Chego, pesado, do dia cretino e pornográfico, esbanjado entre interesses desinteressantes, palavrórios e palavrões, mandos e desmandos, incompreensíveis incompreensões…

Chego. O fardo é exaustivo. Enfrento a escada. Parado, um instante, deixo ir por ela o olhar e o pensamento. Já isso é um alívio. O mundo, que eu piso, assume, então, certa importância: a de um capacho. Na sua áspera fibra limpo a sola dos meus sapatos. Lá, no topo, está a libertação.

E subo, contando os degraus, que vão ficando cada vez mais fáceis. E eu vou ficando cada vez mais leve. Mais fáceis…Mais leve…Mais…

Pronto!

Aqui não há leis: nem mesmo a da gravitação terrestre.

Aqui é um ponto fixo no espaço. Talvez aquele por que suspirava Arquimedes: - “Dê-me um ponto fixo no espaço que, com uma alavanca, eu moverei a terra!”

Eu tenho esse ponto. E basta. Não quero alavanca. Porque a terra não me interessa.

Guilherme de Almeida (Coluna “Ontem – Hoje – Amanhã”, no jornal Diário de São Paulo)

27

de
agosto

Miscelânea total (III) - o fim

Agora chegou!  Estou até ouvindo mentalmente Carmina Burana de fundo… Apoteose a caminho, ou quase…

5) Irmãos - o Xingu dos Villas-Bôas ((http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=197948))

Depois de ver Lamartine Babo (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/08/26/miscelanea-total-ii/) no SESC Pompéia, aproveite para ver a exposição, ali mesmo.

Como todas as exposições do SESC, esta também estava primorosamente montada. Desde a entrada (um”túnel” de cordas, e peças indígenas,pedras, cacos) até as fotos, os painéis explicativos, a utilização dos laguinhos do SESC para projeção, e canoas indígenas para a criançada entrar e se sentir rio abaixo, rio acima, tudo fantástico. Até um helicóptero que os irmãos usavam para se locomover pelas áreas que visitavam está lá para a gente ver e entrar.

Mesmo sem conhecer direito a história dos irmãos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Irm%C3%A3os_Villas-B%C3%B4as), sempre me passaram confiança, integridade, verdade de propósitos.  Lendo os painéis sobre sua vida e trabalho, deu para entender que toda a garra, vontade de conhecer, integrar e proteger veio de casa. O pai já era um defensor da causa indígena.

Tudo começou com o Marechal Rondon, que teve muitas de suas ideias seguidas e ampliadas pelos Villas-Bôas. Não resta dúvida de que, desde o começo, os propósitos eram verdadeiros, corajosos, cidadãos. Se a coisa não deu certo pelo que vemos hoje, e.g., a atuação pavorosa da Funai, não foi culpa do ideário e ações de Rondon ou dos Villas-Bôas, mas do desprezo pelo tema de governo, após governo, e da falta de interesse em formar gente capacitada para o trabalho, o transformou a Funai num cabidário de empregos para atender a demandas e conchavos políticos

Uma exposição importante, informativa e lúdica. Vai até início de setembro e é de graça.

6) Ensaio Geral Aberto da OSESP (http://www.osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=2002)

Pois é, a OSESP/Sala S. Paulo tem disso. Há uma programação de concertos abertos, em geral em quintas-feiras, às 10h. Claro que não dá para todo mundo ir, mas quem pode é um felizardo.  Pode-se comprar o ingresso pela internet e o custo é de $10 ou $5, mais taxa. No meu caso foram $5,75.

O espaço reservado para o público pagante é em geral o Coro. Nas frisas laterais, ficam aqueles que contribuem para a Fundação e podem assistir ao concerto de graça (são convidados). A OSESP tem um importante programa para levar a escola à sala de concerto. Em vários desses ensaios há a presença de centenas de estudantes. Eles lotam a plateia central.  Relatei, em outubro passado (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/10/28/aleluia/), o ensaio a que assisti de Antonio Meneses.  Os estudantes daquela data fizeram muita algazarra, barulho, deram trabalho aos monitores.  Os desta semana foram muito mais comportados, civilizados.

Quis ir ao ensaio para ver a nova maestrina em ação. A Sra. Marin Alsop é grandiossa: firme, porém gentil, educada.  Não sou entendida para julgá-la tecnicamente, mas algumas intervenções dela durante o ensaio fizeram muita diferença até para meu ouvido pouco sensível.

Além disso, uma grata surpresa: havia um violinista francês convidado (Renaud Capuçon) que interpretou Erich Wolfgang KORNGOLD, Concerto Para Violino em Ré Maior, Op.35. Eu não tinha ideia do que seria, mas foi lindíssimo.  A ida já valeu pela primeira parte do ensaio.  A segunda parte, muito forte, Sergei PROKOFIEV,Sinfonia nº 5 em Si Bemol Maior, Op.100. Não aprecio muito, mas gostei mesmo assim.

Depois aproveitei para conhecer o restaurante da sala que abriu há um ano ou pouco mais talvez. O lugar é bonito, o atendimento bom, mas o bufê é bem fraquinho. A comida é gostosa, mas as opções são poucas e pouco criativas. E caro para o que oferece: R$ 31,00 incluindo uma água e o serviço, sem sobremesa.

Depois café na Dulca e um docinho e passagem pela “lodjinha” mantida pela Zona D.

Gosto demais da Sala S. Paulo e da OSESP. O fato de trazerem maestros internacionais para reger a orquestra, num sistema de rodízio, só pode agregar. Percebi também, de onde estava assistindo ao concerto, que a orquestra mudou:menos mulheres do que antes e muito mais músicos de mais idade. Talvez seja um sinal de que  a orquestra deixou de ser um “trampolim” para músicos internacionais e nacionais mais jovens, i.e., apenas para constar de currículo, e está se transformando no objetivo de músicos experientes daqui e de fora. Tomara que seja isso.

7) Pastel da Maria (http://www.pasteldamaria.net.br/)

Pois é, a Maria ganhou de novo como o melhor pastel de SP.  A final foi na segunda-feira passada, na Praça Charles Müller.  A intenção era ir lá, mas estava frio demais e começou a chover. Aí não deu. Mas como moro no melhor bairro de SP, do Brasil e do mundo, o que é que tem aqui? Uma loja do Pastel da Maria.  É um lugar amplo, arejado, limpo, com bom atendimento. O pastel sai um pouco mais caro que na feira, mas a comodidade  justifica.

Fazia tempo que não ia por ali. Aproveitei para experimentar o pastel campeão e um de palmito. O de carne é muito bom (não como de carne normalmente, pois acho sempre o gosto meio estranho) mesmo, mas o de palmito nem tanto quanto o das senhorinhas japa de minha feira (Antonio Bicudo - quintas-feiras). Comprei um doce também, mas só vou comer mais tarde. Parece delicioso. A massa é muito gostosa, bem crocante e sequinha.

Parabéns para a Maria e seu pessoal. Ser pasteleiro não é fácil, não.

Depois de comer meu pastel, veio à memória que lá atrás, quado eu era adolescente, havia várias pastelarias em Pinheiros. Todas de chineses. De repente foram sumindo e agora só mesmo a da Maria. Essas mudanças vão acontecendo e a gente nem se dá conta. Quando vê, já está tudo lá no passado.

20

de
agosto

Gol de placa

Não se animem! Não gosto de futebol. Já gostei um dia, mas faz muito tempo. Depois que o esporte tornou-se essa coisa mercenária, com um monte de gente tresloucada virando ídolo, influenciando (mal muitas vezes) massas, e ganhando zilhões injustificadamente, pendurei as chuteiras.

Maaas…mesmo não tendo mais apreço pelo futebol, não dá para não gostar do Museu do Futebol de S. Paulo, ali no Pacaembu.  Havia visitado o local faz um tempinho (http://www.museudofutebol.org.br/historia/). Gostei muito já daquela vez.  O conceito é ótimo, as informações são passadas de forma amigável (e são muitas!), bem organizadas, a apresentação é bonita, lúdica, eu diria. A interatividade é fantástica!  O museu é bem orientado, i.e., a gente não deixa de visitar nada. É bem mantido, tudo funciona, o que é um milagre por aqui.  O ingresso também é bem razoável: R$ 6 e R$ 3.  A pena é que o acesso não é dos mais fáceis para quem depende de transporte público.  É um museu nota dez, aliás outros museus deveriam tê-lo como modelo.

Um único senão, aliás dois, não, três (eu sou chatinha mesmo): (a) a lojinha tem coisas muito caras (camisas, bolas, chuteiras).  Poderia ter mais itens exclusivos do Museu, com a marca de lá, e de preço mais modesto.  Só tem lápis, caneta, uns chaveiros, estes nem tão baratos assim; (b) o restaurante ocupa uma área privilegiada. Em dia de sol, uma delícia ficar por ali: grande, arejado, iluminado. Só que o local não prima muito pela limpeza. Há um certo desmazelo.  Há pratos e lanches de preço razoável, mas muitos pratos têm o preço de restaurantes muito mais bem montados. O serviço foi bem simpático. Mas o lugar merecia um ambiente mais bem cuidado; (c) na sala em que estão informações, fotos, vídeos de todas as copas (sala ótima, fantástica mesmo!) falta a de 2010 (http://pt.wikipedia.org/wiki/Copa_do_Mundo_FIFA_de_2010). Estamos em meados de 2011!  Não deu para atualizar as informações?

O pessoal do museu também é muito simpático e prestativo.

Ah, e estão com uma exposição temporária: Olhar com outro olhar.  Se o visitante quiser (eu fiz isso e recomendo), ele é vendado e com a ajuda de um monitor faz um percurso com informações em braile, depois uma maquete que a gente tateia é descrita por um narrador para que a gente tente criar a imagem mentalmente (tato + informações orais), e só depois tira a venda. Aí se vai para uma sala escura em que é projetado um filme do futebol de cinco (http://www.cpb.org.br/esportes/modalidades/futebol-de-cinco). O que a gente vê é fantástico!  Só o goleiro enxerga e os jogadores são guiados por uma pessoa atrás do gol adversário, pela bola com guizos, e.g.: para a direita, em frente, junta mais…e por aí vai.  E não é que eles fazem lindos gols?  Olha aí Mano Menezes, quem sabe esse pessoal do futebol de cinco não vai melhor que os “craques” que ganham seu peso em ouro para vestir a camisa da seleção?

O objetivo da exposição é mostrar ao visitante vidente o futebol dos cegos e fazê-lo vivenciar as dificuldades de um deficiente visual que visita uma exposição. Com as informações coletadas, pelo que entendi, a ideia é criar um circuito compatível para portadores de deficiência visual.  Bacana ou não é?

O “espírito” do museu é muito interessante: aberto, simpático, inovador.  Não vai me fazer voltar a gostar de futebol, mas com certeza vai me fazer voltar para outras exposições temporárias.

Detalhes para visitação (atenção! Às quintas é gratuito): http://www.museudofutebol.org.br/historia/visitacao/horarios-e-ingressos.html

E minhas fotos feitas por lá. Estão piores que a média, pois fiz com o celular. Na sexta era Dia do Fotógrafo, então excepcionalmente permitiram fotos sem flash. Infelizmente, eu estava sem minha microcâmera, mas acho que mesmo assim dá para ter uma ideia do lugar. E havia nesse dia também a possibilidade de participar de um concurso, com bons prêmios em $ para a melhor foto. Outra iniciativa bacana.

https://picasaweb.google.com/lh/photo/pRec-j8Lz3U-6ayhtAFBTw?feat=directlink/

(copiar e colar este link)

7

de
agosto

Colocando o blog em dia

Deu preguiça… mas fazer o quê? Todo mundo passa por isso na vida, certo? Mas vamos colocando o blog em dia e rapidinho…

1) Louise Bourgeois e Coleção de Fotos da Telefônica no Tomie Ohtake (http://www.institutotomieohtake.org.br/inicio/teinicio.htm)

Já havia mencionado ter estado no Instituto Tomie Ohtake (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/08/04/andancas-da-semana/) semana passada, mas só falei do restaurante (Santinho).  Obviamente, vi as exposições que estão por ali.  A de fotos da Telefônica tem coisas bem interessantes (Vik Muniz, Helena Almeida, Andreas Gursky, etc.).  Só que foto não é muito a minha. Vejo e até aprecio, mas não sou aqueeeela fã.  De qualquer maneira, vale ver o conjunto exposto no ITO. E lembrando: exposições ali são de graça, o espaço é bacana, tem uma ótima livraria e uma lojinha proibitiva ao “úrtimo”, mas interessante de garimpar.

A outra mostra é das obras de Louise Bourgeois, aquela da aranha do MAM.  Ela faleceu recentemente, teve uma longa vida.  Há obras de que gostei (a top para mim é a que aparece na foto aqui de cima), mas achei tudo escatológico demais para meu gosto, ou ininteligível.  Explico: qual o valor, a não ser o financeiro mesmo por ter sido de uma artista renomada, de retalhos de cartolina com frases comuníssimas escritas com caligrafia claudicante? E a lápis? Podia estar em uma vitrine, mas penduradinho na parede como se fosse obra de arte?  E mesmo assim, para minha mente mediana, pela estética e conteúdo, valorizar isso é um tantinho demais. Enfim…Prepare-se para ver muitas referências eróticas (Da. Louise era fogo ou queria ser e deu um jeito de sublimar seus anseios), materiais bem diversificados, cores, um “aranhão”, e por aí vai.  Apesar de não ter gostado muito do conjunto, acho que vale ver, conhecer. Sempre ajuda a tornar a cabeça da gente mais elástica.

2) 3o. Arq!tour Centro de São Paulo (http://www.arqbacana.com.br/interna.php?id=8709)

Fotos que fiz durante o passeio: http://bit.ly/mUyG1o ou https://picasaweb.google.com/miriamkeller/Tourpredios30072011?authuser=0&feat=directlink.

Tenho feito vários passeios, nos últimos anos, com a Arq!Bacana. O anterior foi este: http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/08/22/quase-deprimi/.  Queria há muito fazer o do centro de SP.  Agora deu certo.

Sábado passado, fizemos um passeio a pé (muitos dos integrantes do grupo são arquitetos ou ligados a desenho, design, etc.) pelo centrão. Levou perto de 6 horas. Voltei ao Martinelli (nunca é demais mirar SP dali: http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/04/29/matando-vontades/), revi muitos lugares a que já havia estado: Pátio do Colégio, Mosterior de S. Bento, CCBB, etc.  Mas vi o que não enxergava: portais fantásticos, edifícios de sonho ques posso visitar durante a semana, pois hoje abrigam sobretudo bancos ou conjuntos comerciais.  Pude ver a recuperação do Edifíco Guinle, projeto de Hipolyto Pujos, o primeiro arranha-céu de S. Paulo. Pasmem, a Mundial Calçados está bancando a recuperação. Na frente do prédio a proteção é como em NY, por exemplo, traz o desenho do edifício como era originalmente e como deve ficar. Mais, nas sacolas em que os sapatos são embalados, a loja teve o capricho de imprimir a história do edifício e de sua recuperação. Lembrem-se: sapato agora, só Mundial… Vi também o Edifício Ouro para o Bem de S. Paulo, que tem o formato da bandeira paulista, e por aí vai.  Só com o tour mesmo,  pois quem, caminhando pelo centro tão conturbado, e por que não perigoso, da cidade vai ficar de boca aberta olhando para cima para ver essas belezuras? O guia forneceu informações muito interessantes, preciosas. Mesmo já tendo feito tantos tours do gênero pela cidade, sempre há algo a aprender.

Aliás, já de começo: saímos da Praça Antonio Prado, do relógio De Nichile. Vejam a história de algo por que passamos e nem nos damos conta: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/812482-relogio-de-75-anos-no-centro-e-liberado-da-lei-cidade-limpa-para-sobreviver.shtml.

Da mesmo forma que há empresas como a Mundial, o Magazine Luisa, e outros, que recuperam o espaço, há desleixo absurdo por outras partes (vejam a obra de Di Cavalcanti no Triângulo - depredada absurdamente). Essa irregularidade reflete tão simplesmente a falta de uma política inteligente, laboriosa (o pessoal é preguiçoso mesmo), comprometida de recuperar e/ou manter o patrimônio histórico. Quando temos um prefeito que quer vender quarteirões para poder cumprir promessa de campanha e pavimentar seu caminho político, o que mais podemos esperar da administração que está aí? Ainda mais numa cidade como SP, em que a arrecadação é altíssima, mal utilizada e alimento de corrupção como temos visto em vários casos, mas mais que suficiente para se fazer um bom trabalho. Além o aspecto financeiro, o psicológico é muito importante: a comunidade não trabalha junto com a administração pública, e ela seria o grande motor do bem-estar para a cidade. E por que isso? Porque não confia, não acredita. EU não acredito, infelizmente. Portanto, diante de nossos olhos, o patrimônio histórico da cidade se esvai. A gente fica torcendo para que o empresariado consciente pipoque por aí para retardar esse processo.

Ah, e que desserviço os vários órgãos da Prefeitura instalados em edifícios históricos (e.g. Martinelli e outros à volta). Não só não cuidam como deveriam como impedem o acesso do cidadão. Não podemos visitar a casa onde morou Martinelli,no topo do edifício, porque tal secretária está lá; idem para o jardim do Banespinha; e o mesmo para vários outros prédios pela região. Por que não põem todo esse pessoal junto em algum mastodonte sem graça de que a Prefeitura seja dona (ela o é de montes de prédios) e devolve o que é de valor histórico integralmente para a sociedade?  Sei que vou morrer e não vou ver isso. Uma pena!

No link da Arq!Tour há uma boa descrição de todo o passeio.  Ah, e vejam um vídeo sobre o projeto Bicicloteca (livros para moradores de rua). A pessoa que instituiu o projeto e está no vídeo foi morador de rua também. O homem é superarticulado, inteligente. Ai, eu penso…como pode?  Esse é um daqueles projetos de sonho que a gente torce (e tem de ajudar de alguma maneira) para dar certo. Resgatar a dignidade humana não tem preço!

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