Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

20

de
fevereiro

Boas e más

1) Reis e Ratos (http://www.imdb.com/title/tt2182085/)

Rodrigo Santoro 23Nov2011

Nem vou escrever muito. Valho-me desta crítica: http://omelete.uol.com.br/reis-e-ratos/cinema/reis-e-ratos-critica/.  Eu não pensava em ver o filme de imediato, não era prioridade. Um amigo preferiu esta opção entre outras que ofereci, então vamos lá. Não seria sacrifício, afinal Selton Mello (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/11/10/brilhos-diferentes/) de quem gosto muito, também Rodrigo Santoro  (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/11/nada-a-ver-com-nada/) que goza de minha simpatia, faziam parte do elenco. Igualmente Cauã Reymond (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/11/nada-a-ver-com-nada/), aquele tipo bonito, mas menos que mediano como ator, Otávio Muller (não gosto, nem desgosto).  Surpresas boas para mim foram Rafaela Mandelli e Seu Jorge. Mais um quilo de secundários que se comportaram bem.

É o relato escrachado do golpe de 1964.  Está tudo lá (mas duvido que 90% dos espectadores jovens se deem conta/entendam): a mão da CIA, do governo americano, a cooperação militar Brasil/Estados Unidos, as quecas devido ao onipresente amadorismo nacional.  Como sempre digo: a ideia (do filme) é boa, o delivery é ruim.

Para mim foi um déjà vu do começo ao fim. Desde as falas sincopadas que me remetem a uma história em quadrinhos (quantos filmes já não se utilizaram disso) ou filme de super-herói; olhos semicerrados que pertencem a homens duros; muito palavrão, mas muito mesmo não sei para quê (tudo bem, a realidade é essa, mas isso é ficção, não documentário, então sejam criativos E refinados). Enfim, como diz a crítica do link acima, um filminho B e olhe lá.  Até a personagem de Rodrigo Santoro, over demais na desfiguração que eu já vi em tantos filmes por aí feita com mais competência.  O conceito é bom, mas o produto final é patético.

Único mérito: contar a história da época sem puxar para um lado ou para outro, com realismo (comédia DOS erros cometidos pela intelligentsia nacional) suficiente, com toque de bom humor. Pela qualidade discutível, o filme é longo demais. Pena que um plantel de atores bastante razoável tenha sido submetido a um resultado tão tosco.

2) Hugo (http://www.imdb.com/title/tt0970179/)

A Invenção de Hugo Cabret Poster

Não sei por que o pessoal que titula filmes continua fazendo isso comigo. No original: Hugo, por aqui A inveção de Hugo Cabret. Que invenção??? O moleque não inventou nada! Ainda vão criar problemas legais para a personagem: o verdadeiro inventor pode querer processá-lo. Tenha dó!

O filme é um bom Scorsese, que até faz uma pontinha (prestem atenção ao fotógrafo de cartola) como Hitchcock fazia.

O cast é de cegar de tantos talentos: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen (aka Borat), Christopher Lee, Helen McCrory, Jude Law (numa aparição rapidinha). O ator que faz Hugo, Asa Butterfield (o pessoal que dá nome às crianças pelo mundo afora poderia dar a mão ao pessoal da titulagem por aqui), que fez O menino do pijama listrado, Nanny Mcphee, está bem, mas não é tudo isso. Um tantinho inexpressivo, ‘mild”, só olhos, se é que me entendem.  Quem domina a cena é Chloë Grace Moretz, que faz a amiga de Hugo.  A menina dá de 10 a 3 no moleque.

O filme trata da história de Hugo (aquele não inventou nada), um menino de seus 12 anos. Já havia perdido a mãe e tudo ia razoavelmente até perder o pai.  Aí passa a morar na estação de trem e sua meta é consertar o autômato que seu pai lhe deixou. A história, da mesma forma que O Artista (http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/02/06/ainda-resta-uma-esperanca/), também trata das mudanças na indústria do cinema e suas consequências. Em O Artista, o ator do cinema mudo não se adapta à nova realidade do cinema falado e bate no fundo do poço; em Hugo, é o diretor/ator que vê o mundo mudar, os gostos, mas também não consegue se adaptar e também bate lá no fundo.  Interessante que num mesmo ano, dois filmes concorrendo a Oscars tenham uma temática incomum comum.

Gostei do filme, mas não acho que seja emblemático. A produção é riquíssima (em todos os sentidos), a trilha é bacana, a fotografia/cenário idem, figurinos refinados, mas é isso, tudo muito bom, tudo muito bem, mas já vi iguais e melhores com certeza. Achei o ritmo também um tanto lentinho em alguns trechos. E não é má vontade, hein! Vi o filme duas vezes: uma dublado e outra  legendado. É que o dublador do Hugo é ruim demais. Não me conformei e fui ver o legendado. Muito melhor. Na versão dublada, as personagens em geral, apesar do sotaque carioca carregado (gente, não dá para fazer o pessoal usar o padrão norma culta ou chegar perto pelo menos? Para isso é que têm talento, arte…), até que estão bem, mas o menino…um horror! Vejam bem, se como em outros países (França, Portugal, Alemanha) vamos começar a ter filmes sobretudo dublados (a transformação já está instalada), então há que se restaurar e desenvolver a classe de dubladores. Os de verdade, como os que ouvi em minha infância e juventude dublando tudo na tv com galhardia, competência.  Não é só botar alguém da Globo e achar que está tudo dominado. Não está. Isso acaba com uma boa produção.  Os dubladores de carreira, que conseguiam dar vida a várias personagens com categoria, tiveram que achar outras formas de viver, já que o pessoal da telinha começou a invadir, sem nenhuma competência, a seara alheia.   Com isso, destruiu-se a carreira, não se desenvolveram novas vozes, novos talentos dedicados integralmente à dublagem,  não pelo menos no volume necessário.  Não adianta botar essa meninada chatinha, com voz de fuinha (nem sei se fuinha tem voz), porque a prezada criatura aparece em sei-lá-eu que programa, ou é sobrinho de não-sei-quem, ou a mãe mata se ele não entrar no filme.

Lembro-me de um caso emblemático, entre tantos. Quando menina (12 - 14 anos), assistia a um programa chamado Zás Trás (http://memoriaglobo.globo.com/Memoriaglobo/0,27723,GYN0-5273-249657,00.html).  A apresentadora, Márcia, fazia “n” vozes de criança nos desenhos animados, em  filmes.Uma perfeição! É isso, tão simplesmente: um adulto que consegue fazer uma boa dublagem de uma personagem infantil. Não adianta querer que uma criança tenha o mesmo desempenho. Insistir dá nessa queca do Hugo.  E mais, crianças dubladoras, só se tiverem a competência (infelizmente não temos no país a mesma gama e variedade de crianças boas de palco, de representação que há lá fora, embora o ufanismo nacional creia que sim) de atores-mirins como Rock Duer, Jasper Newell, Ezra Miller, Malonn Lévana, ou a própria Choë Moretz e olhe lá, senão não dá.

Como há muitas cópias dubladas, para ver a legendada só no Shopping Frei Caneca, que eu odeio de paixão. Detesto aquela região e o shopping também. Que fazer? O atendimento dos cines Unibanco, que já está se transformando em Itaú, sempre foi ruim apesar de uma programação bem boazinha, mas conseguiram se superar e sobretudo nesse shopping. Além do mau atendimento, estão reformando a sala 2, contígua de alguma forma à 1.  E tome marteladas de monte no meio do filme, um baticumbum para ninguém botar defeito. Imagine se a administração, gerência, funcionários do cinema está aí para o tema. Qual o quê? A sala está cheia, tem gente de montão pagando para essa queca toda, então “dane-se”.  Se eu puder, ali nunca mais.

Enfim, um filme bonito, cheio de sonho, com emoção, que permite ao espectador viajar e se encantar. Vale ver seguramente.

15

de
fevereiro

Uma miscelânea, mas de dar gosto

A Dama de Ferro Poster

1) A Dama de Ferro (http://www.imdb.com/title/tt1007029/)

Assim é conhecida Margaret Thatcher (http://pt.wikipedia.org/wiki/Margaret_Thatcher), primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990.  Quando começou seu mandato, o país estava entrando numa crise forte. Ainda no início de seu governo, a coisa piorou: muitos conflitos, greves, atentados. Um inferno. Mas a Sra. Thatcher soube controlar e inverter a situação. Sob seu comando o Reino Unido, sobretudo a Inglaterra, floresceu novamente e se consolidou como grande poder político-econômico da Europa e do mundo.

Francamente, eu nem imaginava qual era a origem, como era a vida privada, etc., da primeira-ministra.  Se o filme for fiel à realidade, interessante como MT, apesar das pressões, tinha apreço e respeito por seu marido. Apesar dos filhos gêmeos, ele era sua família de verdade. Os filhos, sobretudo O filho, distanciaram-se muito. A produção mostra uma mulher idosa (atualmente ela está com 86 anos, o que não é pouco), com o ônus que a idade traz à grande maioria dos sobreviventes (esquecimentos, confusão mental, cansaço, desesperança, irritabilidade e por aí vai). Como o filme é feito de flash-backs e do presente, fica difícil encaixar as duas Margaret Thatchers. Incomoda ver a velhinha rebelde, submetida a vigilância, com suas esquisitices. Pois é, o declínio chega para todos.

Mas o que fica evidente de ponta a ponta é que a Baronesa Thatcher fez tudo o que fez porque naquilo acreditava; foi coerente, foi íntegra, foi digna, e sobretudo amava seu país.

Agora, para nós brasileiros que ouvimos a toda hora gente ser acusada de embolsar zilhões, gente que anda em jatinhos, aproveita a vida, tira tudo o que pode de posições políticas e/ou de comando, assistir àquela vida frugal, dela e do marido, voltada para servir o Reino Unido e seu povo, dá até um nó na garganta, emociona e entristece. A gente nunca vai chegar lá. É fato, e ponto.

Bem, o filme é de Meryl Streep e não tem conversa. Jim Broadbent (marido de Thatcher); Alexandra Roach (young Thatcher) e vários secundários estão ótimos, mas não tem para ninguém.  E o que não pode deixar de levar estatueta é a maquiagem, caracterização, ou sei-la-eu como se chama isso tecnicamente.  O talento de MStreep + caracterização hipnotizam.

Os figurinos são bacanas, cenários também. Trilha, assim, assim.

É um daqueles filmes que serão lembrados por muito tempo e sempre mencionados com reverência.

2) Tomboy (http://www.imdb.com/title/tt1847731/)

Tomboy Poster

Impossível traduzir o título. Quando vi o trailer, considerando os tempos modernos, o politicamente correto, imaginei que ia ser um estouro por aqui, mas aparentemente não foi assim. Tanto que o filme só está em cartaz em um horário no Reserva Cultural. Sei lá se porque não há sexo, bebida, balada, faz referência ao homo feminino, ou o quê. A produção é francesa.

Trata-se do momento confuso de uma menina que se sente menino ou se faz menino para ser aceita pela turma, pela molecada mais facilmente. Claro que, pelo presente, imagina-se o futuro. Aquela coisa de pessoa errada no corpo errado, mas o filme não ressalta ou implica isso claramente. O momento vivido por Laure que vira Michael é o que importa, a inferência fica por conta do espectador. É angustiante. Eu tive vontade de dizer: Parem tudo e vamos resolver esse negócio de tanta tensão. Impressionante a postura dos pais. Acho que em 90% dos casos reais, a coisa não deve funcionar bem assim.

São crianças entre seus 8 e 11 anos, que vivem em algum lugar não central, classe média. Mas que molecada esperta e boa intrinsecamente! Brincadeiras de criança que achei que já não existissem mais. Divertem-se com coisas frugais, puras. Tomara que tudo aquilo não seja uma fantasia. E como são educadinhas. Para quem vive a realidade dos hooligans-mirins nacionais, é um deleite. Naturalmente são assim porque, até mesmo imigrados, os pais são assim, educados, conscientes.

Zoé Héran que faz Laurel/Michael está maravilhosa! O pai, a mãe, os amiguinhos também estão muio bem, mas ninguém bate Malonn Lévana que faz a irmã de Laure. Gente, o que é aquela menina?  Linda, esperta, cada frase é música. Como ela é natural, alegre, graciosa e convincente! Um delícia, parafraseando o “mestre” Teló.

Um filme que parece levinho, tranquilinho, mas é denso, dói, e é muito pedagógico.

3) Cada um tem a gêmea que merece (http://www.imdb.com/title/tt0810913/)

Cada um tem a Gêmea que Merece Poster

Como é que Jack and Jill virou esse Frankenstein, sempre será um mistério para mim…

Enfim, o último filminho desta semana. Não sou fã de Adam Sandler (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/03/06/confetes-e-serpentinas/), nem dos congêneres, mas como era o que tinha para ver, vamos lá. E não é que foi divertido?

Li duas críticas: uma dizia que o humor era óbvio, a outra que era inteligente. Vá entender!  Eu fico no meio: um filme divertido, bem sessão da tarde, dá para ver a qualquer hora e não decepciona.  A trilha sonora (http://www.squidoo.com/jack-and-jill-soundtrack-1) é óóóótimaaa! Tem até a Sra. Cruise, Katie Holmes, e uma extensa participação de Al Pacino. Sandler faz os gêmeos, óbvio! A irmã é uma baranga, desengonçada, alienada, mas simpática e boa gente. Depois da morte da mãe, ela, solteirona, sente o peso da solidão e gruda no irmão, que vê isso como um pesadelo e tenta se livrar dela a todo custo. Só que, de repente, ela se torna instrumento importantíssimo para o irmão. Por quê? Por quê? Por quê? Não conto. No final, claaarooo que dá tudo certo. O fim é bacaninha, simpático. Fotografia bonita. Dá para rir bastante.

E para abrir o apetite, uma das músicas da trilha: http://youtu.be/rbwFCNlgHww.

11

de
fevereiro

Women rock!

Há filmes de dois gêneros, filmes masculinos e femininos. Nesta semana vi três filmes. Dois deles do clube da Luluzinha e o outro com destaque dominante para a personagem feminina.  Todos de qualidade.

1) The Help (http://www.imdb.com/title/tt1454029/)

Histórias Cruzadas Poster

Não estou acompanhando quem está cotado para o Oscar. De alguns filmes eu sei por acidente, por ter passado os olhos em algum lugar e ter lido. Não sei se os que vi nesta semana estão concorrendo. De qualquer forma, todos valem muito a pena.

Histórias Cruzadas (haja criatividade!) - The Help (*) é o tema já visto e revisto da luta dos negros pela igualdade nos Estados Unidos.  Lá está a opressão, a aceitação, a revolta, a mãozinha amiga de um branco, as maldades de outro branco.  O retrato é lá da década de 60, sempre num estado (Mississipi neste caso) mais que conservador e/ou racista. A segregação é imposta e aceita: banheiros separados, ônibus separados, entradas separadas para os negros. A algumas coisas lhes é negado o direito, mas vê-se uma empregada dizer que está mandando os filhos para a universidade, aparentemente não falta pão na mesa de nenhum deles, vestem-se bem e com elegância, têm seus momentos de lazer e fé, mas óbvio que isso não é o suficiente se falta o principal: liberdade e respeito.

O filme é baseado em um livro que conta a história de empregadas negras destratadas que, com a ajuda de uma mocinha prafrentex (Emma Stone como Skeeter Phelon), passam a relatar suas histórias, que acabam virando um livro de sucesso.  A grande personagem negra é Aibileen Clark, magistralmente interpretada por Viola Davis.  Ótimas estão também Allison janney, como a mãe de Skeeter; Octavia Spencer como Minny Jackson (soberba, divertida); Brica Dallas Howard, como a malvada (e põe malvada nisso) do pedaço, e Sissy Spacek (tudo de bom) como a mãe de Hilly.  Há momentos emocionantes, e muitos, muitos hilariantes.  A gente sabe o final da história, mas isso não tira o encanto. O tema é tratado comme il faut, i.e., com a realidade possível.

A matemática é assim: gente boa e ruim tem em qualquer lugar e ponto. O complicômetro é: quem detém o poder.

Ah, e como a mulherada fumava! Ou fuma? E que trilha sonora porreta!

Não diria que é um filmaço, mas é muito bom e vale a ida ao cinema.

Na linha, mas menos soft, veja: Amistad; Malcom X; Tempo de Matar; Mississipi Burning; Bopha, à flor da pele; Um grito de liberdade e Adivinhe quem vem para jantar e Ao mestre com carinho (este um clássico e talvez um dos primeiros com uma abordagem do tema mais leve. O foco não era só o racismo, mas está lá).

(*) não entendi por que o tempo todo the help é traduzido por “a resposta”.  É a criadagem, os serviçais, os empregados…enfim.

2) Precisamos falar sobre Kevin (http://www.imdb.com/title/tt1242460/)

Precisamos Falar Sobre o Kevin Poster

O filme é de Tilda Swinton.  Com seu rosto marcante (para mim ela é o David Bowie feminino), andrógino, clean até o último poro, a atriz carrega o filme.

John C. Reilly, o marido/pai de Kevin, está ótimo. Pai presente, amoroso, provedor, generoso, mas que não entendeu que criatura terrível gerou e tinha dentro de casa. Agora, os meninos que fazem Kevin são alguma coisa! O bebê berra até não mais poder e não poupa pulmões…que bebê é esse? O Kevin de seus 2-3 anos é um revival de Damien (http://www.imdb.com/title/tt0075005/) de A Profecia.  O moleque se chama Rock Duer.  Seus olhares, os maxilares travados, o tom de voz…não fico sozinha com esse menino em lugar nenhum! Depois, maiorzinho, Kevin é representado por Jasper Newell. Esse então! Mas Ezra Muller, que faz o Kevin adolescente, é demais! E impressionante como seu rosto tem a mesma natureza do de TSwinton: agressivo+suave, bonito+feio, tudo ao mesmo tempo. Há outros papéis bem menores, mas só tem lugar para Swinton e Muller.  O filme é construído sobre flash backs, o que o torna dinâmico, mas muito tenso.  Tem uma palavra em inglês que adoro e define o ritmo: restless (rest·less (restÆlis), adj.1. characterized by or showing inability to remain at rest;2. unquiet or uneasy, as a person, the mind, or the heart;3. never at rest; perpetually agitated or in motion;4. without rest;5. unceasingly active; averse to quiet or inaction, as persons - fonte Random House Webster’s Unabridge Dictionary).

Kevin é uma criança que não vem ao acaso, mas acaba se tornando não muito querida pela mãe, que tem uma vida dinâmica, viaja(va) muito. Crescendo, sua crueldade gratuita, sua personalidade manipuladora vão se acentuando, sobretudo com relação à mãe.  O pai nem percebe o que vai por ali, a mãe sabe mas renega.  O moleque é um psicopata e ponto. Ele comete um crime e a mãe é crucificada por todos na pequena cidade em que vivem. Pergunta: até onde pais são responsáveis por atos de seus filhos?  Se consciente, se bem intencionados no mínimo, creio que só um pouco e até uma certa idade, quando o controle físico e algum psicológico é possível. Afinal, como sempre digo: tudo na vida é 50% competência e 50% sorte. Conheço pais amantíssimos, vigilantes, responsáveis que resultam em estrupícios inacreditáveis. Outros, que ficam no negativo no quesito educação, supervisão, atenção, e são premiados com jóias.  Claro que tudo pode melhorar ou piorar muito com a participação dos pais, mas há fatores imponderáveis na criação de filhos.

No caso de Kevin, apesar de gente ilustrada, esperta, bem de vida, faltou identificar o problema de fato.  Entender que o que estava acontecendo não afetava somente o grupo familiar, mas o mundo, e aí providências são obrigatoriamente requeridas. As crueldades eram inteligentes, bem engendradas, feitas para ferir e intimidar. Os pais viraram um joguete nas mãos do menino, e se deixaram ficar.  Sempre digo: mães e muitos pais (não todos pois muitos não são presentes e atentos) sabem, só não têm certeza. Quando a certeza vem, muitas vezes já é tarde demais.

Enfim, um filme denso, fortíssimo, um tanto lento, com cenas de crueldade/violência, com música ótima, cenografia bacana. Vale ver, mas não é para qualquer hora. Vi várias pessoas saindo do cinema no incensado Unibanco da Augusta, então…

Texto de um amigo sobre o tema: http://www.iracenna.blogspot.com/2012/01/tomboy-e-precisamos-falar-sobre-kevin.html

3) As mulheres do 6o. andar (http://www.imdb.com/title/tt1805297/)

As Mulheres do Sexto Andar Poster

Este então, é do mulherio mesmo.

É a história de mulheres espanholas que foram para a França (eram requeridas lá. Outros tempos…) para trabalhar como domésticas. Fugiam da pobreza, da violência, de Franco. Depois foram as portuguesas e acho que as próximas serão as italianas…vai saber.

Enfim, Fabrice Luchini (com aquela sua carinha meio estupefata) está ótimo; Sandrine Kiberlain como a esposa de Luchini, francesa do interior, que casa e vira dondoca, está soberba como sempre; Natalia Verbeke, como María, linda, simpática e competente; e tem ainda Carmen Maura e uma trupe de espanholas ótimas!

María vai trabalhar na casa de um casal, cujos filhos estudam em um colégio interno. A antiga empregada, de 25 anos, pede demissão pois a mãe de M. Joubert (Luchini) faleceu e a nora quer mudar o quarto que era da sogra.  María é ótima, e daí vai que…

O interessante é ver como os parisienses moram naqueles prédios antigos, alguns um lixo por fora, mas ótimos por dentro, remodelados. E olha que eles não caem, viu! As empregadas moram em instalações um tanto precárias, menos pelo tamanho, mais pela manutenção.  São mulheres festeiras, que deixaram suas casas, para ganhar o dinheiro que não ganhavam na Espanha, fazer seu pé-de-meia, e voltar melhores do que saíram. Algumas têm um francês ótimo, outras nenhum, mas mesmo assim vão levando. São mulheres simples, muitas com educação formal mínima, mas fortalezas ambulantes.

A trilha sonora é ótima, a fotografia também.

E lá como cá, serviçais falam dos patrões em seus momentos de folga. Ou mal, ou porque sabem de indiscrições e se divertem com isso. Enfim, tudo neste mundo só muda de endereço.

Dos três filmes, o mais divertido, o mais melosinho, o que pode ser visto a qualquer hora do dia ou da noite que é diversão certa. E mesmo assim traz temas importantes: relações de trabalho, situação política espanhola, modus vivendi de franceses/parisienses. E como tudo é visto sob a ótica de um francês, mesmo não querendo, que charme são os franceses comparados a qualquer outro povo!

Uma delícia de filme.

6

de
fevereiro

Ainda resta uma esperança

Tá duro, viu!  Um quilo de filmes novos, aparentemente de qualidade e aí quando você vai ver…

Retrospectiva e my humble opinion:

O melhorzinho de todos. Não comentei aqui; estava na minha fase “preguiça, um dia eu volto”:

O espião que sabia demais (O Espião Que Sabia Demais Poster /http://www.imdb.com/title/tt1340800/). Gary Oldman está fantástico, e a história de Smiley (http://en.wikipedia.org/wiki/George_Smiley), agrada os aficionados do gênero.

Bom:

http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/01/25/so-para-contrariar/

Medianos:

http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/01/27/they-ride-again/

http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/01/24/nao-foi-arrependimento/

Propaganda enganosa

http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/02/02/dois-pais-mas-quanta-diferenca/.

Mas eu sou brava, sou forte, sou filha do norte e teimosa.  Fui ver J. Edgar (http://www.imdb.com/title/tt1616195/),

J. Edgar Poster

com DiCaprio, sob direção de Clint Eastwood. Gosto muito de DiCaprio pelo mesmo motivo que gosto de Brad Pitt, Tom Cruise, Clooney, como já mencionei várias vezes.  Apesar de homens bonitos, que poderiam facinho viver disso no cinema, eles se impõem desafios, tornam-se feios ou esquisitos, como se para disfarçar um pouco o “tipão”, visando ser apreciados pelos bons atores/diretores que são.  O filme vale por DiCaprio (maravilhoso como Hoover), Naomi Watts (Helen Gandy, secretária pela vida inteira de Hoover) e Armie Hammer (Clyve Tolson - secretário, companheiro e amante de Hoover, segundo o filme).  A direção de Eastwood também faz a diferença, mas mesmo assim o filme não decola. Faltou um pouquinho de não-sei-o-quê.  É um filme muito bom, mas eu esperava mais.  Isso que dá ser fã…a expectativa vai lá em cima.

A personalidade de Hoover é estranhíssima, ou xiita talvez seja o melhor termo. No entanto, a ele os EUA e todo o mundo devem protocolos que permitem resolver crimes, realizar investigações com qualidade, ter dados confiáveis. O homem era obcecado por isso e tinha uma inteligência mais que objetiva e muuitoo acima da média. Mas oooh, sujeitinho chato, não interessa se homo, hetero ou bi. Muito chato mesmo por sua intransigência em quase todos os níveis. Ele acordava, almoçava, jantava e dormia o tal Bureau. Como é que Ms.Gandy e Mr. Tolson aguentaram tantos anos é que é o mistério.

O filme narra a ascensão de Hoover desde o primeiro posto numa delegacia, ou algo assim, até chefão do FBI. Aliás, mais que chefão: mentor, mantenedor, defensor.  E ai de quem mexesse com o Bureau.  Todos em sua mão: de Luther King a Nixon, Kennedys então… Enfim, o homem criou do nada um sistema sofisticado, pragmático e confiável. E só o fez por que não havia “talvez” para ele, nem profissionalmente, nem pessoalmente, a não ser para lhe permitir um pecadilho: sua pavonice. Adorava o reconhecimento e ser a estrela sempre.  Até mentiras foram forjadas para isso, segundo o filme. Mas teve a decência, segundo o filme, de providenciar a destruição de seus “arquivos pessoais”, onde estaria a roupa suja de todo mundo, evitando mal maior, especulações post-mortem. No geral, um profissional admirável e uma personalidade interessante.

Trilha: nem notei; maquiagem: achei o envelhecimento das personagens (exceção Hoover) fake demais. Para quem vive nos EUA, com aquela água tratada e boa para beber, tomar banho, com acesso a mil tecnologias estéticas, tudo de ponta, ganhando em dólar, pareceu-me bem artificial artificial o resultado apresentado.

Se puder veja. Vale o ingresso.

E the last but not least: O Artista (http://www.imdb.com/title/tt1655442/). Sem dúvida, arrebatador, o melhor da lista.O Artista Poster

Um filme francês globalizado: além dos ótimos Jean Dujardin e Bérénice Bejo, tem Jonh Goodman e James Cromwell.  Um filme branco e preto, mudo, isso, mudinho de começo a fim.  A trilha é maravilhosa, ela é personagem do filme. Sem uma boa trilha, com a orquestra ali garantindo o som, o filme não existiria de fato.

Eu, que nunca vi seriamente um filme mudo em tela grande, adorei!  Depois de uns 20 minutos pensei: duas horas sem uma palavrinha, com pouquíssimas legendas originais (elas são em inglês, pelo menos por aqui), não vai dar. Mas qual o quê! Fantástico!  Duro mesmo davam os atores do cinema mudo.  Para passar um sentimento, que técnica (isso se vê quando George Valentin (Dujardin) repete uma mesma cena várias vezes)!

E a plateia…que luxo!

Trata-se da história de um superastro que é pego, lá no topo da carreira, pela transição do cinema mudo para o falado.  Ele não acredita nessa evolução. Por orgulho, por teimosia, acaba ficando para trás.  E como a fila anda…bate quase no fundo do poço, mas é salvo por uma mulher de sucesso e apaixonada.  O branco e preto e o over, para que tudo chegue ao espectador, tornam o filme superdramático em alguns momentos.

A atuação dos dois atores principais e do cachorrinho, que acompanha Valentin o tempo todo, é estupenda.

Tem que ganhar todos os Oscars possíveis, não resta dúvida. Agradar o público com a evolução não é o mais difícil, o negócio é encantar as plateias com o que ficou lá atrás, com o déjà vu ou, no mínimo, com o que já conhecido.

2

de
fevereiro

Dois pais, mas quanta diferença

O Pai dos Meus Filhos Poster Os Descendentes Poster

Em princípio tudo meio igual: pais de filhas (só meninas), vivendo em lugares privilegiados: Havaí e Paris e cercanias, classe média alta ou coisa parecida, gente bonita, com problemas familiares comuns.  Mas quanta diferença!

1) Os Descendentes (http://www.imdb.com/title/tt1033575/)

De famoso mesmo só o Clooney. Como sóóóó??? Adoro o G. Clooney, não pelo motivo mais evidente (boniteza), mas porque o acho corajoso e competente como ator (http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/01/02/um-e-pouco-dois-e-bom-2/), diretor, dublador (e.g. Toy Story). Como alguns outros: Brad Pitt, Tom Cruise, Damon, não foi dado como galã e se deitou na cama. Pelo contrário. Tenho a impressão de que todos eles querem que cada trabalho os desmistifique como bonitões ou tipões. É aquela coisa de “quero ser reconhecido pelo que sou ou posso e não pelo que aparento”.  Há muitas atrizes/diretoras assim também, evidentemente.

Mas com tudo isso (eu gostar, Clooney ter conteúdo), o filme é duro de aguentar. Nem Clooney salva!, seria meu bordão.

Trata-se da história de um homem que se vê só para cuidar de suas duas filhas (uma pós-adolescente e outra de 8 anos). A mulher sofre um acidente, bate a cabeça, entra em coma.  Clooney, o pai, que nunca tinha tido a menor proximidade com suas filhas (a razão é a de sempre: muito trabalho. Sei,sei…) tem de cuidar delas o tempo todo. Três estranhos que começam a se conhecer do 0 praticamente. Há vários imbroglios no meio do caminho, mas com tudo isso, o filme é lento, pouco tocante, o que é uma surpresa por toda a situação.  Enfim, duro de ver.  O que salva, além de Clooney, Shailene Woodley (uma das filhas) que está ótima e Nick Krause, que apesar do papel micro encanta, é o visual, as paisagens, e a música havaiana. Ah, sim, e aquele jeito colorido de vestir.

Um filme bem aquém do que eu esperava, eu diria até abaixo da média do que tenho visto. Único grande mérito: bater na tecla do pai-ausente por motivos pouco reais ou justificáveis.

2) O pai dos meus filhos (http://www.imdb.com/title/tt1356928/)

Filme da mesma diretora e roteirista de Adeus, primeiro amor (http://www.imdb.com/title/tt1356928/). Um dos atores também estava lá e está neste filme (Magne-Havard Brekke).

Trata-se também de um filme bem familiar: personagem central o pai, mas este bem atento e que convive com as filhas (3) de modo admirável, tem autoridade sem sufocar, dialoga.

Ele, Grégoire, é um produtor de filmes e sua empresa está com problemas seriíssimos, quase quebrada.  Até uns 20 minutos de filme é um tal de atender celular a cada dois minutos, às vezes dois. No carro, em casa, no banheiro…A coisa vai num crescendo, mesmo havendo momentos familiares (casal + 3 filhas) tocantes.  Um tal de falar de filmes, diretores, custos, atores, investidores que cansa um pouco. No entanto, lá pelas tantas acontece algo muito grave. Na verdade, isso é anunciado pela personagem principal (Grégoire) várias vezes, mas eu pensei: nãããooo, isso não vai acontecer. Pois é, mas acontece e da forma mais abrupta que se poderia imaginar. Depois desse ponto culminante lá pelo meio do filme é um tal de advogado, acordos financeiros, e mais outra descoberta rocambolesca na vida de Grégoire.  As meninas que fazem as filhas são lindas, uma graça. Ótimas atrizes.  Louis-Do de Lencquesaing (que também participou de Casamento a três-http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/11/nada-a-ver-com-nada/, mas não como protagonista) e Chiara Caselli (Sylvia, a esposa/mãe) também estão ótimos. Só que apesar de alguns clímax a coisa não engata. Sabe a sensação de patinar, patinar, e não sair do lugar? A gente pensa: agora vai. E nada. Agora vai, e nada…Pelo menos essa foi minha sensação. Ainda assim achei o filme melhor que Os Descendentes. Pareceu-me mais sólido, mais rico.

Agora,  como americanos bebem e como franceses fumam nos filmes…impressionante!

Mas uma delícia ver as cenas em que Grégoire e demais personagens andam por Paris, atravessam ruas, dirigem, flanam. Claro que não é tudo 100%. Há algumas cenas em que se vê muito lixo pela calçada, ou seja, cá como lá os problemas urbanos não estão ausentes, mas mesmo assim as imagens que a cidade produz são bonitas demais e fazem bem aos olhos e ao coração.

Bottom line: vá ver A Separação, Os homens que não amavam as mulheres, ou até Sherlock Holmes. De realidade familiar, vocês já devem ter o suficiente e até de melhor qualidade.

27

de
janeiro

They ride again

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres Poster

Quem viu o filme anterior (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/05/18/um-filmao-e-um-filminho/) de 2009, da mesma trilogia, vai gostar ainda mais deste.  A nova produção é globalizada: Daniel Craig, Christopher Plummer além dos vários atores nórdicos. Novo diretor: David Fincher.

O filme é longuinho, umas 2,5horas, mas dá para ver sem problemas. De novo um crime a ser desvendado, daqueles que seguem por anos sem solução. Conversa daqui, conversa dali, e as evidências vão surgindo.  O final é bacana, mas dá para antever um pouquinho lá atrás, o que não diminui o brilho do enredo.  A grande estrela, a partir de um determinado momento, passa a ser Rooney Mara, atriz americana que substitui uma sueca do filme de 2009 como Lisbeth Salander. A “gênia” problemática cresce muito no filme e estabelece o ritmo do thriller.

A trilha é assim, assim. A fotografia é bonita: neve, neve, neve…brrrrr…Craig e Plummer estão ótimos. Igualmente ótimo Stellan SkarsgÃ¥rd, que está em todas: Melancolia, Piratas do Caribe, Mamma Mia…é um secundário indispensável sempre.

Mesmo só com dois anos de diferença (um é de 2009 e outro de 2011), o fato de um ter sido produzido na Suécia e outro ser uma produção americana estabelece uma distância enorme em termos técnicos. Pelo que eu tinha na memória, a diferença em anos seria maior tal a diferença de imagem, cores, enquadramentos, etc., etc.

Um ótimo filme para dias de sol ou chuva.

25

de
janeiro

Só para contrariar

A Separação Poster

Não o grupo musical, mas para contrariar mesmo…Agora que tinha decidido ir mais devagar, escrever só que o não conseguisse segurar, aparecem montes de coisas prementes. Francamente!

Hoje vi A separação (http://www.imdb.com/title/tt1832382/), um filmaço.

Neste caso também tenho de fazer considerações sobre o cinema. Fui ao Unibanco Augusta. Não sei se sonhei, mas entendi que vão aos poucos renovar as salas. E não é mais Unibanco, mas Itaú.  Está precisando mesmo. E que confusão! Normalmente não vou ao cinema às 18h, 19h. São horários selvagens: filas, demora, multidão. Mas hoje deu um tilt e fui.  Chegando lá, uma fila enorme. Não era para compra de ingressos, mas para entrar na sala. Esse cinema não tem assentos marcados, então já viu…A fila para compra também era grande. Aliás, eram: uma para compra em dinheiro e outra para cartão. O pessoal da bilheteria até que se vira nos 30, mas o cinema tinha de ter uma estrutura melhor, sobretudo considerando que essa confusão deve acontecer todo final de semana nesses horários.  A sala em que está o filme é bem grande, mas tem uma inclinação ruim. Sentou alguém mais alto na sua frente, babau.  Consegui sentar na terceira fileira, na lateral, mas deu para ver bem o filme.  Parece que foi tudo bem, mas não foi. Com esse negócio de duas megafilas na calçada, quem tinha de passar por ali só descambando para o asfalto. Detesto quando vou passar por uma calçada e pessoas folgadas barram o caminho. Esconjuro até a 100a. encarnação. Hoje eu é que merecia isso, pois apesar de tentar atrapalhar o mínimo possível, não dava para não atrapalhar as pessoas ou até deixar de impedir sua passagem.  Shame on me! Que o cinema, nessa sua repaginada, tente encontrar um jeito de resolver esse problema. Quem vê aquela bagunça, até pode pensar, erroneamente, que é fila para algum megashow, ou para comprar ingresso para algum superevento tal a barafunda. Lamentável!

O filme é iraniano. Surpreendi-me com a civilidade em todos os níveis: social, familiar, religioso. Não que eu achasse que por lá havia selvagens. Afinal é uma civilização milenar. Mas tanta guerra, tanto conflito, tanto desgoverno na região, que sobra a imagem de gente belicosa acima de tudo, gente desesperada e por aí vai. Mesmo o viés religioso nem de longe é o condutor do filme.  São retratadas relações familiares, sociais, escolares, policiais, empregatícias de um jeito muito interessante. Extremamente realista. São as mesmas relações que existem mundo afora, sem tirar nem por: casais que se desentendem, patrões x empregados ou o contrário, filhos no meio de imbroglios maritais, as doenças degenerativas que estão cada dia mais presentes pela longevidade que adquirimos continuamente, etc.

Fiquei imensamente surpresa com a civilidade com que tudo é tratado, lidado. Eu diria que os ditames familiares, sociais e religiosos acabam garantindo essa “retidão” de conduta. Vê-se o atendimento judicial sobrecarregado, o atendimento médico também, mas ainda assim as estruturas, comparativamente com as nossas, por exemplo, parecem em melhor forma.  Tudo bem, é ficção, pode ser propaganda do regime. Inegável que o que está na tela revela uma sociedade muito organizada e civilizada. Vai saber.

Quase não há trilha sonora, fotografia nada (100% das cenas são em ambientes fechados ou ruazinhas com carros estacionados. Nada de praça, de vista, de verde).

É a história de um casal que se separa civilizadamente porque a mulher quer ir para o exterior e o marido, que cuida de um pai com Alzheimer, não quer. Há ainda a agravante de uma filha de 11 anos (vai com a mãe ou fica com o pai?). Pela partida da mãe para a casa de familiares é necessário contratar alguém para ficar com o pai doente. E aí começam os problemas.  Há momentos em que a gente acha que sabe a verdade, mas dali a pouco duvida. É aquela história de “Lies may lead to truth”. Ou abrasileirando e dando um sentido um pouco diferente: mentiras, se ditas muitas vezes, podem se tornar verdades.

Um filme denso de começo a fim. Não dá nem para piscar. E o final e bem interessante. Ah, e é longuinho, pouco mais de duas horas.

24

de
janeiro

Não foi arrependimento

O Jogo de Sombras Poster

Nossa, nem parei e já recomecei? Nãããõoo.  Por ora, só vou escrever mesmo aquilo que não der para deixar passar, mas já aviso que não vou elaborar muito,não.

Fui ver Sherlock Holmes, o jogo de sombras (http://www.imdb.com/title/tt1515091/).  Estava em dúvida se ia ou não. Vi o primeiro filme (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/01/20/nossa-que-movimento-de-novo-domingo-final-de-tarde-e-noitee-se-acabou/) e não achei lá essas coisas. Mas várias pessoas disseram que o segundo era bacana, então…

Primeiro o cinema: Playarte Marabá. Já estive algumas vezes lá (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/03/06/confetes-e-serpentinas/). E quem recupera qualquer coisa em SP, sobretudo no centrão, merece minha admiração, mas nem por isso precisa fazer mal feito.  A entrada continua feia, largada; o segurança fuma enquanto os espectadores entram para comprar a entrada; as bilheteiras são no mínimo fellinianas; os banheiros largados (papel higiênico pendendo de arames); os tapetes vermelhos (quem teve a ideia infeliz de revestir escadas com isso?) já estão negros; o pessoal da limpeza não gera confiança…maaasss, custa R$ 11/inteira.  A projeção é bem razoável (som, imagem). Mesmo assim, custo  x benefício poderia ser bem melhor.É aquela coisa de relaxo, falta de capricho que está no gene nacional…

O filme: continuo não gostando do Downey Jr. e olha que tenho visto vários filmes com ele, então sei do que estou falando. Para mim continua o mesmo canastrão, todos os papéis são iguais. Sorte que a personagem é boa, tem muito efeito especial, e o diretor, Guy Ritchie (http://mskeller.blog.terra.com.br/2008/11/03/guy-ritchie-welcome-back/), é ótimo. Então ele não estraga o filme. Jude Law está ótimo, ainda melhor que no primeiro filme. E há a participação marcante de Stephen Fry (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/12/23/que-dupla/). Uma caricatura dele mesmo, mas ainda assim soberbo.

Bottom line: eu gosto mesmo é do Sherlock de Conan Doyle. Li montes de livros com o detetive. O que me encanta nele, em Poirot, e outras personagens do gênero, é o que em inglês se chama: cunning (showing or made with ingenuity. artfully subtle or shrewd; crafty; sly; Informal. charmingly cute or appealing: a cunning little baby; Archaic. skillful; expert.). Sem socos, sem tiros, sem sangue, sem violência, e voilà!  O Sherlock Holmes de Downey é um Indiana Jones Brit e só.  Bacanas as sequências em câmera lenta, quando ele explica os embates/ações antes, passo-a-passo.  Mas é isso, não tem nada a ver com o velho Holmes.  Nem Watson, mas JLaw torna-o um pouco mais palatável e crível.

Achei este filme melhor que o primeiro. Sem dúvida vale ver. Mas se, como eu, você conhece Sherlock Holmes, deixe-o em casa e vá curtir uma outra personagem que não tem nada a ver com o detetive de Doyle.

13

de
janeiro

Mais um Hitchcock em minha vida

Desta vez foi Agonia de Amor, ou The Paradine Case (http://www.imdb.com/title/tt0039694/). O pessoal da titulagem é demais. I rest my case…

Como nos últimos filmes de Hitchcock que comentei (http://mskeller.blog.terra.com.br/2012/01/02/um-e-pouco-dois-e-bom-2/) (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/27/o-ultimo-cupom-a-gente-nunca-esquece/) neste também a origem de tudo é um crime. Na verdade, é só o ponto de partida, pois os crimes não têm taaanta importância assim. O negócio é a intriga toda no meio do caminho, os embates psicológicos.   Agonia de Amor começa com uma mulher elegantésima, com aquela cara de “bege”, sendo presa pelo assassinato do marido, um cego rico ou um rico cego. A casa é um palacete, tem mordomo, e a moça vai para a cadeia. Dá para crer?  Enfim: com aquele seu coque mantido à base de gordura de porco aromatizada (deve ter gente lendo que é desse tempo. Um filme com George Clooney, O borther, where art thou?-http://www.imdb.com/title/tt0190590/ - mostra bem o uso que se fazia dessa pasta), ou Glostora (eu sou desse tempo), ela vai é presa, veste o uniforme da casa, tem os cabelos despenteados, e comporta-se como se aquilo nada fosse. Gente fina é uma coisa!

O filme todo gira em torno da defesa dessa mulher, a Sra. Paradine, pelo advogado Tom Keane, representado por Gregory Peck. Este filme é de 1947, ou seja, dois anos após Spellbound (post de 2/1/2012) e quanta diferença!  Gregory Peck, não só pelas madeixas tingidas para dar um ar mais senhorial, está mais firme, mais seguro.  Não desmaiou nenhuma vez!  Percebe-se que Hitchcock deu uma igualada na importância das duas personagens: Alida Valli (Sra. Paradine) e Gregory Peck (Tom Keane). Nos filmes anteriores, deu-me a impressão de o diretor ter privilegiado e muito as personagens femininas.  Ann Todd, que faz a Sra. Keane, também tem um papel bem destacado.  Dois outros atores, Charles Loughton (lembram-se? Aquele do clássico Corcunda de Notre Dame e tantos outros filmes) e Charles Coburn (outro superastro), estão ótimos.  Talvez seja isso também, o GPeck teve sua carga aliviada pela distribuição mais equânime entre as personagens.  Por que aconteceu o crime a gente sabe lá pela metade do filme. Aliás, só o GPeck é que não sabe…mas o embate, o julgamento, a luta contra uma atração fatal garantem a atenção do espectador. Não é um super thriller, mas é bem interessante.

Algumas coisas interessnate:

  • Como o caso passa-se na Inglaterra, a Justiça ou promotoria é mencionada como “The Crown”. isso nunca tinha visto/ouvido.
  • Alguém se oferece para levar livros para a presa, e ela diz: não precisa, a biblioteca daqui (da prisão) tem coisas muito interessante. Nossa!
  • Em dado momento, como em tantos filmes que já vi mas não tinha atinado, o juiz diz aos jurados (que são pessoas comuns, em geral, não têm nenhum treinamento de fato para exercer a função): esqueçam o que foi dito pelos dois advogados. Isso não deve ser levado em conta.  Como assim, esqueçam? O que vi em outros filmes, depois me lembrei, foi: desconsiderem o que foi dito, apresentado…de novo: como dá para esquecer, não considerar de fato?
  • Na apresentação do valete do assassinado, claro que um francês, Latour (representado por Louis Jourdan - parece nome de marca de bolsa, sapato), o mistério é criado porque não se vê o rosto da personagem por um bom tempo.  Esse efeito é criado só com penumbra, pouca iluminação. Fá-lhe Hitchcock!
  • Tem umas ventanias, janelas batendo, para criar um clima de susto. Um negócio meio forçado.
  • O cabelo da mulherada é tão “firme” que dá a impressão de ser talhado na madeira.  Haja laquê.
O filme é em branco e preto, tem uma fotografia até interessante, o fausto das casas é uma coisa.  Valeu ver.

10

de
janeiro

2 x 1

Pensei que ia ser 3×0, mas aos 45 do segundo tempo a coisa mudou. Explico: depois de ver Adeus, primeiro amor e Façam-me feliz, estava à beira de ver outro filme francês, mas um amigo queria ver Cavalo de Guerra, então adiei o filme francês para semana que vem.

1) Adeus, primeiro amor (http://www.allocine.fr/film/fichefilm_gen_cfilm=185687.html). Vejam que não é implicância: em francês o título é Un amour de jeunesse.  Com esse título fica a dúvida: será o amor de toda a vida? Separação + reencontro? Mas com o título Adeus, primeiro amor sobra alguma dúvida? Já contaram o final. É mole?

Enfim, o filme conta a história da primeira grande paixão de um casal de adolescentes. A vida muda, o rapaz quer se aventurar pelo mundo. Promessas de que nada vai mudar, mas muda, né? A menina deprime, mas levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Forma-se, enceta um novo relacionamento, mas o antigo amor assombra-a pela vida.  É um filme bem bonito, interessante, trabalha bem os sentimentos, mas é muuitooo lento.  Os atores (não conhecia nenhum) estão bem. Tem uma miscelânea de nórdicos, franceses, árabes, ou seja, um filme globalizado.  Pelo nome dos atores (http://www.imdb.com/title/tt1618447/), vê-se essa mistura.

Camille (Lola Créton), a protagonista, fica mais nua do que eu diria que é necessário. Bonita, jovem, mas não precisava disso. O filme, pela temática, já seria inquietante o suficiente.  O exagero elimina a justificativa do ato, i.e., tem hora que a gente se pergunta: mas para quê exatamente ela está nua agora? O espectador já entendeu…Fica um negócio um tanto vulgar e meio anos 60/70 demais, ou déjà vu.

O filme é mediano, e o ritmo lento demais.

2) Faça-me feliz (http://www.allocine.fr/film/fichefilm_gen_cfilm=139835.html)

O faz-tudo (ator principal, diretor, roteirista) é Emmanuel Mouret. Ele me lembra um monte de gente (não pelo físico, mas pelo jeitão/atuação): Peter Sellers, Louis de Funès. Ele faz cara de bobo, provoca quilos de trapalhadas, mas em geral sai-se bem. Aliás, só um francês ou em um filme francês para alguém ter aquele cabelo e passar por “chic”, moderno.

Outro filme em que não conhecia nenhum ator.  Outro filme mediano. Como para um país com tantos atores bons, consagrados, veem-se caras novas ou não tão conhecidas na tela de monte! O filme é divertido; foi feito para ser um pastelão. Dá para rir, passar uma horinha, mas só. Não tenham grandes expectativas.

A sinopse que li em algum lugar por aqui não tem nada a ver com o filme. Acho que algum crítico ou sinopseiro não fez a lição de casa…É a história de um casal em crise (Jean-Jacques e Aneth).  Ele compreensivo, querendo demonstrar seu amor à namorada, ela questionando, questionando, questionando sei-lá-o-quê. Sem querer, JJ (Mouret) é jogado nos braços de outra mulher.  Quase se enreda, mas o destino salva-o.  Depois de muita patacoada, ele volta para os braços da amada. Surge uma crise (mínima) e os dois voltam às boas.

Se estiverem com tempo, não querendo pensar muito, e com vontade de dar umas risadas, pode ser uma boa opção.

3) Cavalo de guerra (http://www.imdb.com/title/tt1568911/)

Spielberg é Spielberg, então vale, em geral, apostar em seus filmes.  Ele tem produzido mais do que dirigido.  Vi sua direção mais recentemente em O Terminal, Indiana Jones, Prenda-me se for capaz.  E como produtor: Bravura Indômita (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/02/14/bandidos-e-mocinhos-para-ninguem-botar-defeito/), Além da Vida (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/01/10/voltando-a-ativa/). E pelo jeito vêm algumas coisas como diretor, mas muitas mesmo como produtor. No caso de Cavalo de Guerra, ele é os dois.

Podem dizer que sua extensa produção tem altos e baixos. Tal seria não ter com a listona de realizações.  Mas o fato é que já vi coisas bem melhores que Cavalo de guerra.  Achei o filme edulcorante, melado, dramalhão de arrancar lágrimas (e haja fungação…).  Over…O filme me deu a impressão de uma colcha de retalhos, i.e., referências a filmes de todos os tempos e da carreira do próprio Spielberg.  Impossível não ligar algumas imagens a E.T., E o vento levou, Lista de Schindler, e por aí vai.  E é compriiidooo. Mais de duas horas. Tem uma hora que a gente ora para que o cavalo se salve, volte para casa, e a guerra acabe.

A fotografia e a trilha sonora são bacanas, épicas mesmo.  Os atores estão bastante bem, com um único senão: alemães falando inglês com sotaque alemão, franceses falando inglês som sotaque francês…para quê?  Põe a língua original e as legendas duplas…Achei isso totalmente tolo e irritante.

Enfim, é uma produção milionária, bem feita, mas a gente não tem grandes surpresas, é tudo meio o esperado.  Na verdade, surpresas só em algumas ações do (ou será dos) cavalo.  Um animal (ou animais?) especial. Excelente ator!

Peter Mullan, David Thewlis, Niels Arestrup e Emily Watson estão ótimos!  Alguns secundários também fazem bem bonito. O menino Jeremy Irvine, protagonista, é uma promessa a ser conferida.

Ah, sim, é a história de um moleque que se encanta por um potro, treina-o, o animal supera-se a cada momento, os dois separam-se, o animal passa por um zilhão de aventuras durante a I Guerra, e os dois reencontram-se. Tudo isso eu não precisaria contar, vocês já tinham intuído. O recheio é que faz a diferença.

Bonito filme, bem emocionante! Só que o que ficou mesmo para mim foi a sensação de já ter visto tudo aquilo. Nota 7, e só porque gosto muito do Spielberg.

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