30
de
outubro
Parede + tela + palco
1) Queremos Miles (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/busca.cfm?conjunto_id=9054), SESC Pinheiros
Como já mencionei tantas vezes, o SESC monta exposições primorosas. A exposição sobre Miles Davis (http://pt.wikipedia.org/wiki/Miles_Davis) não é diferente. Não sou muito de jazz, blues, e por aí vai, mas não deixo de ver espetáculos, mostras, filmes sobre o tema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/05/09/que-semaninha/). Fiquei surpresa com a produtividade desse ícone do jazz, que transitou também por beebop, blues, funk (isso, quem diria!), cool, música eletrônica, “n” instrumentos, não só o famoso trompete. O acervo exposto é imenso: instrumentos personalizados e de uso do músico e de um de seus grupos musicais; fotos, fotos, fotos; partituras com anotações de Miles e companheiros; cartas, bilhetes; quadros pintados pelo músico; roupas; várias gravações que podemos ouvir com ou sem fone de ouvido; projeção de filmes; capas de discos; vários objetos pessoais. Enfim, é preciso ir com tempo para apreciar com calma.
A exposição foi montada seguindo a linha cronológica da vida do artista, mas de uma maneira lúdica, muito interessante, com várias ilhas para os momentos mais marcantes, e.g., seu trabalho com Charlie Parker, Gil Evans, sua passagem pela Prestige, Columbia, a evolução ou movimento para a realização de cada LP, de cada lançamento.
Como tantas pessoas do mesmo quilate, Miles subiu aos céus e desceu ao inferno: talento a qualquer prova; dinheiro; drogas; mulheres; problemas graves de saúde. 65 anos repletos do melhor e do pior.
Interessante saber de sua educação musical refinada desde moleque, principalmente considerando um país envolto em racismo, e de como ele não parava ou se contentava e sempre procurava novas linguagens para se expressar musicalmente. Mais interessante ainda: eu só conheci um Miles mais velho (de uns 50 anos). Cristalizei-o dessa maneira na cabeça. Surpresa ao ver o rapaz negro pimpão, bonito, charmoso, elegante, low profile, em tantas fotos. Justamente depois da depressão, drogas, etc., veio aquela aparência que ficou em minha memória: um homem um tanto folclórico, de roupas chamativas, cabelo esculpido, rosto vincado. Tão diferente do jovem que encantou o mundo lá pelos idos de 1945/50.
Para os aficionados, uma viagem deliciosa. Para quem não conhece ou gosta tanto do gênero musical, uma descoberta!
A mostra vai até janeiro, no 2o. andar do SESC Pinheiros.
2) Um pouco mais perto (A little closer - http://www.imdb.com/title/tt1528309/)
E tome Mostra (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/26/ceu-e-terra/)!
3 personagens: mãe, filhos adolescentes (um de 16 e outro de 12). Cidadezinha americana. Mulher sem marido (pelo filme não dá para saber se ele morreu, evadiu-se, ou o quê). Um filme lento, mas interessante. Produção baratíssima, seguramente.
Mulher de uns 30 que trabalha para sustentar a casa, os filhos. Vê-se que não tem qualificação e faz trabalho braçal. Meninos, sobretudo o mais velho, descobrindo sua sexualidade. O mais novo, dispersivo, com problemas na escola. O filme começa com uma cena bizarra: um acidente com uma furadeira. No começo parece que é uma família totalmente desestruturada, mas nada disso: gente comunzinha, que enfrenta problemas que muitos enfrentam. Dinheiro curtíssimo. Mas o que dói mesmo é ver a falta de horizonte, o porvir massacrante que se abate sobre todos: a mulher que procura um companheiro e ganha sexo rápido; o menino que tem sua primeira relação sexual com uma amiguinha e, se nada de muito diferente acontecer, vai transar com outras amigas, conhecidas, casar com uma delas, arrumar um trabalho, ter filhos iguais a ele; o mais novo que tem problemas de foco, atenção, é mimado, vai aprontar sempre e ser amparado pela mãe e pelo irmão, afinal não é má pessoa. Ooooh, vidinha besta!
No entanto, no meio de tudo há, por incrível que possa parecer, carinho, atenção, amor sólidos. A cena final (aliás, como esses filmes da Mostra gostam de terminar abruptamente, sem mais essa nem aquela…) é isso que transparece: o APESAR DE TUDO…
O filme poderia ser uma tese sobre a vida do americano médio, não aquele de grandes centros, mas aquele que constitui de fato a população e força do país. Mais esclarecedor, impossível!
3) Eu era tudo pra ela e ela me deixou (http://www.faap.br/teatro/index.htm), no teatro FAAP
Primeiramente uma observação sobre o FAAP. Acho que já comentei como o teatro em si é ruim, desconfortável, mesmo depois de reformado há um tempo. No entanto, não posso deixar de comentar um aspecto importantíssimo atualmente (acho que não mencionei claramente antes): a venda de ingressos. É o único teatro (fora os alternativos) que conheço que faz a venda de entradas por telefone, no próprio teatro. Não cobram taxa! Isso faz com que os ingressos ali raramente passem dos R$ 50, mesmo com gente que está na mídia em cena. Chega-se ao teatro, está tudo lá, organizado, certinho. E sem taxa! E mais: nos dias de espetáculo, disponibilizam estacionamento gratuito. É limitado, evidentemente, mas gratuito. Ou seja, quem chegar antes estaciona de graça com toda segurança. O teatro, entre plateia e mezanino, deve ter uns 350 lugares, pouco mais ou menos.
Agora a pergunta que não quer calar: se eles podem fazer tudo isso, sem lançar na conta do espectador preços, taxas escorchantes, sobretudo considerando o “plus a mais” do estacionamento, por que os outros teatros não podem? Hein, hein, hein, hein??? Mistério daqueles para os quais sabemos a resposta: incompetência, preguiça de fazer o dever de casa, desejo de lucro fácil, e mais que tudo falta de respeito pela inteligência e bem-estar do público de teatro. E interessante que nunca vi nenhum movimento da classe teatral, tão cônscia, participativa, informada, sobre o tema. Com preços justos, realistas, adeus à meia-entrada estudantil. Com essa combinação, todos ganharíamos.
A peça tem Marcelo Médici em uma dezena de papéis e Ricardo Rathsam que está muito bem. Direção de Mira Haar (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/11/15/musica-musica-musica/).
Havia visto Marcelo Médici em Cada um com seus pobrema (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/02/19/cada-um-com-seus-pobrema/). Espetáculo divertido, mas que exigia menos do ator em termos de troca de figurinos, adaptação à personagem. O ator é uma figura simpática, pelo menos foi essa a impressão que me ficou de algumas entrevistas a que assisti. Seu carisma conquista a plateia.
A peça explora algo muito parecido com O Mistério de Irma Vap (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/03/30/o-domingo-prometia-mas-nem-tanto/), com o próprio Médici e Cassio Scapin, a que também assisti. Uma reedição do ótimo espetáculo encenado por Nanini e Latorraca na década de 80. Em Irma Vap havia uma centena de trocas de roupas, pois os dois atores representavam meia dúzia de personagens cada um, ou pouco mais. E essa é a fórmula de Eu era tudo pra ela. Médici, que aprendeu direitinho o ofício, transita por uma dúzia de personagens, homens e mulheres, e faz trocas de figurinos em segundos. Claro que só trocar a roupa não é tudo. Ele encarna mesmo a nova personagem como mágica. O espetáculo é divertido, todo personagem agrega um riso à peça. E na mesma linha de Irma Vap há uma história com sequência tresloucada e envolta em mistério crescente.
Interessantíssimo o cenário de Marco Lima! Tudo se passa ali, diante dos olhos da plateia. Uma casa que se transforma em várias; áreas externas que se transformam em internas; tudo manipulado por um dos atores, sem esforço, em segundos. Super bem bolado! A iluminação também faz a diferença. E palmas para quem idealizou e para quem confeccionou o figurino: funciona feito relógio.
Um espetáculo levinho, cumpre o prometido, i.e., fazer o espectador rir (uns mais, outros menos), e não é dos mais caros. Quer diversão descompromissada e de bom nível? Vale ver.














