
Quando meu pai ia pescar em Mato Grosso, e ia de carro, diante das “n” horas de viagem e dos poucos dias de estadia (3, 4), eu invariavelmente dizia: Por que não fica mais?  Uma viagem tão longa e não vai aproveitar…Deus me livre…viajar tanto, para ficar tão pouco.
AÃ, a gente esquece das coisas que diz, e faz o quê? A mesmÃssima coisa, como diz a música: “como nossos pais”.
Explico: um amigo originário de Itumbiara (http://pt.wikipedia.org/wiki/Itumbiara) - não fiquem envergonhados, eu também não sabia onde era -, no sul de Goiás, ia visitar a famÃlia, rever o sobrinho recém-nascido e me convidou para ir junto, fazer companhia. Eu, pessoa difÃcil e contida que sou, aceitei na hora…Aà me inteirei dos detalhes: aproximadamente 9 horas de viagem (de carro, hein!), ou seja, mais de 700 km (http://www.emsampa.com.br/wwrota1363.htm).  Acho que faz uns 35/40 anos que viajei 9h de carro, de ônibus. Mais recentemente, só de avião mesmo.  Deu um medo, mas eu que NÃO sou teimosa não refutei. Itumbiara que me aguardasse.
SaÃmos no sábado à s 7h aproximadamente e chegamos lá umas 18h. Demorou mais, pois paramos em Ribeirão Preto para visitar uma amiga de meu amigo.  Foi uma parada ótima, divertida, num condomÃnio bonito, mas isso não fez as 9 horas diminuÃrem, pelo contrário.  Paramos mais duas outras vezes para banheiro e boquinha.  Felizmente, as estradas, principalmente em SP, são excelentes e o trânsito estava mais que tranquilo.  Em MG as estradas ainda são boas, mas não tanto. Há vários trechos bem esburacados. O trecho final entre MG e GO é terrÃvel (era pior, segundo meu amigo). De todo jeito, chegamos muito bem, um pouco “quadrados”, mas em boa forma.
A cidade tem uma terra vermelha que gruda na alma. Apesar do tempo chuvoso pelo caminho, em Itumbiara o tempo estava bom: sábado ainda céu azul, domingo nebuloso, mas quente e continuou assim no domingo. Só ontem apresentou-se chuvoso.
A cidade tem perto de 100 mil habitantes, tem escolas, faculdades, poucos prédios, mangueiras como nunca vi (vejam as fotos no link abaixo).  Tem um bom comércio, uma feira que vara a noite de sábado e madrugada de domingo, encerrando-se lá pelas 12/13h do domingo.  Feira-livre mesmo.  Não têm as frutas que temos em nossas feiras, nem todas as  verduras e legumes. É tudo mais forte (milho, mandioca, repolho, etc.). Imagino que seja pela qualidade da terra e pelo clima.  Até domingo havia uma barraca grande na praça central para um tipo de “festa da pamonha”.  Eu só tinha comido pamonha doce até hoje, lá comi a salgada e frita.  Continuo gostando mais da doce mesmo.  Outros pratos que provei: Chica Doida (uma mistura de curau com presunto, queijo, pimenta, que se come quente. Bem gostoso, é uma refeição - http://tudogostoso.uol.com.br/receita/42664-chica-doida-goiana.html); Mané Pelado (uma espécie de bom-bocado);  a própria pamonha salgada e frita, além de um palmito amargoso, mas saboroso (palmito gariroba).
A cidade é, aparentemente, bem rica, e tem seu ar de interior mantido e forte. Tem modernidades, mas não é modernosa. Muitos saem de lá para estudar e trabalhar em Uberlândia, Ribeirão, BrasÃlia, Goiânia e por aà vai. Tive a impressão de que todo mundo se conhece. É aquela coisa, que até me deixou meu zonza, de: você sabia de fulano? Quem? Fulano, filho de sicrano, primo de beltrana!  Ahhh, pensei que fosse fulano1, tio de sicrano1…e por aà vai.  Até eu entender a árvore genealógica de meu amigo gastei muita massa cinzenta. Aliás, só compreendi mesmo na viagem de volta, após 9 horas de explicações detalhadas.  Não pedi para desenhar, mas seria bom…
Outra coisa que trouxe para casa foi o pequÃ.  Só tomei licor de pequà faz décadas e lá no Paraguai! Talvez tenha tomado depois, mas não me lembro.  Ontem mesmo pus o pequà para cozinhar para usar no arroz, com carne. Que cheiro é aquele?  Maravilhoso!  Nem precisa comer, só o cheiro já é prazeroso demais!
A cidade ainda está crescendo, modernizando-se, mas está muito suja, o asfalto é terrÃvel em vários lugares, o rio ParanaÃba, lindo e majestoso, que faz a divisa de Goiás e Minas, margeando a cidade, é pouco valorizado. O passeio na beira do rio está maltratado, foi feito e ficou.  Numa parte onde não havia esse passeio, fizeram (ainda estão ampliando) novas instalações: caminhos, gramados, jardins, brinquedos para as crianças, e por aà vai, mas muito tÃmido pela extensão que o rio propicia.  Uma pena!  Dava para ser um mini-Reno, para a população aproveitar mais, atrair turismo.  Há poucos bancos pela orla, em alguns partes poucas árvores.  O piso do passeio antigo tem rachaduras de dar medo. A impressão que se tem é que a qualquer momento parte daquilo vai ruir para dentro do rio; as grades de proteção estão comidas pela ferrugem, não existem mais pintura.  A iluminação na beira do rio parece bem recente e é igual à que temos em Santos, Guarujá.  Disseram-me que o prefeito, que está no segundo mandato, fez muito no primeiro, mas depois largou a cidade.
A cidade é bonita, tranquila, mas já ocorrem muitos assaltos a residências. Muita gente tem portão, muro alto e cerca elétrica. Muitos, mas muitos carros circulando, e a velocidade alta para a cidade. E o sonzão?  Como gostam disso!  Carros circulando ou estacionados com portas abertas e o batidão rolando ferozmente.  Um negócio interessante.
Agradeço a meu amigo, e sobretudo a seus familiares que abriram as portas de sua casa para mim, trataram-me com carinho e gentileza indescritÃveis.  Conheci muita gente que os visitou e fomos à casa de outros parentes. E nunca faltava um café, um docinho, um queijinho. Gente de uma atenção e cortesia indiscutÃveis.
Na estrada, paramos para banheiro e boquinhas. Com exceção de um Frango Assado em cidade distante de SP, todos os locais estavam meio derrubados, banheiros deteriorados e sujos.  Uma pena, porque havia movimento em todos. Pegamos chuva na ida em alguns pontos e durante quase toda a volta, mas nos dois casos fizemos uma vigem bem tranquila.
O percurso que fiz foi o seguinte: SP / Campinas / Jundiaà / Sumaré / Americana / Limeira / Leme / Araras / Pirassununga / Porto Ferreira / Santa Rita do Passa Quatro / Cravinhos / Ribeirão Preto / Orlândia / São Joaquim da Barra / Ituverava / Igarapava (aqui acabou SP) / Uberaba / Uberlândia / Tupaciguara / Arapuã (aqui acabou MG) / Itumbiara.  Posso até ter invertido alguma coisa, mas é muita cidade, algumas cidades pelas quais nunca passei.
Fotos da viagem. tirei as fotos do rio em Itumbiara, portanto o que se vê do outro lado, na outra margem, é Arapuã (MG).  Bacana, né?  O pessoal dali pode dizer: hoje à tarde vou à Minas, ou amanhã cedo vou à Goiás.  No mÃnimo divertido.
http://goo.gl/TJz5c.
E só para fechar e entenderem meu privilégio, uma poesia do anfitrião, Sr. Nelson, retirada de seu livro Centelhas.  Enjoy!
Viver livre, sem pensar
Pensar, prá que pensar, / o pensamento dói, / quero só amar,/ existir, sem penar.
Estar no sol, na lua, / no mar, à água do riacho / que bate à s pedras sem se machucar;/ rolar, deitar, abraçar, / gritar ao mundo, cantar; / amo!…amo!…amo!…/ livre, sem pensar, sem penar,/ sem dor, só o amor.
Quero minh ‘alma livre, / livre estar, em todo lugar, / sem ferir, sem a ninguém machucar;/ sem ter que ter, sem ter que doar, / nada, nada a se magoar.