Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

2

de
dezembro

Médicos e monstros

Todo mundo, ou pelo menos a grande maioria da Humanidade, um dia põe os pés num hospital. Uns com dor, outros para resolver problemas menos doloridos mas importantes, tem gente até que vai aos hospitais para trocar um ideia, gosta do ambiente tão simplesmente, sente-se só.

Eu nasci num hospital; fiz uma cirurgia para retirada das amídalas em tenra idade (não me lembro de nada); fiz uma histeroscopia cirúrgica há uns 12-13 anos que não levou nem 15 minutos; uma blefaroplastia (tirar gordura da pálpebra, que começou a ralar meu olho) rapidíssima também; uma catarata em 3 minutos (mas numa clínica, não em hospital). Ah, e tive uma vez uma alergia (bronquite alérgica) que me fez recorrer ao Nove de Julho num final de ano, para poder respirar.  Para tantas décadas de vida, bem pouquinho.  Claro que doei muito sangue, plaquetas, mas aí é diferente: fui a um hospital porque quis.

Mas minha relação com o mundo hospitalar nunca foi das melhores: fui várias vezes a hospitais porque minha avó materna e minha mãe tiveram graves problemas de saúde. Fui visitar outras pessoas em situação difícil também, mas sabe como é, mãe é mãe…então marcou.

Como fazia um bocado de tempo que eu não ia a um hospital por necessidade, imaginava que, considerando os avanços técnicos, químicos, exigências dos formadores de profissionais, e o valor que o mercado de saúde cobra de ponta a ponta, tudo estaria diferente, para melhor,claro.  Verdade que minha prima teve um convívio recente e longo com esse mundo e esteve longe de algum grau de satisfação e confiança. E não era qualquer hospital, não, mas um daqueles que mais parecem hotel cinco estrelas.

Eu sou uma pessoa que acredita nas pessoas, nas instituições, no mundo. Esse é meu default.  Assim sendo, lá fui eu para meu revival hospitalar com a maior boa vontade.

Tudo começou com a identificação de um melanoma bem no início. Tive uma sorte danada. A dermato retirou a pinta e, felizmente, a biópsia indicou que ela havia retirado todo o câncer.  Para segurança do paciente, o protocolo é alargar as bordas, como dizem os médicos, e aprofundar a extirpação de tecido.  Procurei um plástico, pedi autorização ao convênio. O convênio não permitiu que eu fizesse o procedimento na clínica do cirurgião (aliás, uma superclínica). Decidiu que eu deveria fazer tudo em um hospital. O médico opera no Einstein e no Nove de Julho, optei por este último.  FYI: minha mãe passou um mês lá (e eu 30 noites, enquanto meu irmão passou 30 dias) antes de morrer.

Ontem foi o dia: levei papéis, documentos, e muita tranquilidade comigo.  Eu não me altero com essas coisas, felizmente. Se tem de fazer, vamos fazer e ponto.

Recepção bonitona, meio conturbada (ouvindo conversas soube que tinha fila para internação, ie, mais pacientes que quartos). Fui para o setor de internação: cheguei umas 13h30,  3 funcionários, só eu de paciente.  Todos os papéis na mão, nada faltando. E lá se foi quase quarenta minutos para eu assinar uns 3kgs de papéis, receber manual do paciente, direitos e deveres, etc., etc., etc., e ser encaminhada ao quarto 438, na ala velha. Francamente, pareceu-me tudo muito igual aos tempos de minha mãe, e olha que já faz 18 anos!  Construíram uma ala nova, e deram uns tapas cosméticos e olhe lá na antiga!  Pelo menos wifi tinha, mesmo o funcionário da internação não tendo ideia de como funcionasse.  É preciso dizer que, dentro das limitações esperadas, os funcionários foram todos muito cuidadosos e gentis de começo a fim.

Primeira surpresa: quando a enfermeira foi fazer as perguntas de praxe, perguntei (só para confirmar) a que horas seria minha cirurgia, ela disse: às 18h.  Como assim? Quando marquei a cirurgia, o consultório do médico disse-me que seria às 16h.  Um dia antes da cirurgia, ligaram para casa para dizer que seria às 17h., e quando chego lá passou para 18h?  E eu em jejum total desde 9h?  É brinca?

Bem, perguntas daqui, de lá, assina daqui, de lá, e ela me avisa que eu teria de tomar banho, pois poderia levar bactérias ou outros seres para a sala de cirurgia, um ambiente estéril. E ninguém no consultório me avisou disso: não levei um chinelo, um desodorante (para o pós), enfim…Sendo assim, pedi um chinelo. Não temos, foi a resposta.  Eu: como assim? aquele chinelinho que dão de graça nos salões de beleza quando a gente faz o pé, não tem?  Não!  Então vejam que coisa fantástica: tomei banho, andei descalça pelo banheiro, e depois coloquei meu sapato. Eu não tinha rolado na rua, mas meu sapato teve um contato íntimo com quilômetros de calçadas, ruas por aí. E com ele, tomado o banho, andei para lá e para cá.  E as tais bactérias?   Sei que, somente depois de pronta para ser levada para a sala de cirurgia, colocaram aquelas sapatilhas de tecido que dão em qualquer laboratório para proteção do paciente.  Pelo menos meus sapatos ficaram para trás. E precisam ver a camisolinha de pano sem-vergonha, bem gastinha, e metade do meu tamanho que me deram. Não estou falando de SUS (e mesmo que fosse), estou falando de um hospital grande, caro, localizado em área nobre da cidade, com preços de primeiro mundo.

Ah, no quarto tinha um armarião.  Na porta dele, uma fechadurona. Pedi a chave para guardar minhas coisas. Não tinha.  Tinha um cofrinho lá dentro e só. Agora imaginem, eu ia tomar anestesia local, um relaxante, e se ponho uma senha no tal cofre e fico confusa e me esqueço qual era? Não importa se você está só ou acompanhada, não é a melhora saída. Qual a dificuldade de dar uma chave para a gente?  Bem, dei o jeito que pude, e torci para que nada sumisse.

Passados estes momentos inquietantes, aliás, irritantes, relaxante na veia (veia, não véia, tá?) e vamos lá.  A que horas? 19h! A cirurgia terminou 19h30. 19h40, eu já despertando totalmente, médico e equipe já haviam se evadido. Ficaram comigo dois enfermeiros para me ajeitar, ajeitar a sala.  Acho que todos saíram fugidos, pois não ficou anestesista, médico, assistente, nada, para ver como eu estava. Tudo bem que foi um procedimento simples, na verdade poderia ter sido feito em clínica, mas já que estou ali, né?

Para o quarto e tome esperar comida. A enfermeira de plantão pediu uma vez, duas, três…aí veio. Comi meu lanchinho e me apronto para ir embora. Fugida se necessário. Se o médico e sua equipe podem, por que eu não? Aí vem uma das enfermeiras e me diz para passar na Tesouraria, pois havia uma pendência. Hein?  Pois é, esqueci de contar. Logo na entrada, apresentaram-me uma lista de materiais que o convênio Amil/Blue Life e Dix não cobre, entre eles: óleo de amêndoas (?), extrato de camomila, cetaphil, manteiga de cacau (?), lençol descartável (bom saber, tem de levar de casa). caneta estéril Codman, e mais um montão de coisas. Pois é, e o cirurgião usou justamente a tal caneta estéril.  Ainda bem que foi bem baratinho…

E as moças do andar insistiam que meu/minha acompanhante é que teria de ir à Tesouraria. Aí perguntei: por quê? Se eu é que pagaria a conta, por que o/a acompanhante era imprescindível?  Meio sem muita vontade permitiram que eu fosse até a Tesouraria acertar minha “pendência”.  Paguei, assinei (de novo…), e fui embora.

Felizmente, deu tudo certo. O core, o cirurgião fez (não tenho dor, estou muito confortável). Vamos ver a segunda biópsia. Não tenho dúvida de que vou estar zerada.

Fiquei pensando nas pessoas que com dor, com sofrimento, em urgência, têm de entrar num hospital.  Têm de ter atendimento médico, lidar com assuntos comezinhos.  Nos familiares que, às vezes, acompanham como zumbis todo o périplo do atendimento de um familiar, de um amigo. Impotentes!  Difícil mesmo.

Episódios como o meu são bons porque ensinam: 1) que não dá para descuidar, nunca. É preciso fazer o preventivo, cuidar-se tanto quanto possível.  A responsabilidade maior sobre nossa saúde, é nossa mesmo. Minha mãe dizia: o melhor médico da gente, é a gente mesmo. E é preciso duvidar, questionar, exigir; 2) que não se deve esperar demais de homens e instituições ligados à saúde, são apenas homens e instituições humanas. Nada além disso.

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