Mostra é assim mesmo, sobretudo a Mostra Internacional de Cinema daqui; Tem alguma coisa ótima ou muito boa, outro tanto de boa qualidade, e montes de coisas ruins. Para quem gosta de cinema, como eu, é uma aventura. A cada filme bacana uma vitória! Bobo, né? Mas ver um filme bom, por feeling (eu raramente sigo as indicações dos jornais. Leio, mas não me esforço para ver exatamente aqueles filme), é uma delícia.
A 35a. Mostra (http://35.mostra.org/) teve exatamente os mesmos problemas de outras: filmes trocados na última hora; irregularidade total quanto à qualidade dos filmes; algumas cópias ruins (pois é, difícil acreditar…); filmes que saem de um cinema e têm de ir voando (e voar em SP, mesmo para um motoboy, já não é mais coisa fácil) para ser rodado em outro porque alguém comeu bola na programação; ingressos caros; equipes nos cinemas superdimensionadas (para quê tanta gente exatamente?); legendas ruins (amarelas e pequenas).
Havia visto dois filmes semana passada (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/10/30/parede-tela-palco/), nesta foram mais quatro. Para minha sorte dois foram de boa qualidade.
Aos filmes:
1) The day he arrives (http://www.imdb.com/title/tt1922561/)
Mais um coreano em minha vida. Já havia visto alguns (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/03/02/o-que-nao-tem-solucao/) e gostado. Filmes despretensiosos, produção baratíssima, bons roteiros, atuações interessantes.
The day he arrives é a história de um cineasta que está num “sabático”. Dá aulas em uma universidade, e volta a Seul para visitar um amigo. Há algumas coisas notáveis, pelo menos para mim:
- quando o amigo convida o cineasta para almoçar/jantar, ele sempre diz (pelo menos é o que está na legenda): é um bom restaurante de comida coreana. Como assim? Se na capital do país não tiver restaurante bom da comida nacional como é que fica?
- A história é enrolada cronologicamente, mesmo assim o cineasta não muda de roupa e carrega só uma minimochila nas costas (ali não tem pasta de dente, escova de dente, cuecas, camisa, meias limpas, que eu sei…);
- fizeram o filme com 5 ou 6 personagens e só e repetem à exaustão algumas locações;
- como aquele pessoal bebe e fuma! Impressionante!
O cineasta é um homem que ama uma, outra, e mais outra, mas não quer nenhum vínculo definitivo. E a mulherada encanta-se com ele.
Como há várias retomadas de algumas cenas, e.g., num caso específico a cena de um restaurante é retomada três vezes com variações pequenas. Minha opinião é de que se tratou de metalinguagem: a vida do cineasta sofre cortes e remakes como seus filmes. Não deu para saber se era isso mesmo. Se não for, aí complicou.
Nota: regular e olhe lá.
Uma produção hispano-argentino-cubana (será que é isso?). Uma surpresa para mim. Nunca procurei saber direito quem foi Che (
http://pt.wikipedia.org/wiki/Che_Guevara). Li muito aqui e ali, mas sem entusiasmo, apenas para me informar. O que pregava ele é, sem dúvida, o ideal de qualquer ser humano, mas eu não concordava/concordo com a forma de atingir os objetivos, principalmente os meios que utilizou no final de sua carreira/vida. Eu conhecia essa fase basicamente.
O filme, que é um documentário de excelente qualidade, mesmo considerando o viés ideológico, revela dados e documentos que eram guardados como “classified”. Mais, tendo a minha frente a história cronológica completa de Guevara: sua relação com a família, sua participação diplomática pelo mundo por Cuba, suas entrevistas, alguns de seus escritos, percebi a nobreza de seu ideário, sua fidelidade a uma postura humanista, sua cultura, sua inteligência, e como ele foi usado, sobretudo por Castro/Cuba, nem sempre de uma forma transparente. Difícil não acreditar em sua honestidade de propósitos. Tanto que, em dado momento, ele foi para a África para uma luta vã, e depois para a Bolívia, onde acabou sendo morto. Ele não disse, mas seguramente se desencantou com os rumos da política cubana. Foi plantar e cultivar suas ideias em outras plagas, só que aí baseado em armas. Sua família, pelo que entendi, vive em Cuba ainda. Também percebe-se que ele teve uma origem confortável, pôde estudar (era médico), viajar para tratar carentes pela Argentina por exemplo, mas não acumulou riquezas desmedidas durante seu tempo de vida pública.
No filme, também vi um Che sem aquela cara de mártir tão disseminada: um homem bonito, guapo, sorridente, simpático, articulado, carismático.
Seus diários, já filmados com sucesso (
http://pt.wikipedia.org/wiki/Di%C3%A1rios_de_Motocicleta), são documentos interessantes e importantes e foram utilizados como base para grande parte do documentário. Um filme que vale ver, mesmo que não se concorde com ideias e ações de Guevara. Na verdade, a ideia e a personagem eram ótimas, mas alguma coisa deu errado na vida real.
Nota: bom ou até muito bom.
Esse filme fez-me lembrar imediatamente dos conflitos locais: USP x PM. Um negócio meio antigo, déjà vu. Outro documentário, só que desta vez sobre Timothy Leary (sim, ele, o gajo do LSD -
http://pt.wikipedia.org/wiki/Timothy_Leary) e a aplicação de seu ideário por estudantes de Santa Cruz - Califórnia (aliás, de onde mais, certo?) (
http://www.cityofsantacruz.com/). Eles discutem com seriedade o tema psicotrópico. Até Leary, mais velho, deixou de lado isso e se voltou com sucesso para o mundo da tecnologia, lá pelos idos de 1980/90. Era inteligente, sem dúvida, afinal foi professor de Harvard, mas era meio matusca também (sua cabeça foi separada do corpo e congelada, claro que pós-morte. A ideia é a empresa que guarda a cabeça tentar um dia colocá-la sobre um novo corpo. Affeee!). E aí me vem um grupo de estudantes, em pleno século XXI, e retoma o tema como se fosse um anúncio bíblico? Oooh, coisa mais chata. O melhor do filme são as aparições e fatos sobre a vida de Leary: suas experiências, prisões, relacionamentos com o mundo pop, etc. E sua frase final, antes de morrer: Why not? Isso achei fantástico! Mesmo se produto de muito LSD no organismo.
Depois de muito filme rodando, o que a gente percebe é que aquela meninada, com olhar embasbacado por Leary, é quadrada e ponto. Uma das meninas que foi pelo caminho das drogas está em fase de recuperação, ou seja, ninguém do grupo, exceto a garota, rompeu nenhuma linha ou barreira. Ah, e me lembrei do conflito USP x PM, justamente porque alguns uspianos querem o direito de fumar maconha no campus. Nossa, isso é do meu tempo, baixo a ditadura. Rebeldia das grandes! Eu pensava que tinham evoluído por lá e haveria motivos e maneiras mais refinados por/para se lutar nos dias de hoje. Parece que não. Devem ser fãs de Leary também.
Nota: ruim.
Este foi o filme trazido na vula do Frei Caneca para o Cine Sabesp (Pinheiros). O melhor é que o filme que passaria às 19h estava lá tranquilinho. Por que quando fizeram a programação simplesmente não inverteram a ordem? Não me venham dizer que são 300 filmes, etc., etc., pois com informática e o monte de gente que a Mostra recruta para trabalhar dava para fazer uma coisinha melhor. Ah, e quando comprei o ingresso (ainda não sabiam do atraso na bilheteria), o bilheteiro do cinema disse que o pessoal da Mostra pedira para avisar que a qualidade do filme não estava 100%. Pois é, e olha que foi a melhor exibição em termos de qualidade que vi. Vai entender…
Che e este filme foram os melhores que vi com certeza. Produção espanhola, bem cuidada. A fotografia e trilha são bem bacanas. As atuações também são muito boas.
É a história de uma mulher famosa (design de moda) que está na pior. Ao sair brigada da casa da mãe, depois de ser despejada de sua própria casa, integra-se a um grupo bem sui-generis: pessoas que moram em trailers, num camping. Gente comum: uma depiladora, uma balconista de fast-food, um pessoal que tem um cirquinho, um cantor russo em decadência, e por aí vai. A protagonista (Bárbara) acaba se envolvendo com um rapaz que escolheu ganhar dinheiro com performance e que mora em um dos trailers. Vejam bem: escolheu, não queria nada além daquilo, aliás não precisava. A vida no camping tinha gente triste, trabalhadora, enroladora, gente alegre como em todo lugar. Um jeito barato de morar com certa dignidade. Ou seja, melhor que favela e cortiço com certeza.
Andrés, o rapaz com quem Bárbara tem um envolvimento temporário, aquele que escolheu um jeito diferente de viver, tem um toque chapliniano. Interessante vê-lo caminhando, de costas, por ruas, carregando um vaso sanitário roxo (item importante de sua performance) no ombro. Causa uma impressão onírica, lírica.
Um filme bem interessante mesmo. Nota: muito bom.
Se gostar de cinema e/ou não for escravo do “ganha-ganha”, vá. Essa aventura sempre vale a pena.