Os quatro filmes que vi nesta semana, mesmo com temas tão variados, ratificaram isso para mim.
1) Medianeras (http://www.imdb.com/title/tt1235841/)
Disse e repito, los hermanos sabem fazer filme. E muitas vezes, do nada ou quase nada.  Medianeras trata do encontro de duas pessoas que vivem em Buenos Aires, perdidas na metrópole.  Um rapaz que trabalha com internet, sites; uma moça que é arquiteta e ganha a vida com decoração de vitrines.  Dois solitários, que tiveram seus amores, que têm seus problemas (MartÃn, o ótimo Javier Drolas, teve sÃndrome do pânico).  Vão vivendo, sobrevivendo, até que um dia, depois de se esbarrarem muito, se enxergam.
Interessante a review que está no IMDB (link acima). O filme não tem ápices, não tem clÃmax, ele é bastante linear, mas nem por isso menos interessante: textos lindÃssimos, narrados pelas personagens principais (Mariana e MartÃn), uma visão interessante de Buenos Aires (sempre linda), música ótima, humor na medida (os blind dates são hilários).
O filme tem, na verdade, três personagens: Mariana, MartÃn e a solidão, esta a protagonista.  Mesmo com tão pouca variação de tipos não aborrece absolutamente.
Filme bonito, simpático, leve, mesmo tratando de um tema denso. Trilha sonora ótima. Vale ver.
Ah, e como a mulherada fuma…deu até aflição ao vê-las acender um cigarro depois do outro.
Aqui uma crÃtica sobre o filme e uma entrevista com o diretor:
http://guia.folha.com.br/cinema/973114-medianeras-mostra-solidao-do-delivery-e-do-sms-diz-diretor.shtml
2) Amizade Colorida (Friends with Benefits -Â http://www.imdb.com/title/tt1632708/)
Escolhi meio ao acaso. Gosto bastante da Mila Kunis, sobretudo depois que ela foi para a tela grande, i.e., desvinculou-se dos seriados. Justin Timberlake, que aparentemente “vi” mais como dublador, também está ótimo no filme.
É uma história mais que água com açúcar: headhunter, new yorker, que acaba se envolvendo com o supergênio que ajuda a contratar.  O envolvimento é divertido, e até acho que para o bem da humanidade as relações deveriam ser, na medida do possÃvel, como a de Dylan e Jamie: sem maiores compromissos além do sacramento da amizade.  Afinal o mundo já está superpopulado, então não há necessidade de complicar, comprometer-se demais, essas coisas.  Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a vida, ou melhor, o ser humano não é assim.  Está no dna: ele é gregário (adj. diz-se dos animais que vivem em bandos ou em grupos.Que é próprio das multidões: ilusão gregária. Instinto gregário, tendência que leva os homens ou os animais a se juntarem, perdendo, momentaneamente, suas caracterÃsticas individuais) e ponto. Ou seja, nem preciso dizer que a fórmula perfeita encontrada pelo casal no inÃcio não vai funcionar.  Obviamente, a gente sabe disso desde o primeiro minuto, mesmo assim o filme diverte, encanta.  No meio da trama ainda há um pai (de Dylan) com uma doença degenerativa, que emociona  e é pedagógico- o mundo está envelhecendo e a cada dia aumenta a ocorrência desse tipo de problema. Hoje é parte da paisagem.
Tilha sonora simpática.
Enfim, um filme para ver a qualquer hora. Diversão garantida.
3) O dia em que eu não nasci (Das lied in mir - http://www.imdb.com/title/tt1398029/) (http://www.dasliedinmir.de/)
Haja paciência: um filme que trata da Argentina e tem um tÃtulo desses. Precisa dizer mais?  Já cantaram a bola, os conflitos, etc.  Em alemão o tÃtulo é (aproximado) A canção em mim.  Claro que também dá para intuir a questão, sobretudo após as cenas iniciais, mas não é um negócio tão  dããã quanto o tÃtulo nacional. Enfim…
A produção é germano-argentina, mas o resultado é germânico 80%. Não fosse por algumas personagens argentinas, a mudança de tom quando aparecem, por ser rodado basicamente em Buenos Aires, ouvir-se espanhol., é um filme alemão.  O tema é bem interessante: uma moça que reencontra seu passado. Vai pouco a pouco, com muita disciplina e à custa de sofrimento e reviravoltas internas, recuperando uma vida perdida, a verdade sobre si, sua famÃlia.
Achei interessante porque, até onde me lembre, nunca vi nenhum filme ou li algum livro que trata-se dessa empreitada: um adulto (filho) que ignorasse seu passado de criança raptada durante o regime militar, vindo a descobri-lo e, a partir daÃ, ir atrás de suas origens.  A aceitação da famÃlia argentina, a emoção do reencontro, a insegurança e dificuldade de compreensão de Maria (Jessica Schwarz) são comoventes e perturbadores.  Reinventar a própria vida é barra, principalmente nas circunstâncias discutidas pelo filme.
Um aspecto interessante é a indecisão sobre o que fazer: a famÃlia argentina quer que o suposto “algoz” (pai adotivo) seja punido, mas a vÃtima (Maria) não está tão certa de que esse seja o caminho. E o “algoz” não vê suas ações com o mesmo rigor. Afinal, a situação durante a ditadura era caótica, exigia ações urgentes, e tantos anos haviam se passado…TerrÃvel a oscilação entre ódio e amor por que passa a personagem principal, à qual se agrega a necessidade de decidir sobre o futuro de seu pai e seu próprio porvir.
Realmente, um filme muito interessante, bonito, denso, mas bem pesado.  Ao final, só resta um sentimento de muita tristeza por todos.  Todos os atores estão bastante bem e acho que nunca vi nenhum deles na telona anteriormente.
4) Trabalhar cansa (http://www.imdb.com/title/tt1686328/)
Dúvida: Meu paÃs ou Trabalhar cansa?  Pensei assim: depois de O dia em que eu não nasci, melhor um filme um pouco mais leve.  Ledo engano…Trabalhar cansa tem história/roteiro ótimos, atores na medida para seus personagens, mas que não levanta voo.  Não sou técnica, mas me parece que com direção mais competente poderia ser um arrasa-quarteirão. Tem tudo para isso: um enredo interessante, intrigas, mistério, e um desfecho inusitado, mas carece de alguma coisa e não atinge todo seu potencial.
Apesar da simplicidade cenográfica, de figurino, musical, não é uma produção mambembe. É só aquela história do podia ter sido, mas não foi.
O filme trata da vida de um casal que passa pela perda do emprego do marido, pelos percalços do novo negócio da mulher, por uma empregada dos sonhos, pela visita da mãe/sogra, e por aà vai. Parece tudo bem comum, mas os atores, principalmente Helena Albergaria (que nunca vi em outra produção) com seu olhar esgazeado, perdido, inseguro, conseguem inquietar o espectador. A gente não sabe muito bem o que virá em seguida.
O mistério resolvido no final e a cena do marido num workshop são bem interessantes. Já viu tudo que queria, pode ver este aqui também.