1
de
outubro
Eu não sou do contra…talvez só um pouquinho
Eu tento, tento mesmo. Meus escritos por aqui são a prova de que eu já vi alguns filmes nacionais bons (e.g.http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/21/de-mentiras/) e um monte de ruins (e.g. http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/09/22/vade-retro/).  Eu gostaria muito que o cinema nacional, despertado há umas três décadas tão-somente da inexistência, florescesse, tivesse muito sucesso e reconhecimento, crescesse em qualidade. Vem uma ondinha, uma produção um pouco melhor, e em seguida um monte de produções mambembes.  Pois é, esse adjetivo surgiu para mim nesta semana. Mambembe!  E não é questão de ser produção hollywoodiana, i.e., cenários, locações, tecnologia, figurinos, mas de produções que respeitem minimamente a inteligência e o gosto do espectador. Tudo bem, tudo bem: somos um paÃs de analfabetos, em que a educação formal está falida (não sou eu que digo, está em todos os jornais, tvs, rádios, todos os dias); o povo é ignorante em sua maioria; temos miséria e não só pobreza. Então…por isso mesmo, a responsabilidade social, cultural e educacional da tv, cinema, teatro e literatura nacionais é ainda mais crucial  Há momentos em que penso: quem fez esse filme (atores, diretor, produtor, etc.) não tem vergonha, não? Acho que não mesmo.  E lendo matérias como esta (http://colunistas.ig.com.br/monadorf/2011/09/30/familia-vende-tudo-novo-filme-de-alain-fresnot-e-pura-diversao/) é que acho que sou do contra.
Fui ver FamÃlia vende tudo (http://cinema10.com.br/filme/familia-vende-tudo). Atores de que gosto muito: Vera Holtz, Lima Duarte, Caco Ciocler. Até gosto de Luana Piovani, de Ailton Graça. Mas há outros bem fraquinhos. Tudo bem, até ganharam prêmio por aÃ, mas pelamor…
É a história de uma famÃlia pobrinha, que vive numa comunidade pobrinha. Ninguém tem trabalho seguro, fazem biscates, que nem sempre dão certo.  Emprestam dinheiro de um chefão da área para comprar produtos no Paraguai e trazer para vender no Brasil. Perdem tudo numa blitz da polÃcia. A banca de camelô trabalhada pelo filho (Webster), é apreendida pela prefeitura. Numa conversa “familiar” encontram a saÃda para o sufoco: a filha Lindinha (uma menina bonita mesmo) teria de procurar alguém com dinheiro para engravidar e poder tirar dinheiro do incauto. E quem é essa vÃtima? O garanhão Ivan Carlos (Caco Ciocler). Um homem metido a garanhão, de uma credulidade atroz.  Ele é casado com Luana Piovani.
Lindinha aproxima-se dele após um show, com o suporte técnico de toda a famÃlia; faz sexo com ele e a partir daà o imbroglio vai de vento em popa. Mas é uma história tão rasinha, que até irrita.  Há momentos divertidos sobretudo por conta das atuações dos grandes atores presentes, e só.  Ah, sim, a trilha sonora ajuda a divertir tal a bizarrice das letras, das músicas, das performances bailadas. In short: dá para ingolir, é só.  Por incrÃvel que pareça, o que achei mais bacana foi a apresentação da equipe no final (não conto para não estragar um dos melhores momentos da produção).  Pois é, aà a gente assiste a Um Conto Chinês (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/09/05/uma-festa/) que trata igualmente de coisas simples, sem grande fotografia, sem grandes cenários, mas com uma história magnificamente trabalhada e se dá conta de quão mambembes ainda somos nós.  Oooh, dóóóó!
A única coisa positiva mesmo do filme (e não me diga que isso estava nos planos do diretor, que não estava, não) foi pensar que as pessoas retratadas no filme, suas vidas, seus comportamentos, sua visão de mundo, de sociedade, do outro, são os mesmos da grande massa com que cruzo no metrô, que está na indústria de serviços, que está no ônibus a meu lado. O cidadão médio comum é aquilo.  Analisando um pouco mais, não dá para achar graça, só para se perguntar: quem é essa gente? Gente que vejo todos os dias, ignoro, dou por inexistentes, mas que estão ali, são a grande realidade do paÃs.  Voltando para casa, prestei atenção à conversa de dois rapazes (um de 20 e outro de 22 - eles é que se disseram as idades): conhecidos do mesmo bairro, simpáticos, falantes. Nunca ouvi tanto “meo”, “da hora”, tantas frases truncadas à s quais só um leitor de mentes poderia dar algum sentido, mas que eles entendiam perfeitamente. E como eles os tantos conhecidos que mencionaram devem ter essa capacidade.  Que coisa, eles são a realidade, eu não!
Mas nem tudo estava perdido: fui ver Conversando com mamãe (http://vejasp.abril.com.br/teatro/conversando-com-mamae) (http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,conversando-com-mamae-retrata-amor-de-mae-e-filho,767576,0.htm), no Teatro Folha.
O Teatro Folha, como já mencionei, é ruinzinho mesmo.  Desta vez comprei no piso superior/lateral pelo custo.  Nunca havia visto uma peça dali. Só mesmo na primeira fileira ou nas 3 últimas, fora isso, impossÃvel ver todo o palco das laterais superiores. E mais: quem foi o descerebrado que colocou aquelas grades à quela altura e distância?  Elas ficam exatamente no meio da visão da cena, ou seja, ou você tem de ser um anão ou ter mais de 170cm para conseguir não ver o palco cortado ao meio. Faça-me o favor! Não dava para dar um jeito naquele negócio?
Quanto à peça, muito divertida. Beatriz Segall (maravilhosa, as usual) e Herson Capri estão ótimos. A peça esteve pelo RJ e lá fez muito sucesso. JustificadÃssimo! É o mesmo texto que deu origem a um filme em 2004 (não vi por aqui, infelizmente).  O texto de Santiago Carlos Oves é delicado, leve, mas emocionante.
Trata-se de uma conversa, aliás várias, entre um filho quarentão que perdeu seu emprego, e uma mãe amorosa, consciente, com humor, inteligente.  O filho tenta resolver seus problemas vendendo o apartamento em que mora a mãe.  Há os conflitos de praxe: sogra x sogra, sogra x nora, nora x sogra.  Jaime, o filho, não conhece seus próprios filhos; seu relacionamento com a mulher vai muito mal; seu futuro financeiro é sombrio. Mesmo com tantos indÃcios nefastos, a gente ri muito. O timing é perfeito. No entanto, como mencionei em post de 2009 (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/04/12/coelhinho-da-pascoa-que-trazes-pra-mim-um-otimo-domingo-legal/), BSegall tropeça algumas vezes nas falas, nas reações, mas é coisa micromilésima, e que não atrapalha em nada a performance, mas a gente percebe, pelo menos eu notei (sou do contra ou não sou?). Mas é bom lembrar: ela está com 85 anos.  Quisera eu chegar lá com toda essa memória, postura, elegância, beleza, essa maravilhosidade toda…
Uma peça curta (80 minutos), boa para se ver em qualquer dia, a qualquer hora.  Ah, e prepare-se para as emoções finais. Lindas, lindas, lindas!



