
Sempre ouço dizer que nosso Código do Consumidor é um dos mais avançados do planeta. Não posso avaliar, não sou técnica, SÓ consumidora. O fato é que não adianta ter discurso se não há ação condizente. Se temos um código, um conjunto de regras, tão elaborado por que o consumidor ainda é tão destratado por aqui? Por que serviços tão ruins, preços abusivos, malandros por todos os lados? Primeiramente, parece-me óbvio, os órgãos fiscalizadores não funcionam. Senão como explicar acontecimentos como aqueles ocorridos recentemente: a maior cidade da América do Sul, SP, teve muitos de seus moradores submetidos a mais de 24 horas de falta de energia por conta de uma chuva e um vendaval mais fortes. 24 horas! Alguns setores da cidade penaram mais de 36 horas! Alimentos deteriorados/perdidos, pessoas idosas, doentes sem elevador, penando para se locomover, remédios que precisam estar em refrigeração estragadoss! Não há Aneel, não há governo no estado, não há prefeito, o cidadão que se vire. Somente o Procon teve ação mais assertiva, embora a meu ver inócua considerando a magnitude do desastre. E os prejudicados, se tiverem forças, que vão atrás de algum ressarcimento.
A administração pública, os órgãos reguladores e fiscalizadores, que deveriam estar ali pelo cidadão, são fracos, incompetentes, às vezes coniventes. Mas isso é uns 60% da questão. Os outros 40% são o próprio cidadão/consumidor. Ele não faz sua parte. Se ele não briga por si, espera que outros o façam com perfeição e de maneira abrangente. Tá, conhece aquela do Coelhinho da Páscoa? Então, tudo igual. Como escrevi no post anterior sobre o tema, os números levantados pelo IDEC indicam claramente de onde vem nossa indigência:http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/05/08/insights-de-um-cidadao-ii/.
Nesta semana tive algumas demonstrações de como a coisa NÃO funciona.
1) Julice Boulangère (http://www.julice.com.br/)
Estive lá na quarta-feira passada, pós-cinema. O lugar é bem bonitinho, agradável mesmo. A tarde estava com temperaturas amenas, mas ensolarada. Nada melhor que esse clima para um lugar como aquele. Os produtos de lá são de primeira linha, deliciosos e não são caros considerando o que se vê pela cidade.
No entanto, na primeira visita, desconforto: serviço confuso, falho. Pedi uma média, um croissant simples e um croissant de amêndoas com chocolate. Acho que nem precisaria ter pedido, mas tive de: dá para aquecer um pouco os pães? Estava friozinho, então isso deveria ser default. Meu pedido foi atendido. Estava tudo delicioso.
Vi que havia kits de café-da-manhã. A própria garçonete disse que não estavam servindo mais àquela hora. Perguntei até que horas serviam. A moça, embora gentil, não sabia. Teve de perguntar! Eram 16h. e o serviço é oferecido até 13h. (pelo jeito vale muito a pena. Vou semana que vem experimentar). Agora, num lugar pequeno, em que aquilo está no cardápio impresso e plastificado, como é que uma funcionária não sabe de informação tão básica? Enfim, adorei as guloseimas e comprei vários produtos. Fantásticos!
Hoje voltei para tomar um café com um amigo. Os donos estavam por lá. Que diferença! A casa estava mais cheia, o atendimento foi excelente, não houve senão. Aliás, os croissants já estavam em vitrine aquecida para ser servidos aos clientes sem demora. Por quê? Porque a temperatura estava relativamente baixa, igualzinha ao outro dia. Que coisa!
Qual terá sido o problema? Falta de treinamento? Falta de cérebro da funcionária da quarta? A questão é que alguém tem de ver que isso não ocorra. Entendo que proprietários não podem ficar à frente de seus negócios 24 x7, mas algum jeito têm de dar. Foi apenas um escorregão, mas melhor evitar.
2) Tenho mencionado cansativamente os preços pela hora da morte em SP. O salto dos preços de alimentação é obsceno. Aí li na Você S.A. de junho o seguinte: “O tíquete encolheu - Almoçar fora ficou mais caro. O preço da refeição completa teve aumento três (3) vezes superior ao índice da inflação nos últimos 12 meses.”
Ou seja, o problema não é alta de preços de matéria-prima, de mão-de-obra, de aluguel, é problema gerencial. Ninguém quer fazer a lição de casa. Perdas, falta de produtividade são cobertas por aumentos, pagos pelo cliente. Se tem quem paga, para que ter trabalho?
3) O outro lado: uma empresa americana colocou para fora do recinto um consumidor e disso fez propaganda. Ah, e não querem que a pessoa volte mais. Americano é o rei do marketing mesmo! Leiam/ouçam sobre o imbroglio neste link: http://youtu.be/1L3eeC2lJZs
“We do not tolerate people that talk or text in the theater. In fact, before every film, we have several warnings on screen to prevent such happenings. Occasionally, someone doesn’t follow the rules, and we do, in fact, kick their asses out of our theater. This video is an actual voicemail from a woman that was kicked out of one of our Austin theaters. Thanks, anonymous woman, for being awesome.”
Pois é, tem consumidor/cliente notionless também. Tem gente que, numa sala cheia, só porque está no escura, saca o bendito cell, “mensageia”, ou até atende o telefone falando “bem baixinho”, e acha que aquela lanterna no meio da sala escura, ou sua voz sussurante não vai atrapalhar os outros. Quantas vezes já testemunhei isso…Na verdade, o reasoning é o seguinte: se atrapalhar, que se dane… Well done, Alamo Drafthouse!
4) Para coroar: Blú Bistrô (http://www.blubistro.com.br/)
Eu já havia ido umas poucas vezes a esse restaurante e tinha gostado bastante (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/09/14/e-terminou-a-restaurant-week/). Como ia ver uma peça com amigas no TUCA e antes jantaríamos, sugeri esse restaurante por ser perto e pela boa impressão que havia me causado.
Reservei já que o lugar não é tão grande e por estar perto da universidade tem clientela cativa. O atendimento telefônico foi muito gentil e efetivo.
A casa é bonitinha, tem música ao vivo de qualidade. Já a comida não estava 100%. Pedi um raviolone de alcachofra que veio nadando literalmente no azeite. Tive também de pedir que verificassem o que estava havendo, pois, embora fôssemos somente 3 pessoas, os pratos estavam demorando muito e tínhamos de ir para o teatro. Com entrada, refris, um bloody Mary (meu), café, serviço, R$ 62 para cada, aproximadamente. O serviço também é confuso, percebe-se. Agora o máximo é o tal problema em emitir nota fiscal paulista para cada um dos cpfs. Tenho aturado isso de vários estabelecimentos, but no more! Alguns, com bom senso e querendo atender bem o cliente, lançam mesas que não solicitam nota nos outros cpfs da mesa que solicitou nota fiscal rateada. Não é o certo? Seguro que não! Mas é um jeito de os estabelecimentos não terem trabalho para resolver a questão e não deixarem o cliente no prejuizo, afinal os créditos da nf paulista voltam “cash” para o consumidor. Mas essa não é a postura do Blú Bistrô. O garçom disse que só poderia tirar a nota em um cpf, ao que eu disse que então lançassem outra mesa no cpf não contemplado (eu não pedi no meu cpf, era para minhas duas amigas). O garçom, com uma prontidão absurda para o nível de serviço prestado no local, disse: isso não fazemos aqui - dito com tom de: bandidagem, não! Ao que eu prontamente disse, então se o negócio é fazer o certo que a Sec. da Fazenda orienta que os estabelecimentos têm, sim, de dar notas com cpfs individuais e ponto. Não houve: desculpe-me, eu não sabia, ou vou chamar o gerente, ou vou verificar. Bom, azar do local que tem gente assim por lá: já foi registro para o site da Secretária da Fazenda, para o Jornal da Tarde e para a Rádio Bandeirantes. Empresário obtuso ou descuidado, que não respeita o cliente e acha que tudo bem, só aprende assim, infelizmente. Não é o empresário, é o funcionário? Corrija a rota, para isso ganham bem com o negócio de alimentos se bem administrado. E, atenção: não falo teoricamente. Meu pai foi da área, minha mãe também. Não enriqueceram, mas ganharam, sim, para ter uma vida digna, confortável. Então, dá. É só saber e/ou querer trabalhar e não querer passar a fatura para o cliente.
E de agora em diante é assim que vai ser: que reclamação para o garçom, para o gerente, para o dono…mídia ou fiscalização neles, e ponto. Terei menos trabalho e mais retorno, com certeza.
5) Cânter Bar (http://www.canterbar.com.br/)
Comprei um voucher para feijoada neste estabelecimento. Ele fica dentro do Jockey Clube. Localização privilegiadíssima, sem dúvida.
Primeiro problema: o Groupon definiu que a reserva deveria ser feita por e-mail, das 10 às 17h., de segunda a sexta. A reserva seria confirmada na data do mail. Reservas solicitadas após esse horário seriam confirmadas somente no dia seguinte. Fiz isso, e esperei. Nada. Reenviei o mail, e nada. Reclamei com o Groupon que me deu uma resposta engraçadíssima. Reclamei da não-resposta de acordo com as regras que constavam do voucher emitido por eles. Resposta: não podemos interferir na agenda dos parceiros. Como assim? Não era uma questão de interferir na agenda, era uma questão de não ter resposta do tal parceiro conforme as empresas haviam acordado e estava escrito no voucher. Regras deles mesmos, não minhas. Bem, depois da segunda reclamação, milagre! Recebi a confirmação da reserva.
E lá fui eu com um amigo para a tal feijoada. Originalmente o preço seria R$ 55, sem bebidas ou serviço. Pagamos R$ 16,50/cada. Pela feijoada apresentada, mais que justo. Não estava ruim, mas que não valia os tais R$ 55, não valia mesmo. Entre suco, águas, gorjeta mais R$ 22,00. Um suco de melancia ali custa inexplicáveis R$ 8 e uma água de 330ml, R$ 4.
O local como um todo (Jockey, restaurante) está derrubado. Falta de manutenção evidente. Além disso, como disse meu amigo: muda a grama, o pessoal não come e morre de fome. Explico. Na minha frente, chegou um senhor, sozinho. A recepcionista disse que não poderia atendê-lo pois para portadores de voucher somente com reserva. O senhor perguntou se não poderia esperar, já que havia pago o estacionamento de R$ 15, e não queria ter de voltar. Vejam, bem, eram umas 13h, o salão bem grande estava praticamente vazio. Quanto tempo aquela pessoa levaria para comer? 30 minutos, 40? Uma hora? Duvido. Então porque todo aquele problema? Por que não atender a pessoa de uma vez, um a menos para reservar, um voucher a mais contabilizado, um cliente satisfeito? É dureza ou não é? E mais! Estavam duas recepcionistas e o maitre na entrada do restaurante, além de um segurança. Meu amigo e eu presenciamos toda a discussão. A segunda recepcionista não poderia ter-nos atendido e evitar o desagradável da coisa? Mas não… Aí dei meu nome. E não achavam! Claro que eu estava documentadíssima, mas não foi necessário sacar a papelada. Por que será que com programas tão bons e simples (Word, Excel) não produzem uma listinha em ordem alfabética? Não é a primeira vez que vejo isso acontecer.
Bem, eu nunca tinha ido ao restaurante. Parece que à noite há música, algo como uma balada. Para o público que frequenta esse tipo de evento quem sabe até seja muito bom, mas para almoçar é menos que razoável. O que vale é o lugar em que está inserido, lindo mesmo. De quebra deu para ver uns cavalos garbosos sendo levados de lá para cá.
Ah, tem o Q Bazar lá também (nas dependências do Jockey), mas nem fui ver. Pode ser que valha a pena.
Mas que o lugar como um todo está um tanto derrubado, ah, está. Li recentemente notícias sobre a fragilidade da situação do Jockey. Pena mesmo que um patrimônio tão bonito, em área nobre da cidade esteja em situação tão difícil.