Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

30

de
abril

Vida e morte

Coincidentemente, nesta semana vi dois documentários: um sobre vida e outro sobre morte, ou melhor, sobre redenção.

O primeiro, Bébés (http://www.imdb.com/title/tt1020938/), produção francesa que acompanhou 4 crianças em seu primeiro ano de vida. Elas eram do Japão, Mongólia, Namíbia e EUA.  Não há quase legendas, só a rotina das crianças, em partes muito diferentes do planeta, no começo da vida.

Acho que dá para imaginar a diferença da realidade, estrutura, acessos de uma criança da Namíbia e de outra do Japão, certo?  Pois é, mas independentemente das realidades tão díspares, é interessante ver que as quatro logram os mesmos resultados de um jeito ou de outro: choram, mamam, movimentam-se, engatinham, andam, defendem-se, riem muito, comemoram suas pequenas vitórias (e.g., levantar-se e permanecer de pé!). A criança da Namíbia, apesar de viver com o pé na terra, no meio de moscas, de um ambiente mais que precário, é das mais risonhas, fortinha (os pais trabalham com cabras e dali deve vir muito de sua alimentação), e é muito estimulada pela mãe, consideradas as limitações que esta tenha. O menino da Mongólia é também muito interessante: a família vive numa espécie de acampamento, lá no meio do nada, cuidando de seus rebanhos, e o moleque igualmente é bem alimentado, bem cuidado, risonho, o mais desbravador, intrépido de todos. Forte, também se alegra ao caminhar, ao dar seus primeiros passinhos. Não se intimida com nada e, se necessário, põe o choro a seu serviço. E chova, viu!  A criança americana e a japonesa estão inseridas em famílias mais comuns, como as nossas, em ambientes urbanos.  Naturalmente, mesmo que todas cheguem ao final do primeiro ano de vida com as mesmas vitórias, mais adiante os estímulos, estrutura à volta, acessos resultarão em pessoas bem diferentes. Não que o menino-pé-no-chão da Namíbia não possa escapar do destino que lhe oferece o ambiente em que nasceu, mas que vai ser difícil, aaah, isso vai. Fica patente que à medida que menos dependam de seus “dons” ou habilidades inatos, o suporte material, tecnológico, alimentar diferenciado vai determinar o distanciamento entre suas existências, tão parecidas enquanto só dependiam do fato de todos pertencerem à mesma natureza humana.

Um filme bem interessante, divertido, dinâmico, bonito. Uma delícia ver como, seguramente, somos todos nós no melhor e no mais puro estágio de nossa vida.

E ontem fui ver Marcha da Vida (http://www.imdb.com/title/tt1186809/). O filme, uma produção Brasil + EUA, relata uma atividade que tem sido desenvolvida desde 1988 pelas comunidades judaicas pelo mundo: realizar, com jovens, a mesma marcha que levou à morte centenas de milhares de judeus, durante a guerra, entre Auschwitz e Birkenhau.  O propósito do evento, sempre com milhares de participantes, é fazer com que as novas gerações entendam o que aconteceu e não se esqueçam jamais.

E sabem que me surpreendi com um fato mais que óbvio, i.e., a ficha caiu: os judeus sobrevimentes ao Holocausto que estão por aí são poucos, estão muito idosos, e em breve não haverá mais nenhum. Ou seja, as testemunhas do genocídio terão sumido. Quem vai contar a história para as futuras gerações? Quem vai manter a determinação de evitar que o desastre se repita?

Claro que há filmes, fotos, mas a memória humana prega peças. Não duvido que haverá um momento, lá na frente, em que tudo estará tão distante, mesmo que documentado, que mais parecerá obra de ficção. E aí o perigo de o caráter pendular da Humanidade fazer das suas e a mesma carnificina ser repetida em nome de não sei que fé, que crença, que justificativa, como aconteceu durante a II Guerra Mundial, vai rondar o planeta. Felizmente, não estarei viva para ver isso acontecer, mas bato uma aposta como será exatamente assim.

Os milhares de jovens que fazem parte da marcha, juntamente com sobreviventes da guerra que vão narrando suas histórias, reconhecendo os lugares em que nasceram, em que foram aprisionados, visitam vários campos de concentração e depois vão a Israel.  Uma viagem mais que pedagógica. Dela participam sobretudo descendentes de judeus, mas há também os de outra descendência (poucos, mas há).

Um filme bem emocionante, com um porém: concentram os depoimentos dos jovens em uns poucos. Creio que poderiam abrir o leque, até porque alguns dos escolhidos são um tanto limitados (a moça brasileira, apesar de bonita, simpática, tem um discurso bem fraquinho, bem diferente, por exemplo, do rapaz e da moça americanos). De todo jeito, o filme da uma boa ideia do passado, do presente e do que poderá ser o futuro da Humanidade dependendo do que ficar preservado na memória.

29

de
abril

Matando vontades

Quarta foi o dia! Depois de cuidar da beauté pela manhã, fui para o Le Jazz Brasserie (http://www.lejazz.com.br/Le_Jazz/Brasserie_Le_Jazz.html), ali na R. Pinheiros. Há um ano exatamente estive lá com minha prima (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/04/29/como-explicar/). Gosto muito do restaurante: boa comida, preços justos, lugar charmoso, mas o serviço… Se lerem o post do ano passado, os problemas permanecem, repetem-se.  Um lugar tão bacaninha, com conceito tão interessante, gentilezas como a água grátis, comida muito boa, e uma trupe grosseira. Até são espertinhos, mas falta, ooooh, se falta!  Enfim, o restaurante vale pelo core.  Comi uma salada fantástica (Le Jazz), um omelete de queijo de cabra e presunto cru, que vem com fritas e uma saladinha. E por último uma musse de queijo fresco com calda de goiabada: ótima!  Com serviço, suco, couvert = R$ 55,00. Para S. Paulo, um achado!  Cheguei por volta de 12h10, estava vazio. Quando saí, perto de 13h, lotado e com espera.

Dali fui para o centro da cidade. Fazia tempo que queria visitar o Martinelli (http://www.prediomartinelli.com.br/). Cheguei lá por volta de 14h15. O primeiro atendimento foi ruim: a porta estava fechada, a pessoa que foi verificar o que eu queria me disse nervosamente que eu deveria esperar o monitor ali, isso, do lado de fora… Fechou a porta e me deixou plantada.  Como meu rosto deve ter revelado meu descontentamento e surpresa, dali a pouco a mesma pessoa voltou, abriu a porta e gentilmente me pediu que eu esperasse do lado de dentro.  Estas são as fotos que fiz no edifício (https://picasaweb.google.com/miriamkeller/MartinelliCEFCCBB27042011#). A história do prédio é interessante. Um amigo já havia estado lá e recomendado a visita e escreveu um texto ótimo sobre o lugar: http://iracenna.blogspot.com/2011/02/entre-tantossao-paulo-do-martinelli.html. O Sr. Martinelli foi um visionário. De pedreiro a dono de prédio. Caiu com o crack de 1929, perdeu o prédio para um banco, o banco para o Brasil via Getúlio. O edifício virou hotel, que faliu, transformou-se em cortiço vertical (o monitor disse que quando a prefeitura retomou o prédio havia o equivalente a 9 andares de lixo, acumulado  pelos invasores no fosso de ventilação). A prefeitura (Setúbal! Ainda bem que ele passou por aqui) recuperou o prédio. Até hoje é sede de setores da prefeitura. Está passando por nova recuperação.

No topo do edifício fica a casa que foi de Martinelli durante alguns anos.  Bonito mesmo! Pena que a história do Sr. Martinelli se perca em algum ponto e ninguém saiba muito bem o que foi feito dele, pois SP tem muito a agradecer a esse imigrante.

As visitas são de 2a. a 6a nos horários definidos no link acima. Sábado tem de reservar. Conselho: ligue sempre antes de ir, pois há dias em que várias escolas fazem a visita e nos horários em que elas estão por lá pode ser difícil outro visitante ser atendido.

Depois, CEF Cultural da Sé. Além das mostras de fotos bem interessantes e da que trata de 1908 - Um Brasil em exposição, sobre a exposição nacional de 1908 no RJ (http://www.caixacultural.com.br/html/main.html), fui conhecer o sexto andar. Imaginem que já estive nessa CEF dezenas de vezes e nunca havia visitado a exposição permanente da CEF. Lá estão mobiliários de 1939, da sala do então presidente do banco, máquinas de escrever centenárias, vários equipamentos das loterias (desde as perfuradoras, até as máquinas para sorteio). Vejam as últimas fotos e um filminho do arquivo Picasa acima. Surpresa! Um acervo diversificado, interessante, bem mantido, mas lamentavelmente mal divulgado. Valeu conhecer.

Depois CCBB. Exposição das obras de Escher (http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10164,1,0,1,1.bb?codigoEvento=4003). As obras do artista correm a net. São aquelas que enganam o olho de quem vê. Vejam o site oficial do artista e vocês reconhecerão algumas de suas obras imediatamante: http://www.mcescher.com/.  Muita xilogravura, algumas esculturas.  A exposição ocupa os 3 andares do Centro Cultural Banco do Brasil. Mesmo ontem, plena 4a. à tarde, muita gente por ali. O que mais se ouvia, principalmente dos jovens, era: Muito louco, meu!  Que bacana!  E muita discussão sobre o que estava de fato nas gravuras, i.e., o que a perspectiva revelava ou escondia.  Escher foi um artista laborioso, diferente, “disturbing”.  Francamente, gosto de muito pouco do que ele fez. Gosto da série Reflexos e alguns trabalhos mais coloridos, fora isso acho curioso, interessante, e só.  Os detalhes são fantásticos, o esmero, a técnica e a precisão são admiráveis.  E tudo em xilogravura ou litogravura (algumas obras), o que  não é nada fácil, ainda mais com a precisão que Escher buscou.

Como sempre, a exposição está muito bem montada. Logo na entrada, simulação de uma obra de Escher em que dá para entender como a perspectiva funciona. Dá para tirar foto. Bem divertido.

Vale ver, sem dúvida.  Único senão: tem folder da exposição? Acabou.  Como assim? A exposição começou há alguns dias. É que tem mesmo de manhã. Vem muita gente e acaba. Então por que não disponibilizam maior número de folders?  O que sobrar fica para o outro dia.  Éééé, Escher não sobreviveria à lógica burocrática que reina por aqui.

E, finalmente: Cabaret Luxúria (http://www.bb.com.br/portalbb/page501,128,10165,0,0,1,1.bb?&codigoMenu=9904&codigoMenu=9901). Estava ali, vendo a exposição, já eram umas 17h, perguntei sobre o espetáculo que acontece de terça a quinta por ali. Esgotado para aquela noite!  Espere, senhora, liberou um ingresso. Uma pessoa acaba de devolvê-lo. Interessa? L ó g i c o…

Terminei de ver a exposiçao, café no Cafezal, teatro. Realmente estava cheinho. É um musical, tanto que o preço dos ingressos é menor (R$ 6/inteira - isso, você não leu errado, não). Nem achei o tema tão interessante, mas o fato de ser um musical, ter a Rosi Campos, de quem gosto tanto, incentivaram-me a ver o espetáculo.  No começo, frustração: a Rosi Campos não estava no espetáculo. O papel de Lilith (isso, Brecht mesmo) seria interpretado por Paula Flaiban. Conhecia a atriz do Segundas Intenções, de peças infantis, e até gostava dela, mas…sei não.  Pois é, depois veio o contentamento: A atriz encantou: é bonita, simpática, canta bem, ótima na tragicomédia, tem domínio de palco, está mais que à vontade. Ótima surpresa!

Várias músicas foram versionadas, ó que não achei muito bom, mas tudo bem. Teve Cole Porter,Gershwin, Chico Buarque, Vangelis, e muitos mais. Tanto a Rachel Ripani, quanto o Bruno Perillo estão muito bem, mas a estrela é a Paula (Paulão, como a chamam os do meio. Ela é graaandeee…).

O espetáculo inquieta e encanta. Vale ver.

Fato enervante: duas moças que estavam na fileira de trás atenderam o celular e conversaram nele durante o espetáculo. Tipo: como estão cantando, ninguém vai ouvir lá embaixo, e os à volta que se danem. É brinca, ou quer mais? Nos dias de hoje, com tantos avisos, como é que tem gente que ainda faz isso? Quer falar ao celular, saia da sala, do teatro. Impressionante! Podem assistir a mil peças que continuarão a ser brucutus.

26

de
abril

É com lágrimas nos olhos…

Nada disso…na vida a gente tem algumas opções bem razoáveis e não necessariamente dolorosas: (a) cruzar a ponte ou não; (b) cruzar a ponte e queimá-la depois. Tendo mais pela segunda opção.  E será assim com este blog, que me dá tanto prazer de escrever e que servirá para o Al (zheimer) não achar que está podendo comigo.

De vez em quando, assim sem mais essa nem aquela, olho para minha vida, para o que eu faço, para quem está a minha volta e de repente, não mais que de repente, vem a pergunta: para quê? por quê? Talvez se nos fizessemos mais essas perguntas, nossa vida seria bem melhor, mais trabalhosa sem dúvida, mas melhor.  Mas o ser humano, apesar da propaganda dizer o contrário (vide o caminho que fizemos desde macaquinhos peludos até astronautas, cientistas, inventores), é procrastinador, é acomodado. O cidadão comum não quer briga, se está ruim pode ficar pior, então vai deixando.  Relações e ações são assim. Mesmo os mais “sanguíneos”, mas ativos, mas idealistas, os visionários, têm seu pézinho do “deixa pra lá” em algum aspecto da vida.

Enfim, tudo isso para dizer que me peguei pensando, um perigo para a Humanidade…e resolvi mudar um pouco o blog (não que isso vá fazer diferença para muita gente).  Em vez de me estender pelos assuntos, farei um arrazoado da semana, da quinzena, no que valer a pena. Textos mais curtos, menos profundos em alguns casos, mas não menos informativos, acredito. Também vou pesquisar outro tipo de mídia. E.g., gostei do Blaving e acho que é uma saída agradável para dicas, expor ideias, sem muitas delongas.O princípio é o mesmo do Twitter, só que dois minutos em voz rendem muito, mas muito mais que 140 toques. Além disso, poucas pessoas leem de fato tudo, se é que leem textos alheios, a não ser que sejam best-sellers, livros, e-books, resumindo: que paguem pelo que estão lendo.  Ouvir de fundo, dois minutinhos, enquanto se lê os e-mails, se navega na net, setoma um café, ou se toma banho, é mais a cara do mundo de hoje.  Acho que vai ser uma boa experiência.

Minha mãe dizia que sou volúvel demais (mãe é uma santa mesmo,né? O povo já diria que tenho TOC, ou algum desvio de personalidade), para tudo: de coisas, lugares, a pessoas, ações, tipo: embirrei/encasquetei, não gosto mais e pronto, e sem remorso. Enjoo. Sei não, acho que é mesmo algum desequilíbrio, vai saber…

Então, após quase 3 anos de blog, escrevendo quase que diariamente, revelando opiniões, pensamentos verdadeiros (sim sou eu aqui neste blog, podem acreditar), quero alterar a cara dos escritos, talvez até mudar de escritos para vocal.  Vamos ver se consigo.

Ainda vou escrever algumas coisas que estão na cabeça em ebulição, mais um ou dois posts no formato antigo, e depois mudar, queimar a ponte que ficou para trás. Isso é libertador, vão por mim.

All changes, even the most longed for, have their melancholy; for what we leave behind us is a part of ourselves; we must die to one life before we can enter another.  ~Anatole France

25

de
abril

Finalmente…

Teatro simples, sem efeitos pirotécnicos, com um cenário imutável, guarda-roupa bem modesto, mas um texto bom (não ótimo), e atuações comme il faut. Tinha até me esquecido, mas teatro é isso mesmo.

Engraçado, saindo da peça A serpente no jardim (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=191954), de Alan Ayckbourn, encenada no SESC Pinheiros, ouvi uma senhora dizendo: Nossa, não tem nada. Uma chatice! De fato, não tinha nada lá: nem ator global, nem guarda-roupa estranho ou sofisticado, nem cenário feérico, nem texto mirabolante ou empolado que nem com esforço se consegue entender / desvendar a mensagem (aquela coisa hermética para dar inveja a saquinho zip). Só iluminação eficiente, som na medida para criar o clima e dar uns sustos. Um texto de thriller, 3 atrizes que dão vida a um argumento interessante. Pois é, a gente até se esquece de que teatro é basicamente isso. Malabarismos e tecnologia acabam desviando o olhar, o foco do espectador, e quando aparece um espetáculo assim, plain mesmo, as pessoas não se satisfazem mais. Interessante!

Enfim, o texto do inglês Alan Ayckbourn (http://vejasp.abril.com.br/teatro/a-serpente-no-jardim) trata do reencontro de duas irmãs após a morte do pai. A mais velha abandonara a casa paterna 30 anos antes. O testamento deixado pelo pai favorece a “fujona” e não a filha que ficou a seu lado até o fim. Fim bem suspeito, aliás. As feridas na irmã mais nova são evidentes, mas não tão evidente é o resultado que elas provocam/provocarão. Pela peça vão sendo ditas as pretensas verdades, segredos, e a personagem Miriam vai sendo construída e destruída pouco a pouco. Até quase o final dá para intuir o que virá, mas certeza mesmo, não.  Um bom thriller de fato.

As atrizes, sobretudo Lavínia Pannunzio, estão muito bem.  Há vários momentos de riso nervoso, afinal a peça é um “suspense dramático”. O texto está mais que azeitado, o timing é muito bom, e a Miriam de Cristina Cavalcanti engana a todos nós.

Por conta do feriado o teatro estava com 3/4 da lotação. Bom, mas poderia ser melhor, a peça merece. O espetáculo fica até meados de maio. Uma produção sem firulas, sem tecnologia exagerada, com um bom texto, boas atrizes, que me fez lembrar do que é teatro de fato.

23

de
abril

Muito oba, oba para o meu gosto

Acompanho alguns blogs de que gosto pelo Reader do Google. São blogs de conhecidos, amigos, ou não.  Acompanho um do Marcelo Katsuki  (http://marcelokatsuki.folha.blog.uol.com.br/) pelo prosaico e plain motive de que ele, sendo da Folha, acaba recebendo no colo muita informação: lugares novos da cidade, repaginados, produtos novos, há até relatos de umas viagens interessantes (não sei se de férias, pelo jornal ou bancada por algum “fornecedor). Tenho alguns senões, mas não vou discorrer aqui. Se eu tivesse interesse em dar-lhes peso já teria encaminhado minhas observações ao profissional. Não o fiz porque não acho que valha a pena e o blog em questão atende a minha curiosidade e me provê boas informações.

Se virem o post de 15/4, ele trata de uma semana especial no Obá (http://www.obarestaurante.com.br/): chef tailandesa in persona elaborando pratos de um cardápio diferenciado. Mesmo sendo caro (R$165), tentei ir à degustação (12 pratos e bebida), mas estava lotadíssima e só seria na 2a. passada.  Reservei para ontem (sexta). Mesmo sendo feriado, no meio de um monte de feriados, quando saí do restaurante (umas 22h30) estava com boa lotação.

Nunca havia ido ao Oba, mas havia ouvido boas referências. SP é tão grande, tem tanta coisa interessante, que a oportunidade não havia se apresentado. O menu normal tem pratos de várias partes do planeta, com uma tendência para o tai, pareceu-me.

Antes que digam que eu só reclamo, que estou de má vontade, perseguindo inocentes, quero dizer que fui com uma amiga ao restaurante e ela me disse que em todas as outras vezes em que esteve lá gostou do atendimento e comida. Dito isto: ataaacaaarrrr!

De 14 a 24/4, está correndo o menu especialmente preparado por chef convidada. As expected, tudo bem carinho.  Porções que satisfazem uma pessoa, já que o tempero é mais forte do que aquele a que estamos afeitos por aqui.  Uma entradinha, prato principal, sobremesa, água, serviço = R$ 86/pessoa.

Pedimos dois pratos diferentes para poder dividir/experimentar, o que foi uma sábia decisão: miang son, padped talay, guay thiew, o pudim de arroz e o arroz doce (http://www.obarestaurante.com.br/SongkranBloco2.gif).  O macarrão estava bem sem graça. Já comi similares bem melhores; o prato de frutos do mar estava bom, até porque frutos do mar são em geral saborosos por si, o arroz estava assim-assim. As sobremesas estavam bem melhores (comi o arroz doce e achei interessante). Enfim, não achei nada demais, esperava bem mais sabor, ou algo menos comum, quadradinho.

Algumas observações:

  1. quando chegamos ao restaurante não havia nenhum cliente. Paramos o carro quase em frente ao restaurante e nem o valet nem o segurança se deram por achados. Quase precisei enviar um convite escrito para eles se mexerem;
  2. um pedaço da entrada está ao nível da calçada, aí há três degraus, e mais um metro para adentrar o salão.  Como minha amiga está com problema de locomoção levamos bem uns minutos. Durante todo esse tempo a mocinha que recebe as pessoas (que insistem em chamar de hostess, como bons tapuias, tupiniquins que somos) estava de costas para a porta conversando com uma coleguinha. Entramos, sentamos, e nem um passo para ajudar minha amiga a se instalar. Normalmente não é necessário, ela se vira sozinha e minha ajuda é mais que suficiente, mas espera-se que pessoas que lidem com o público tenham essa atitude, se não  por força do cargo por humanitarismo;
  3. a mesa estava pensa. O rapazinho que começou a nos atender não conseguia achar em que pé estava o problema. Uma mesa tem 4 pernas!!! Eu achei, e puseram um calço. Ça va sans dire que um restaurante, que cobra o que cobra esse, tem obrigação de checar TODOS OS DIAS antes da abertura (almoço ou jantar) se as mesas, cadeiras, guarnições estão em ordem, para não causar desconforto ao cliente. Mas vá enfiar isso na cabeça da turba ignara;
  4. o atendimento começou desastrosamente, demorado, desatento, tendo de chamar o garçom senão não vinha água (água, aquela coisa que está numa garrafinha, é só retirar a tampa e levar até a mesa, que ali levou alguns minutos para ser servida).  Mais adiante, o rapaz que passou a atender a mesa mostrou-se um pouco mais atento, proativo, atencioso, mas ainda com uma atitude descompromissada;
  5. minha amiga pediu explicação de duas sobremesas. A mocinha (hostess) explicou de  um jeito inacreditavelmente titubeante que deu na mesma que ler o que estava no cardápio ou quase. Para quem está promovendo algo tão especial, que deve concentrar a grande maioria dos pedidos, está aí desde 14/4, ela tinha de recitar par coeur, essa é que a verdade;
  6. ao final, ao sairmos, de novo nenhuma menção de ajudar minha amiga - como eu disse, não é necessário, ela se vira maravilhosamente bem e eu ajudo no que é preciso, é tudo muito fácil, mas não ter a atitude é de matar!
Vejam bem, o restaurante deve ter seu público fiel, várias pessoas que conheço gostam dele, então só posso imaginar que foi pessoa errada na hora errada.  De qualquer jeito, para o tanto que gosto de comida tai, vou continuar com o  Tele-Thai mesmo (comida saborosa, mais em conta e entrega em casa) (http://www.telethai.com.br/), e não vá me dizer que é muito diferente do tal Obá que não é mesmo (aliás já pedi vários pratos lá, além de muito saborosos, preço justo, vêm bem acondicionados).
A visita ao Obá fez-me pensar no prêmio recém-outorgado ao Atala, do DOM. Estive lá duas vezes e não volto, não. Além de absurdamente caro, não aguento certas modernidades, ou misturanças, ou o como queiram chamar. Que o homem seja reconhecido pela criatividade (pupunha com faronha de pipoca???), vá lá, tem gosto para tudo, além do que tanto a casa do dito chef quanto outras vivem muitas vezes mais do network, da presença na mídia, do que da realidade entre panelas, mas cobrar uma degustação quase $500? E as porções lá são micro. E ter subido uns 20% o preço da tal degustação depois de receber o prêmio justificando o aumento por mudanças no cardápio?  Bem, como disse, tem gosto para tudo, há crédulos para tudo, a gente que adora um show-off, e assim esses lugares vão vivendo, e muito bem, diga-se de passagem.
Valorizo demais meu dinhieiro suado, minha paciência, minha expectativa, então não contem a minha humilde presença.

22

de
abril

A gente se acha

Mais um da série: não me perguntem por que comprei, por que quis ver. Resposta: nem imagino. Felizmente, foi mais uma experiência positiva.

Hoje assisti a O vento será tua herança (http://www.imdb.com/title/tt0053946/), de 1960, sobre um caso verídico de 1925, nos EUA, Nebraska.

O filme trata do julgamento de um professor de biologia que ensinava a teoria de Darwin. Foi preso porque a lei do estado determinava que não se podia ensinar evolucionismo nas escolas públicas, ou por outra, não se podia contestar nem de longe o Gênesis bíblico. Uma cidade micro, lá em Nebraska, com uma população quadradinha, dominada por idéias retrógradas, pelo pastor local, agarrada a tradições, e com aquele medo de pensar, de questionar. Pois é, viver a vida com conformismo é sempre mais fácil, embora pareça o contrário: não há dor, não há desentendimento, só a anulação do próprio indivíduo.  Claro que há preceitos básicos bastante racionais e positivos, que garantem a vida da espécie e por eles deve-se zelar, “agir em conformidade”, mas muito do que somos, nossa própria sobrevivência por milênios, deve-se à curiosidade, à inquietação intelectual, à contestação muitas vezes, ao que nos diferencia de outros animais (lembrem-se nós somos, sim, animais também).

O professor é pego, transcafiado e vai a julgamento. Um jornal banca o advogado, um agnóstico, racional. Pela promotoria, além do advogado local, um homem que não advoga apenas, mas é um “crente fervoroso” para dizer o mínimo.  Um homem que acredita, não questiona.

Um filme como esse, em tempos de politicamente correto, causaria muito protesto, muito furor,  ser feito ou exibido  do jeito que foi produzido originalmente.  É claro demais, evidente demais, sem rodeios demais, e um tanto tendencioso também. Mas considerando o ano a que se refere, e quando foi feito, sua amplidão e coragem são inquestionáveis.

Algumas observações:

  1. americano é o rei da Comunicação e Marketing mesmo. Já em 1925 cartazes primorosos, passeatas, fotógrafos, repórteres por todos os lados;
  2. Gene Kelly, que faz um repórter irritantemente cético, em dado momento joga uma bituca de cigarro na rua…ai,ai,ai,ai,ai…;
  3. mesmo uma cidade no meio do nada nos EUA tem uma superestrutura, é limpa, tem transporte, tem um tribunal que funciona!
  4. no tribunal havia muitos fotógrafos e jornalistas. O juiz pede reiteradamente que não tirem fotos e desligem os telefones (aqueles com fio, de pedestal). Éééé, a Humanidade é pendular, não resta dúvida.
No filme fica mais que demonstrado como é fácil manipular a turba e mantê-la sob controle, principalmente onde há um espírito de comunidade, de grupo (vide A Onda-http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/03/04/ondas/). Ai daquele que tentar procurar rumos alternativos. A a fé ou crença mostrada tem um comportamento destrutivo, nada a ver com o que pregam as religiões,todas elas, fundamentalmente. É aquela coisa de querer eliminar o diferente, o que não está de acordo, mesmo que com crueldade. A histeria coletiva é de dar medo e tudo em nome de Deus. O pessoal enche a boca, recita, e não pratica. Pior, usa isso para punir de forma cruel um suposto “inimigo”. Em dado momento diz-se: Men created God. E é isso mesmo, um Deus cruel, vingativo, foi criado pelo homem.
Algumas frases interessantes: o homem é “a monkey who tried to fly”, e o advogado de defesa foi definido como alguém que procurou “God too high and far away”, ou seja, deveria ter procurado dentro de si, mas não o fez.
O máximo é ver no final que não interessa o réu, não interessam as crenças, prevalecem interesses políticos e pessoais.  Rings a bell?
O filme é em preto e branco, a trilha é bacana, sobretudo o vocal de abertura e encerramento.
Revi Spencer Tracy, já mais velhinho, Gene Kelly, idem, Claude Akins, com um cabelo surreal (vi este ator em muito bangue-bangue), e Dick York, aquele da feiticeira. Todos em grande forma
Um filme para pensar não na questão do condenado, do sistema em si, mas como andamos, andamos, andamos, e estamos sempre no mesmo lugar.  O nível da discussão ali é o mesmo que vemos hoje em tvs e outros meios de comunicação. O embate é o mesmo que leva morte e destruição a tantos lugares e pessoas. A falta de entendimento e aceitação do outro continua idêntica.
Então, não se esqueçam: somos apenas animais mais espertos. Só isso.

21

de
abril

Dia de marmelada

Outro espetáculo primoroso no SESC (Pinheiros) (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=191086).  O teatro, mesmo sendo feriado, estava bem cheio. Muita criança novinha, quase bebês. Ooooh, pais, isso não se faz.  O espetáculo tem palhaço, malabares, acrobatas, mas não é para essa idade de criança. Acho que ele se torna aproveitável a partir de uns 8/9 anos. Antes, sei não. Enfim…

DNA, somos todos muito iguais (http://vilamundo.org.br/2011/04/circo-roda-apresenta-dna-somos-todos-muito-iguais/) é levado pelo Circo Roda, formado por Parlapatões e Pia Fraus (que eu adoro - http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/07/08/sou-brava-sou-forte-sou-filha-do-norte/). O grupo está na ativa há meia década, mas este foi o primeiro espetáculo do grupo que vi.  Direção fulgurante de Hugo Possolo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Hugo_Possolo).

Escrevi que o espetáculo não é para criancinhas porque tem muito espoucar, tem música hard rock, bateria ao vivo - tudo muito bacana, mas barulhento-, a iluminação é mais para o tétrico, lúgubre, bacana mas bem escura (eu mesma preferiria algo mais claro, acho que ficaria mais bonito). Fora dois palhaços simpáticos, que fazem muitas brincadeiras com a plateia, tem atores com máscara de gorila/macaco, mas bem feiosas.  Garanto que vai ter gente que não vai dormir esta noite…aaah, vai…

O espetáculo é muito bonito, dinâmico, os acrobatas são fantásticos, os palhaços também são ótimos. A estrutura para os números de acrobacia é impressionante. Estruturas que aguentam duas/três pessoas no ar, bem boladas, diferentes.  Até uma cama elástica (ou algo que parece isso) amplia a possibilidade dos artistas, dos malabarismos. Tudo muito plástico, colorido. Há projeções fantásticas. Lindas demais.  São o cenário na verdade.

Um imbroglio encantador: um anjo (anja, aliás) caído e que precisa se recuperar, motivo para fazer referência aos deficientes (muletas, cadeiras de rodas, tudo é equipamento pra um bom número de acrobacia). Genética, dna, células voando pelo palco: muito criativo.  Em alguns momentos é até difícil captar a ideia, tal a novidade e a profusão, mas o conjunto é bem bacana.

Produção de primeiríssimo mundo!  Vai até meados de maio. Não deixe de ver.

Depois, descansar os olhos e cuidar do físico (maneira de dizer…): a caminho do Aguzzo (http://www.aguzzo.com.br/). Este restaurante é bem perto de casa e está na ativa há 5 anos.  Fui lá várias vezes, sobretudo logo depois que inaugurou. Um espaço pequeno, cosy, classudo.  O cardápio é primoroso, a carta de vinho é interessante.  Massas, pães, tudo feito na casa. Gosto sobretudo dos pratos com ragú, mas tem muita coisa boa.  Houve uma momento-suspense: tivemos de pedir o cardápio senão…Independemente disso, nota 9! Gentileza a toda prova - e a mão-de-obra é a mesma, limitadinha, que está por aí, i.e., como fazem para não deixar isso afetar o serviço, não sei. Pelo aniversário dos 5 anos, ofereceram uma taça de prosseco (free). Também como gentileza, uma polenta com shitake de entradinha.  Claaarooo que não sai barato (1/2 garrafa de vinho, água, café, pratos, sobremesa, serviço - R$ 100/pessoa), mas considerando o que tenho visto e pago por aí, deu até gosto. Matei saudade, foi muito bom.

Quinta-feriado mais que aproveitada e a contento.  Amanhã tem mais.

21

de
abril

Todo mundo tem um Robesputin dentro de si

Robesputin? Isso: um mix de Robespierre (http://pt.wikipedia.org/wiki/Maximilien_de_Robespierre) e Rasputin (http://pt.wikipedia.org/wiki/Grigori_Rasputin). Se não todo mundo, muita gente pelo menos. A questão é dar vazão a essas facetas de maneira harmoniosa e produtiva. Como mencionei no post de ontem, vitimizar-se, tornar-se um mártir, sair por aí impondo suas crenças aos outros, ou sofrendo delas/por elas não presta, em geral, o melhor serviço à Humanidade e a si mesmo.

Fui ver A Última Estação (http://www.imdb.com/title/tt0824758/) sobre o final da vida de Tolstói (http://pt.wikipedia.org/wiki/Liev_Tolst%C3%B3i). Produção germano-russo-britânica com os fantásticos Helen Mirren, Christopher Plummer. Talmbém estão ótimos Paul Giamatti e James Mcavoy (depois deem uma olhada e vejam se este último não parece um membro da família Lima…).  Fotografia linda, a música também.

Tolstói foi uma figura interessante: como tantos autores que escreveram sobre injustiças, desacordo com a ordem reinante, exploração da massa por uma minoria, que enalteceram uma vida frugal, próxima da natureza, com uma certa visão anarquista, etc., ele também procurou seguir suas crenças ou teorias e de forma bem extrema; esse é o lado Robespierre. Algo visionário, talvez, comprometido com o que acreditava; chegou a ser excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa e converteu-se ao catolicismo.  Aí está o lado Rasputin: um comportamento místico que acabou por causar estranheza e descrédito sobre uma causa bem interessante e que quase se provou factível, mas acabou ficando no estranho, no folclórico.  O lance mais dramático foi ter aberto mão dos direitos de suas obras em favor da Humanidade, o que foi anulado a pedido de sua esposa após sua morte. Tudo conduzido por um amigo e conselheiro, digamos assim, que, pelo menos no filme, parece mais um fanático e que como diz a personagem de McAvoy: criou mitos, i.e., um Tolstói a sua imagem e um movimento que tinha sua cara mais do que de seu próprio idealizador (Tolstói).

A vida doméstica de Tolstói foi conturbada. Sua mulher não queria abrir mão do que haviam conseguido (eram condes, moravam bem, o trabalho era basicamente intelectual, estavam cercados de empregados), até porque, segundo ela, a obra de Tolstói era sua também (ela teria sido sua crítica, revisora). Apesar de aparentemente amar a mulher, mesmo em idade avançada, o autor acaba fugindo de casa. Yeeessss!  Em seguida, sua saúde agrava-se e ele acaba morrendo.

Interessante como lá pelo início do século XX, com uma tecnologia de pedra lascada, os repórteres, os paparazzi acampavam em frente sua casa, seguiam-no e a sua família por todos lados, com seus equipamentos, suas tendas, em busca de notícia e de escândalo. Rings a bell?

Difícil dizer pelo filme quem foi o grande demônio para Tolstói: se sua mulher, sua família, ou se seu seguidor fanático e grudento, Chertkov (http://en.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Chertkov). Este tentou perenizar a escola Iasnaia Poliana, criada pelo escritor. Olhando assim de longe, essa comunidade parece com tantas de que tivemos notícias mais recentemente, tanto no que diz respeito aos preceitos que as regem (assexuadas, trabalho braçal, sem rendimentos $,etc.). Parece que ela de fato foi inspirada nos Quakers (http://pt.wikipedia.org/wiki/Quaker). Das que temos tido notícias mais recentemente, vê-se que a lei é uma para os seguidores e outra para os seguidos, e que no final há um desequilíbrio inconteste em todas elas, quando não são levadas a ações criminosas, contra si mesmas várias vezes. De todo jeito, a comunidade criada por Tolstói atualmente é levada na forma de ação cultural, de estudos e por aí vai (http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1503-7a-conferencia-academica-internacional-liev-tolstoi-e-a-literatura-mundial-em-iasnaia-poliana-na-russia). Melhor assim.

Uma observação: tanto quando vivia com sua família, quanto durante sua fuga, Tolstói tinha sempre a seu lado um médico e amigo (Dushan). Uma verdadeira sombra que também não gostava de Sofya, a esposa do autor (aliás, ela devia ser uma figurinha difícil mesmo. Nem os filhos a enguliam de fato).  Mesmo que o médico não ganhasse nada, estivesse ali por doação, alguém tinha de mantê-lo, ele morava com a família, dormia, comia, vestia-se, ministrava remédios, acompanhava o escritor. Alguém que prega frugalidade total, descapitalização, quase “voto de pobreza” não poderia se dar a esse luxo, certo? Pois é…

Eu sabia das grandes obras do autor, mas pouco de sua vida. O filme, de maneira inteligente, consegue mostrar-nos de forma pragmática o ideário de Tolstói e sua grandeza, sobretudo como pensador e homem.

Tanto Tolstói quando sua mulher, Sofya, e mesmo Chertkov, são personagens bem complexas. Só mesmo atores da estatura de Plummer, Mirren e Giamatti para representá-las tão competentemente.

Vale ver pela beleza do filme, pelos dramas humanos, para conhecer um pouco mais de um gênio literário incensando em seu próprio tempo, pela fotografia, pela música. E não saia antes de terminarem os créditos (mania nacional que não consigo entender…tem sempre algo interessante nos créditos). Há fotos e filmes de Tolstói himself, feitos pelos paparazzi que mencionei acima e o pessoal nem se dá conta. Vai levantando, ignorando documentação tão importante. Para quem ficou numa sala de cinema por quase duas horas, por que a pressa exatamente? Vai entender.

Ao antes: depois de muito tempo (preguiça pura), resolvi almoçar no Hideki, aqui em Pinheiros. Cheguei lá e o restaurante tinha tido um problema hidráulico (detectado na manhã de ontem) e estava fechado. Sorte que o La Marie (http://www.lamarierestaurante.com.br/restaurante.html) fica ao lado e gosto de lá.  O executivo inclui couvert, entrada, prato principal e sobremesa = R$ 29,90. Muito razoável, sobretudo pela qualidade da comida dali.  Já fui atendida várias vezes pelo dono: pessoa respeitosa, que quer atender bem o cliente, que entende de gastronomia. Um dono-chef de atenção inquestionável. Maaaasss…ele tem outro negócio e só está pelo restaurante “em tempo integral” à noite. No almoço dá uma passada. E aí mora o perigo, infelizmente. Por mais que ele tenha treinado e oriente seus funcionários, eles não são o dono. E considerando a mão-de-obra de serviços disponível no mercado, tem de contar muito com a sorte.

Cheguei umas 12h30. Salão vazio (a casa é pequena, bonita, boa trilha sonora).  Peço o executivo (salada com parmesão e molho de framboesa; peixe ao molho de camarão com arroz e alho-poró, abacaxi flambado com sorvete), que aliás estava muito bom de ponta a ponta. É preciso ressaltar que o La Marie é um dos poucos a esse preço que mantém toalhas de mesa e guardanapos de tecido impecáveis, brancos à disposição dos comensais.

Quando fiz o pedido, perguntei qual era a sobremesa do dia (não estava especificada). O garçom disse que ia ver. Vejam bem, o restaurante não tem dez metros de extensão. 10 minutos depois, quando chega minha salada, naaadaaa…Pergunto ao outro funcionário (eram apenas 3 na casa, além do cozinheiro/chef). O rapazinho apressa-se a saber. Ele: é abacaxi flambado. O chef não estava, por isso não sabíamos. Peraí: 12h30, gente chegando e eles não sabem os pratos do dia? Não têm nem curiosidade, já que essa será uma das perguntas mais ouvidas do dia? Fazem isso todo  dia! De todo jeito, os funcionários da casa são no mínimo gentis.  Ah, sim, e quando veio a salada, nada de temperos. Por que não colocar de uma vez sobre a mesa? Tem de pedir…ora, ora, ora…E o prato principal veio fumegante à mesa. Precisa? Não dá para dar um tempinho na cozinha até aquela nuvem diminuir um pouco?

No final a conta ficou em $ 41. O milagre da multiplicação deu-se porque a água (uma garrafinha de 300ml) custa $ 4,00+ 10% (em post desta semana mencionei que comprei, em uma lojinha no centro, uma garrafinha de 500ml por $1,00). Well, well, well, não é perecível, não há perda, como algo que deve custar uns $ 0,70 para o restaurante é multiplicado por 6?  E o café também $4,00 + 10%.  Incrível ou não é?

Meu pai é do tempo em que restaurante não era glamour, mas só um modo de ganhar a vida. Os sofisticados eram poucos pela cidade. Ele abriu vários, do chão, depois vendeu com lucro a casa já estabilizada para ganhar algum (era seu segundo trabalho/ganha-pão).  Ele sempre dizia: nada dá mais lucro ao restaurante que couvert, bebidas e sobremesa. O dia está fraco, não dá para ganhar muito nos pratos, esses três itens salvam o dia. No caso de minha conta de ontem, se bobear, o lucro na água e no café supera em muito o possível lucro do prato executivo. Assim fica fácil: não é necessário eliminar perdas, usar bem os produtos, manter uma equipe mínima, mas eficiente, enfim, dá para gerenciar mal e ainda assim sobreviver.

Independentemente de tudo isso, que é o quadro do que vemos por toda a cidade, o La Marie vale a visita. O cardápio é excelente, e a comida ótima. Se o dono estiver por lá, melhor ainda.

20

de
abril

Não há fé que dê jeito

Gosto muito de Lambert Wilson e Michael Lionsdale. Parece nome de gente de Hollywood, mais ils sont français. E eles estão muito bem no filme Homens e Deuses (Des hommes et des dieux - http://www.imdb.com/title/tt1588337/). O filme relata as agruras de um grupo de monges trapistas (beneditinos, vê-se logo pelo jeitão do mosteiro, dos próprios monges, pela laboriosidade, organização, enfim, bem diferente de outras ordens - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ordem_Trapista) atuando na Argélia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arg%C3%A9lia) em uma comunidade bem desprovida - imagino que comunidade desprovida é o que não falta por lá, e se não houvesse os muçulmanos, sua vila miserável, as paisagens lindíssimas poderiam ser de qualquer lugar na Europa desenvolvida. As paisagens são lindíssimas!  Um lugar idílico, não fosse o imbroglio humano.

Os monges, apenas 9, prestam assistência à comunidade muçulmana, vivem em harmonia com ela, respeitam-na (o monge-chefe, Wilson, domina o árabe e lê o Corão para poder dialogar melhor com os assistidos).  Entende-se que estão lá para ajudar, tã0-somente, i.e., fazer a tarefa assumida perante sua Igreja e Deus. A trilha é mais ou menos, mas ao final, numa cena antológica (a última ceia…), lá vem Tchaikovsky, e aí não tem para ninguém. Uma cena mais que dramática, comovente, inesperada.

O filme é lentoooo. Muito, muito interessante, ver como funciona no dia-a-dia, sem maquiagem, um grupo monástico masculino. Estudei em colégio de freiras durante 10 anos. Via suas tarefas, seu dia-a-dia, seus fervores, mas no detalhe é a primeira vez que vejo os atos comezinhos tão claros, em seu ritmo real, em sua amplitude real, de homens/religiosos.  Dos 9 homens, 8 estão acima dos 60, alguns com muito mais, todos cumpridores de suas tarefas e observadores de seu credo, fé.

Quando os monges começam a atinar que poderão também perder sua imunidade (o ser humano é assim, ele acha que acontece com o vizinho, mas não com ele, isso em qualquer nível socioeconômico, religião, sexo) em tempos de terrorismo pesado no país (década de 90), passam a questionar-se: ficar ou ir? Vale ser mártir? Isso agrega?  Os medos afloram. Esse embate interno vai por boa parte do filme, e as posições ou opiniões alteram-se. Interessante ver o peso do grupo sobre o indivíduo, o peso do líder, ainda mais se o grupo está isolado, e como posições, que podem parecer a alguém de fora equivocadas, são corretas, alentadoras em certo sentido em seu âmago.

Penso pragmaticamente e não creio que tenham feito a melhor escolha para a tarefa a que se propuseram (tanto para a ordem, quanto para os seres humanos que deles dependiam), mas tendo vivido o que já vivi, talvez (talvez, hein!) eu tivesse optado pelo mesmo caminho. Imagino que haja momentos em que sentir-se parte, em que o “espírito de corpo” premia, consola, justifica um auitossacrifício plenamente.  No caso dos monges foi uma opção quase racional, diferente do que se vê no filme (e no mundo) quanto a terroristas, extremistas. Estes irracionais, ignorantes, distantes de qualquer deidade, filosofia, religião, valores humanos, muito mais próximos dos animais (sem querer ofender os animais).

Qualquer decisão pessoal que envolva perdas, por menores que sejam, é difícil. A procrastinação é possível, muito utilizada aliás, mas para azar da grande maioria ela comumente não resulta em finais felizes. Não agir é pior que errar na ação, em geral. Interessantíssimo ver como pessoas que sabem a que vieram, teoricamente, têm fé quase inabalável, são informadas e letradas, fizeram opções que precisaram de análise, critério, “certezas” para dar minimamente certo, quando a integridade pessoal, física sobretudo, está ameaçada têm essa fé abalada.  Sem dúvida, a dignidade da escolha retratada é comovente e pedagógica.

Depois, aula de hànyù (chinês) :The fundamental qualities for good execution of a plan is first; intelligence; then discernment and judgment, which enable one to recognize the best method as to attain it; the singleness of purpose; and, lastly, what is most essential of all, will-stubborn will.” - Marshal Ferdinand Foch.

Melhor mudar de assunto…jantar no Bambi (http://www.restaurantebambi.com.br/#/principal).

Comprei um cupom de desconto para ir ao novo Bambi. Lá no restaurante da Alameda Santos fui várias vezes em priscas eras. Aí o Bambi fechou, ficou um tempo fora do ar, e voltou ali no Itaim. Aliás, sou do tempo de uma pendenga entre o Bambi e outros restaurantes quanto ao nome da famosa sobremesa Chocolamour. Começaram a imitar, dar nome parecido, aí o negócio pegou.

A nova casa é muito, mas muito diferente da antiga. A outra era algo tipo “cantinão”: simples, boa comida, barato, velhusco. Esta é mais ampla, sofisticada. Os preços também mudaram bastante, para cima, claaroo.  O atendimento foi bem atencioso, rápido, o prato a que o cupom dava direito (uma seleção de vários quitutes) estava excelente e é mais que suficiente para satisfazer o comensal. Depois um Chocolamour básico. Tudo muito bom mas, mesmo considerando que o prato+sobremesa estavam pagos, deixei mais R$ 20 (suco, água, café, pães de entrada/para acompanhar refeição, serviço) além do que paguei pelo cupom (R$ 22 por R$ 71). Impressionante a que altura foram catapultados preços por aqui. Há uns 3ou 4 anos, os R$ 42 pagariam sobejamente a tal refeição.

E interessante que lembrei de ter ido ao mesmo lugar, outro estabelecimento obviamente, há muitos anos.  Sabe aqueles flashes, déjà vus? Acho que era o A Trainera, se não me engano, mas interessante que me lembrei de alguns detalhes específicos de meu jantar/minha passagem por ali. Weird!

Bem, o novo Bambi vale uma visita de todo jeito.

19

de
abril

Que preguiça!

Quase feriado, dias quentes ainda, preguiça total. Mas vamos que vamos, afinal sou brava, sou forte, sou filha do Norte…

Domingo fui ver Tango, blero e Chá-chá-chá (http://www.teatrofreicaneca.com.br/home/205-tango-bolero-e-cha-cha-cha), no teatro do Shopping Frei Caneca. O teatro é bom, grande, e estava com 2/3 da lotação se tanto.  Direção de Bibi Ferreira, o espetáculo já esteve no ar há 10 anos e como outros que vi, não se atualizou (http://mskeller.blog.terra.com.br/2008/10/19/sugestoes-do-dia/).  O humor é bem rasinho, há alguns momentos mais divertidos, piadas previsíveis em geral, às vezes tão previsíveis que não dá para não rir (contrassenso total, mas quê fazer?).  Fizeram algumas “inovações”, como mencionar Vanusa e o episódio do hino nacional em dado momento. Aliás, menção totalmente dispensável, grosseira, e fora de lugar. Fora isso, mencionaram a esposa do ex-presidente e mais algumas cositas mais atuais.

Os atores estão bem, não decepcionam. Inclusive, dá a impressão que eles estão se divertindo mais que o público em alguns momentos. O cenário é feioso, o guarda-roupa kitsch, mas de propósito imagino.  A grande compensação é a atuação de Edwin Luisi, superpreiado por sua atuação na peça.  Ele realmente está ótimo, e faz valer o espetáculo.

Segue link sobre a peça (enquanto estava em cartaz no RJ): http://www.teatrando.com.br/2010/05/tango-bolero-e-cha-cha-cha.html. Concordo com quase tudo: é um espetáculo levinho, rasinho, dá para divertir, e é para esquecer em seguida (nossa, quantos há por aí assim…). O que não entendo é como espetáculos tão enxutos em termos de elenco, produção, valor agregado, digamos assim, podem valer entradas de R$ 70, R$ 80.  Um mistério a ser desvendado.

Aliás, outro mistério que já mencionei aqui diversas vezes: o preço dos alimentos em SP. E o pessoal que cobra o que cobra nem fica vermelho. Noutro dia, em andanças pela cidade, comprei uma garrafinha de água mineral na região central, em um supermercadinho. Vejam, o dono paga aluguel, funcionários, a água é a mesma que compro em qualquer outro lugar (500ml), estava em geladeira (peguei uma geladinha), paga iptu, licença, impostos, o local era grande (variedade de produtos), arejado, limpo, organizado, e ali a água me custou R$ 1,00. O comerciante, seguramente, está tendo lucro. Como é que essa água vira R$ 3,50 ou R$ 4,00 + serviço em cima em restaurantes da cidade?Não estava na hora do sindicato dos bares, restaurantes e afins dar uma puxada de orelha no pessoal? Não percebem que isso é a canibalização do setor?  Tudo bem que há gente que pague qualquer coisa, em qualquer lugar, mas não creio que isso valha para a maioria. Por isso tantos estabelecimentos minguando, fechando, vazios. O pessoal é duro na queda…

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