30
de
abril
Vida e morte
Coincidentemente, nesta semana vi dois documentários: um sobre vida e outro sobre morte, ou melhor, sobre redenção.
O primeiro, Bébés (http://www.imdb.com/title/tt1020938/), produção francesa que acompanhou 4 crianças em seu primeiro ano de vida. Elas eram do Japão, Mongólia, Namíbia e EUA. Não há quase legendas, só a rotina das crianças, em partes muito diferentes do planeta, no começo da vida.
Acho que dá para imaginar a diferença da realidade, estrutura, acessos de uma criança da Namíbia e de outra do Japão, certo? Pois é, mas independentemente das realidades tão díspares, é interessante ver que as quatro logram os mesmos resultados de um jeito ou de outro: choram, mamam, movimentam-se, engatinham, andam, defendem-se, riem muito, comemoram suas pequenas vitórias (e.g., levantar-se e permanecer de pé!). A criança da Namíbia, apesar de viver com o pé na terra, no meio de moscas, de um ambiente mais que precário, é das mais risonhas, fortinha (os pais trabalham com cabras e dali deve vir muito de sua alimentação), e é muito estimulada pela mãe, consideradas as limitações que esta tenha. O menino da Mongólia é também muito interessante: a família vive numa espécie de acampamento, lá no meio do nada, cuidando de seus rebanhos, e o moleque igualmente é bem alimentado, bem cuidado, risonho, o mais desbravador, intrépido de todos. Forte, também se alegra ao caminhar, ao dar seus primeiros passinhos. Não se intimida com nada e, se necessário, põe o choro a seu serviço. E chova, viu! A criança americana e a japonesa estão inseridas em famílias mais comuns, como as nossas, em ambientes urbanos. Naturalmente, mesmo que todas cheguem ao final do primeiro ano de vida com as mesmas vitórias, mais adiante os estímulos, estrutura à volta, acessos resultarão em pessoas bem diferentes. Não que o menino-pé-no-chão da Namíbia não possa escapar do destino que lhe oferece o ambiente em que nasceu, mas que vai ser difícil, aaah, isso vai. Fica patente que à medida que menos dependam de seus “dons” ou habilidades inatos, o suporte material, tecnológico, alimentar diferenciado vai determinar o distanciamento entre suas existências, tão parecidas enquanto só dependiam do fato de todos pertencerem à mesma natureza humana.
Um filme bem interessante, divertido, dinâmico, bonito. Uma delícia ver como, seguramente, somos todos nós no melhor e no mais puro estágio de nossa vida.
E ontem fui ver Marcha da Vida (http://www.imdb.com/title/tt1186809/). O filme, uma produção Brasil + EUA, relata uma atividade que tem sido desenvolvida desde 1988 pelas comunidades judaicas pelo mundo: realizar, com jovens, a mesma marcha que levou à morte centenas de milhares de judeus, durante a guerra, entre Auschwitz e Birkenhau. O propósito do evento, sempre com milhares de participantes, é fazer com que as novas gerações entendam o que aconteceu e não se esqueçam jamais.
E sabem que me surpreendi com um fato mais que óbvio, i.e., a ficha caiu: os judeus sobrevimentes ao Holocausto que estão por aí são poucos, estão muito idosos, e em breve não haverá mais nenhum. Ou seja, as testemunhas do genocídio terão sumido. Quem vai contar a história para as futuras gerações? Quem vai manter a determinação de evitar que o desastre se repita?
Claro que há filmes, fotos, mas a memória humana prega peças. Não duvido que haverá um momento, lá na frente, em que tudo estará tão distante, mesmo que documentado, que mais parecerá obra de ficção. E aí o perigo de o caráter pendular da Humanidade fazer das suas e a mesma carnificina ser repetida em nome de não sei que fé, que crença, que justificativa, como aconteceu durante a II Guerra Mundial, vai rondar o planeta. Felizmente, não estarei viva para ver isso acontecer, mas bato uma aposta como será exatamente assim.
Os milhares de jovens que fazem parte da marcha, juntamente com sobreviventes da guerra que vão narrando suas histórias, reconhecendo os lugares em que nasceram, em que foram aprisionados, visitam vários campos de concentração e depois vão a Israel. Uma viagem mais que pedagógica. Dela participam sobretudo descendentes de judeus, mas há também os de outra descendência (poucos, mas há).
Um filme bem emocionante, com um porém: concentram os depoimentos dos jovens em uns poucos. Creio que poderiam abrir o leque, até porque alguns dos escolhidos são um tanto limitados (a moça brasileira, apesar de bonita, simpática, tem um discurso bem fraquinho, bem diferente, por exemplo, do rapaz e da moça americanos). De todo jeito, o filme da uma boa ideia do passado, do presente e do que poderá ser o futuro da Humanidade dependendo do que ficar preservado na memória.











