Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

11

de
março

Dia de fúria

Não que justique, isso jamais!, mas até explica.  Este é um relato de 36 horas de uma cidadã comum, cliente, consumidora igual a qualquer um de você. Relato alguns dos percalços por que passamos, sem a menor necessidade. Já escrevi sobre o tema, mas isso é algo “endless” (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/08/20/eu-odeio-muito-isso-unabridged-version-by-mk/).

  1. Na quinta, fui com uma amiga ao Shopping Paulista - Loja da Vivo. Minha amiga foi brindada com uma série de vantagens, inclusive redução de $ na conta, sem pedir, ao visitar essa loja para tratar de um assunto puramente administrativo. Como o atendimento de balcão da Vivo é ruim e muito irregular (melhor em um lugar, pior em outro), resolvi ir à mesma loja em que ela obteve o atendimento, para tentar melhorar meu pacote, que acho caro.  Realmente, consegui negociar uma série de coisas. Deram-me até um telefone que tem x minutos para celular e para fixo de graça. Parece que foi tudo bem - vamos ver quando chegar a conta, se está tudo conforme informaram em termos de valores.  Quanto ao tal telefone, cheguei em casa, coloquei para carregar, e não consegui usar. Nem me ocorreu desligar e religar, ou retirar bateria e chip (esses são os famosos Santo On e Santo OFF que resolvem muita coisa).  Palermamente, liguei para a Vivo. Demorou um tempão para ser atendida e depois para passarem para um suposto técnico.  O rapaz falava aos borbotões. Quase impossível entender o que ele dizia. Ele parecia estar em fuga desesperada, falando nervosamente, que não sabia direito o que estava falando. Resumo: ele pediu que eu tirasse o chip do telefone novo - parece que ele viu por lá (bola de cristal?) que o chip estava com problema, não era reconhecido - e o colocasse em um outro celular para fazer um teste. Cooomooo?? Se eu estava falando com ele ao celular, em que celular eu poderia colocar aquele chip?  Aí veio o golpe mortal: não dá para a senhora pedir um celular emprestado aí, para seu vizinho, ou algum conhecido para fazermos o teste?  Vejam que boa vontade não faltou, só bom senso.  Enfim, perguntei como deveria proceder, disse que desligaria, faria o tal teste e, se o problema permanecesse, ligaria novamente para a empresa.  Não deu outra, foi só desligar e religar o aparelho que tudo funcionou.
  2. Ontem fui à Biblioteca Mário de Andrade.  Como mencionei em outro post (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/02/23/retorno-ao-front/), retirei dois livros para leitura que tinha de devolver ontem. De novo: após 3 anos de fechamento em pleno Século XXI, dão baixa no cartão de empréstimo com um carimbo “devolvido”.  Um carimbo que se pode fazer em qualquer lugar por uns $3, acho.  Ou seja, o acervo continua totalmente desprotegido, pois um esperto pode retirar livros, carimbar seu próprio cartão, e criar sua biblioteca quase que graciosamente.  Como tudo não é feito de forma mais segura, cartões magnéticos, por exemplo? A possibilidade de fraude ou engano seria praticamente nula. Imagino que o investimento seria pífio, mas vai fazer a administração pública raciocinar. À funcionária que recebeu os livros de volta e carimbou minha ficha, eu disse que gostaria de doar um livro. Ela nem quis saber se era a Carta de Caminha ou a Bíblia de Gutemberg. Disse que não estavam aceitando doações e que para tentar doar (veja, que quero doar, dar, não pegar, retirar, emprestar, ou seja, o favor é de cá para lá e não o contrário como fazem parecer de forma mais que arrogante) eu deveria seguir a “Orientação sobre doações de livros” - scan que segue.  Gente, mesmo que a obra não interessasse àquela biblioteca ou qualquer outra da rede pública,que tal pegar o livro, e não sendo ele pornográfico, de baixo nível, etc., por que não fazer uma reserva e, sei lá, no último dia do mês, ou quando houvesse a visita de alguma escola, sortear aquele livro para motivar, criar um approach simpático? Mas nãããoooo. Uma vez já tentei doar livros para o USP e foi igual, senão pior. Eu havia dito a mim mesma que não o faria mais. Mas, diferente de quem administra a coisa pública, eu achei que deveria tentar mais uma vez a bem dessa mesma coisa pública. Mas qual! Uma gente mumificada, que não pensa à frente, que quer evitar movimento, visitantes, trabalho.  Imagine se vão facilitar. Agora, aceitar a biblioteca do Sr. Mindlin, ou de outro potentado, com obras valiosas, até eu.  Isso é fácil. Uma pena! Infelizmente, nessas horas concordo com aquele pensamento um tanto chulo de que “só as moscas mudam!”. É um verdadeiro rosário que só falta terminar com: estamos fazendo o favor de aceitar qualquer coisa que queiram nos dar. Sobretudo porque somos um país de ignorantes, semianalfabetos, gente que não tem acesso à leitura básica. Qual seria o papel de quem cuida da cultura? Achar caminhos, tentar de todos os modos eliminar ou minimizar o problema. Lamentável! (cliquem na imagem para poder ler).
  3. No almoço, fui até o Roof na Vila Olímpia (http://www.roofeventos.com.br/). Havia comprado uma oferta de um site de desconto, porque vi o que vocês estão vendo no link acima. Nada que ver! Um negócio sem graça, feioso, um bufê meia-boca. E ontem era o último dia para o usar o voucher de desconto, portanto o pessoal da casa deveria estar mais do que treinado e entendido no assunto…aaaah, táááá…o atendimento não foi ruim, mas totalmente titubeante.  A vista é meia-boca também. Então lá não volto, não, ainda mais que a gente tem de pegar crachá para entrar, afinal fica no 19o. andar de um prédio comercial, pegar elevador, enfim…melhor ir no shopping ou outro restaurante de rua que fique por ali. O pessoal não pensa mesmo. Para levar gente para lá tem de ser muito atrativo - o que está na foto mesmo - mas qual.
  4. Estão cansados? Eu quase cansei também…Foi a vez de ir ao cinema: Unibanco da Augusta. Aquele cinema está mais que derrubado, precisava de um tapa geral.  O filme (Incêndios - comento em outro post) estava na sala 4, uma das pequenas, que fica no prédio do sentido centro-bairro.  O filme era às 15h, cheguei umas 14h30. Duas pessoas na minha frente na fila para a bilheteria. Chega minha vez: por favor, uma entrada aposentado para Incêndios, 15h.  A moça diz o valor, cobra, me dá o ingresso. Surpresa! Ela me deu ingresso para a outra sala, outro filme, que começava às 15h10. Claaarooo, muito movimento, gente saindo pelo ladrão, ser bilheteiro de cinema é uma atividade estressante, que envolve muitas decisões ao mesmo tempo, é vigilância constante…aaah, faça-me o favor! Ainda bem que vi na hora e ela trocou, senão, com a aparente incapacidade mental, vocês acham que se eu voltasse dali a uns minutos ela se lembraria ou admitiria que o engano tinha sido dela? Pode ser, mas felizmente não precise correr o risco.
  5. Jantar com um amigo no Frango com Tudo (http://www.biroska.com.br/frango/). Outro cupom de desconto.  A casa é uma das que pertencem à Lilian Gonçalves, empresária da noite, que admiro bastante.  A reserva foi relativamente fácil, o local é simples e simpático. Estava vazio quando chegamos, depois encheu bem.  A dona estava por lá e foi a algumas mesas conversar com os clientes. O voucher dava direito a um frango recheado com farofa e legumes. Estava bem gostoso, dá para 3 a 4 pessoas comendo bem.  A casa tem um sistema de campainha na mesa (a gente toca e, teoricamente, vem alguém atender).  Já estávamos instalados e dissemos a uma atendente que estávamos ali pela promoção, e queríamos o frango. Perguntamos quem anotava bebidas. Resposta: a senhora escolhe no cardápio, aperta a campainha e alguém atende a mesa.  Tá.  Levamos 60 segundos para resolver o que beber, tocamos a campainha. Quem vem? A própria!  Por que será que ela mesma não disse: querem olhar o cardápio? Eu já anoto o pedido. Afinal, o restaurante estava vazio.  Mistééériooosss! Mais tarde, quando a casa encheu, nem tocando a campainha. Tivemos de tocar umas duas ou três vezes para alguém aparecer em um dado momento, e olha que o salão é bem pequeno, ou seja, controlável só no olhar. De todo jeito, não foi ruim, e até seria interessante conhecer outras casas da rede.  O entorno do restaurante é a parte boa da Santa Cecília. Simpática, limpa, bem cuidada, até tranquila estava ontem.
  6. Agora o fantasma que me acompanha quase que diariamente: entrega do jornal Brasil Econômico. Fiz essa assinatura há uns 5 meses. Gosto bastante do jornal.  Desde o início tem sido uma luta receber o periódico, que é caríssimo considerando que só circula de 2a. a 6a.  No começo, tive de reclamar todas as semanas, pois algum dia o jornal não era entregue. Depois normalizou. Em fevereiro o tormento recomeçou, e ontem foi outro dia. A gente tem de ligar para um 0800 que não atende celular. Bom né? A opção seria um interurbano, já que o SAC fica no RJ.  Claro que não renovo essa assinatura por nada no mundo (além das falhas de entrega, o jornal não vem embalado ou identificado, pode? Já reclamei, mas…). Se assinar, assino o eletrônico. Ah, o jornal está disponível gratuitamente para Ipad. Então sou eu que vou pagar mais caro e ainda ter todo esse trabalho? O melhor é quando a gente faz a reclamação, solta o verbo, e ouve o atendente do outro lado da linha teclando furiosamente para documentar tudo o que a gente está falando. Como se isso fizesse alguma diferença, pelo que pude depreender destes meses de calvário.  O mais divertido é que já recebi até outro jornal no lugar do Brasil Econômico, afinal as publicações usam as mesmas distribuidoras muitas vezes. Sabe o que eu ouvi da atendente do BE? Não temos nada a ver com a entrega do outro jornal. Eu: claro que têm. Afinal, vocês têm um prestador de serviços que trabalha contra vocês e só para o concorrente. Eu assino o jornal de vocês e recebo o do concorrente. Não adianta, a mocinha não entendeu o raciocínio.
Bem, creio que por ora é só.  A vida de cliente/consumidor por aqui não é fácil. De vez em quando duvido de minha sanidade, pois não é possível que eu esteja vendo, ouvindo, presenciando aquilo que está acontecendo. Felizmente, não sou sugestionável, senão, sei não…Bazinga!

9

de
março

Inspira, expira, inspira, expira

Último dia de Carnaval, do feriadão (hoje muita coisa voltou a funcionar a partir de 12h), 20h. E onde estava eu? Num casarão lá no Pacaembu, ali na subida para a Dr. Arnaldo, ao lado do estádio. Fazendo o quê? Acompanhando uma amiga em uma palestra (semanal) da Monja Coen (http://www.monjacoen.com.br/), da linha Soto Zenshu do Budismo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Budismo). Curiosidade pura. Afinal, como sempre digo, informação é poder, no mínimo o poder de escolher, decidir, alargar horizontes.

Já tinha visto entrevistas da monja há algum tempo: voz pausada, tranquila, sorrisos, mais o menos ou que o estereótipo de um budista deixa entrever. Pessoalmente ela e o pessoal da casa são assim mesmo.

Casa bem grande, com jardins à volta, ambientes internos à meia luz, cheiro de incenso, todo mundo falando baixinho ou em silêncio, cadeiras e assentos no chão (fiquei com a cadeira, senão ao final talvez precisasse de um milagre bem brasileiro para conseguir me levantar e caminhar).  Apologia à calma, silêncio, recolhimento, meditação. Tudo muito ascético também. Além dessa casa, há um templo na Liberdade que visitei há um tempo (http://www.sotozen.org.br/templo.php) (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/06/27/nada-e-tao-ruim-que-nao-possa-piorar/).

Logo ao chegar, temos de tirar os sapatos e deixar pertences num guarda-volumes. Como ainda é a parte externa da casa, cedem chinelos.  Antes de entrar nas salas internas, deixamos os chinelos na porta. Ao final, rewind. Ontem havia duas mulheres ajudando na recepção e guarda de pertences.

As duas monjas que vi na casa (Coen e outra) tinham suas cabeças raspadas, vestiam as roupas (manto ou quimono) características. Havia umas 40 pessoas para ouvir a palestra. O público budista não é a classe C ou D. Classe média, média alta. Gente que lê/se informa, tem a capacidade de abstrair, boa educação formal, gente que parece bem civilizada (pelo menos ali parecia).  Os budistas, nos censos, constam como “outras religiões” já que são bem poucos comparando-se a outras religiões (católicos e protestantes/evangélicos/pentecostais).  À medida que o país crescer em cultura, boa educação formal, não tenho dúvida de que o número de budistas tenderá a crescer também.

A palestra foi sobre o dia da mulher, em parte. A monja desfilou alguns conceitos sobre a mulher atual, comentou a origem do dia, etc.  E, para minha sorte eu diria, havia uma estudante de enfermagem que queria fazer perguntas à monja. Digo para minha sorte, pois o tema não poderia ser mais representativo. Acho que se pode conhecer uma religião, o pensamento de seus guias, líderes, pelo conceito que propagam sobre a morte, pós-morte e doenças. Essa entrevista levou uns 2/3 da palestra.

As perguntas foram basicamente sobre o atendimento que o budista dá ao doente à beira da morte, como vê a morte e o pós.  Foi bastante interessante e elucidativo.  Até uma surpresa eu tive: a monja disse que para rezar junto a alguém terminal ou pós-morte ela entra nos hospitais como visitante comum, já que a capelania é cristã apenas, e ela não pode realizar essa atividade como religiosa.

Ué, o Brasil é laico, ou não é? Como um representante de qualquer religião que não seja a católica, presbiteriana, evangélica não pode entrar e confortar doente e família? Impressionante! Ela disse inclusive que foi impedida de entrar em um hospital há algum tempo. A palestra foi bem interessante.

A casa dá vários cursos (meditação em vários níveis, budismo, etc.), o que, imagino, ajuda a manter financeiramente a comunidade.  Ontem também estava terminando um período de retiro, ou seja, têm várias atividades para levar a tradição e ensinamentos budistas ao pessoal da terra.

Qualquer um pode visitar a casa e participar das palestras. Terça, 20h. De repente é a sua, então vale conhecer. O endereço está no site da monja (acima).

Ouvir um pouco sobre a crença, as diretrizes budistas deu vontade de conhecer mais. Ai, mais um monte de coisas para ler…e aprender. Informação é poder, em qualquer circunstância!

8

de
março

Socorro!

Antes de mais nada algumas aleatórias (como eu gosto disso!).

Penúltimo dia de Carnaval, segundona tranquila na cidade, trânsito ótimo, transporte coletivo funcionando normalmente - é ruim sempre, mas hoje não estava pior-, tudo muito zen. Várias lojas abertas (maioria fechada) pela Teodoro Sampaio, Augusta, transversais. Quem abriu teve clientela. S. Paulo é 24 x 7 ou quase isso.

Antes de ir ao cinema, passei na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Lotada! Quem vê de fora, pensa: que cidade, país cultural! Hordas sedentas por um livro, cd, dvd, ou outro item vinculado, à disposição naquela ilha do saber. Aaah, tá!  Eu já presenciei isso tanto na Paulista quanto na Pompéia: livraria lotada em sábado, domingo, feriado, Carnaval, Páscoa, Natal, Ano Novo…abriu as portas, lotou.  Minha teoria: somos sempre os mesmos. Os mesmos lendo, os mesmos vendo bons filmes, ouvindo boa música, indo ao teatro, ao cinema, aproveitando o que a cidade tem de gratuito ou a preços mais que acessíveis e de qualidade. Não porque isso não esteja aberto à grande massa, mas ela não quer isso.  De todo jeito, fico contente porque é um bocado de gente; e triste: ainda somos muito poucos. Mas é um refrigério ver o movimento da Cultura todos os dias do ano. E o atendimento é sempre muito bom. Às vezes um escorregão aqui, uma vacilada ali, mas no geral atendimento de primeira.

Depois da passagem pela livraria, fui ver Em um Mundo melhor, ali no Unibanco (ou será itáu ou Itaú Unianco?) da Augusta. Filas! Sim, salas praticamente lotadas mesmo em horários vespertinos. Havia várias pessoas de fora de SP, mesmo de cidades próximas (e.g. Suzano).  Com as temperaturas mais baixas, chuva intermitente, muita gente não viajou ou voltou antes da folga de Carnaval, então…muito movimento para cinema.  Quando saí, por volta de 19h., havia mais filas.

O filme dinamarquês ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, e é realmente um filmaço! Já vi outros dinamarqueses (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/09/03/vade-retro-ou-anticristo-para-os-intimos/), mas com certeza este foi o melhor de todos. Nada hollywoodiano, mas muito bom. Tema interessante, muito bem desenvolvido, sem obviedades, tanto que a gente fica com os pregados na tela do começo ao fim, curioso, e a respiração fica suspensa em vários momentos.  Um filme para pensar,pensar,pensar. Tocante, realista, o que somos todos nós.

Em cima de um roteiro muito bom, em que muito não é dito, mas a ótima performance dos atores/atrizes e ótima direção deixam tudo claro, evidente.  Discutem-se as decisões que cada um de nós tem de tomar a cada minuto, a responsabilidade por elas e suas consequências, nem sempre previsíveis, ou controláveis, ou positivas.

É melhor dar a outra face ou revidar? Verdade que não revidando o agressor se acalma e entende sua ação como indigna, reprovável? Ele para de agredir?  Ele se regenera? Ou melhor reagir? E a reação tem de ser em que medida, para não nos igualarmos ao idiota de plantão? E se damos a outra face, somos corajosos, ou covardes mal-assumidos? Que reflexo isso tem para quem esta à nossa volta?

Deve-se contar a verdade sobre uma doença terminal, uma morte iminente a uma criança? Melhor poupá-la já que isso não agrega nada? E depois, como essa criança, esse filho, esse neto vai se sentir? Traído? Irado? Raivoso? De que forma isso ficará indelevelmente marcado em sua memória, em seus sentimentos?

Esses são apenas alguns dos temas de Em um Mundo melhor.  Tudo envolto em boa música, lindas imagens (que lugar bonito é a Dinamarca!), gente bonita e talentosa.

Interessante a escola e a polícia locais. Impressionante a civilidade, a estrutura, o preparo. Imagino que seja assim mesmo.

A história baseia-se na amizade de dois meninos: um sueco, que é segregado na escola, e um recém-chegado, que acaba de perder a mãe para o câncer. Este um menino revoltado, frio, vingativo; aquele, apesar das agressões e humilhações gratuitas, uma alma generosa, mas só entre seus pares.  Os dois têm o apoio, cuidados, carinho dos pais, mas na pré-adolescência isso não basta, todos sabemos. Um probleminha vira um problemão; as inquietações são arrasadoras, maiores do que o indivíduo; a autoafirmação é caso de vida ou morte. Daí para fazer bobagens é um pulinho. No filme, essa bobagem encosta no terror, no suicídio, na crueldade. Mas não se assustem ou preocupem, apesar de algumas cenas mais fortes, tudo muito palatável.

Considerando o filme como um todo, o final é a parte mais morninha e previsível, mas não deixar de ser comovente e comedido, aliás um alívio para o espectador.

Um aspecto interessante é que o filme mostra insistentemente que ainda há pessoas fiéis a seus ideais, crenças, a si mesmas. É o caso de Anton, uma das personagens principais. Ele é o pai de Elias, um dos meninos (o generoso), sueco, só não mais discriminado por ser médico. Doa sua vida para cuidar dos outros em um capo de refugiados na África. Está sempre no vai-vem de casa para o outro continente, mesmo assim ama e demonstra seu amor pelos filhos. É gentil, atencioso, responsável, e preocupa-se genuinamente  com a família. Ele e a mulher estão se divorciando. Um momento doloroso, mas que os dois levam da melhor forma possível e as crianças são minimamente afetadas. Vendo Anton em ação, até dá para readquirir um pouco de fé na Humanidade.

Vocês conhecem algum destes atores: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen? Nem eu conhecia, mas eles são bons demais, podem acreditar. Os dois atores-mirins, que fazem Christian e Elias, também são ótimos.

Aí a gente pensa: poxa, um país desenvolvido, limpo, despoluído, todo mundo pode usar sua bicicleta tranquilamente, educação de boa qualidade, polícia que é o sonho de todos, e toda essa complicação? Como sabiamente dizia minha mãe: a vida é simples, quem complica somos nós, não importa onde.

E o motivo de meu pedido de socorro é um fato que eu desconhecia, aliás nem poderia imaginar: os dinamarqueses têm um preconceito acirrado contra os suecos. Verdade que houve disputas de poder, dominação, a Dinamarca perdeu território para a Suécia, mas mesmo assim. É um preconceito, um antagonismo visceral, claro, violento.  Como é que eu poderia imaginar?  Aí, elucubrando de novo: se lá, com um altíssimo padrão de vida, educação, terra linda, gente bonita e saudável, é assim, i.e.,  o pessoal acha pelo em ovo, que esperança de paz e entendimento real há para o restante de nós?

Parem o mundo que eu quero descer, e é já!

7

de
março

Duas boas ideias

Uma deu muito certo, outra não.

A que deu certo: cruzei com Beckett  (http://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Beckett) recentemente numa peça (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/01/16/esperando-beckett/), e resolvi lermais  alguma coisa do autor.  Esperando Godot (En attendant Godot) está em casa em algum lugar e preciso reler, mas enquanto não “localizo” a obra, emprestei livros na Circulante da Mário de Andrade.

Comento Final de Partida (dá para ler em inglês aqui! Bacana, né? - http://www.samuel-beckett.net/endgame.html), que li em português, ediçao CosacNaify, e isto faz toda a diferença. Além dos textos comentando a peça e a obra do autor, há fotos da encenação da peça e de Beckett em cena (fotos das décadas de 50, 60 e 80).

São apenas 4 personagens: Hamm, Clov, Nagg, Nell. Hamm, praticamente imobilizado em uma cadeira e cego; Clov que cuida dele; Nagg e Nell são os pais de Hamm, que vivem em duas barricas.  Os nomes remetem à opressão, poder, desesperança: Hamm, o martelo (hammer), Clov, o prego (clou - fr.), e nagel (Nagg+Nell), também prego em alemão ou nail, prego em inglês.  Enfim, é um martelar de espera, de angústia, de mal-querer.   É esperar pelo fim da existência que não vem nunca.  Imobilismo concreto.  Pela descrição no texto e pelas fotos, o cenário é cinzento, escuro, três paredes (a quarta é derrubada por Clov e sem ela se conectam público e cena). Relógio surreal, janela surreal.

É um ferir, destratar sem fim. Isso! E o fim não vem.

“HAMM

And yet I hesitate, I hesitate to… to end. Yes, there it is, it’s time it ended and yet I hesitate to—
(He yawns.)
—to end.
(Yawns.)
God, I’m tired, I’d be better off in bed.”

Lembra muito Esperando Godot: somos nós em vários momentos de vida, algumas pessoas pela vida toda. Depois de uma peça de Beckett, sempre me vem à cabeça aquele refrão de samba: Desesperar jamais…

Seguramente muitos não gostam de Beckett. Não porque sejam otimistas e o que o autor pinta é muito denso, pesado, a feiúra humana num certo sentido, mas porque é preferível não ver, não saber, não se inquietar, não se transformar.

No mínimo, um texto inquietante.

E a ideia que não deu certo? Twitterature de Alexander Aciman e Emmett Rensin, pela Penguin Books.  Dois jovens que escreveram o livro aos 19 anos, em 2009. Frequentam a Universidade de Chicago.

Proposta do livro: the world’s greatest books retold through Twitter.  Quando vi o livro, dei uma folheada, achei um tanto teen demais, mas resolvi dar uma lida mais cuidadosa.  Afinal a ideia pareceu-me corajosa e inteligente.

São abordados clássicos literários: Paradise Lost, Oedipus, The red and the black, Macbeth, Candide, Doctor Faustus, e por aí vai.  A linguagem é um horror: cheia de gírias e palavrões.  Alguém poderia dizer: ora, moleques de 19 anos, usando a estrutura do Twitter para falar sobre clássicos…o que você esperava? Pois é, eu esperava um mínimo de cérebro.

Hoje, o grande desafio de professores, educadores, teóricos, sistemas educaionais, imagino que pelo mundo todo, é fazer com que a geração copy/paste without reading and thinking se interesse por cultura como base de refinamento, elevação humanos, sem apenas vieses pragmáticos, financeiros, olho no cargo de presidente.  A grande discussão é: como utilizar o que os alunos conhecem até mais que os professores e de que gostam, ou seja, seu “à vontade” em tecnologia, sobretudo na internet, para motivação e proveito dos próprios?

Está aí! O Twitter.  Já pensou se cada professor de história, geografia, literatura-português, inglês, desse como tarefa justamente contar ou recontar algo em várias postagens de 140 toques? Um concurso e o grupo ou quem ganhasse teria um dia off da escola, um ponto a mais no final do mês, ou ganharia um cd, um livro. Pronto, sucesso garantido!  Ainda mais em tempos de autoestima tão baixa, sobretudo para os que frequentam a escola pública no Brasil.

Quisera eu, em meus tempos de escola e faculdade, ter tido um mecanismo como esse. Pensem no poder de síntese que se pode desenvolver! Como o raciocínio fica enxuto, objetivo! E o texto,  então? Escrever ou reescrever algo com um vocabulário rico e preciso.  Já pensaram?  Eu teria adorado!

Claro que já vi várias minihistórias e minicontos no Twitter bastante bons, até um romance de verdade escrito a milhares de mãos, mas o uso pedagógico é infinito e, parece-me, pouco explorado.  Talvez algum professor/instituição já tenha proposto isto a seus alunos, mas deveria ser uma coisa disseminadíssima, divulgada, parte obrigatória do currículo escolar. Pessoalmente, nunca ouvi nem falar disso.  Aliás, poderia ser aplicado em escolas, empresas, hospitais - mensagens curtas e precisas são um tesouro em qualquer lugar.

Aí vêm os dois americanos e jogam uma ideia maravilhosa no lixo por uns (talvez não uns, mas milhares) de dólares.  Dão um mau exemplo. Comprei o livro porque eu queria ver John Milton, Dante, Kafka, Hemingway e outros recontados em 20 ou 30 inserções de 140 toques cada, mas com seriedade, bom vocabulário.  Isso seria genial!  Agora, a Penguin publicar um negócio desses? E nem graça tem, porque repetem tanto as mesmas fórmulas, i.e, piadinhas, vocabulário limitado, expressões chulas que fica boring demais!  Imaginem, duas pagininhas para cada obra e se torna impossível ler de tão chata que é a coisa!

Na certa os meninos ganharam uma grana, mas que não mereciam, ah, não mereciam,não.

6

de
março

Confetes e serpentinas

Não para mim, hein! Adoro Carnaval, sobretudo se fico em SP, mas não para as folias de Momo, bem entendido.  Cidade vazia, fácil de circular, cinemas, teatros, restaurantes, tudo menos lotado.  Tem muita coisa fechada nesses dias (museus, restaurantes, comércio), mesmo assim vale a pena.

E hoje não foi diferente: cinema e teatro.

Primeiramente Esposa de Mentirinha (http://www.imdb.com/title/tt1564367/) com Adam Sandler e Jennifer Aniston.  Domingo feioso, então uma comedinha ia bem.  Desconfio um pouco de comédias, tanto no cinema quanto no teatro. Comumente não são tãããooo divertidos assim, mas, para minha satisfação, esta produção superou minhas expectativas. Houve momentos em que ri descontroladamente, tal o “candid” das cenas.  Além dos dois atores, Nicole Kidman está muito bem, e lindíssima.  No entanto, o máximo é Bailee Madison, garotinha que participou também de Entre Irmãos (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/03/07/uma-noticia-ruim-e-outra-boa/). Neste filme, ela está fantástica, hilariante, tão segura quanto qualquer adulto, e provê muitos momentos divertidíssimos.  Trilha sonora bacanésima (Sting, The Beach Boys, Billy Joel, Bob Marley, etc.).  Como parte do filme se passa no Havaí, a fotografia também é muito bonita.

Trata-se da história de um médico que foge de relacionamentos sérios, depois de uma desilusão no dia do casamento, e arranja um jeito de ir levando a mulherada na conversa. Um dia encontra sua “cara metade”, e aí tem de montar uma mentira para fisgar e manter a moça. Aí entra Aniston como sua ex-mulher (na verdade não o é), os filhos dela (Madison é um deles), e o imbroglio cresce geometricamente.  Até um primo hilário entra na história, e agrega boas risadas.  O enredo é bem bolado, foge do comum, e todos os atores estão muito bem.  Um bom filme para uma tarde, uma noite bem divertidas.

Ah, fui ver o filme no Marabá, recuperado e reaberto há uns dois anos se tanto. Já comentei sobre o atendimento abaixo do esperado naquele cinema  (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/07/04/era-do-gelo-3casamento-silencioso-e-festa-juninata-bomou-quer-mais/), mas o interior é muito bonito, é emocionante subir escadas apoiando-se no corrimão quase centenário.  O cinema também é de fácil acesso, e barato - acho que um dos mais baratos. Projeção boa, som também, então tudo bem, vamos lá…

Depois fui ver, no Centro Cultural Banco do Brasil, a peça Antes da Coisa toda começar, com a Armázem Companhia de Teatro (http://www.bb.com.br/portalbb/page511,128,10162,1,0,1,1.bb?codigoEvento=3931).

A peça é densa, mas há momentos bem divertidos.  Guarda-roupa e cenário, sobretudo este, muito interessantes: pragmáticos, plásticos e inteligentes.  Música ótima (ao vivo e gravações): Rolling Stones, Piaf, entre outros. Projeções primorosas, iluminação bacana. Vozes maravilhosas, tanto para dizer o texto quanto para cantar. Texto muito delicado: 3 personagens que lidam com seus medos, desejos, responsabilidade por suas próprias vidas. A morte é enfocada de maneira bem interessante e realista. Arrependimentos, lembranças, chances de dizer o que é necessário do jeito certo perdidas, momentos que o público pode reconhecer em si e naqueles com que convive.

Do programa da peça: “Diante da morte a vida ganha força. Diante do silêncio, a música avança. Diante da apatia, o corpo dança. E é exatamente nesse instante que tudo começa.”

Muitos querem, mas não serão imortais; a premência de viver, de sentir, de se descobrir e se revelar com honestidade fazem a cena pulsar.  Um ótimo espetáculo.

4

de
março

Ondas

A vida é assim, feita de ondas. Como cantou Lulu: http://www.youtube.com/watch?v=KiU6B4rEVhs. Pois é, não adianta fugir, nem fingir, tudo muda a cada minuto. O engano é pensar que não mudamos, que outros, que sentimentos e percepções não mudam a cada minuto. A cada minuto!  E quando a gente se dá conta, lááá na frente, está olhando para estranhos: no espelho ou a seu lado, não entende o mundo, e por aí vai. Claro que perceber e entender não muda o rumo da história, mas ajuda a minimizar ou eliminar a decepção, a não se ferir, a não ser apanhado no contrapé. É extremamente difícil aceitar mudanças sem se alterar, sem se perturbar, sem aquele olhar de “como assim”? Tem gente que consegue, mas esses são pouquíssimos e até acho que, como diz o samba (afinal é Carnaval!): bom sujeito não é.

Como mencionei em outro post (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/01/22/meu-lugar-e-aqui/), às vezes a gente faz diariamente o mesmo caminho, realiza as mesmas ações e não se dá conta de coisas, coisinhas ou coisonas importantes. Quando se dá conta, é um susto.

Agora que tenho mais tempo, fiz uma limpa em casa, vi que tinha vários itens encostados. Já dei, e continuo dando ou doando várias coisas, até de valor razoável, mas com a aposentadoria, a realidade $ é outra. Tinha um e-book da Positivo (não comprem, tá? É muito inferior ao Kindle, por exemplo) que comprei porque achei que seria melhor para baixar livros em português. Hein?  Há montes na Amazon para o Kindle, vários no Ipad de graça, e caros e poucos por aqui para baixar para um e-reader. E pasmem! O produto nacional saiu mais caro que o Kindle.  Negocião, né?  Que fazer com aquilo? E com um porta-retratos digital fechado na caixa, da Samsung?  E com vários dvds de filmes e séries? E um cd que detestei do Guns n’ roses?  Às vezes nem querendo dar/doar as pessoas querem. Se você dá para uma instituição - se alguma aceita - o negócio pode ficar jogado num canto, não servir para uma boa causa, perder-se simplesmente. E eis que…descubro o Mercado Livre (http://www.mercadolivre.com.br/)!  Tantas propagandas na TV, eu mesma comprei dois dvds pelo e-bay, e nem tinha pensado no ML.

Já fiz 4 vendas (e-reader, porta-retratos digital, dvd temporada Big Bang Theory, o tal cd do Guns) e tenho outros produtos anunciados. Custa muito pouco, é tudo bem tranquilo. Pedi o pagamento dos itens mais caros pelo Mercado Pago. Assim que confirmam que está tudo em ordem, despacho a mercadoria.  O frete é algo a combinar com o comprador e em geral é por conta dele. Ou seja, o sistema é todo eletrônico, a gente não pode divulgar nenhum dado pessoal, tem pagamento seguro. So far, so good. Funcionou tudo bem direitinho.

Mas o que mais me chamou a atenção é que as 4 vendas foram feitas para lugares far away: Cel. Fabriciano em SP - onde?; Belém; Paulista em PE (onde, onde?) e Divinópolis.  Se a gente pensar bem, o sistema atende muito bem cidades que não sejam grandes centros. Claro que as pessoas dessas cidades poderiam comprar da Americanas.com, Submarino, etc., mas aí pagariam um preço bem mais alto por itens idênticos, fora o frete que é sempre de matar nesses sites de vendas. Claro que tudo depende de confiança, e até pode dar errado. Mas tanta gente tem problemas com esses sites instituídos, e problemações. Então…

Quando comecei não tinha nenhuma avaliação, agora tenho 4 positivas. Isso vale muito para os compradores.  Enfim, foi um canal interessante a explorar. Nada será como antes…O que isso tem a ver com ondas da vida? Sei lá!!!

Ah, sim,sim,sim,sim, já entendi de onde veio tudo: vi hoje A Onda (http://www.imdb.com/title/tt1063669/). Ooooh, cabeça!!! Um filmaço!  Muito pedagógico!

Um professor é designado para ensinar o que é autocracia a seus alunos, num projeto de uma semana - uma semaninha apenas. Acaba exagerando na dose e perdendo controle sobre si, i.e., suas crenças e objetivos são pervertidos, e sobre a classe. O filme mostra que para se chegar a movimentos ditatoriais, movimentos autocráticos, é preciso que a coisa flua bem de cima para baixo,  e igualmente debaixo para cima. Incrível, mas é uma comunhão.  O processo de manipulação fica muito claro no filme, mas também fica claro que o material a ser manipulado precisa ser fértil. E como é!

Todos nós temos o que colocar para fora e não temos coragem para tanto. Basta que venha alguém e diga que aquilo que achamos tão feio, tão baixo, mesquinho não é assim tãããooo feio, baixo. É importante também encontrar ou se sentir entre iguais. Interessante, pois teoricamente e cristãmente todos somos iguais, então por que não percebemos os outros assim? Precisamos de reforços, demonstrações, quase uma parada musical a la Walkírias para ir longe sem sair do mesmo lugar.  É preciso que alguém nos diga o que está lá mas não enxergamos.  Assim funcionam os carismáticos, os líderes, os ditadores e as massas (nós).  Claro que as situações comuns, do dia-a-dia, não são extremas em sua maioria como mostra o filme ou como a história humana já testemunhou, mas o caminho é sempre o mesmo.

O esprit de corps é fortíssimo, os que não fazem parte são segregados, agredidos, uma miragem cega a todos, e o despertar exige muito ranger de dentes. O espectador acompanha o processo, o caminho para o desastre passo a passo, sabe que a coisa não vai dar certo.  Vê gente informada, inteligente, jovem sendo arrastada irremediavelmente para o cataclismo. E percebe - oooh, dureza! - que poderia ser qualquer um de nós, que nós poderíamos ser personagem de algo bem parecido. Como não ser também um cordeiro a ser imolado?

Vale refletir sobre nossas vidas, nossas opiniões, nossas ações. Será que não estamos mais próximos daquilo que está no filme do que imaginamos?

O final do filme é dramático, muito interessante, didático, tocante. Dá pena das personagens, pena de nós.

Tanto o ator que faz o professor - Jürgen Vogel, quanto vários atores jovens que fazem os alunos, sobretudo Frederich Klau, estão excelentes.

Será que a gente aprende um dia?

3

de
março

Não chegou lá

Antes de comentar Desconhecido (http://www.imdb.com/title/tt1401152/), aleatórias.

Estive pelo bairro de Perdizes, ali perto da PUC. Ao fazer o caminho da Itapicuru para a Francisco Matarazzo e vice-versa, cruza-se uma rua (não me lembro do nome) em que, na esquina, há uma faixa para travessia de pedestres. Esclarecendo: eu sou pedestre e nas duas vezes em que passei por ali não consegui segurar o riso (melhor que chorar).

Faixa de travessia de pedestre, em S. Paulo, sem semáforo ou presença de agentes de trânsito? Exatamente para quê?  Nas duas ocasiões em que passei pelo local, pude (bem como outros transeuntes) atravessar a rua porque os carros, que entram à esquerda, param porque a rua em que querem entrar está congestionada. Mil olhos para ver se não vem alguma moto e/ou bicicleta enlouquecida. Não fosse pelo congestionamento seria muito mais difícil e ainda mais perigoso fazer a travessia na tal faixa de pedestre. O interessante é que (percebi porque já fui motorista, e deixei a classe há uns 16 anos), mesmo se a rua em que vão entrar está totalmente parada, ou seja, está congestionada, os motoristas não param antes da faixa para permitir que os pedestres atravessem em segurança. Eles fazem questão de avançar e “estacionar” sobre a faixa. E isso aconteceu durante os cinco minutos ou pouco mais que tive de esperar para atravessar a rua. Nenhum, nenhunzinho dos motoristas parou antes da faixa ou permitiu que os pedestres atravessassem, mesmo tendo de parar poucos metros adiante.  Impressionante!

Outro desabafo: ao voltar para casa tomei o ônibus Butantã/USP - 117P (vai como Santana).  No horário em que tomei o ônibus, havia vários universitários, indo para a USP, claaroo.  Percebi pelas conversas, pela cabeça raspada (calouros), agasalhos com emblemas, enfim, a nata universitária do Brasil estava ali.  E não é que vi então o que não via nem quando ia para os fundões da Barra Funda pela manhã, quando trabalhadores lotavam os ônibus: os uspianos tinham suas mochilas às costas, atrapalhando todo mundo dentro do coletivo, sem se incomodar com os outros passageiros, e o ônibus estava bem cheio. Fiz USP, e por isso tenho o direito de me envergonhar desses “herdeiros”. Não adianta ser bom de cálculo, de texto, de memória, de raciocínio, se não se tem civilidade básica, e é por pequenos gestos, pequenas atitudes que sabemos que profissional ou cidadão alguém poderá ser. Tomara que a universidade transforme essa gente.

Para compensar a zebra crossing surreal, as backpacks inoportunas, e a chuva pelo dia todo, repetindo o dia anterior, um filminho para fazer minha alegria.  E foi quase um filminho mesmo.

Gosto muito do Liam Neeson (http://pt.wikipedia.org/wiki/Liam_Neeson), ator principal de Desconhecido. Nunca vi A lista de Schindler, que catapultou o ator - comprei o dvd  recentemente, mas não o vi ainda, no entanto, vi muito do que veio depois: Rob Roy, Star Wars, Chloe (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/05/17/chloe-virou-o-preco-da-traicao-por-que-por-que-por-que/). Não acho LNeeson fantástico, mas gosto muito dele.

O filme é um thriller bonzinho, só que tem umas coisas bem inverossímeis e outras um tantinho patéticas, mas mesmo assim dá para divertir. Mais um filme que trata das peças que a mente pode pregar na gente. Neste caso, a personagem de Liam Neeson sofre um acidente de carro logo no início do filme, bate a cabeça e aí começa toda a confusão. O filme não é tão bom quanto Ilha do medo (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/05/15/to-voltando-pra-casa/) ou Cisne Negro (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/02/08/luxo-e-lixo-ou-vice-versa/) no quesito “enganar o espectador”, ou seja, fazer com que o público duvide dos próprios olhos. Fica claro que há um esquema mesmo, só não se sabe exatamente qual. Aí vem uma revelação daquelas tipo final de novela, que ninguém imaginava ou esperava, explica-se tudo, e a gente fica se perguntando: como assim? O que vale é que tem ação de monte.

Aliás, para sobreviver no mundo de faz-de-conta tem de ser bom de volante, hein! Senão, não dá!  Impressionante como qualquer personagem passa a mão num carro e sai por aí barbarizando, manobras radicais, velocidade impensável por cidades que não conhecem, em que nunca estiveram. Tááá, me engana que eu gosto. E como é bom ser americano: o pocket money nunca acaba. Sem lenço, sem documento, num miserê aparente, mas com grana no bolso. Estes são alguns dos aspectos inverossímeis que mencionei.

A Diane Kruger, patner de Leeson, está muito bem e faz diferença. Mas o momento mágico é quando aparecem Bruno Ganz (que participou de O Leitor) e o maravilhoso Frank Langella (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/03/07/restaurant-weekcinema-e-miscelanea-da-melhor-qualidade/). Os dois senior actors agregam muito, mesmo com uma participação bem rapidinha.

O mais hilário para mim -não deu para não esboçar sorrisos - é quando recorrem descaradamente àquela história que a gente conhece bem: a pessoa morre, era uma peste, e pós-morte vira santo. O indivíduo é um malandro, e porque envelheceu, virou bonzinho. Bom, sabemos que não é nada disso: um, é apenas uma peste gelada e inerte, o outro é apenas um malandro de cabelos brancos.  No filme querem fazer com que acreditemos que um malvadão de carteirinha vira bonzinho assim sem mais, nem menos.  Essa parte é meio difícil de engolir, não desce, mas tudo bem, o filme é só para divertir, então não paga a pena ficar elucubrando.  É ler os créditos, levantar, ir para casa e esquecer.

Nem LNeeson, nem Langella, nem Ganz conseguem elevar o status desta produção a filme. É um filminho mesmo.

2

de
março

O que não tem solução…

solucionado está. Assim diria sabiamente minha mãe.  Chove, chove, chove, chove…então, vamos nos molhar.

Hoje o dia foi um negócio. Abri e fechei meu guarda-chuva montes de vezes, quase deu cãimbra. Pelo menos, eu estava na rua por prazer: visitar dois amigos e ver um filiminho, aliás um filmão.

Depois de visitar um amigo pela manhã, almoço no Boa Bistrô (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/12/17/meus-otimos-investimentos/), para queimar um voucher de desconto que está por vencer.  Da outra vez fui para o jantar, mas no almoço a passagem por ali foi igualmente agradável. Excelente sugestão do chef: salmão com crosta de gergelim, molho de limão siciliano e risoto de beterraba (muito bom!), de sobremesa novamente sorvete de requeijão com calda de goiabada.  Paguei no total R$ 50 (R$ 35 do voucher, mais água, café, serviço).  Não é barato, mas o lugar compensa.

Aí fui ver Poesia (http://www.imdb.com/title/tt1287878/), lá no Cinesesc.  Vejam este texto que engloba o filme: http://iracenna.blogspot.com/2011/02/poesia-poesias.html e o texto do Estadão, que conta a história da atriz principal:http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,poesia-o-filme-sul-coreano-premiado-em-cannes,627897,0.htm.

O filme é bonito, sensível, mais “normal” para mim que os outros dois filmes coreanos que havia visto (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/02/07/nem-o-segundo/).  Uma mulher de 66 anos (não parece, viu, ainda mais quando ela fica jogando peteca com o neto e outras pessoas, sem o menor sinal de cansaço) que tem o Alzheimer diagnosticado e concomitantemente começa um curso de poesia. Mas no meio do caminho tinha uma tragédia familiar, tinha uma tragédia no meio do caminho.  Como ela lida, espertamente, com o assunto é admirável. Parece bobinha, submissa, mas quem de fato determina a solução da história é ela. Bem interessante. E como se relaciona com as pessoas, com o mundo lindamente, com pertinácia, força, e muuitaa suavidade; é admirável. E a atriz que faz a personagem principal é bonita mesmo em sua idade já avançada.

Agora não dá para traduzir ou colocar os créditos em letrinhas? Tudo bem que se for Maria, João ou José eu não conheço, mas isso é respeito ao espectador. Tem de estar lá!

Outra coisa interessante: eu sou frequentadora de brechós. Adoro! Compro muita coisa boa, interessante, diferente nessas lojas, a preços excelentes.  Muito do que há em brechós é chinês, coreano, asiático enfim, e tem coisa bem legal.  Vendo o filme, pareceu-me estar vendo um desfile do que tem nos brechós a que fui/vou. É o tipo de roupa que coreanos, chineses, e que tais usam. São elegantes, mas fazem misturas que nós, ocidentais, normalmente não fazemos, i.e., combinações de cores, de estampas um tanto incomuns, e entre eles isso é considerado elegante, enquanto para nós é meio “misturança”.  Interessante!

Ah, e há um momento karaokê bem bacana. A voz da Sra. Mija é linda!

O filme tem mais de duas horas, mas não me cansou. Poético mesmo!

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