Pois é, deixei para escrever sobre minha atividade de ontem pela manhã para processar um pouco o impacto do que senti.
Já escrevi sobre alguns passeios que tenho feito com a Arq!Bacana (http://www.arqbacana.com.br/), em geral passeios bem interessantes, para lugares inéditos muitas vezes ((http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/08/22/quase-deprimi/)).  Muitos participantes dos tours são arquitetos ou ligados à área, já que o foco dos eventos Arq!tour tem a ver sempre, de alguma forma, com arquitetura.
Recentemente, como muitos sabem, foi reaberta a Biblioteca Municipal Mário de Andrade (http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/noticias/?p=8699) (http://www.sampa.art.br/cidade/bibliotecamandrade/), a segunda maior do Brasil. Poxa, pensei, gosto tanto de leitura, livros, lembrei-me de meus tempos de estudante quando frequentava a biblioteca (no meu tempo a gente tinha de buscar por cruzamento, por remissivo, por intuição muitas vezes, por associação, e ler muito, muito, muito para poder fazer os trabalhos solicitados, instruir-se, desenvolver-se): quero visitá-la.  Tinha a memória do grande salão em que a gente sentava, esperava trazerem os livros solicitados. Tudo muito pesadão: madeira nas estantes, nos móveis, silêncio, austeridade, formalidade.  Quando soube da reabertura pensei em passar por lá para ver como ficou. Afinal, SP, terra rica, grande polo cultural da América do Sul, segunda maior biblioteca do paÃs, só poderia estar um arraso após 3 anos de fechamento.
Coincidentemente, recebi o mail da Arq!Tour sobre uma visita guiada, em 12/2, comandada pela Arquiteta Renata, sócia-fundadora do escritório Piratininga que havia gerido a reforma ou recuperação da biblioteca. O valor era razoável, dia ok, horário também, então vamos lá. A Renata mostrou tudo o que fizeram na biblioteca, que não via uma manutenção de fato desde que foi inaugurada.  Houve alguma intervenção, há quaase 20 anos, mas para adequação da segurança.  Ou seja, como tudo por aqui, acham, sobretudo no terreno público, que as coisas vão durar para sempre, que se manterão pela força do pensamento.
O trabalho foi de peso, muito interessante. Conseguiram manter o orçamento inicial, com um desvio mÃnimo devido a problemas que apareceram durante a obra. Sabem quanto? R$ 16 milhões.  Para a biblioteca de uma cidade como S. Paulo?  PouquÃssimo, essa é a verdade. Por isso mesmo, os arquitetos, construtores envolvidos tiveram de usar de criatividade e comprometimento total.  Reaproveitaram o que puderam do que havia na biblioteca: móveis, instalações. Claro, que tudo foi avaliado, reavaliado, burilado, melhorado, mas muito foi reaproveitado com evidente economia ou otimização de fundos.  Até foi criado um corredor envidraçado, externo à biblioteca, para que se possa acessar a Circulante e o prédio principal sem passar pelas instalações internas, sem precisar sair do prédio. Tudo muito pragmático.
A sala que eu utilizava lá nas minhas pesquisas, ficou mais clara, ganhou ar, leveza. Essa parte está um tanto informatizada - o acervo está na internet (basta acessar o link que está na página que coloquei acima). Ou seja, a Circulante foi trazida ao presente, mas não a Mário de Andrade propriamente, aonde vão pesquisadores, estudiosos, ou pessoas em busca de publicações mais especÃficas, técnicas.  Vejam no link abaixo fotos e filmes. Estão nos tempos jurássicos ainda. Fichinhas datilografadas para escolher a obra. Um verdadeiro horror.
Um aproveitamento importante foi o do mobiliário, desenhado por Jacques Pilon, que projetou o prédio. Segundo a Renata, o prédio apresentou muitas surpresas positivas, pois Pilon previu em seu projeto usos alternativos, ampliações e por aà vai. Os móveis que estão na biblioteca hoje são os originais de 1940/50.  As mesas têm estrutura em x, o que permite que o usuário, não importa em que lado/ponta esteja sentado, não tenha suas pernas incomodadas.  Numa sala no térreo, estão montando uma mesa circular, também desenhada por Pilon e que tem a inclinação ideal para o leitor. Além disso, o material que cobre a fachada é uma mistura de dois componentes que se atraem, i.e., magnéticos. Atribuem o fato de a fachada ter resistido até hoje a ventos, chuvas, trepidação, poluição à natureza do material. Essa descoberta foi uma surpresa, i.e., era um fato desconhecido pelos técnicos que participaram da reforma.  Ponto para Pilon!
Nunca achei o prédio da biblioteca bonito, e continuo não achando. Mas é amplo, permite muita integração com o entorno, é claro, de fácil circulação.
O trabalho do Piratininga foi grande, responsável, comprometido pelo que deu para ver.  Poderiam ter feito mais e melhor, mas o municÃpio não quis soltar verba para isso. Para quê, não é? Afinal somos um paÃs culto, todo mundo lê, tem sua bibliotecazinha em casa, portanto a biblioteca da maior e mais rica cidade do Brasil não precisa de investimento nessa área. Vamos gastar em outra coisa qualquer.
Agora vou mencionar o que achei muito interessante e também aspectos lamentáveis associados.  Como escrevi em outro post, eu achava que estávamos um pouco atrás em algumas áreas, mas não, estamo muito, mas muito atrás do razoável para tirar o paÃs da lama em termos culturais, por exemplo.
- O acervo da biblioteca, em torno de 300 e tantos mil publicações atualmente, fica num prédio de 23 andares.  Esse prédio faz parte do projeto inicial, sempre esteve ali.  Pudemos entrar num dos andares (lembra um pouco Eu quero ser John Malkovich (http://pt.wikipedia.org/wiki/Being_John_Malkovich) pelo apertado das instalações, pé-direito baixo (não deve ter mais de 1,90m). Normalmente o acesso a essas dependências é só para os funcionários. Os livros ficam em estantes, dessas bem normaisinhas, o aproveitamento do espaço é bom.  Mas pasmem, somente agora, durante a reforma, foi instalado um sistema de ar-condicionado para os 23 andares. E pasmem mais ainda: como ainda não há técnicos 24 horas, o ar é desligado nos finais de semana (pelo que entendi, à noite também, mas posso ter entendido mal).  Perguntei ao representante da biblioteca se isso não era ruim para os livros (pergunta um tanto idiota, pois se até agora não tinham ar nenhum…). Ele disse que a oscilação de temperatura é que, na verdade, faz mal à s publicações. O fato de ficar sem ar por perÃodos curtos não altera muito.  Outro detalhe, o corredor principal do andar que visitamos estava atulhado de caixas. Caixas com livros aparentemente. Aliás tem muito disso por vários espaços. Livros em caixas. Não deveriam estar nas estantes?  O que mais ouvi por ali foi: será, vai ser daqui a não sei quanto tempo, em tal prazo vai estar ok.  Ué, mas a biblioteca ficou fechada por 3 anos! Três longos anos!  Inauguraram sem a casa estar em ordem?  Por que exatamente?  E olha que já faz 20 dias que foi reaberta e falta um monte de coisas, algumas não resolviveis a curto prazo com certeza. Acho que por isso somos e continuaremos a ser o paÃs do futuro, não é, não?
- Foram criadas 16 salas para pesquisadores.  Antes o número era menor, as salas bem maiores. Foram propostas e feitas 16 salas de 2,5m2.  Tem uma no link.  Claro que não estão funcionando, nem móveis têm. As fechadas estão ou vazias ou cheias de caixas (com livros, claaroo). Por que não estão funcionando? Porque é preciso instalar câmeras, pois por essas salas passarão obras de valor. Táááá, 3 anos e não deu tempo de comprar e instalar as câmeras?  Não vi mobiliário nenhum para as salas também.  Bom, considerando que os relógios de rua de S. Paulo, que só rendem dinheiro para o municÃpio e ajudam os munÃcipes, estão parados e se deteriorando (não passe perto de nenhum, ele pode cair em sua cabeça) por má gerência e ingerência, além de seguramente atos poucos transparentes (ninguém consegue explicar, justificar. Esse negócio de falta de peças não cola nem para criancinha de colo) de nosso alcaide e sua malta, há mais de um ano, imaginem colocar câmeras, comprar móveis para algo tão pouco importante como salas de pesquisa na biblioteca municipal.  Pode esquecer.
- Ah, sim, voltando ao ar-condicionado. Como o pessoal da administração pública é muito cioso de nosso dinheiro, só havia verba para ar parcial.  Então o ar ficou com os livros.  Os usuários que levem seu próprio ventilador, ar condicionado. Imaginem a situação com as temperaturas atuais. A Renata explicou que os livros ficaram com o ar e o usuário com a ventilação, portanto fizeram ginástica para eliminar incidência direta de sol, mantendo a iluminação,  e gerar um ambiente arejado.  Vou à biblioteca em breve para testar a Circulante, vamos ver como está a coisa.  Tomara que os arquitetos tenham conseguido driblar os possÃveis problemas nessa área.
- O acervo da biblioteca mesmo (não da Circulante) ainda não está digitalizado. Três anos fechada e não está digitalizado! Segundo disseram, há pessoas dedicadas trabalhando incessantemente para isso. Ai, me engana que eu gosto. Se tivessem contratado uns bons digitadores, treinando-os, tudo já estaria pronto de longa data. E não me venham dizer que é um trabalho especÃfico, complicado. Não existe isso. Existe preguiça, má vontade, incompetência, falta de planejamento.
- A Piratininga aproveitou uma escada externa, baixa, que não era utilizada acho que desde que a biblioteca foi inaugurada. Colocou uma prancha de aço, gerando assim uma área muito interessante externamente. Dá para usá-la para várias coisas.  Uma participante do tour perguntou por que não tinham colocado uma prancha de vidro, assim a escada poderia ser vista, o efeito seria interessante. Resposta: não havia dinheiro, afinal vidro especial para esse tipo de coisa custa caro.
- A biblioteca dá para a Praça Dom José Gaspar, nos fundos.  Está prevista uma comunicação ou entrada por ali.  Afinal a praça é do povo, a biblioteca idem, então por que não vinculá-la a um espaço cheio de árvores, que é palco muitas vezes de manifestações artÃsticas? Agora tem até o Paribar (http://vejasp.abril.com.br/bares/paribar), bar/restaurante quase centenário que foi reformado e reabriu há alguns meses.  Mas a administração pública achou que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…
- Para se entrar na Circulante, tem-se de deixar bolsas/mochilas em um guarda-volumes. Aliás as regras de uso estão bem explicadinhas no link acima.  Ontem havia uma funcionária, daquelas bem lentas, para guardar bolsas e volumes.  O sistema não é informatizado (vocês já viram algum sistema de guarda-volumes informatizado?), mas precisaria ser, pois ela tem uma lista, creio que com o número de cada nicho ou armário, ali ela anota nome do usuário e no. do documento (exatamente para quê?). Isso leva um tempo…havia duas moças na minha frente, e a coisa não fluia.  Acabei desistindo, mas já vi que é preciso paciência para o processo.  Imaginem no tempo de aulas, com filas de pessoas querendo ter acesso à Circulante.
- Foi criado um espaço de convivência. Tem umas mesinhas, uma mesa com uma funcionária, uma estante com jornais e revistas - poucos (as funcionárias estão ali para controlar empréstimo e devolução disso, imagino), um balcão enorme que supostamente é um café (pelo jeitão até imagino a gama de coisas que ofereçam. Deve ser como no Auditório Ibirapuera: café, água, refrigerante, amendoim, uns chocolatinhos e só), que estava fechado ontem.  Atrás do balcão caixas e mais caixas. Essas não devem ser de livros, pelamor!  Um espaço enorme, mais que mal aproveitado (tem até um segundo andar).
- Outra desilusão: achei que veria um micro ou estação em cada esquina.  Nada! O que há é de uso dos funcionários da Circulante ou, no salão, para que você ache a publicação que lhe interessa. Para uso público, navegação? Nem pensar! Wifi?  Um momento que vou me levantar, caà de tanto rir.
- Outro dado interessante: a Mário de Andrade tem 3 milhões de itens (330.000 publicações aproximadamente, uns 11mil periódicos/revistas, que somam 3 milhões de itens, e.g., uma enciclopédia tem 20 volumes, são 20 itens, apesar de ser uma publicação só - deve ser essa a conta). A Biblioteca Nacional tem 11 milhões (tenho de ir, pois me dizem que é muito bonita e vale a visita).  A biblioteca de NY tem 10 milhões de itens (biblioteca municipal). A biblioteca do Congresso americano tem 100 milhões. Deu para entender onde está Wally?  Muito lááá atrás com certeza. Bom, quem sabe depois de desencaixotarem os livros que estão por todos os lados e ordená-los, cadastrá-los até haja um salto no número, mas não será significante com certeza.
No link comento alguns aspectos da visita que talvez não tenha mencionado acima. Leiam as legendas das fotos, pois acho que pode ser interessante.
Pois é, alegria por ver um patrimônio cultural tão querido devolvido à cidade, após um trabalho bastante competente, cidadão eu diria, das empresas que se dedicaram ao trabalho, mas tristeza imensa por ver o desmazelo com que a cultura é tratada na cidade mais rica do Brasil e da América do Sul.  Pena que não estamos na Inquisição, senão mandava toda essa turba ignara para a fogueira, que é o que merecem pela falta de visão, de apreço pelo patrimônio público, pelo povo da cidade que fica privado de acesso a cultura, educação, e até lazer.  Run Forrest Kassab, run, e não volte nunca mais.
Link para fotos/vÃdeos da visita à Biblioteca Municipal Mário de Andrade:
https://picasaweb.google.com/miriamkeller/BibliotecaMAndradeCEF13022011?feat=directlink