8
de
fevereiro
Luxo e lixo, ou vice-versa
Aproveitando os estertores do Belas Artes (parece que fecha mesmo no final do mês), e sua segunda-feira com preços reduzidos, vi dois filmes ontem: Black Swan (http://www.imdb.com/title/tt0947798/) e Lixo Extraordinário (http://www.imdb.com/title/tt1268204/).
Cisne Negro é a história do mundinho do balé, cheio de vaidades, competição mortal e desleal, muita dor, suor e poucas glórias para a grande maioria. Os poderosos ligados à arte do balé são iguaizinhos aos poderosos de outros nichos (business, polÃtica, outras artes). Tem gente com cartáter, sem caráter, esforçada, talentosa, enfim, microcosmo humano.  A personagem de Natalie Portman, que pode levar o Oscar tranquilamente, é uma bailarina criada numa redoma que chega ao ápice de sua carreira com muita dedicação. Só que o mundo dela não é o mundo real. Vêm os choques, o despertar, a violação pessoal, a perda de limites.  Uma mente torturada por um sonho ou por um objetivo, com um final bastante inesperado.
Natalie Portman, Vincent Cassel, Barbara Hershey e até Winona Ryder, que faz uma ponta, estão muito bem.  E Mila Kunis, que eu só conhecia de uma sitcom, está ótima também. Verdade que mantém o toque irresponsável, sensual de sua personagem da série That 70’s Show (a mesma que lançou Ashton Kutcher), só que está muito mais segura, e leva bem uma personagem bem complexa. Na verdade ela é o verdadeiro Cisne branco+negro da peça de Tchaikovsky.
A personagem principal é uma prima light de Di Caprio em A Ilha do Medo (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/05/15/to-voltando-pra-casa/), que vale pela ótima atuação de NPortman. No mais, o que encanta no filme é a música, a dança, os figurinos e as atuações como um todo. Um bom filme.
Depois foi a vez de ver o nacional que concorre ao Oscar. Não só por isso, obviamente, que isso não dá camisa a ninguém, ou não garante qualidade, mas porque eu poderia conhecer um pouco mais do artista plástico Vic Muniz (http://www.vikmuniz.net/), o brasileiro mais prestigiado internacionalmente na atualidade, e seu trabalho com catadores.  O filme é interessante,mas não mais do que vários documentários que já vi a respeito feitos aqui ou no exterior. Não vi a função pragmática ou outra qualquer de o VM e outros brasileiros falarem em inglês no filme, sem a menor necessidade, em vários momentos, pois o filme não é todo em inglês, só uma mÃnima parte. Tudo bem que a produção é binacional (aliás, já escrevi que o Brasil deveria recorrer muito mais a isso para obter resultados melhores em vários nÃveis: prêmios, arrecadação -http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/03/14/por-ordem-alfabetica-cinema-depois-gastronomia/ ), mas não precisava de fato (além dos sotaques macarrônicos).
O filme trata de obras construÃdas de lixo reciclável por catadores de Gramacho, no RJ.  Interessante saber do trabalho deles, que não será diferente do de outros catadores; de sua organização - as cooperativas ou associações são importantÃssimas para o esforço transformar-se em renda; quem está nos lixões: desde gente que não teve/tem opção, até aqueles que pensaram, avaliaram, e acharam que ali seria um bom lugar para trabalhar e ganhar seu pão, mas sempre com um tanto de vergonha; pessoas bem articuladas no pensar e no falar, melhor do que o universo que encontramos em muitos escritórios por aÃ. Veem-se as obras em construção e seu resultado final, o que se deve ao comando pelo brilho criativo e talento artÃstico de Vic Muniz.  Lindas fotos de fato, que acabaram por render reconhecimento, alegrias e, sobretudo, dinheiro ao grupo de catadores.  Durante o filme, fui pensando que a atitude do artista, convocando e envolvendo os catadores, alÃás retirando-os de seu habitat para o qual fatalmente voltariam, ou seja, criando expectativas que não se concretizariam de fato, era um tanto irresponsável. No entanto, eu estava errada, pois ao final vê-se que para todos os envolvidos a vida melhorou. Ainda bem! Assumi também, pelo resultado demonstrado, que mesmo aqueles que não participaram do projeto de criação das obras, vendo seus companheiros evoluÃrem, podem ter ressuscitado suas esperanças de um dia melhor, de condições melhores de trabalho. Tomara!
Interessante também ver como, por um motivo ou outro, os catadores entendem a importância de seu trabalho para todos - quantos “bacanas” não entedem, ou o menosprezam.
Um documentário interessante, que vale ser visto.
E aproveitando o tema reciclagem: agora que estou mais em casa, cozinho para mim, fico impressionada continuamente com o tanto de lixo que gero. Minha casa é micro, mas mesmo assim separo os materiais reciclados e os levo semanalmente ao Pão de Açúcar, onde uma cooperativa se encarrega da separação, embalamento, retirada do material. O que produzo em termos de reciclável e não-reciclável é espantoso! Projeto isso para uma famÃlia de 3, 4 pessoas:um mar de lixo. Pena que a grande maioria ache trabalhoso separar os materiais recicláveis e levá-los a um posto de coleta. Pena a Prefeitura não ampliar a coleta seletiva - está estancada há muitos anos.  Mas um dia, quem sabe, isso muda, ou a gente também vai viver no meio do lixo.



