Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

5

de
fevereiro

Tem tempo…

Tem mesmo!  Estou descobrindo isso um tanto tardiamente, mas ainda dá para aproveitar esse precioso ativo.

Ontem fui ver Inverno da Alma (Winter’s bone) (http://www.imdb.com/title/tt1399683/). Lembra muito pelo ritmo, locação, modo de vida retratado, A Árvore (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/01/14/e-preciso-acreditar-em-alguma-coisa/), mesmo se considerarmos que os filmes tratam do dia-a-dia de famílias em lados extremos do mundo.  Em A Árvore há grande tensão, crises familiares, umas brigas, mas nada da violência e eletricidade de Inverno da Alma.  A gente vê tantos filmes, viaja, lê, ouve gente contando, e acha que conhece os EUA. Conhece nada, a menos que tenha vivido em um dos fundões do país.  Olhando daqui, via cineastas americanos (não só os de Hollywood), nossa percepção é plastificada, linear, acho que longe da realidade. A gente se dá conta, vendo um filme como esse, de grupos sem perspectiva, que têm casas degradadas, terra degradada, e porque têm o que é necessário para viver sem se violentar, optam por não produzir nada, esperar nada, optam pelo desencanto, pela mesmice, pela mediocridade. Pelo menos, teoricamente, é seguro viver nesses bolsões para a maioria. Comunidades pequenas, com vínculos fortes, gente destemida, com conceitos de nação, comunidade, convivência medievais - claro que não houve I. Média nos EUA, mas o conceito é o mesmo. Terras que não geram riqueza, a não ser para uns tantos, jeito de viver largado, sem o cuidado/capricho que achamos que existe em cada palmo por lá. A violência é de gangues, de famílias mafiosas. O que é considerado mau comportamento não tem perdão, paga-se com a vida, ou com alguns ossos quebrados. As mulheres são de uma sanha impressionante, aparentemente maior ainda que a dos homens. Coisa de Yakusa, Cosa Nostra. Mesmo assim, os homens da lei têm certo brio e tentam fazer seu trabalho.

O filme trata da busca de uma moça de seus 17 anos, um tanto notionless, pois peita chefões do lugar e por um triz escapa da morte.  Ela procura seu pai que deu a casa da família e suas terras como garantia da fiança, e se ele não aparecer na audiência judicial  marcada a família perde tudo. Sem net, telefone, ou o que for do gênero, a mocinha consegue seu intuito, não exatamente do jeitinho que ela gostaria ou esperaria.  A história é rocambolesca, mas tem sua lógica, e me pareceu bem verossímil. Tem suspense, uns sustos, violência, mas não exagerada, daquelas de vomitar.  É um retrato socioantropológico do meio-oeste americano, que ensina muito sobre o país. Obama, boa sorte! Você precisa mesmo…com um melting pot desses, não é fácil.

A atuação de Jennifer Lawrence é ótima.  John Hawkes (Teardrop), segundo personagem da trama, também está muito bem.

A cena da menina tentando se alistar no exército americano é mesmerizante. Mais ainda a reação do militar que a atende. Põe muito terapeuta no chinelo, pela perspicácia, respeito, tom da conversa com a garota. Civilidade sem tamanho! Deve ser o momento mais ficcional do filme.

A trilha é muito boa. Várias canções country bem bacanas.  A fotografia é lúgubre (lugares frios, ermos, largados, sujos, muitas cenas escuras, e as fechadas são em lugares feios).

É um filme muito interessante, bom, eu diria, mas não para se ver a qualquer hora. Se não se estiver um tantinho in the mood corre-se o risco de não apreciá-lo devidamente.

Só uma observação: só no Belas Artes mesmo a gente vê dois filmes ao mesmo tempo, ou ouve pelo menos. Vi este filme na sala 2. Na 1, estava O Concerto (http://mskeller.blog.terra.com.br/2011/01/24/a-vida-e-cheia-de-compensacoes/). Aliás, felizmente, pois o início de meu filme foi acompanhado pela trilha do outro. Aí começou outro filme ou O Concerto mesmo, não sei, na outra sala e os diálogos se misturavam ao silêncio e ritmo lento de Inverno da Alma. Algum cristão reclamou ou o cinema percebeu o problema, e após apenas uns 20 minutos de sessão dupla corrigiram o problema. É brinca?

Para compensar, Recordar é viver (http://vejasp.abril.com.br/teatro/recordar-viver) no SESC Consolação. É o retrato de qualquer família em cena aberta ou nos bastidores. Não tenho mais pais, mas pude reconhecer, lembrar-me de muitos comportamentos viciosos inerentes a todas as famílias terrenas.  Lá de dentro, as discussões, até brigas, familiares são vitais, inevitáveis, importantíssimas, dramáááticassss, mas vistas de fora, quanto consumo de energia à toa, quanto amargor processado, quantas verdades não-ditas que deveriam permanecer exatamente assim, não-ditas, mas ganham vida aos borbotões, para ferir, acertar contas,matar metaforicamente consanguíneos.  Mas se vocês conhecem família que não tenha tudo isso e muito mais, podem avisar lá para o pessoal que eles morreram e esqueceram de deitar.

Não fosse só pelo bom texto, a atuação de Sergio Britto e Suely Franco, sobretudo, justifica a ida ao teatro.  Os demais atores estão bastante bem também, mas ninguém ofusca essas duas estrelas.  Direção - Eduardo Tolentino. Então, não preciso dizer mais nada. Aliás, não vou dizer mesmo, já que vou usar meu tempo de outro jeito, mas leiam este post sobre a peça que vai dar a exata dimensão do que eu vi.  E não precisam correr, não, tem tempo…só não deixem de ver a peça: http://iracenna.blogspot.com/2011/02/recordar-e-viver.html

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