Ter tempo para olhar o mundo, prestar atenção ao que corre aí pela vida, é muito bom! Uma sensação interessante, reconfortante, thrilling!
Primeiramente, brechó. Pois é, há mais de duas décadas, seguramente, fui a um brechó para vender roupas quase novas. Deu um dinheirinho. Não havia tantos como hoje. Contatei um ali na Pacaembu, se não me engano. Tudo muito chique: hora marcada, em consignação, a dona do brechó era uma socialite, só tinha coisas de primeira. A partir desse momento, sempre frequentei brechós. Acho a garimpagem um exercício fantástico. Em Pinheiros havia um bem grande (Cristal) que fechou há um ano mais ou menos. Comprei coisas ótimas lá. Com a aposentadoria, comecei a dar uma limpada nas gavetas e armários. Nossa, quanta coisa sobrando. Ainda nem comecei direito, mas tirei muitas peças (roupas e acessórios). Dei montes para minha faxineira, como tenho feito há tantos anos (a Terezinha está há 15 anos comigo), mas ainda assim havia muita coisa nova, boa, clássica. Então resolvei procurar os brechós da região, para não precisar me locomover muito. A um deles vou daqui a duas semanas (tem de marcar hora - já fui lá e não achei grande coisa, mas vamos ver), aos outros fui na semana passada. Peguei os telefones na internet e liguei. Todos disseram: é preciso ver se interessa. Então lá fui eu: todos, sem exceção, estão ali na Cardeal Arcoverde. Todos, exceto um deles, têm donos/donas de quem eu não compraria nada, não só pela falta de habilidade para tratar o cliente como pelo próprio aspecto. Enfim, todos, sem exceção, disseram que não comprariam minhas peças pois eram boas, novas, impecáveis, mas muito clássicas (eu sei que são um pouco, mas nem tanto… levei as mais casuais) e só vendem modinha. Dei uma olhada à volta em todos e, realmente, só tem peças de baixa qualidade, valores bem baixos, algumas até bem deterioradas. Oooh, gente com pouca visão. Afinal, é preciso mudar o paradigma às vezes, só assim se cresce e se conseguem novos clientes. Como disse, eu não compraria nada em nenhum deles: esses negócios tornaram-se reféns de seu público e não querem investir nem arriscar para mudar (eu visitei 4, são todos de familiares, e a postura é a mesma). Bom, resumo da ópera: voltei com as coisas para casa. Vamos ver o que acontece no que tive de marcar hora. Se não der negócio, de novo vai tudo para doação. Uma pena, pois foi um investimento razoável, e já doei muito. Vamos ver.
Com mais tempo durante a semana, também tenho ido ao cinema em dias e horários que não eram usuais para mim. Cruzo com muitos idosos, aliás idosas sobretudo (90%). Adoro conversar com pessoas “mayores”, como se diz em espanhol, mas às vezes elas me dão medo. Falam alto (acho que deve ser problema de audição), são aflitas (têm pressa para tudo, sei lá eu por quê), e algumas vezes são bastante inconvenientes. Mas a maioria ainda dá aula de vida, de experiência. Outro público com que tenho cruzado bastante: montes de pessoas de terno e gravata e pastinha na mão. Como assim? Não tinham de estar trabalhando? Bom, deixa para lá, cada um sabe de si. Agora o máximo são as pessoas que comem, comem e comem nas salas de cinema. O barulho da mastigação é-me imposta continuamente. Não é pipoca só, tem de tudo:amendoim, balas duras, pedregulho pelo ruído que fazem. E se eu olho feio ou solto um “psssss”, o digno mastigador reforça o ruído. Gente inteligente (um dia quebra um dente e depois vai reclamar) e civilizada, não é? E vejam que não estou falando de educação, que vem depois da civilidade. Esta sim nos separa dos irracionais. E os celulares tocando (na última sessão a que fui, ontem no Reserva Cultural, foram uns cinco durante a sessão). Oooh, gente, não dá para desligar, colocar no vibra, esquecer em casa? Pelamor!
Aliás, na Veja desta semana, há um artigo excelente, que cobre várias atitudes que nos põem a tarja de “subdesenvolvidos” na testa, escrito por Claudio de Moura Castro - Cortina de Burrice (pg. 24). Transrevo a parte que mais interessa aqui:
quote
- Respeito pelo próximo, no trânsito, no silêncio e em tudo o mais
unquote
Parece fácil, certo, líquido, mas não é. Mais que respeito, falta bom senso e neurônios em funcionamento. Pobre país!
E por último: umbanda branca. Pois é, apesar de ter ouvido, lido bem superficialmente durante toda a vida sobre o sincretismo por aqui, nunca atentei para detalhes ou me interessei de fato. Mal e mal sei do catolicismo em que fui criada, imagine então sobre crenças alheias. Mais recentemente, devido ao filme Nosso Lar e amigos espiritualistas, acabei comprando o audiobook do Evangelho segundo Alan Kardec. Não ouvi ainda, mas vou. Agora foi a vez de visitar um centro de umbanda branca. Fui lá acompanhar uma pessoa que está procurando caminhos para a cura de um parente. A ciência, aparentemente, pode pouco para curar a pessoa, então a busca por caminhos alternativos já começou. Como mencionei em posts anteriores, eu escolhi acreditar em um Deus, sinto-me bem numa igreja (não pelo catolicismo em si, mas pelo que ficou gravado em mim como lugar de paz, oração, do bem), e ponto. Não quero e não vou racionalizar, apenas fiz uma escolha que me serve bem. Por isso mesmo, não tenho nenhum preconceito quanto a outras religiões, crenças, ou o que for, desde que elas não se prestem a fazer o mal, espiritualmente/psicologicamente ou materialmente. Com o espiritualismo e outras práticas é assim, então, quando fui perguntada se eu poderia acompanhar minha amiga, eu fui. E foi muito interessante, pois, como mencionei, nunca me aprofundei no assunto, nunca peguei um livro para ler. Só mesmo o que chegava pela tv, cinema, algum artigo mais ligeiro de publicações. Durante minha visita soube das diferenças entre espiritismo, umbanda branca, candomblé. Presenciei ritos de incorporação. Antes havia conversado com um ou outro médium, quando ainda eram “pessoas comuns”. Todas educadas, simpáticas, algumas muito doces. A casa é mantida por um advogado oriental, mentor do lugar e médium-mor. A família toda acompanha o que acontece e colabora. E como tinha orientais (japoneses, nisseis, sanseis, etc.), além de pessoas bastante bem postas! Gente que, provavelmente, vai à missa aos domingos, é cumpridora de suas obrigações, bons pais, boas mães, bons irmãos, bons patrões, bons empregados. Um ambiente muito tranquilo, de bondade, de bem. Ali rezam, recomendam a leitura de publicações que espíritas leem em geral, invocam figuras do catolicismo (Jesus, Nossa Senhora) e Deus está na boca de todos. A casa é muito bem estruturada, ou seja, respeita quem vai ali (e eram mais de 200 pessoas) em busca de ajuda. Há os que passam por um trabalho mais demorado e mais profundo, os que têm problemas graves de saúde. A grande maioria vai para tomar um passe, eliminar um inquietação, conversar com um incorporado, alguém que lhes dê atenção. Enfim, foi um momento de aprendizado, de conhecimento. Antes assim pois, como sempre digo, não se teme o que se conhece.
Ah, o ritmo que empregam na cerimônia de preparação à incorporação, quase duas horas de cânticos e tambores, tem dois lados: (1) deve facilitar o trabalho dos que incorporam, mas (2) também pode abalar os que não têm tanto equilíbrio, aquela coisa de histeria coletiva. Eu mesma, que não toco nem campainha no ritmo, após um tempinho estava ali batucando perfeitamente…mais umas idas e me torno exímia ritmista ou percussionista. Brincadeira! O fato é que é algo muito forte e pode afetar negativamente algumas pessoas.
Ah, e minha acompanhante saiu com um consolo, com fé numa possível melhora. Nada prático, nada cabal, nada científico, mas isso só pode ajudar.
E, por último, a pobreza das redes wifis. A gente vê empresas modernas (Livraria cultura, cinemas, teatros, Sescs, Sesi, museus, restaurantes em geral) e acha que como são bastiões de cultura, de modernidade, de informação, vai ter wifi zone, liberadinha. Que nada! Uma pobreza imensa. A gente encontra isso no America, no Starbucks, e um ou outro lugar. Muito pouco para o número de telefones e outros equipamentos que andam por aí habilitados para dados ou e-mails. Vai demorar, viu gente, para a gente ainda ficar longe de Europa e Eua. Pena!