Pois é, não precisou de magia, mas quase. A peça Pororoca, que pensei em ver em 7 de novembro, ficou para este final de semana mesmo. Dia 7 vi a ótima Quem tem medo do Curupira? (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/11/07/e-nao-e-que-o-curupira-quase-encontra-a-pororoca/) apenas, pois os ingressos para Pororoca esgotam-se rapidamente. Mas como sou cabocla tinhosa…12h15, poucos minutos após a abertura das bilheterias, lá estava eu para tentar um dos 50 ingressos da noite. Cheguei e já tinha uma filona…Afe! Felizmente deu tudo certo. É que o SESI é pródigo e naquele dia havia 3 espetáculos sendo vendidos: Pororoca, Quem tem medo do Curupira? e Hell. Como dão dois ingressos por pessoa para as peças gratuitas, fiz uma matemática rápida e vi que, mesmo se TODOS estivessem lá ver Pororoca, ainda daria para pegar ingresso, mesmo computando gente que poderia ter pegado os ingressos e partido (aí já foi um pouco de adivinhação mesmo).
Como a peça só começava às 20h30, fazer uma hora, aliás uma horona (nossa, filona, horona, hoje estou exuberando). E o que melhor? Hein, hein, hein?! C I N E M A! Lá fui eu para o Reserva.
Primeiramente quis ver Contos da Era Dourada (http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&langpair=en|pt&u=http://www.imdb.com/title/tt1422122/) em que estava de olho há um tempo. Não tinha dado para ver pois o filme é bem longo (umas 2 horas e meia) e batia com sessões de outros filmes em que tinha interesse. O filme narra lendas urbanas, que, francamente, não sei se são tão lendas mesmo, durante a ditadura (final do processo) de Ceaucescu (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolae_Ceau%C5%9Fescu) na Romênia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rom%C3%A9nia). O ditador foi deposto no final dos anos 80 e executado. Foi o final de ditadura mais violento entre os vários países da cortina. A fotografia do filme tem momentos bem bonitos, mas o que mais se vê são cidades depauperadas, largadas, com muito mato, muita coisa abandonada. O movimento de carros é muito interessante: um a cada meia hora. Tudo resultado de um país não-produtivo, de desestímulo de competição, de investimento, de desmandos sociais, etc. Interessante também que a Romênia, apesar do duro regime e de ter passado pelo perrengue de muitos países comunistas, i.e., ter parado no tempo em relação aos países do Ocidente, já é membro da UE. Antes mesmo de países que tiveram um regime comunista mais brando e uma saída mais amena do processo de desmantelamento da URSS, exemplo a Croácia, que tem há muitos anos um parque industrial florescente, pujante e ainda está na lista para a UE.
Além de o filme ser bem interessante, uma visão bem equilibrada dos tempos de chumbo, tive a oportunidade de ouvir a língua romena. Nunca tinha ouvido o idioma, acho, menos ainda por mais de duas horas. Como é uma língua de raíz românica, diferente de outras línguas da Europa Oriental que são eslavas, ela é muito gostosa de ouvir. Há momentos em que estão ali francês, italiano, espanhol, e até português. É possível compreender frases inteiras sem recorrer às legendas. Muito interessante.
Quanto às lendas, propriamente, não sei se o são. Minha avó e meu pai nasceram na antiga Iugoslávia. Minha avó voltou ao país (região da atual Croácia) algumas vezes, ainda durante o governo de Tito (http://pt.wikipedia.org/wiki/Josip_Broz_Tito#Avenida_Marechal_Tito), e o que ela contava na volta era de arrepiar. Fora as perseguições, o medo anestesiante, a situação do cidadão era mais ou menos o que se vê no filme. E olha que o Tito era soft perto do Ceaucescu. Muito escambo, dinheiro quase nada, tudo na base da troca, de aproveitar tudo que fosse possível, etc. Vendo as tais lendas, nada me pareceu muito “realismo mágico” não. Pelo que me lembre das histórias, acho que era bem isso mesmo. Só que tudo com uma ponta de humor, de folclórico, revestindo uma crítica abrangente e equilibrada. Não há discurso ideológico, as imagens falam por sí.
Depois Minha Terra África (http://www.imdb.com/title/tt1135952/). Pesaaaadoooo! Mas interessante. Para mim sempre foi muito difícil entender completamente por que uma pessoa deixa tudo para trás, vai tentar vida nova, fortuna, e mesmo se a coisa amarga ela não volta, tenta, muda, tenta de novo, se perde pelo mundo. Não tenho esse espírito andarilho, desbravador, imagino. A situação da personagem de Isabelle Huppert é assim. De uma teimosia, ou de um apego irracional. O filme, que tem lindas imagens em vários momentos, mostra a situação de vários países africanos: batalhas internas, cidadão contra cidadão, tomada e derrubada de poder, a vida valendo centavo, crianças com arma na mão praticando toda a sua crueldade (crianças são crueis, vide Lord of the Flies (livro e filme), que apesar de focar em regimes de governo totalitários sobretudo, mostra que na infância todos podemos ser atrozes, implacáveis, cruentos). Gosto muito da IHuppert e ela segura o filme magnificamente. E quem diria? Chirstopher Lambert, que eu não via há década pelo menos, está muito bem também.
Muita crueza, muito sentimento contido que explode em raiva, ódio, desprezo. Muita morte tola, muita agressão, desprezo ao outro porque se despreza a si mesmo. Não diria que é um filme imperdível, mas por mostrar algo tão distante de nós, pelo oho de quem só quer trabalhar, viver em paz, e que é colhido por um vendaval incontrolável e vai agindo ao sabor da situação, vale ver.
E por fim, ela, a Pororoca! (http://www.sesisp.org.br/home/2006/centrocultural/Prog_teatro_pororoca.asp) Esta peça é encenada no mezanino do SESI da Av. Paulista. O espaço é como um corredor com cenário e atores de um lado e público sentado em arquibancada do outro. Apenas 50 lugares. A peça leva aproximadamente 90 minutos. Lembrou-me muitíssimo peça e espaço de Os fofos (http://www.osfofosencenam.com.br/). Assombrações do Recife Velho acontece em um corredor, só que com o público dos dois lados e os atores encenando no meio, nas pontas, e saindo detrás dos espectadores. Um espaço mais elaborado ou sofisticado, eu diria. De qualquer forma, Pororoca tem texto fantástico, os flashbacks acontecem ali, diante do espectador, com outras cenas de atores congelados ao lado, i.e., freeze, flashback ou outro ponto da história, descongela. Muito interessante. A cantoria é ótima, vozes lindas sobretudo das atrizes. O guarda-roupa é bem bonito, marcante; o cenário é minimalista mas cumpre sua tarefa com louvor. Um músico toca violão, contrabaixo, etc., acompanhando as cenas. Tudo muito próximo, mas não menos mágico. Imagino que para o ator fazer esse tipo de trabalho, com a plateia respirando “no cangote”, não deve ser nada fácil. Se no palco ele pode sentir os fluídos do público, ali então…Todos os atores e atrizes estavam ótimos, destacando Juçara Morais, Rogério Brito, Paula Sassi, Bruno Gonçalves.
Ainda bem que eu estava atenta, e a Pororoca não me levou lá pro fundo do rio…