Faz quase 15 anos que desisti de dirigir. Na verdade, desde que tirei carta, nunca gostei. Aliás, mesmo para minha época (era cenozóica - Google, pls!), tirei carta tarde, com mais de 20, e só depois de muita insistência de meus pais. Ganhei meu Fusca; felizmente nunca tive um grande acidente (uma vez uma ambulância passou por cima de meu carro num cruzamento da Paulista, mas foi só dano material, nada mais), sempre fiz as manutenções direitinho, era boa de baliza, nunca atropelei ninguém. Enfim, minha relação com o mundo automobilístico nunca rendeu nenhum trauma. Mesmo assim, eu não gostava da atividade. Admirava gente que parecia ter nascido dentro de um carro. Para tudo se servia do carro, é como se fosse uma segunda pele. Demorou para eu me aventurar por estradas, mas também nunca tive maiores problemas ou estresses.
Considerando que nos últimos 25 anos moro numa região de fácil acesso para toda a cidade, bem servida de transporte público (sim, pasmem…), aderi às compras delivery já em seu alvorecer (quando não havia internet, e as listas eram enviadas via fax ou ditadas por telefone), sempre tirei o máximo das grandes invenções (telefone, fax,e hoje micro/internet) para facilitar minha vida, o carro nunca me fez falta. Claro que sempre há as pessoas generosas que nos dão uma carona sem pestanejar, outras pestanejando muito, mas dão. No entanto, no caso de necessidade, saídas noturnas solo (e eu tenho várias), os táxis são importantes aliados em cidades 24 horas como S. Paulo. No entanto, de uns anos para cá até esse serviço tem se mostrado bem ruim, sofreu um downgrade expressivo.
Tenho sorte em morar em um lugar em que há 2 pontos de táxi distantes 300 metros um do outro, dois quarteirões acima há outro, mais dois acima outro (este 24 horas, pois fica em frente a um Pão de Açucar 24 horas). Mesmo assim, há dias, horários em que não encontro um táxi sequer nos vários pontos à volta de casa (além desses 4 há pelo menos mais uns 3 pontos dos quais tenho o telefone). Há uns dois anos, conheci um táxista, totalmente por acaso, que só trabalha à noite (das 16/17h até umas 5/6h) e é a quem recorro sempre que tenho algum compromisso noturno, até mesmo em datas festivas como Natal e Ano Novo. Acho que só uma vez, nesse tempo todo, ele não estava trabalhando quando precisei dele. Pura sorte, senão estaria na rua da amargura, literalmente.
O que vejo pelas ruas hoje em dia, já que estou usando mais táxis do que habitualmente, é gente parada nos pontos esperando que algum táxi chegue, gente que dá sinal para um, dois, três (todos ocupados), horas sem nenhum táxi por perto. E não precisa ser em dias de chuva destruidora, de alguma hecatombe urbana. Dias normais, noites normais, horários não de rush.
Fica evidente que a cidade precisa de mais táxis, precisa rever a política de pontos de táxi, disseminá-los. Estamos virando uma NY em termos de falta de táxi (lá há um zilhão, mas na hora do rush, esqueça!), sem as demais benesses da metrópole americana. A administração da cidade, sobretudo a atual, é míope e canhestra em tantos outros pontos da gerência da cidade (iluminação, limpeza, calçadas, calçamento, segurança, transporte público de qualidade) que imagine se vão pensar em rever e adequar o serviço de táxis da cidade.
Aí vocês poderão dizer: mas e os rádio-táxis? Eu sou do tempo em que só havia o Vermelho e Branco, do tempo em que muitos migraram para Cumbica (Guarucoop) e só. Do tempo em que pipocavam as frotas de táxi pela cidade e os motoristas eram os antecessores dos motoboys de hoje. Eram loucos, pois tinham de trabalhar sei-lá-eu quantas horas para pagar aluguel do carro, combustível, tirar o seu. Hoje há centenas de companhias de rádio-táxi comum, as especiais de sempre e os taxistas privados em sua maioria. As frotas ou cooperativas são menos numerosas. Como disse, sou de um tempo em que o VB era caro mas confiável, o que não acontece atualmente. Além de precisar trabalhar muito com essa empresa , já fiz muito uso dela para compromissos profissionais e pessoais. E me aconteceu, não uma mas várias vezes, de eu pedir o carro com antecedência para um horário marcado, o que gera uma taxa extra expressiva na hora de pagar a conta, e o táxi simplesmente não aparecer e nem a empresa dar um telefonema avisando. A última vez em que fiz uso dos serviços deles para temas particulares, liguei à tarde para pedir um táxi por volta de 1h (madrugada). Tudo anotado, taxa adicional informada. 1h e nada. Ligo (nessas horas deve ter 1/2 funcionário trabalhando então é dificílimo conseguir falar com a empresa) e sou informada: “lamento, senhora, mas não há táxi disponível para o serviço”. Como, se eu agendei com antecedência? “Sim, mas nós não conseguimos nenhum carro para o serviço”. Ponto, e você que perca seu compromisso, seu sono, sua paciência, vá a pé pela madrugada.
Estive há uns meses na Europa e lá não tem erro: marcou táxi, ele está lá, não importa a que horas. Mais, em Hamburgo, a qualquer hora tem um táxi para atender a gente. Claro, a cidade é menor, menos gente, mas tudo é uma questão de planejamento, dimensionamento para amenizar eventuais problemas nos serviços urbanos, não tenho dúvida. Pensar, gente! Ter vontade, comprometimento, integridade…essas cositas.
Entendo perfeitamente que os taxistas tenham fugido das ruas à noite, afinal as autoridades não garantem a segurança dos profissionais, mas algo tem de ser feito ou nunca se conseguirá convencer a população a recorrer a outros tipos de transporte, deixando o carro em casa. E mais, cada dia cresce o número de pessoas “sem-carro” por opção como eu. Esse é um aspecto importante e gerenciável da questão. Basta competência, aquela que não tem existido na administração pública paulistana mais recentemente. Porém há um outro aspecto, igualmente grave, e de solução bem mais complexa, parece-me: o despreparo e desqualificação da mão-de-obra da categoria.
É um show de horror! Claro que o taxista, o pedreiro, o médico, o advogado, o professor, são tão-somente reflexo de uma educação formal sucateada, quase que inexistente, de pobreza, de falta de escrúpulos, de falta de critérios, bom senso, valores, supervisão, vigilância do Estado, e por aí vai. Agora, ter de recorrer diariamente à categoria por trás do volante é de matar!. Para ser mais objetiva, vou elencar algumas coisas que tenho observado nestes meses em que tenho recorrido aos serviços:
- Você chega ao ponto de táxis, normalmente são homens (coincidência: no ponto em frente de casa há 3 taxistas femininas). Estão ali, naquela rodinha, conversando. Ninguém nos carros, pronto para sair em disparada. Sempre conversando, lendo seu jornal no máximo, ou seja, flanando…e você pensa que vendo o cliente se aproximar ficam de prontidão e são proativos? Nãããõoo. Você tem de dizer: quem é o primeiro, quem está livre? Justifica-se: afinal, uma pessoa caminha em direção a um ponto de táxis, aproxima-se para quê? Para travar amizade com desconhecidos, claarooo! Porque não tem nada de melhor para fazer na vida? Faça-me o favor, vá ser desprovido de vontade, profissionalismo ali adiante!
- -Os pontos não garantem profissionais o tempo todo. A impressão que tenho é de que não há absolutamente nenhuma obrigatoriedade ou regra de fazerem x horas por dia (mínimo, pelo menos). Parece que vão quando querem, na hora que querem, no dia que querem. Então, na hora do rush,pasmem, muitos optam por não trabalhar. Preferem ir mais tarde, sair mais cedo, e entre esses extremos ficar lá horas esperando um passageiro, mas não trabalhar. E uma das justificativas para pontos vazios é que os taxistas saem e não voltam por causa do trânsito, ie., demoram a voltar. Momento-reflexão: por essa lógica, ônibus não teriam horários, os passageiros do real transporte público poderiam ficar horas e horas (alguns até ficam, mas aí é cambacho mesmo, falta de competência das autoridades competentes) esperando por ônibus, dias quem sabe. Os ônibus deixam seus pontos finais, enfrentam o mesmo trânsito que os taxistas, param em inúmeros pontos e ainda assim cumprem horário. Então…há algo de podre no reino!
- Táxis sujos, mal mantidos e, por vezes, com problemas mecânicos evidentes. Já me aconteceu de pegar o mesmo profissional três dias seguidos. Já no primeiro, o carro morria a cada parada num farol, num cruzamento. No segundo dia aquilo continou. No terceiro, nem preciso dizer, fiquei a pé. Ora, por mais apertado que o taxista esteja aquilo é o ganha-pão dele. Dê um jeito. Dê um pré-datado, sei lá! Não só ele agrava o problema como deixa o passageiro na mão.
- Desconhecimento da cidade e caminhos: felizmente, muitos taxistas caíram em si e estão adotando o gps. Infelizmente, a grande maioria conhece pouco ou muito mal a cidade e seus caminhos. Quando comecei a tomar táxi mais amiúde dava o ponto de destino e mencionava (vejam bem, mencionava) as possibilidades de rota. Hoje eu digo: o senhor/a senhora vai por ali. Se estiver congestionado, saia por ali, ou por ali…e assim vai. Eu não dirijo, eu ando de ônibus e metrô, sobretudo, mas eu raciocino. Que coisa, né? Quantas vezes não pegam o pior caminho, a pior faixa. Recentemente me peguei dizendo: o senhor não está vendo que está tudo parado nesta faixa, por que o senhor não muda? Pegue a paralela. Parecem bois bravos, não olham adiante, não raciocinam. Terrível ter de dar esse chacoalhar cerebral.
- Também comentei aqui (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/09/11/momentum-ii/) que peguei um motorista (aliás foram dois em dois meses aproximadamente) na Paulista que não sabia o que era a Oca, mesmo eu dizendo que ia para o Ibirapuera. No início desta semana, peguei um táxi ali na rua Tupi, em Higienópolis, pertinho do elevado, e queria voltar para a Francisco Matarazzo. A pé deve dar uns 30 minutos, só para terem ideia da proximidade. O motorista não sabia do que eu estava falando! Olhei bem para ele para ver se não era um E.T. recém-chegado, se eu não havia embarcado em um OVNI por engano…
- E falta de troco? Bom, isso acontece em muitos comércios também, como se a obrigação de ter troco não fosse do comerciante, do profissional.
- Déficit de atenção: eu entro no táxi e digo destino, por onde. Quantas vezes aquela criatura que está ali só para receber essas informações, atender meu pedido, olhar para a frente, engatar marcha, brecar, acelerar, prestar atenção ao que está à volta para não se envolver em um acidente, e faz isso todos os dias, só isso, a vida inteira, não registra a informação e fica perguntando para onde, por onde, etc.
- Quem está passeando? Às vezes tenho a impressão de que é isso que o táxista faz. Ele está ali, passeando, calmamente…tudo bem, não tem de dirigir feito louco, pondo em riso a vida e o patrimônio de muitos, mas não precisa exagerar. Como eu sempre faço o mesmo caminho, e são vias relativamente livres, os ônibus que eu tomo/tomava todos os dias têm um percurso bem ligeiro, mesmo parando nos pontos para pegar ou descer passageiros. Algumas vezes percebo que o ônibus se não vai mais rápido está ali cabeça a cabeça com o táxi em que estou. Não dá, né?
- E a má aparência de alguns? E a má disposição em atender? O ponto de táxis que fica na rua de trás da empresa em que trabalho é formado 99% por homens mal educados, grosseiros, mau motoristas, descuidados com os carros. E acho que são quase uma centena. Como conseguiram juntar tanta gente esquisita num lugar só é um mistério para mim até hoje. Não uso os serviços ali a não ser em último, último caso. Dou-me ao trabalho de atravessar a rua para pegar táxi em outro ponto (um pouquiiiinhooo melhor).
O fato é um só. Com a queda cultural e intelectual da população a situação só tende a pioriar, e muito. O que vemos hoje é uma categoria desclassificada, que não tem quem exija dela o básico para atender a população, os clientes. Gente preguiçosa que não lê, não se informa sobre a cidade. Nem gosta, aprecia a cidade, na verdade. Muitos poderão dizer: mas eles ficam 12 horas no trânsito de SP. Verdade, pode ser, mas talvez fiquem 12 horas e não ganhem o suficiente para sobreviver porque são tão broncos. Além do mais não é tudo isso, pois sempre vejo taxistas parados, lendo um jornalzinho, olhando para o horizonte, mas sobretudo jogando conversa fora, literalmente.Ou seja, é preciso se reciclar, se organizar. Poucos são os pontos em que os coordenadores (acho que esse é o nome do responsável pelo ponto) prestam atenção ao movimento, tentam coordenar o número de táxis para os vários horários, orientam, exigem.
Aliás, minha impressão é de que os tais pontos vão sumir em algum momento. Da mesma forma que eu tenho o celular de vários taxistas, muita gente tem. Não é raro estar em um táxi e o motorista atender à chamada de um cliente solicitando serviços. De repente esse é o caminho, não sei, já que pegar um táxi pela rua é uma aventura em termos de risco de todos os níveis para o passageiro.
Quem sabe para a tal Copa de 2014 (tudo depende desse evento. O Brasil será outro depois de 2014…tudo vai melhorar) a administração pública ponha a cabeça para funcionar e repense a política de transporte quanto aos táxis. Qualquer coisa, dificuldade por dificuldade, a gente muda para NY…