
Antes que pensem que estou descambando para o mundo-cão, como a mídia sensacionalista, vou contar uma história, fato verídico acontecido comigo, há uns 13/14 anos.
Sempre morei em Pinheiros (passei 15 anos no Alto de Pinheiros, o que dá na mesma). Depois da morte de minha mãe, meu pai mudou-se e eu fiquei sozinha num apartamento bem grande para uma pessoa, ali na Fradique Coutinho. Dois por andar, vizinha de andar ótima, porteiro 24 horas. Ainda não era tempo da disseminação enlouquecida de alarmes, tvs, cerca elétrica, etc.
Pois bem, um dia recebo um telefonema no trabalho, justamente de minha vizinha, dizendo que aparentemente meu apartamento havia sido invadido. A porta de serviço estava arrebentada. Fiquei pasma! Como assim? Bom, voei para o local; um colega generoso (Celsinho) me deu carona. Eu estava um tanto histérica com a situação…coitado do Celso!
Chegando lá, vi a porta cortada ao meio. Na verdade, não precisava de muita tecnologia, mas conhecer o produto. Explico: essas portas, sobretudo as de entrada de serviço são feitas de isopor ou aglomerado, isso mesmo: isopor, e revestidas facilmente rompidas. Bom, não sei como é hoje, mas durante décadas foi assim, e era o caso em meu imóvel. Entrei, e aquela sensação de nojo, sujeira, invasão de minha referência de proteção.
Não tinham mexido em grande coisa, foram direto aos quartos, remexeram armários, levaram algumas joias que estavam fora do cofre (sim, cofre, pois meu pai era do tempo em que não se deixava dinheiro em banco, a não ser que se fosse muito rico); não levaram cheques, cartões, só miudeza mesmo. Como sempre tive seguro residencial, liguei para a corretora que me instruiu a chamar a polícia e não mexer em nada, pois para que o seguro pagasse as perdas seria necessário laudo da perícia (C.S.I., gente, C.S.I.). Chamei a PM. Veio um rapaz (não sei a patente) que mal sabia escrever, tanto que meu irmão, que também foi convocado, é que preencheu o relatório. Aí fui à delegacia mais próxima para fazer o B.O. E não é que o delegado queria me demover de fazer o B.O.? Acho que para poupar trabalho, para não aparecer nas estatísticas, afinal poderia ser mais um caso sem solução. Mas como havia o lance do seguro, ele acabou me deixando fazer o B.O. Um negócio simples, mesmo se à época as delegacias não eram tão informatizadas como devem ser hoje, imagino. O escrevente tinha tarimba, foi facinho, detalhes, o que roubaram, etc. etc. E aí era aguardar a perícia. Vejam bem, quando saí da delegacia devia ser umas 20h, disseram-me que a perícia poderia chegar a qualquer momento dentro de 24h. Balela! Numa cidade como SP, para esse tipo de coisa a perícia só trabalha em dias úteis e em horário comercial, podem crer. Enfim, lá fui eu para casa aguardar os peritos. Na verdade, não dormi não por causa deles, mas porque estava sem porta!
Quanto ao condomínio, perguntaram daqui, de lá, nenhum funcionário tinha visto nada. Havia dois apartamentos em obras e não havia grande controle (acho que hoje também os cuidados são pífios) quanto a prestadores de serviços, então…vai saber. Só soube pela vizinha do apartamento de baixo que tudo aconteceu por volta de 13h30. É que fizeram bastante barulho ao jogar as coisas dos armários no chão. Ela estranhou, pois meu apartamento era sempre silencioso, mas não se manifestou, pois estava havia apenas 15 dias no prédio. E, claro, entrei na neura da segurança: instalei alarme na casa toda.
Voltando: os peritos chegaram só pela manhã. Lá do Instituto de Criminalística que fica na Academia de Polícia na entrada da USP. 4 profissionais. Pozinho, pincelzinho, luvas, olha daqui, de lá, perguntas, e observações tipo: muito estranho! Ah, esqueci de contar que, ao olhar pelo apartamento para ver no que tinham mexido, vi uma chave-de-fenda, provavelmente a que utilizaram no arrombamento. Tinha tantas impressões digitais que poderia ser feito um programa com ela tipo: minha chave-de-fenda, minha vida, ou minha chave-de-fenda, meus amigos.
Quando os peritos estavam de saída, entreguei a tal chave, que peguei e guardei com papel-toalha para não interferir na prova do crime (como assisti em vários filmes). Eu era fã, como ainda o sou, dos tais CSIs, Law and Order, Criminal Mind, Cold Case, etc. O chefe da equipe disse-me ao sair, olhando desdenhosamente para a chave-de-fenda: a senhora ainda assistindo a muito filme americano! Perdi a fé e a simpatia por ele naquele instante.
Bom, não preciso dizer que o laudo dos peritos deu como “inconclusiva” a identificação do/dos larápio/s.
Contei tudo isso, porque tenho acompanhado de longe os casos da morte das duas moças, Elisa e Mércia. Além da violência aplicada nos dois casos, da crueldade, sobretudo como as investigações estão sendo conduzidas. Minha singela conclusão: ou os criminosos, quais sejam, são muito bons e espertos para não deixar pistas e se safar, ou nossa polícia investigativa/técnica é ruim demais! Mesmo que alguém tente encobrir um crime, já diz o ditado: o diabo ensina a fazer, mas não a esconder, e isso é milenar! Crime perfeito até pode ser, mas com gente com intelecto imbatível, com tecnologia, arte, sei lá! Agora essas pessoas que estão envolvidas nos dois casos? Difícil acreditar.
Aliás, toda a história da chave-de-fenda voltou hoje, porque vi as várias notícias sobre o goleiro Bruno pedindo para queimar os cabelos raspados diante dele (um direito, parece-me) para que não seja possível o exame de dna com eles. Gente, esse pessoal está em instituições públicas e policiais! Eles tomam água, comem, saliva daqui, dali, além de outras tantas possibilidades. Para alguém achar que queimando o cabelo cortado a coisa fica mais difícil para a lei, é porque nossa polícia investigativa/técnica e nosso sistema prisional realmente têm problemas e grandes! O bandido conduz a ação!
Então, aí vai uma dica de graça, que aprendi pela dor com alguém do ramo, para o pessoal que está trabalhando nos dois casos: vocês têm de assistir a mais filmes americanos! Isso ajuda muito! É ficção imitando ou se antecipando à realidade (vide Julio Verne), então não dá para desprezar.
Os dois casos são tristíssimos, horríveis, mas aconteceram, são realidade, e se os culpados não forem punidos, quantos outros poderão acontecer. Os criminosos, de qualquer nível, apostam sempre na impunidade.