29
de
junho
Uma experiência do Além
Minha relação com a morte é bem descolada. Eu não temo. Sempre digo que, obviamente, não quero dor ou sofrimento quando chegar minha hora, mas isso não tem nada a ver com a morte em si, mas com o processo, o que é bem diferente.
Durante minha vida fiz quase tudo o que quis, do jeito que queria, e o que não deu, acomodei, deixei passar. Olhando para minha trajetória, considero-me satisfeita com o que vivi. Até o momento, a vida tem-me sido generosa e espero que continue assim. Portanto, passar para o outro lado não me atemoriza. Além disso, tenho certeza de que, por qualquer crença que se olhe o assunto, pelo que fiz para outros, fizeram para mim, ganho pelo menos um purgatório básico. Já está bom demais!
Claro que sinto a morte de queridos. Afinal, fica a lembrança e também um vazio, que se a gente gosta de verdade não é preenchido jamais. Não amargo esses momentos, ou fico remoendo, prefiro me lembrar das frases, das ações, e uso tudo isso constantemente, o que me conforta muito: minha avó dizia…., minha mãe dizia…. fazia…, meu tio uma vez fez tal coisa…, meu pai disse isso ou aquilo….e por aí vai. Para minha sorte, só consigo me lembrar das coisas boas, positivas, na maior parte das vezes. O que foi ruim, feio, fica como aprendizado, informação de natureza pedagógica. Basicamente: morreu, as ruindades foram junto, por mais pusilânime que tenha sido a criatura. Além do mais, não vale a pena e vai saber o que o ser virou / vai virar do outro lado: CEO, CIO, Diretor de RH, consultor para assuntos terrenos, então deixa quieto.
Ainda não passei por isso, mas acho que vai ser bem duro quando os contemporâneos começarem a partir. Ai, agora me deu uma vontade de rir…afinal, que coisa mais presunçosa: por que os outros é que partiriam e eu não? Tem uma piadinha muito boa para isso: anunciaram a morte de uma pessoa. Um dos ouvintes disse: a vida é assim mesmo. Hoje ele, amanhã você, daqui a 50 anos eu…Acho que a gente sempre pensa assim mesmo, não tem jeito.
A morte em si, além dos sentimentos que pode causar, também causa incômodos. Isso mesmo: você lá deitado, olhando para o teto, e todo mundo correndo atrás de papéis, assinaturas, lugar para depositar seu sagrado corpinho. Morrer é caríssimo! Sobretudo em uma cidade como S Paulo. Caixão, flores, decoração, salão (parece que a gente está falando de casamento, se não mencionar o caixão) para vigília/velório. Uma nota preta! Atualmente, felizmente, alguns seguros englobam o seguro funeral. Cobrem a maioria das despesas e, o mais importante, dão suporte à família ou responsável pelos finalmentes quanto aos aspectos burocráticos. Afinal, num momento já tão difícil, pungente, ainda ter de negociar cifras, quando não pega um achacador do serviço funerário pela frente, é dose!
A morte é poética só para os que vivem de escrever, pintar, cantar. Para o homem comum é um peso em vários sentidos. Por isso mesmo, pensando em não dar trabalho para quem fica, ou pedir que tomem decisões difíceis, já deixei por escrito, assinado, firma reconhecida, que doem tudo o que puderem: olhos, pele, cabelo, coração, pulmões, rins, e que outro viva, de preferência bem, sua vida com minhas partes. E isso há muitos anos, muito antes de surgir a obrigatoriedade da opção estar declarada nos documentos de identidade. Toda minha família também sabe da minha vontade. E o que sobrar, quero que cremem. Nada de ficar ocupando espaço, virar comida de verme. E que eu seja espargida sobre um jardim, um rio (não-poluído, pleaaaseee), nos campos (vejam esta reportagem, é coisa de primeiro mundo e não da minha cabeça: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/lixo/conteudo_480673.shtml).
Considerando que é preciso deixar fundos para não colocar os que ficam num aperto a mais, providencialmente me inteirei dos custos. Um funeral recente saiu por quase R$ 2mil, numa cidadeca. O da minha mãe, há 17 anos, saiu bem caro até onde me lembre. Então verifiquei o crematório. Não que eu tenha saído por aí perguntando, é que faleceu uma pessoa, pediram-me que verificasse/providenciasse cerimônia e cremação, então acabei tendo uma ideia de como a coisa funiona e o custo. Pedagógico!
A cremação em S. Paulo acontece apenas no V. Alpina. O processo inicial é como para qualquer outro sepultamento na cidade. Tem-se de recorrer ao serviço público, escolher caixão e agregados, contratar os traslados, e a cremação. Francamente, não sei por que não privatizam um serviço como esse como em tantas cidades do país, enfim… Infelizmente, apesar de o atendimento telefônico do crematório ser bastante bom, depois de contratar tudo em uma das unidades do serviço funerário municipal tem-se de ligar para o crematório de novo para agendar a cerimônia, se se quer uma. Por que a coisa não é feita toda de uma vez, on-line? A gente também percebe que quem atende o telefone no crematório faz outras coisas, ou seja, podia ser mais fácil e prático para todos os lados. Ah, sim, para o caso de cremação é necessário que dois médicos ou um legista assinem o óbito. Não entendo a diferença de procedimento quanto a um sepultamento normal: você acordar numa geladeira ou dentro da fornalha é pior que acordar dentro de um caixão debaixo da terra? Ué, em qualquer uma das duas circunstâncias um profissional habilitiado deve confirmar que não há mais possibilidade de vida e ponto.
Mesmo assim, o processo está bem mais azeitado atualmente e, com envoltório bem baratinho, sai bem menos que um sepultamento comum, praticamente metade do preço. Não é barato, mas já é um alívio nesse momento tão difícil para a grande maioria da Humanidade.
Bem, conhecer as opções para que as decisões sejam acertadas é sempre muito importante em qualquer área da vida. Ah, e lamento se assombrei os sonhos de vocês com este tema. Não era minha intenção.











