No post de 31/03/2010 (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/03/31/um-sonho-mais-que-possivel-mas-essa-nao-e-a-questao/), mencionei que no filme Um sonho possÃvel se vê o politicamente correto levado ao extremo.  isso está também em Preciosa (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/02/13/nao-sei-o-que-dizer/) ainda mais escancaradamente, e vários outros filmes.
Como tenho tempo de casa, já vi de tudo: ditadura, segregação racial, preconceito muito mais acirrado que o que existe hoje (sim, ainda existe e muito: mulheres, homossexuais, negros, vermelhos, amarelos, judeus, pobres, tanto faz, preconceito racial, social, sexual, o que for, ainda existe e muito), sou do tempo em que não havia o politicamente correto. Quando a onda começou (vejam Current Usage deste link: http://en.wikipedia.org/wiki/Politically_correct) não tinha internet (até havia, mas muito restrita, cara), não tÃnhamos localmente tv a cabo, não havia celular, o mundo estava dividido em ilhas.  Eu ouvi daqui, ouvi dali, e fui atrás.  Mesmo sem as facilidades de hoje, à época, já se podia comprar livros no exterior (que me lembre a Amazon ainda não estava por aÃ, mas havia Barnes & Noble, algumas livrarias ou empresas inglesas de que comprei muitos livros), e achei - não me perguntem como, porque não vou me lembrar nunca - Politically Correct - The phrase book, por Niguel Rees, ed. Bloomsbury, ed 1993 (isso mesmo, quase 20 anos atrás).  Pela capa aà de cima vê-se que o pessoal já era meio “visionário”, “intuitivo” na época, parecem que adivinhavam no que se transformaria o movimento.  Tudo começou devagarzinho lá pelos EUA, foi tomando força, porque americano gosta de fazer bem feito e sabe que o mundo irá atrás se souber vender a ideia direitinho.
A coisa virou meio que caça à s bruxas por lá.  Acho que aà é que apareceram pessoas dizendo: náááá, vamos devagar, pessoal! Mas mesmo assim, era a minoria. E o conceito espalhou-se pelo mundo todo. Até aqui temos reflexo da corrente “politicamente correto” extremada atualmente.
A coisa acabou se invertendo de uma forma absurda: mesmo quem está errado, acaba sendo “paternalizado”. As pessoas têm medo de que a ação punitiva, educativa, devida e necessária, se mais contundente, firme, seja rechaçada, criticada, ou até criminalizada. Como ouvi de um taxista há mais de 30 anos: quem está errado, está certo, e quem está certo, está errado.  E garanto que ele nunca tinha ouvido falar de politicamente correto, mas já visualizava o que vinha por aÃ.
Dou um exemplo bem recente, daqui da terra mesmo: passeatas de protesto de professores em SP (hoje parece que houve até uma de médicos-residentes?!).  Ninguém tira o direito de qualquer pessoa negociar seus direitos ou interesses, evidentemente. O que não pode acontecer é um grupo de centenas, ou até mesmo de milhares, atrapalhar a vida de milhões e achar que sua causa justifica.  Não justifica,não.  Mas até aÃ, é questão de consciência social, pública, valores pessoais e sociais, etc.  Acontece que a cidade tem autoridades instituÃdas para defender os cidadãos, ou a maioria dos cidadãos, sua ordem, integridade, e não o faz. Por quê? Por medo de represálias, do julgamento de grupos, da mÃdia, etc., se investir contra uma minoria rebelde, arruaceira, que não sabe usar caminhos legais ou de diálogo, argumentação, preferindo o espalhafato. Então, somos milhões prejudicados por um ou alguns milhares, devido ao politicamente correto, mas incorreto por qualquer outro ângulo de avaliação.  Ou seja, tenho impedido meu direito de ir e vir, minha vida profissional e social atrapalhada, porque o poder instituÃdo não consegue dizer a outrém que não pode fazer passeata onde quer, onde dá na telha, que tem de respeitar a maioria, etc.etc.etc.
Obviamente o politicamente correto tem seu lado positivo, pois veio para “normatizar” o que o bom senso, respeito, conhecimento, informação, educação familiar já ditavam espontaneamente, mas padecia de método talvez. Não conseguiu, é verdade, absolutamente eliminar racismo e preconceito de várias naturezas; não conseguiu, como se vê acima, incutir em todos que o bem comum é soberano, mesmo que o individual seja inalienável e de importância capital; que ter não é poder, não torna as pessoas melhores do que são de fato, e por aà vai E não por si, mas provocou o efeito contrário, como relatado acima.
Para que entendam o que já se antevia no inÃcio da década de 90, i.e., o “devora-te a ti mesmo”, alguns exemplos tirados do livo de Nigel Rees:
flight attendant: This is the completely non-sexist version of the acceptable airline steward and the utterly unacceptable [airline steardess], even though it has unfortunate echoes of “lavatory attendtan” (for which, curiously, there never seems to have been a politically incorreect term). flight attendant was in use by the late 1940s.
spinster: Avoid this appellation at all costs anduse, rather, single-by-choice. Â hence any [old maid] is, rather a “single-by-choice senior citizen”.
gay: não vou colocar aqui, pois há 2 páginas e meia com o histórico de termos, que explica o inexplicável, e termina com use LBG, lesbians, bisexuals and gays.
blind: American suggestions include unseeing person and visually impaired individual. Optically challenged is more for people with seeing difficulties rather than those who are out and out blind.
hispanic, outra página e maia para explicar, explicar e dizer que se deve usar Hispanic American for any Latin-American descent or Spanish-speaking person.
girl (s): These words for a pre-pubertal personal should be replaced by pre-woman and pre-women - except that this was a joke coinage by the American cartoonist Jeff Sheshol in his strip “Politically Correct Person” (by 1990).
e last but not least:
fat: It is unforgivable to use this non-PC word. Attempts have been made for many years to find suitable euphemisms, of course. Mrs. Oliphant wrote in Salem Chapel (1863) of “Miss Phoebe” Â that she was ‘Pink -not red - a softened youthful flush, which was by no means unbecoming to the plump, fullfigure which had not an angle anywhere.” Â But all the traditional euphemisms are non-PC namely [bonny], [broad in the beam], …-all because they are not “political” enough and do not present sufficiently positive images. [Adipose], [obese] and [stout] are too direct.
e a coisa vai…
Also in the US, horizontally challenged, larger than average, person of size, and person of substnace may be spoken with a straight face. In clothing matters, for [extra-large] it is probably in order to substitute generously cut  despite what I have said about [generously proportioned] above.
Gente, eu sou GORDA, e ponto!
Muito cansativo, totalmente tangiversante. Mais, eu diria que é politicamente ridÃculo, isso sim!
Vejam esta notinha que apareceu na Newsletter do CONAPUB: http://www.conapub.com.br/pagina.asp?id=3768.  É ou não é um absurdo?