Em vários textos/posts manifestei minha opinião sobre amigos, conhecidos, relações humanas (e.g. http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/04/05/2261/). Eu sou exigente na questão, por que faço, então a expectativa de retorno é inerente, não dá para dizer que o tal “dar sem esperar receber” esteja impregnado em mim. E eu não dissimulo.
Mas a vida tem sido pedagógica. Mesmo quando a gente não recebe de quem acha ou imagina que deveria, o retorno vem de outro lado e, algumas vezes, com grande qualidade. Eu tenho tido algumas surpresas do gênero recentemente: pessoas que a vida toda achei que não dessem a mínima para minhas contribuições (eu faço isso meio que por inércia, para qualquer pessoa. Acho que é algum tipo de compulsão, mas à esta altura não vale pagar terapia só para isso), de repente mostram-se atenciosas, responsivas. Um susto! Muito bom, mas um susto! Ao mesmo tempo, algumas pessoas para quem julgo ter me dedicado bastante, nada, ou um retorno rasinho, meio de má vontade, sem muito esforço. Aí é repensar e redirecionar.
Vivendo e aprendendo sempre!
Aí, um dia, não sei por quê (e não sei mesmo, podem acreditar), comprei um livrinho, lá em Campos, no Mosteiro das Beneditinas (http://www.mosteirosaojoao.cjb.net/), chamado: Sozinho, mas não solitário - Wunibald Müller, Ed. Vozes. Vai ver que foi a atmosfera santificada, sei lá! E como o livro é fininho, o assunto para mim é importante, já que minha opção foi/é viver sozinha, resolvi lê-lo, ou seja, furou a fila e passou à frente de outros.
E aí a coisa complicou. Nãããooo, bobagem, deu até uma clareada. O livro tem um viés religioso, já que o autor é psicoterapeuta e teólogo, com vivência com religiosos por parte da vida, e é permeado de conceitos que ou conhecemos, ou intuimos, e que, muitas vezes, negamos.
Mesmo que se queira negar, a vida moderna, com tanta luz, câmera, ação, informação, necessidades criadas ou impostas, e agregações artificiais, acaba fazendo com que a gente não se olhe, que a gente se perca do nosso “self” (conceito discutido no livro), i.e., sem o externo a gente acaba achando que não existe o interno, e por aí vai. Cotando: “Do cômico e ator popular Karl Valentin cita-se a seguinte fala: “Hoje eu vou me visitar. Espero que esteja em casa”. O cultivo do contato comigo mesmo, de fato, não é menos importante do que o contato com as outras pessoas. Nas palavras de Valentin é formulado um elemento central do estar só em sentido positivo: somente quando estou em casa comigo; quando encontrei uma relação comigo mesmo é que estou em condições de me sentir em casa junto a outras pessoas.” (pg. 46)
Ainda: “Permitir a experiência da solidão pode nos ajudar a nos concentrarmos em nós mesmos. Pode nos tornar conscientes do quanto nos deixamos defnir por coisas externas e pelas relações e, com isso, perdermos o olhar para nós mesmos. Assim, nós somos confrontados com aspectos em nós de que não gostamos, que gostaríamos de dissimular, mas que de agora em diante não podemos mais ignorar. Precisamos encarar a nossa própria verdade.” (pgs. 114 e 115).
Alguns conceitos são os que tenho repetido, repetido, repetido. Coto aqui: “A intimidade é vivenciada em diferentes intensidades. Existe, por exemplo, o conhecido, que me á familiar, que eu encontro esporadicamente, com o qual eu troco um e outro problema ou preocupação relevante para mim. Já uma relação íntima pode se dar com os e as colegas de profissão que estão interligados por sentimentos de lealdade e de apoio recíprocos, pelos mesmo pontos de vista e por uma grande abertura entre si no espaço comum do seu trabaho. Índima também pode ser a relação com os integrantes de um círculo familiar ou de um grupo de supervisão. Há também o parceiro ou o melhor amigo, aquela pessoa que me conhece melhor e que eu também conheço melhor. ele pode ser aquela pessoa para mim com a qual eu vivencio uma intimidade maior. Além disso, há a intimidade na família ou em uma comunhão monacal.” (pg. 84)
E uma última cotação: “Tornar-se apto e finalmente ser capaz de viver sozinho, de aguentar a solidão e de valorizá-la e, inclusive curtí-la, é um processo que dura a vida inteira. Também ocorrerá que em diversas situações, fases de nossa vida conseguiremos lidar mais ou menos bem com isso….Pior ainda é viver com alguém e continuar tendo a impressão de estar sozinho, já que, neste caso, a ilusão de poder superar meu estar só vivendo junto de alguém é levada ao absurdo. Isso em distinção à experiência de que, mesmo convivendo com alguém posso estar sozinho comigo mesmo, ou àquela de não ser alguém e, ainda assim, ter a mim, de estar aí com meu próprio self. Essa experiência ninguém pode me subtrair; nem mesmo quando alguém que amo me abandonar.”
Resumo da ópera, como dizia minha mãe: a gente nasce, vive e morre essencialmente sozinho, por isso é preciso gostar de si, e muito. Mas o principal, nestes tempos de vida feérica, de muito movimento “externo”, é não se perder de si. Explico: conheço pessoas que aparentemente têm tudo, aquela coisa de família, amigos, companheiro/a, dinheiro, sucesso na profissão e de repente, não mais que de repente, se olham e não veem nada! Estão completamente perdidas, não se reconhecem, olham para suas vidas como se não fossem suas, com se não tivessem vivido. Alguns ainda têm a condição de mudar tudo, de recomeçar, de consertar. Outros não. Aí é a angústia, o tormento para o resto da vida.
Tudo isso parece conversa-mole, parece bobagem do tipo “isso só acontece para os outros”, se é que acontece. É frescura. É preciso ser muito tonto para deixar isso acontecer, e por aí vai. Mas não é, não. Nesta minha longa vida tenho visto muito disso, e, francamente, é meu maior medo ao lado de tornar-me dependente de outrém. Fora isso, não tenho receios quanto ao futuro.
Então, se você se sente incomodado consigo mesmo, não aguenta ficar em sua própria companhia, precisa de barulho, gente, todo o tempo, e acha isso normal, melhor refletir. Dê uma paradinha e se olhe, com coragem. Ainda deve dar tempo.