31
de
março
Um sonho mais que possÃvel, mas essa não é a questão!
Fui fer Um Sonho PossÃvel (The Blind Side, affeee…. /http://www.imdb.com/title/tt0878804/ ).
Pois é, neste filme o pessoal dos tÃtulos nacionais me tirou do sério mesmo.  Tenho visto coisas bizarras, nessa minha longuÃssima vida de “viciada em cinema”, mas o tÃtulo traduzido em questão, mais do que não ter nada a ver com o original (blind side;1. the part of one’s field of vision, as to the side and rear, where one is unable to see approaching objects.2. the side opposite that toward which a person is looking.Random House Dic.), que tem a ver no caso com tática de futebol americano, consegue destruir a amplitude que o tÃtulo em inglês projeta sobre o filme.  Explico: quando alguém vai ver um filme sobre um menino negro, grandalhão, que parece meio bobão, pobre, etc., etc., resgatado por uma famÃlia upper-class americana, branca, que dá carinho e uma nova vida ao menino-vÃtima, com um tÃtulo desses para onde vai o olhar, a atenção, o raciocÃnio do público? Ora, para tudo isso que acabei de dizer e que, realmente, está no filme. E se acabou!  Num paÃs inculto e belo como o nosso, em que o máximo de cultura+entretenimento a que a grande maioria da minoria “privilegiada” tem acesso é o cinema, ou filmes, melhor dizendo, já que depois do cinema e do dvd pirata vão para o cabo e tv aberta, um tÃtulo como esse só reforça o estreitamento de visão, dilapida horizontes, delimita, agrega ao “curral” a que a falta de educação formal de qualidade já lançou a nação brasileira.
Senão vejamos: se o tÃtulo não fosse o que está aà (Um Sonho PossÃvel), mas, sim, O Lado Oculto, ou O Lado Escondido, ou O Lado Desconhecido, ou qualquer coisa do gênero, todos iriam fazer um esforcinho para ver onde é que está o tal “oculto”, “escondido”, “desconhecido”.  Afinal, essa, na verdade é a grande coisa do filme, pois o tema “tirar o americano negro, pobre, gorducho, defasado intelectualmente da lama” está em vários filmes por aÃ.  Um exemplo recente, e de qualidade, é Preciosa (http://mskeller.blog.terra.com.br/2010/02/13/nao-sei-o-que-dizer/), que retrata o assunto com muito mais realidade, visão menos paternalista, não tão rasa,  muito mais dramática, impactante, crÃtica.  Além disso, mulher negra, gorda, pobre, em qualquer lugar, é muito mais problemático que homem negro, gordo, pobre.
Então…mais do que a ação assistencialista da personagem principal (Sandra Bullock), o que interessa é o que a gente não vê ou desconhece: a capacidade ou incapacidade do outro, em qualquer circunstância; o mesmo quanto ao grupo em que estamos inseridos (a personagem de SB, uma profissional meio dondoca, reúne-se com amigas para almoço periódico, e elas questionam sua postura, ação, generosidade, etc., e, aparentemente, até ter se envolvido com Michael, o menino pobre, negro, gordo, ela não conhecia de fato o ideário das tais amigas). Mas o mais importante é o lado oculto em nós mesmos, ou seja, forças que desconhecemos, vontades, fraquezas, desvios, autopiedade e/ou autopunição externadas inconscientemente e que não reconhecemos, enfim, a pessoa que somos e não conhecemos.
Isso para mim está clarÃssimo, até porque eu mesma passei por esse processo, e acho que continuo passando, há alguns anos.  Descobrir a força, a coragem e a honra que não imaginamos possuir em nós, é transformador e para toda a vida.  ImpossÃvel retroceder! A gente só consegue continuar, buscar mais, é como uma droga.  E é esse o processo pelo qual passa a personagem de SBullock.  Obviamente, a personagem, pelos comentários do marido sobretudo, tem uma personalidade forte, independente, tenaz, tem meios, ou seja, tem a base do que é necessário para seguir na sua “cruzada”, mas mesmo assim é preciso mais para abraçar causa semelhante, assumir riscos tão evidentes.
Enfim, para um filme em que li na legenda “linemen” sem tradução não imagino por que, melhor deixar o tÃtulo original mesmo. Seria mais proveitoso para o aproveitamento do filme pela plateia de forma geral.
Ao flme propriamente: como já mencionei, trata-se da história de uma famÃlia muito bem postada na vida, emocional, financeira, intelectualmente (sim, gente, isso existe e não é produto de Hollywood. Pode até não ser só a perfeição sem nenhum conflito que aparece no filme, mas que tem, tem. Raro, mas existe) que por pura empatia, sem qualquer outra razão mais substancial, assume a recuperação de um rapaz, Big Mike.  Primeiramente os estudos, depois um futuro como jogador de futebol.  E Michael vai saindo da casca, recupera o gosto pela vida, pelas pessoas, e desabrocha inclusive intelectualmente.
Apesar de o flme ser bem bonito (fotografia, música), SBullock estar linda (um pouco de botox demais, mas tudo bem…, e desempenhando, na verdade, o mesmo tipo de personagem de outros filmes (divertida, decidida, mandona, independente - pelo menos foi o que vi em todos os outros flmes a que assisti com a atriz)), retratar uma famÃlia bacana de se ver, nem que seja só na telona, ter um molequinho, Jae Head, mais que divertido (esses atores-mirins estão cada dia mais surpreendentes! Foi-se o tempo em que havia uma Shirley Temple, um  Colleen McCullough,hoje há montes deles brilhando e muito!), não fez face as minhas expectativas, infelizmente.
Foi bom para divertir, pensar um pouco no meu “lado oculto” (nossa, isso me lembra o “lado negro da força”…), projetar para outras pessoas e situações, mas só.  Ah, sim, e dá para ver como o sistema americano se perdeu no politicamente correto (comento em outro post), e entrou num “devora-te a ti mesmo” inexorável para o qual não há saÃda harmless a vista.
Muito bem estão Kathy Bates, que aparece no último quarto do filme, e Quinton Aaron, que interpreta big Mike.


