Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

28

de
fevereiro

Excellence is not a skill. It is an attitude. Ralph Marston

É exatamente isso!  E foi o que vi na apresentação do grupo Gecko em O Capote (Sesi Paulista - http://www.sesisp.org.br/home/2006/news/news.asp?idn=1511) de N. Gógol (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol).

De Gógol havia lido O Nariz (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/06/21/dedinho-de-prosa/), em excelente edição da CosacNaify), e O Inspetor Geral (*). Um escritor bem moderno (mordaz, crítico, observador, moralista, com preocupações religiosas) para sua época (primeira metade do século XIX).  E agora foi a vez de conhecer O Capote numa montagem mesmerizante.

Então vamos por partes:

  1. O teatro do SESI (Av. Paulista): fazia década ou mais que não ia ali. Esse negócio de distribuir ingressos gratuitos uma hora antes do espetáculo, por melhor que seja o espetáculo, não é comigo. A gente perde tempo, pode ficar numa fila sem sucesso, enfim…mas desta vez estavam vendendo para o sábado e domingo (atenção! o espetáculo só vai até 7/3). $10/inteira e $5/meia. O teatro é amplo, tem mais de 450 lugares, bem confortável, ótima disposição das cadeiras, uma trilha sonora durante a espera maravilhosa! A melhor dos últimos anos! Muito blues, soul, jazz…uma delícia ficar ali sentado esperando pelo espetáculo!  O atendimento na bilheteria é muito bom: rápido, cortês. Único senão: não têm uma tela para o espectador ver que lugares disponíveis. A bilheteira tem de olhar na tela dela e mostrar num mapa impresso!  Hello! Sesi! Como assim?  Já elogiei várias vezes as exposições montadas pelo SESI. Sempre pertinentes, agregam, bem montadas, espaço de boa qualidade (posts de 29/11 e 12/4/2009, e vários outros), então vamos lá, regularizar essa pequena falha! Ah, e tem programa gratuito de peça para quem quiser…Além de vender na bilheteria, vendem pela Ticket Master, mas é um absurdo! Além de não venderem 1/2 entrada por telefone, cobram $2 (20%!) pelo serviço e mais $ 8 de taxa de retirada!? Como assim, se eu é que retiro, ninguém retira para mim, já cobraram 20% só por ouvir minha voz, já que tudo está pré-pago com cartão de crédito?!  Um assalto!
  2. O enredo: um funcionário público que trabalha feito louco para comprar um casaco novo (o seu está em péssimas condições). Consegue, é roubado, tenta via autoridades reavê-lo, não consegue, morre de frio, passa a assombrar São Petersburgo.  Simples, né? Genial, eu diria.  Aqui está o link do conto em pdf (é de domínio público). É curto, uma dezena de páginas, então deem uma lidinha (http://www.ufrgs.br/proin/versao_2/capote/index.html).
  3. A peça: eu tenho muita estrada, já vi um monte de coisas distribuídas por um longo tempo, mas nunca vi nada igual ao que faz o Gecko, um grupo inglês, pela primeira vez no Brasil (http://www.sesisp.org.br/home/2006/news/news.asp?idn=1511).  A gente ouve 9 línguas (um dos atores - Rodrigo Matheus, convidado - fala português (há outro brasileiro mas ele substitui  Amit Lahav)), mas dá para entender tudo!  O ator oriental (nipônico) faz um kabuki rápido em um determinado momento da peça. Fantástico!  Há quem fale francês, espanhol, inglês…mas tudo bem, a gente entende tudo. Vejam a proposta do grupo (http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&langpair=en|pt&u=http://geckotheatre.com/).  Muito interessante, criativa, inédita! Você pode dizer, ah, mas e os mímicos?  Claro, tem algo parecido, mas não é isso não, é bem mais rico e complexo. E o Gecko captou plenamente o espírito revolucionário, inquietante, corajoso, irônico do conto de Gógol.  O atores, que também são cantores, bailarinos, contra-regras (eles é que movem objetos, partes do cenário - minimalista, mas muito inteligente e eficiente), voam pelo palco, cantam, dançam…e olhe que eles não têm o biotipo de acrobatas, mas fazem tudo com muita competência! Um relógio!  O brasileiro convidado está muito à vontade (http://www.circominimo.com.br/index.php?option=com_content&view=category&id=60&Itemid=52), tem formação circense, se dá bem expressivamente, o texto não exige muito, mas corporalmente ele dá um banho. Todos dão! Impressionante como correrias, movimentações rápidas pintam o quadro perfeito de um dia movimentado, do estresse da chegada ou saída do trabalho, da multidão; janelas abrindo e fechando, alternadamente, em ritmo frenético, dão a ideia perfeita de burocracia, não importa em que país.  Não são necessárias palavras (como mencionei o texto é curtíssimo, econômico, algumas frases ou palavras soltas), mas a gente entende tudo, sem esforço, e com maravilha!  A peça leva uma hora e vinte minutos e a gente não consegue desgrudar os ohos.  A montagem exige muito do espectador: atenção, conexão 100%, tal a agilidade, as imagens que conseguem criar com sequências mais que criativas.

Agora, outra coisa interessantíssima: a música e a iluminação não são coadjuvantes, são personagens como qualquer outro que está ali sobre o palco, desempenham papel tão importante quanto qualquer ator/atriz da peça.  A música é fantástica, a iluminação é vital!  Nessa dimensão eu jamais tinha visto algo assim.

Talvez você não goste do tema, afinal é crítico, angustiante, moralista, irônico, mas certamente, como eu, verá algo que não deve ter visto até hoje e será difícil rever a não ser que seja num  novo espetáculo do próprio Gecko ou algum genérico.

Ah, a imagem aí de cima é da última cena da peça!  Uma pintura! Dá para tocar a densidade, a dramaticidade do momento. Dá vontade de pendurar na parede.

(*) versão pdf O inspetor geral / http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/gogol.pdf

28

de
fevereiro

Guerra é guerra!

Guerra ao terror (http://www.imdb.com/title/tt0887912/) (finalmente um título em português que faz sentido!) é um filme de ação e de guerra (dãããã).  Não é o tipo de filme de que mais goste. Foi-se o tempo!  Eu adorava a série Combate (http://www.imdb.com/title/tt0887912/), que foi de 1962 a 1970, era em preto e branco, e passava na Record, se não me engano.  Não perdia um episódio!

Mas o tempo passou, meu coração abrandou, minha alma ficou mais pacífica, então deixei de apreciar filmes mais violentos, com matança, guerra, etc. Só vejo se tem algo de especial, que justifique. No caso de The Hurt Locker fui atraída pelo assunto atual (guerra EUAxIraque), pelas avaliações que li, e pelo que retrata: um técnico desarmador de bombas.  Só para esclarecer: hurt = 10. a blow that inflicts a wound; bodily injury or the cause of such injury.  11. injury, damage, or harm. (Random House Dic.).

Há alguns atores conhecidos que fazem pontinhas: Ralph Fiennes (é um mercenário e fornecedor de bens. Interessante!), David Morse, Evangeline Lilly.  Outros menos conhecidos (pelo menos para mim) dão conta das personagens principais: Jeremy Renenr (Sgt. james), o desativador de bombas, Anthony Mackie (Sgt. Snborn) e Brian Geraghty (Specialist Eldridge).

O filme é bem denso, tenso. Tem algumas coisas que a gente sabe que vão acontecer (eg. quando um dos oficiais pisa numa bomba em determinada cena - já estava mais que anunciado), e outras nem tanto (explosão mortal logo no início do filme).  Enfim, um filme bem interessante, que tem muitas cenas no mesmo estilo de nosso Tropa de Elite que é anterior (2007 enquanto este é de 2008): as correrias, incursões por becos, escombros, prisão de pessoas/terroristas, etc.

O interessante é ver que, mesmo os combatentes de uma potência como os EUA, que domina tecnologia, já fez a guerra,e ganhou, algumas vezes, investe, tem gente muito capacitada, acabam sendo lançados em algo que eles não conhecem plenamente, com muito improviso, pouco suporte efetivo (tem um robozinho para ajudar na desativação de bombas mas parece que mais atrapalha do que ajuda em determinadas situações). Dependem de intuição, de olho, de coragem, de sorte, e morrem aos montes!  Diante do que homens e mulheres (aliás não vi nenhuma e imaginava que elas já estariam nas frentes de batalha há tempos) veem nas batalhas não há como voltar para casa e levar uma vida normal. Não é à toa que isso gera um monte de desequilibrados, gente que não se enquadra de novo de jeito nenhum.  O pouco que a gente vê, e de longe, não deixa dúvida de que qualquer vida sai abalada de episódios como a guerra do Iraque, uma viagem sem volta.

Mas também é interessante que, em todo lugar em que há conflitos como esse, as pessoas arrumam um jeito de continuar, ou tentar, vivendo, de restabelecer suas rotinas. No post de 19/5/2009, comentei o filme Alexandra (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/05/19/um-pouco-de-tudoo-retorno/) que trata da guerra da Chechênia, e ali escrevi: “As tristezas, misérias, desencantos, tristezas acontecem dos dois lados, é isso que vemos, i.e., tanto do lado russo quanto do checheno é tudo igual!  E a destruição dos dominados, de suas cidades?! Que coisa pavorosa!!!  Mas interessante: mesmo inimigos têm de conviver para ter algum horizonte, alguma chance de futuro.”  O que Guerra ao Terror mostra é exatamente isso: perdas dos dois lados, cidades em escombros, locais vendo os invasores como inimigos mortais e tentando destruí-los do jeito que der, mas de alguma forma há uma convivência, e a vida continua.

Agora, a abordagem dos americanos é alguma coisa! Primeiramente poucos falam a língua local (lembro-me que para a guerra do Vietnã prepararam muito os militares para falar e entender a língua dos inimigos); colocam várias vezes suas vidas em risco por receio de atirar e estar fazendo a coisa errada, ficam nervosos, parece operação policial aqui da terrinha. E como são educadinhos entre eles e com os inimigos!  Aquele pessoal de Guantánamo deve ser exceção! Será?!

Ser um nine to five militar não é fácil numa zona de guerra.  Haja nervos, haja determinação, haja crença, haja tudo! De duas uma: ou a pessoa acomoda-se, anestesia-se ou rompe as barreiras do razoável, toma gosto pela coisa, como é o caso de nosso “locker”.

No mínimo um documento interessante de se ver.

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