Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

28

de
fevereiro

Excellence is not a skill. It is an attitude. Ralph Marston

É exatamente isso!  E foi o que vi na apresentação do grupo Gecko em O Capote (Sesi Paulista - http://www.sesisp.org.br/home/2006/news/news.asp?idn=1511) de N. Gógol (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Gogol).

De Gógol havia lido O Nariz (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/06/21/dedinho-de-prosa/), em excelente edição da CosacNaify), e O Inspetor Geral (*). Um escritor bem moderno (mordaz, crítico, observador, moralista, com preocupações religiosas) para sua época (primeira metade do século XIX).  E agora foi a vez de conhecer O Capote numa montagem mesmerizante.

Então vamos por partes:

  1. O teatro do SESI (Av. Paulista): fazia década ou mais que não ia ali. Esse negócio de distribuir ingressos gratuitos uma hora antes do espetáculo, por melhor que seja o espetáculo, não é comigo. A gente perde tempo, pode ficar numa fila sem sucesso, enfim…mas desta vez estavam vendendo para o sábado e domingo (atenção! o espetáculo só vai até 7/3). $10/inteira e $5/meia. O teatro é amplo, tem mais de 450 lugares, bem confortável, ótima disposição das cadeiras, uma trilha sonora durante a espera maravilhosa! A melhor dos últimos anos! Muito blues, soul, jazz…uma delícia ficar ali sentado esperando pelo espetáculo!  O atendimento na bilheteria é muito bom: rápido, cortês. Único senão: não têm uma tela para o espectador ver que lugares disponíveis. A bilheteira tem de olhar na tela dela e mostrar num mapa impresso!  Hello! Sesi! Como assim?  Já elogiei várias vezes as exposições montadas pelo SESI. Sempre pertinentes, agregam, bem montadas, espaço de boa qualidade (posts de 29/11 e 12/4/2009, e vários outros), então vamos lá, regularizar essa pequena falha! Ah, e tem programa gratuito de peça para quem quiser…Além de vender na bilheteria, vendem pela Ticket Master, mas é um absurdo! Além de não venderem 1/2 entrada por telefone, cobram $2 (20%!) pelo serviço e mais $ 8 de taxa de retirada!? Como assim, se eu é que retiro, ninguém retira para mim, já cobraram 20% só por ouvir minha voz, já que tudo está pré-pago com cartão de crédito?!  Um assalto!
  2. O enredo: um funcionário público que trabalha feito louco para comprar um casaco novo (o seu está em péssimas condições). Consegue, é roubado, tenta via autoridades reavê-lo, não consegue, morre de frio, passa a assombrar São Petersburgo.  Simples, né? Genial, eu diria.  Aqui está o link do conto em pdf (é de domínio público). É curto, uma dezena de páginas, então deem uma lidinha (http://www.ufrgs.br/proin/versao_2/capote/index.html).
  3. A peça: eu tenho muita estrada, já vi um monte de coisas distribuídas por um longo tempo, mas nunca vi nada igual ao que faz o Gecko, um grupo inglês, pela primeira vez no Brasil (http://www.sesisp.org.br/home/2006/news/news.asp?idn=1511).  A gente ouve 9 línguas (um dos atores - Rodrigo Matheus, convidado - fala português (há outro brasileiro mas ele substitui  Amit Lahav)), mas dá para entender tudo!  O ator oriental (nipônico) faz um kabuki rápido em um determinado momento da peça. Fantástico!  Há quem fale francês, espanhol, inglês…mas tudo bem, a gente entende tudo. Vejam a proposta do grupo (http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&langpair=en|pt&u=http://geckotheatre.com/).  Muito interessante, criativa, inédita! Você pode dizer, ah, mas e os mímicos?  Claro, tem algo parecido, mas não é isso não, é bem mais rico e complexo. E o Gecko captou plenamente o espírito revolucionário, inquietante, corajoso, irônico do conto de Gógol.  O atores, que também são cantores, bailarinos, contra-regras (eles é que movem objetos, partes do cenário - minimalista, mas muito inteligente e eficiente), voam pelo palco, cantam, dançam…e olhe que eles não têm o biotipo de acrobatas, mas fazem tudo com muita competência! Um relógio!  O brasileiro convidado está muito à vontade (http://www.circominimo.com.br/index.php?option=com_content&view=category&id=60&Itemid=52), tem formação circense, se dá bem expressivamente, o texto não exige muito, mas corporalmente ele dá um banho. Todos dão! Impressionante como correrias, movimentações rápidas pintam o quadro perfeito de um dia movimentado, do estresse da chegada ou saída do trabalho, da multidão; janelas abrindo e fechando, alternadamente, em ritmo frenético, dão a ideia perfeita de burocracia, não importa em que país.  Não são necessárias palavras (como mencionei o texto é curtíssimo, econômico, algumas frases ou palavras soltas), mas a gente entende tudo, sem esforço, e com maravilha!  A peça leva uma hora e vinte minutos e a gente não consegue desgrudar os ohos.  A montagem exige muito do espectador: atenção, conexão 100%, tal a agilidade, as imagens que conseguem criar com sequências mais que criativas.

Agora, outra coisa interessantíssima: a música e a iluminação não são coadjuvantes, são personagens como qualquer outro que está ali sobre o palco, desempenham papel tão importante quanto qualquer ator/atriz da peça.  A música é fantástica, a iluminação é vital!  Nessa dimensão eu jamais tinha visto algo assim.

Talvez você não goste do tema, afinal é crítico, angustiante, moralista, irônico, mas certamente, como eu, verá algo que não deve ter visto até hoje e será difícil rever a não ser que seja num  novo espetáculo do próprio Gecko ou algum genérico.

Ah, a imagem aí de cima é da última cena da peça!  Uma pintura! Dá para tocar a densidade, a dramaticidade do momento. Dá vontade de pendurar na parede.

(*) versão pdf O inspetor geral / http://veja.abril.com.br/livros_mais_vendidos/trechos/gogol.pdf

28

de
fevereiro

Guerra é guerra!

Guerra ao terror (http://www.imdb.com/title/tt0887912/) (finalmente um título em português que faz sentido!) é um filme de ação e de guerra (dãããã).  Não é o tipo de filme de que mais goste. Foi-se o tempo!  Eu adorava a série Combate (http://www.imdb.com/title/tt0887912/), que foi de 1962 a 1970, era em preto e branco, e passava na Record, se não me engano.  Não perdia um episódio!

Mas o tempo passou, meu coração abrandou, minha alma ficou mais pacífica, então deixei de apreciar filmes mais violentos, com matança, guerra, etc. Só vejo se tem algo de especial, que justifique. No caso de The Hurt Locker fui atraída pelo assunto atual (guerra EUAxIraque), pelas avaliações que li, e pelo que retrata: um técnico desarmador de bombas.  Só para esclarecer: hurt = 10. a blow that inflicts a wound; bodily injury or the cause of such injury.  11. injury, damage, or harm. (Random House Dic.).

Há alguns atores conhecidos que fazem pontinhas: Ralph Fiennes (é um mercenário e fornecedor de bens. Interessante!), David Morse, Evangeline Lilly.  Outros menos conhecidos (pelo menos para mim) dão conta das personagens principais: Jeremy Renenr (Sgt. james), o desativador de bombas, Anthony Mackie (Sgt. Snborn) e Brian Geraghty (Specialist Eldridge).

O filme é bem denso, tenso. Tem algumas coisas que a gente sabe que vão acontecer (eg. quando um dos oficiais pisa numa bomba em determinada cena - já estava mais que anunciado), e outras nem tanto (explosão mortal logo no início do filme).  Enfim, um filme bem interessante, que tem muitas cenas no mesmo estilo de nosso Tropa de Elite que é anterior (2007 enquanto este é de 2008): as correrias, incursões por becos, escombros, prisão de pessoas/terroristas, etc.

O interessante é ver que, mesmo os combatentes de uma potência como os EUA, que domina tecnologia, já fez a guerra,e ganhou, algumas vezes, investe, tem gente muito capacitada, acabam sendo lançados em algo que eles não conhecem plenamente, com muito improviso, pouco suporte efetivo (tem um robozinho para ajudar na desativação de bombas mas parece que mais atrapalha do que ajuda em determinadas situações). Dependem de intuição, de olho, de coragem, de sorte, e morrem aos montes!  Diante do que homens e mulheres (aliás não vi nenhuma e imaginava que elas já estariam nas frentes de batalha há tempos) veem nas batalhas não há como voltar para casa e levar uma vida normal. Não é à toa que isso gera um monte de desequilibrados, gente que não se enquadra de novo de jeito nenhum.  O pouco que a gente vê, e de longe, não deixa dúvida de que qualquer vida sai abalada de episódios como a guerra do Iraque, uma viagem sem volta.

Mas também é interessante que, em todo lugar em que há conflitos como esse, as pessoas arrumam um jeito de continuar, ou tentar, vivendo, de restabelecer suas rotinas. No post de 19/5/2009, comentei o filme Alexandra (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/05/19/um-pouco-de-tudoo-retorno/) que trata da guerra da Chechênia, e ali escrevi: “As tristezas, misérias, desencantos, tristezas acontecem dos dois lados, é isso que vemos, i.e., tanto do lado russo quanto do checheno é tudo igual!  E a destruição dos dominados, de suas cidades?! Que coisa pavorosa!!!  Mas interessante: mesmo inimigos têm de conviver para ter algum horizonte, alguma chance de futuro.”  O que Guerra ao Terror mostra é exatamente isso: perdas dos dois lados, cidades em escombros, locais vendo os invasores como inimigos mortais e tentando destruí-los do jeito que der, mas de alguma forma há uma convivência, e a vida continua.

Agora, a abordagem dos americanos é alguma coisa! Primeiramente poucos falam a língua local (lembro-me que para a guerra do Vietnã prepararam muito os militares para falar e entender a língua dos inimigos); colocam várias vezes suas vidas em risco por receio de atirar e estar fazendo a coisa errada, ficam nervosos, parece operação policial aqui da terrinha. E como são educadinhos entre eles e com os inimigos!  Aquele pessoal de Guantánamo deve ser exceção! Será?!

Ser um nine to five militar não é fácil numa zona de guerra.  Haja nervos, haja determinação, haja crença, haja tudo! De duas uma: ou a pessoa acomoda-se, anestesia-se ou rompe as barreiras do razoável, toma gosto pela coisa, como é o caso de nosso “locker”.

No mínimo um documento interessante de se ver.

27

de
fevereiro

Inspira, expira, inspira, expira…

Conforme informei no post de 17/2/2010, a Restaurant Week vai começar (1/3 a 14/3/2010).  Já fui em outras versões da RW, mas só para lembrar (posts de 31/8 a 26/9/2009): apesar de alguns poucos restaurantes, por visão limitada de seus proprietários ou administradores, não primarem por um bom cardápio em termos de qualidade e variedade, no quesito serviços quase 100% foi de medíocre a ruim.  E desta vez não creio que será diferente.

Relato alguns fatos que me aconteceram hoje para que entendam a dimensão do que nos espera:

  • depois de uma proveitosa passagem pela Benedito Calixto, resolvi comer empanadas no El Guatón (acho que não está na RW, mas serve como exemplo). Um restaurante que tem empanadas fantásticas e um ceviche muito bom. Das outras vezes em que estive no restaurante, sempre tive um excelente atendimento garantido pela presença do dono e seus filhos, parentes, agregados, enfim…Hoje cheguei ali às 12h.  Estavam terminando de arrumar o restaurante. Gente, isto aqui não é BAires, onde tradicionalmente se come bem tarde, aquilo é uma casa de pratos e salgados, portanto as pessoas podem querer sentar-se ali, degustar sua empanada com alguma bebida e depois almoçar, portanto, 12h é mais que razoável. Além do que a casa estava com as portas abertas! Apareceram dois empregados (um rapaz mulato e uma moça mulata).  Perguntei se a casa já estava aberta mesmo. Resposta: Quase. O rapaz (que me deu a resposta) virou-se para a outra funcionária e perguntou se estavam abertos (!!!). Ela fez um bico que bateu no chão. Bom, não tive dúvida: mesmo que esteja aberto, com tanta boa vontade, aqui não como! E saí.  Nem fizeram menção de desculpas, resolver a situação. Continuaram em sua tarefinha limitada de arrumar as mesas. Como dizia sabiamente minha mãe: o olho do dono engorda o gado, se ele enxerga, senão…E o pessoal do El Guatón precisa abrir o olho. Claro que não serão minhas empanadas que farão a diferença no caixa, mas sei lá se são só as minhas;
  • aí pensei em ir ao Casinha de Monet. 12h10 e completamente fechado. Mas o horário anunciado é 12h30. Paciência;
  • então vamos para o Goa.  Menu completo (entrada:sopa ou salada + prato principal: fiquei com a feijoada veg + sobremesa: bolo de cenoura com ganache ou brownie de maçã) = $26,00. Preço bem razoável, ambiente legalzinho, mas o serviço…A última vez que estive no restaurante foi em 15/5/2009, para um Blind Dinner.  Aí a coisa foi diferente, pois a organização ficou por conta do pessoal do jantar às escuras.  Hoje a coisa foi assim: restaurante praticamente vazio (era cedo), duas pessoas na entrada (garçom / garçonete). Sentei-me, vi o cardápio.  Quase 10 minutos e nada. Havia uma rodinha bem no meio do restaurante, em alegre bate-papo.  Moças e rapazes.  Uma alegria só! Acho isso lindo, se eles não estivessem ali para trabalhar! Em dado momento, um rapaz captou meu olhar enfurecido e foi à mesa pegar meu pedido.  Não quis a entrada, só a feijoada e a sobremesa. Ah, sim, e um suco que estava pra lá de aguado (manga com mamão).Só um esclarecimento: perto de onde trabalho existe um restaurante que se chama Mussy Mussy.  Os sucos dali também são assim: combinações diferentes, inusitadas.  O suco do Mussy Mussy dá de 10 a 0 no do Goa e é bem mais barato. Bom, voltando: antes de escolher a sobremesa, perguntei ao garçom como era o tal brownie de maçã. Resposta: não sei, mas já vou descobrir! Hein????? Eu disse: não precisa, traz o bolo mesmo. E vocês pensam que o garoto, até para poder informar a outros clientes, foi verificar? Nada…menos trabalho, melhor!  Bem, o almoço esteve bem. Não é o tipo de comida de que gosto, mas não comprometeu, e pelo preço…Enquanto esperava o bolo e o café, ouvi o garçom dizendo na boqueta da cozinha: um bolo de cenoura. Aí, outra garçonete disse: mas hoje não tem bolo! Ao que o garçom da minha mesa disse: tem sim, é este com ganache. E a garçonete: aaaah, isso é que o ganache?  Gente…eu não tinha bebido, essa conversa toda aconteceu de fato entre pessoas que trabalham nesse restaurante! Eles não sabem o que servem, não sabem com o que se parecem os pratos, então, ojo! Porque se você for lá pode comer gato por lebre, aliás, feijão por grão-de-bico, ou algo assim.  E enquanto o bolo não vinha mais conversa animada entre três ou quatro pretensos trabalhadores: comentários em voz alta, observações nada a ver e que não interessam a ninguém. Até que uma garçonete escova os dentes eu sei, pois ela anunciou em alto e bom som: vou escovar meus dentes. Bom menos mal, eu poderia ter ouvido outras intimidades…Gente, compostura, profissionalismo, não adianta fazer caras e bocas de moderno, se não se tem a civilidade básica!  Em outros países, em geral, os prestadores de serviços de locais semelhantes limitam-se a fazer seu trabalho e bem. Não estão ali para socializar ou ser amigos dos clientes, estão ali para produzir. First things first: primeiro fazer um bom trabalho, depois, talvez, criar algum vínculo. O gente incivilizada, com verniz craquelado de modernidade!
  • Mais tarde fui à Paulista para ver um filminho e resolvi tomar café no Viena Café do Conjunto Nacional. Susto: uma fila de 7 pessoas no caixa! Como assiiiiiimmmm!!!! É café, salgadinho, balinha, nada muito complexo, tudo computadorizado, ie, até o troco a máquina calcula, então como se forma uma fila de 7 pessoas, e que não anda?!  Mais: atrás do balcão que providencia o café, salgadinho, água, etc., 3, sim, 3 moças…e mesmo assim a coisa demora. De novo: lá fora (e olha que eu já passei por restaurante, lanchonete, bar, etc., em outros lugares) uma pessoa só, uminha, faria o que as 3 não conseguiam fazer direito.  Realmente temos um problema! E esse problema não é de educação formal apenas (isso agrega), mas de competência mesmo: essa gente é completamente incapaz, improdutiva, irracional, e, infelizmente, remédio para isso só daqui a século.

Como viram, vai ser preciso paciência…foquem no alimento, no sabor, porque no serviço não vai dar…

Boa Restaurant Week pra todos!

24

de
fevereiro

Ame-os ou deixe-os

Com os irmãos Coen (http://pt.wikipedia.org/wiki/Joel_e_Ethan_Coen) é assim mesmo.  Pessoalmente, gosto muito deles, acompanho-os há anos (post de 29/11/2008) e cada filme é  muuitoo diferente.  Os filmes sempre têm sua marca, que, francamente, não sei exatamente qual é.  Para mim é uma mistura de inusitado, criatividade, crítica, humor sardônico, boa música, tipos americanos inquestionáveis, e por aí vai.  O fato é que quando vou ver um filme dos Coens sempre penso: aaah, o que pode ter de novo neste aqui? Nadaaa!  Certeza que vai ser um déjà vu…Mas sempre a surpresa!  É o diferente do diferente…

E eles dirigem e escrevem…barbaridade!

Aliás, neste filme, A serious man (http://www.imdb.com/title/tt1019452/), no início tive a sensação mais inusitada de minha vida de cinemaníaca: achei que estava no filme errado!  Foi muito interessante e divertido!  E não era um teaser de outro filme, não, era o próprio…

Os Coens trataram de suas origens judias.  Há trechos em hebraico que não são traduzidos para o inglês,  e,portanto, nem para o português. Mas acho que só agrega ao clima de religiosidade, tradição, etc.  A base é o livro de Jó (http://pt.wikipedia.org/wiki/Livro_de_J%C3%B3).  Éééé, o embate entre bem e mal (Deus e o demônio), é tremendo!  Coitadinho do Larry Gopnik, personagem principal! Tem horas que dá um cansaço na gente, a gente até para de torcer por ele, tanto é o conformismo, a falta de percepção do que está à volta.  O homem é o modelo acabado de “vou deixar a vida me levar”…Ele não é sério, ele é entorpecido. Apesar de ter convicções formais muito firmes sobre várias coisas da vida, comunidade, seu papel na família, como profissional, não passa disso. Ele não tem estofo, é o que fizeram dele: um homem dos anos 60, classe média americana, numa cidadezinha de Minnesota, lutando com a vida, entre o bem e o mal, sem tempo para viver de fato, get a life!  Poor thing!

Bem, além de Michael Stuhlbarg (LGopnik), que já vi atuar em outros filmes sobretudo em tv (séries Damages, Law and Order), e Richard Kind (também em séries de tv), não conheço nenhum dos outros atores.  Interessante ver que são, em sua esmagadora maioria, judeus mesmo (nome, nariz, peitos e nádegas para as mulheres).

O filme não tem ação, a não ser um ou outro incidente, daqueles que acontecem todos os dias.  Foca mesmo é no ser humano, na comunidade, crítica e mostra ou mostra e crítica.  Os Coens adoram fazer cinema, e fazem o que gostam, do jeito que gostam. Bilheteria e aprovação (ou não) é só consequência.  A valorização de cada personagem e os detalhes  são o que conta. Judeu ou não-judeu, dá para entender o filme, a sátira - todo mundo é mais ou menos o que está ali, em maior ou menor grau, as dúvidas, surpresas, ações ou inércias.  Todo mundo conhece um Larry na vida. Eu conheço pelo menos uma pessoa assim: a vida não é dela, é dos outros e o que os outros ou o mundo deixarem que ela seja. Mais que triste, muito chaatooo! E como se vitimiza…muita gente acaba ficando com dó. É o padrão.

A trilha sonora é legal. Jefferson Airplane com Somebody to love e Give it to me: uma delícia e fazem toda a diferença! No mais, composições de Carter Burwell (músicas também em Queime antes de ler, Being John Malkovitch, Where the wild things are, etc., etc. / http://www.carterburwell.com/main/home.shtml).

É sobretudo um filme de perspectivas!  Várias cenas nos levam a isso. Não é para entender simplesmente, é para olhar por vários lados.  A verdade tem 3 lados, lembram-se?

Uma das cenas mais hilariantes, e, por que não, representativas do filme, é o caso dos dentes do não-judeu (the goy’s teeth). Não é para gargalhar, mas não dá para não rir das personagens, das convenções, de nossa suposta racionalidade e inteligência, do mundo…de todos nós.

23

de
fevereiro

Ervas chatinhas

Meses querendo ver este filme.  Abdiquei dos irmãos Cohen (vou ver nesta semana, sem falta!) para ver Ervas Daninhas (Herbes Folles - http://www.imdb.com/title/tt1156143/ ).  O filme passou no Reserva (não sei se está lá ainda), e está no HSBC, e acho que só. Então lá vou eu assistir ao filme antes que saia de cartaz.  E olha que a sala estava com 1/3 de lotação. Para um filme francês, final de semana, primeira sessão, está bom de mais!

Agora, de duas uma: ou “fous” estávamos nós, espectadores, ou o diretor, atores, etc.

Além de um filme ruim demais (de novo: a ideia é boa, mas não tem delivery), direção tateante - e olha que é do Alain Resnai, hein? Não que eu adooreee o diretor, mas ele tem estrada, 40 anos de cinema…-, atores de qualidade num imbroglio desqualificado.  Há momentos em que a gente até ri, mas de nervoso, podem estar certos.

Fui ver por causa da sinopse. Como disse, a história até tem mérito se bem aproveitada, foge do comum: de novo o filme dentro do filme, ou a ficção dentro da ficção.  Uma mulher tem a carteira roubada, quem a encontra (um homem de uns 60 anos) além de devolver a carteira começa a assediá-la, ela vai até a polícia; depois de um certo tempo, ela é que quer manter contato com o tal homem, fica até amiga da mulher dele.  O final fica por conta de cada espectador.  Percebi que a plateia não gostou do filme e menos ainda do final.  Na verdade, acho que o início e o final são as melhores coisas do filme.

A fotografia é mais ou menos, a trilha sonora idem.

Além do Mathieu Amalric (http://www.imdb.com/name/nm0023832/), de quem gosto incondicionalmente - mesmo num papel secundário, é uma das melhores coisas do filme, da Emmanuelle Devos (fez Coco avant Chanel - post de 3/11/2009), tenho certeza de ter visto os dois atores principais em outros filmes, mas não me lembro de jeito nenhum em quais.  Até dei uma olhada na filmografia de ambos, mas não identifico o filme. De qualquer forma, a impressão que eu já tinha da Sabine Azéma (Marguerite Muir) é a mesma, não gosto dela, mas ela é bem premiada na França.  Quanto ao André Dussollier (fez o narrador em Amélie Poulain, mas não é de lá que lembro, com certeza), até que gosto, ou essa era minha sensação.

Bom, só se você usar muita erva para ver esse filme, senão não vai dar, não!

Esse é o tal tipo de obra elogiadíssima, que na verdade ninguém entendeu direito, então ficam com vergonha de desancar. Melhor elogiar e fazer “mine” de inteligente!  Como sempre digo: se é hermético demais, se plasticamente não agrada de imediato, se tem mais coisas escondidas que reveladas, tem de explicar muito, então guarde no cofre, em casa, para os amigos, família, etc., ou para si mesmo.  Isso não é arte é “desvio de personalidade”!

Ah, mesmo querendo tornar minha vida mais difícil, a metáfora “ervas daninhas” é tão óbvia quanto ao que acontece na tela, que parece coisa de criança. Ooooh, coisa pobrinha!

22

de
fevereiro

Uma surpresa: eu sou muitas pessoas! Todos somos!

Ontem, não sei por que, quando estava arrumando uns documentos, fui rever meu diário (resolvei ter um há vários ano, mas muito depois da idade em que as pessoas se propõem a isso-adolescência, pós-alolescência).  Na verdade não é bem um diário. Vou escrevendo quando dá vontade. Às vezes escrevo dias seguidos, depois de uma semana, um mês. Já cheguei a deixar de escrever durante dois meses.

A verdade é que cada um tem uma forma de fazer sua catarse. Repensar, olhar de longe, processar, mudar. eu escrevo.

Já fiz mais isso, mas acho que a idade, o olhar atento para fatos e pessoas - afinal eu aprendi com o que vivi (tem gente que não aprende nunca, mas não é, felizmente, o meu caso), deu-me tranquilidade ao mudar o foco, o prumo. Mudar hoje requer menos energia, menos “explicações”, justificativas, ou seja, não preciso me desculpar frente ao mundo ou a mim mesma por deixar de me interessar por alguma coisa, por alguém, ou simplesmente mudar meu conceito sobre uma pessoa ou um fato.  A gente muda, a gente aprende, a gente precisa do mobilismo para não petrificar.

Além disso, tudo a nossa volta também muda!  Hoje um amigo diz que gosta disso, amanhã diz que não gosta; hoje diz que não precisa de alguma coisa, e amanhã diz que não vive sem.  Fui eu que mudei?  Hoje o ideário é o da tecnologia máxima, amanhã é o da volta às raízes, à simplicidade.  Fui eu que mudei?  E o mundo que endeusava o fast food, agora quer de volta a slow food, e por aí vai. E se não me adaptar como faço?  E essa adaptação implica mudanças internas, eu tenho de processar, de raciocinar, de decidir de que lado fico. E tenho minhas próprias mudanças de eixo para tornar o caminho mais tranquilo, mais conveniente, a vida mais produtiva, alegre.

Lendo minhas anotações de um mês, de seis meses, de dois anos atrás “descubro” como eu era diferente! Como via pessoas de outro jeito, conceitos eram muito diferentes!  É tudo muito estranho! Pessoas que eu julgava indispensáveis, tornaram-me mais que dispensáveis, indesejadas até.  Pessoas que eu não julgava tão importantes, passaram a ser vitais.  E em um tempo tão curto!  Um ano, dois, três no máximo!  Às vezes com um intervalo de meses a avaliação mudou de adoro para não suporto, ótima companhia para chatíssimo, sintonia perfeita para não entendo nada nem quero entender… Claro que há personalidades mais tranquilas, acomodadas, que se comparam a um lago, enquanto outras (acho que a minha) se compara às vezes a uma corredeira.  Como digo sempre: não está certo nem errado, são só jeitos de ser e ponto.

Num primeiro momento é um tanto angustiante não me reconhecer no que escrevi - aliás, a minha própria teoria é que uma vez escrito não se deve reler. Afinal não é obra literária, são confissões profundas, inenarráveis muitas vezes.  Esse tipo de releitura mostra muitas vezes como somos feios em alguns momentos, feios de coração, feios como críticos, como avaliadores, mesquinhos, isso se formos sinceros e tivermos coragem de ler os relatos com mente tão limpa e virgem quanto possível.  Dá-nos a dimensão de nossa pequenez, imperfeição, e dá uma sacudidela que nos põe no devido lugar (por pouco tempo, às vezes, mas não deixa de ser muito importante assim mesmo).  Aí vem uma lembrança, outra, e a mudança acaba se justificando, atenuada, ou melhor, torna-se compreensível.

Se fosse um daqueles joguinhos de definir  personalidade, uma pessoa, acho que, sendo eu mesma a pessoa a ser definida por mim, erraria quase tudo e me surpreenderia com os resultados.

O distanciamenteo também nos desperta, clareia as ideias. Relendo algumas coisas, penso: como é que cheguei lá? como é que não vi coisas tão óbvias? como é que não dei um basta e teimei tolamente? como é que não vi que não valia a pena?  E justificada por tanta documentação, eu respiro aliviada: acabou! já foi tarde!  É corrigir a rota e começar de novo!  Que bom!

A perspectiva de me ler é algo interessantíssimo! Vamos ver  no que vai resultar a releitura daqui a algum tempo.

21

de
fevereiro

Abriu, então vamos lá! (p401)

Um restaurante novinho em folha: Diner 210!  Encaminho link do blog da A. Forbes que está em interessante (http://viajeaqui.abril.com.br/blog/boa-vida/diner-210-do-chef-benny-novak-ja-esta-aberto/), afinal não há por que reinventar a roda. Se já há informações boas sobre o lugar, vamos aproveitar.

O restaurante fica bem na esquina da Pará com a Angélica, em frente à lateral da Panamericana.  Verifique horários. Aos domingos só abre das 19h30 às 23h30.  O atendimento, tanto por telefone quanto pessoalmente, é muito cortês, atencioso (milagreeee!).  Só tem banheiro para deficientes no térreo, os normais ficam no andar de cima.  Chegamos lá às 20h e já estava bem cheio. Colocaram-nos numa mesa “comunitária”, ie, mesa para 12 pessoas em que já havia 4 e nós éramos 8, então deu certinho.  Não é inconveniente, só diferente.  O cardápio é interessante, mas os preços são bem altos (qualquer sanduba/burguer sai de $ 32 a 46 dependendo dos componentes). Pediram o burguer tradicional com queijo, o piggie burger, o de frango, e eu fui de eggs benedict (já comi bem melhores).  Os burguers estavam bons segundo os comensais.  As batatas estavam sequinhas e saborosas, e os onion rings são finíssimos, crocantes, uma delícia!

Pouca opção de sucos, algumas cervejas (e.g., SArtois, Guinness).  As sobremesas também estavam muito boas. Eu queria panqueca,  mas “estava em falta” (é brinca, ou quer mais?).  Ficamos com o red velvet cake (um sabor meio indefinido, sem ser enjoativo, numa cor linda (massa vermelhona), um pedaço imenso) e devil’s food cake (bolo de chocolate, com calda de chocolate e uma bola de sorvete - enorme!  Gostoso, mas podiam oferecer dois tamanhos, tipo 1/2 porção.  O full size ficaria para quem vai lá para comer os bolos e tomar alguma coisa).

A conta bateu em $ 67/pessoa, caro para o que comemos.

O ambiente é bonito, bem bacaninha, bem pensado, com boa música (um pouco alta demais). Estava bem cheio até irmos embora (22h30 aproximadamente).  Vai bombar, com certeza!

20

de
fevereiro

Parece que foi ontem!

400 posts!  400 posts!  400! Nem eu acredito!  Emocionante….Eram 300 em 4/10/2009 (http://mskeller.blog.terra.com.br/2009/10/04/nem-eu-acreditava/)…que coisa!

Bom, vamos ao que interessa! Mais um post então, com muita vontade de opinar, informar, divertir alguém aí do outro lado (eu mesma adoro isso aqui!).

E hoje foi dia de jornada tripla!

Primeiramente An Education (Educação).  Semana passada saiu na Veja uma entrevista com o autor consagrado e roteirista deste filme Nick Hornby (http://veja.abril.com.br/170210/pensador-pop-p-013.shtml), caso tenham curiosidade sobre algumas de suas posições, conceitos, ideias.  O filme retrata o começo dos anos 60 na Inglaterra. Uma colegial, a caminho da universidade, deixa-se seduzir por uma série de fantasias criadas por um homem mais velho, muito convincente.  Carey Mulligan (parecidíssima em algumas caras e bocas com Sally Field) está ótima! Muito bons também estão Alfred Molina e Cara Seymour como pais de Jenny (Mulligan).  Middle class inglesa, daquela mais bitolada, com medo da vida na verdade, preocupadíssima com cada centavo, chegando às raias da mesquinhez.  Há humor, aventura e desventuras também, claro! Peter Sarsgaard engana todos, inclusive a gente…mas que enganador simpatiquinho!  E Dominic Cooper = Danny, então? Quequiéisso…Maravilha!  Até Sally Hawkins (post de 5/4/2009) aparece numa ponta e dá o recado. Enfim, o elenco está muito afinado. A fotografia é linda; o guarda-roupa está caprichado; ambientação de época, tudo muito certinho! Tem até Emma Thompson em umas pontinhas (grandiosa).

O filme retrata o “carrefour” em que estavam as mulheres: algumas seguindo carreiras, em sua maioria carreiras um tanto “boring”, sem perspectivas, pelo menos aparentemente, outras, talvez a maioria, ainda com a mentalidade de casar e….Como é dito no filme: I had a life before marrying you, mas depois… e por aí vai.  Um momento difícil (eu tinha 6 anos na época, então, quando cheguei na fase de ver o que fazer da vida, que rumos seguir, o caminho já estava bem pavimentado por minhas antecessoras. Obrigada!), mas que as mulheres souberam resolver com ilusões e desilusões, e começaram a crescer para valer, mesmo sem a ajuda do time adversário, quero dizer, masculino.  Para o que se passa na tela, até que os conflitos familiares entre Jenny e os pais são mínimos, há muito diálogo, mesmo considerando o pai crica, e há muito suporte da família quando a menina precisa.   Um despertar pela vida que não é tão cruel quanto poderia ser ou parece, felizmente!  A trilha musical é ótima (tem muita canção francesa, eg Juliette Greco, e outras de época bem legais, além de clássicos).

A discussão que me parece mais interessante é sobre a educação formal. Hoje, a educação escolar que está por aí é muito menos formal, mais pela baixa qualidade dos professores, instituições educacionais e dos próprios alunos, do que pela comprovação de que ela é melhor. Na verdade, é fazer o que dá com o que se tem, e para isso não há “turning point’, portanto gerações perdidas estão perdidas e ponto, para infelicidade do mundo. Escrevam o que eu digo…

Em segundo lugar, mas em primeiro  na minha preferência, The lovely bones (http://www.imdb.com/title/tt0380510/), cujo título local só forças ocultas podem justificar:Um olhar do paraíso. Mas deixa pra lá…

Li em algum lugar, talvez Veja, uma crítica não muito favorável ao filme.   Não li o livro que serviu de base para o filme (quando posso, gosto de ler e depois ver o filme, mas não dá para fazer isso com todos, infelizmente).  Muitas vezes, mesmo sendo linguagens ou ambientes ou mídias, ou sei-lá-o-quê diferentes, em geral, o livro é melhor, ou acho isso pelo menos.  Não sei se acontece isso neste caso também, mas o fato é que o filme é um bom thriller acima de tudo.  Mesmo com a abordagem da vida após a morte de uma forma muito plástica, bonita, sem pieguice, o que vale é o suspense, é a história por trás da morte, da mediunidade, do espiritualismo. Há momentos de perder o fôlego, tal a intensidade do suspense.

Atores/atrizes, sem exceção, ótimos: Raquel Weisz (marvellous!), Mark Wahlberg (fantástico!), Stanley Tucci (desbundante!), Susan Sarandon (inenarrável!), Reece Ritchie (gracinha!), Rose McIver (surpreendente!), e por aí vai (na verdade paro por aqui porque se acabaram meus adjetivos impactantes). Um filme cativante até o último minuto! Ah, e a parte gráfica é muito interessante também!

Ah, sim, Saoirce Ronan, que agora é quase uma  mulher, está lindíssima e também merece aplausos.

Last but not least: Entrecordas.  Pensei em ver o grupo Ares quando se apresentou no SESC Pinheiros há umas 3 semanas. Mas o espetáculo seria às 16h, ao ar livre, e estávamos no meio daquelas chuvas diárias e pavorosas, pesadíssimas. No dia, desisti, pois tinha certeza de que perderia a viagem.

Uns dias depois vi que o grupo se apresentaria com o espetáculo Entrecordas (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=166329) no SESC Santana, então lá fui eu.  O espetáculo, realizado na piscina do SESC, é muito bonito! Plasticamente, tecnicamente.  Há música ao vivo, um dj, projeções, e os acrobatas são maravilhosos. Por meio de um amigo, soube que ensaiaram o espetáculo a partir de novembro (pouquíssimo tempo, portanto), mas a performance dos 5 acrobatas foi perfeita, aliás digna de estar nos melhores palcos.  Muita coordenação, timing perfeito, força aliada a graça, leveza, realmente impressionante!  Sem dúvida, com uma produção mais esmerada, mais investimento, poderiam fazer um espetáculo dos sonhos, já que têm o talento e competência técnica individual, mas enquanto isso não vem, nota 10 para todos que participaram do espetáculo. Merecem ser aplaudidos de pé tal a qualidade do que apresentaram à plateia! O espetáculo vai até 28/2. Se puder ir, não perca!

E já, já, post 401…

19

de
fevereiro

Ok, já fui ali e destilei um pouco de meu fel…

Retomando: como já estava naquela lonjura (moro em Pinheiros, fui de ônibus, que demora pra caramba), fui até o MAM para ver o que havia e aproveitar a ida. Não era essa minha intenção,  pois tinha compromisso para almoço, mas para aplacar a fúria com a natureza humana, nada como um pouco de arte para acalmar o espírito.

Gosto bastante do MAM e, sempre que posso, visito suas exposições.Havia duas: Dez anos do Núcleo Contemporâneo e Desfazer o espaço / Gordon Matta-Clark.  As duas modernas demais para mim. A mais interessante a de Matta-Clark, até pelo conceito da anarcoarquitetura.  Suas intervenções e a crença em seu trabalho como modificador são no mínimo intrigantes.  Mas eu não deixaria o artista com um martelo ou serrote sozinho na minha casa, não! Brincadeira! A coragem das obras é comovente.

Bem, quando estava na sala dos Dez anos, vi uma montagem feita de papel no chão. Vejam em o museu já tinha aberto havia algum tempo, portanto se era para aquilo estar montado já deveriam, concordam? Desde a abertura do museu.  Perguntei ao segurança (há um para cada visitante praticamente!) o que era aquilo, se eral algo interativo. Ao que ele me respondeu: Ah, é um balão. É só ligar o ventilador na tomada (havia dois com um emaranhado de fios) e em cinco minutos está pronto. Quando olhei para a parafernália, pensei: Nãããooo, não pode ser!  Diante do disparate da coisa, continuei pela exposição, ignorando a resposta.  Não deu dois minutos aparece um funcionário do museu com a observação: Bom, vamos montar a coisa. Nem sei para quê, não tem ninguém para ver…Ao que o segurança, sardonicamente responde: É tem só aquela mulher (eu…).  Tudo isso em voz alta, sem vergonha de ser feliz.

Terminei de ver essa mostra, que nem era tão interessante, e fui para a do Matta-Clark.  Mais curiosa, pelo menos. De novo, um segurança para cada visitante, e com essa falta de treinamento, descompostura, sem entender o que estão fazendo e que ambiente é aquele. Não dava para aplicar melhor o dinheiro? Um monte de câmeras com um CIA, FBI ou Mossad bem treinado dava conta do recado, consumiria menos seguramente, e a coisa ficaria menos ostensiva.

Bem terminei tudo em meia hora e fui tomar um café (gosto muito da cafeteria e restaurante dali, mas era cedo, eu tinha almoço com uma amiga, então só um café com algo para mastigar bem rapidinho).  Bem eram aproximadamente 11h30 (eu almoçaria umas 13h30), então pedi um café e um pãozinho ou bolinho de queijo que têm ali e é uma delícia. Resposta da atendente, com a cara mais blasé do mundo: Infelizmente o fornecedor não entregou, enão temos nada para oferecer.  Como assiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmm???????  Para que abriu a porta então?  Se não tem cão caça com gato…não tinha ninguém para ir buscar alguma coisa em algum lugar para os clientes?  O jeito foi tomar um café e uma água. Vejam bem, literalmente eles não tinham nada, absolutamente nada, a não ser um punhado de goiabinhas (que são uma delícia também) e uns restos de um bolo!  Verdade que o público talvez fosse pequeno nesse dia, menor que em outros, mas e daí?  É obrigação do comerciante estar pronto a atender o cliente no que se propõe ou então baixe a porta!

Bem, faminta de inteligência, compostura, compromisso, proatividade, profissionalismo, eficiência, fui-me embora, com a violinha no saco, que era o que me restava.

Agora me digam, isso é viver com emoção ou não é?  Antes de ter dito sim eu deveria ter perguntando: quanta emoção? de que qualidade? Não, não, acho que ainda estaria lá com os anjinhos tocando minha harpa.

Ah, e o tal balão é essa obra aí em cima que se chama Templo, é de Franklin Cassaro, data de 2000. Feita de folhas de jornal, cola, fita adesiva, ventiladores. Na minha opinião, o que havia de mais interessante na mostra dos Dez anos. Na saída vi a obra inflada, então deu para ter uma boa ideia. E dizer que passou por um balãozinho…

19

de
fevereiro

Eu sou dura na queda, mas nem tanto…

Viver no Brasil é um desafio. Acho que quando eu estava para habitar este corpinho gordinho perguntaram-me (e eu não entendi a pergunta, com certeza): vida com emoção ou sem emoção?  E eu, achando-me espertíssima, respondi: com emoção, claaarooo!

E deu nisso: Brazil, here I am!

Dizem que há muitos suicídios no Japão, Suíça, Finlândia, Noruega. Mesmo com problemas - sempre os há-, pode-se dizer que são ilhas de prosperidade, de qualidade de vida, de segurança, em todos os sentidos, enfim…não têm ondas, mas marolinhas. Será falta de emoção que provoca as mortes? Possível!

Bem, considerando que não há “turning back”, vamos ser “bravos, fortes, filhos do norte” como diria Gonçaves Dias.

Moro na maior cidade do país, da América do Sul, supostamente com acesso à melhor educação, maiores recursos materiais e financeiros, com muito do que há de ponta no país, boa estrutura, enfim, comparada ao restante do país, a “menos ruim” de longe, mas mesmo assim é duro!  Já relatei em posts anteriores (17/9/2009, 5/10/2009, 5/12/2009, 6/12/2009…), algumas desventuras causadas por ineptos e inaptos em vários níveis.  Nesta semana tive várias ocorrências novamente, que por estarem tão concentradas, obrigam-me a desabafar.

Recebo regularmente informativo do Auditório Ibirapuera sobre a programação.  O Auditório é um espaço muito bom (post de 15/11/2009 e 19/10/2009), com atendimento bastante razoável, facilidade de compra de ingressos, programação interessante.  Na sexta-feira, pré-Carnaval, dia 12 - esta data é importante, então guarde aí -  telefonei para verificar se estariam funcionando durante o Carnaval para venda de entradas e se já estavam vendendo para o Zimbo Trio, em meados de março, e a resposta foi: sim+sim.  Então lá fui para o Ibirapuera na quarta de cinza, pela manhã, só para comprar os tais ingressos.  Estou ali, na bilheteria, já com os locais escolhidos e a moça que me atendia começou a clicar, e a fazer caretas. Então pensei: oh,oh…E ela pergunta a outra mocinha da bilheteria alguma coisa. Aí me diz: as vendas para o ZT estão suspensas e não há nova data prevista.  Minha pergunta “genante”: mas foi cancelado agora, ontem? quando?  Aaah, não sei…

Aí pergunto sobre um espetáculo gratuito, do Coro Luther King, em 13 de março: se distribuirão ingressos antecipadamente, ou qual será o esquema. De novo: vivo numa cidade supostamente a caminho do desenvolvimento, que já abrigou vários shows estelares, grandes, megas, o espetáculo seria no foyer do teatro, portanto com capacidade reduzidíssima, num sábado, com sol brilhando provavelmente, às 19h, com zilhões de pessoas pelo parque.  Resposta: a senhora tem de chegar pelo menos uma hora antes para assistir ao espetáculo. Minha segunda pergunta “genante” do dia: chegando uma hora antes eu assisto então?  Tipo, vocês garantem?  Senão por que eu ficaria uma hora ou mais, no tempo, numa fila, já que só se eu estivesse entre a primeira centena de “filantes” eu teria certeza de poder assistir ao espetáculo. Resposta (e sem ficar vermelha…): fica a critério da senhora, não dá para saber se a senhora vai entrar de fato, mas tem de estar aqui pelo menos uma hora antes.  Como assim????  E, pasmem, haverá o mesmo espetáculo amanhã, dia 20. Será o primeiro da série “no foyer”, então como sabem que uma hora é o necessário para se assistir ao espetáculo. Para, para, para, para…já estou ficando tonta!

Bem, considerando que o Auditório lida com cultura, está aí para subir o nível da arraia miúda (nós), cheguei em casa e mandei ver: internet, reclamação.

À questão da suspensão da venda de ingressos, recebi a seguinte resposta (segundo um amigo: pelo menos responderam…):

Boa Tarde Miriam,

Desculpe pelo transtorno.

Nós recebemos o comunicado da produção do Zimbo Trio (http://www.zimbotrio.com.br/) na quinta-feira (dia 11) nos avisando que o Rubinho, um dos integrantes do Zimbo, encontra-se hospitalizado, sem previsão de retorno aos palcos. Não nos forneceram mais detalhes sobre.

Automaticamente suspendemos as vendas. Isso será comunicado hoje, no nosso e-mail semanal (soltamos nas segundas, devido ao feriado, dispararemos hj).

Agradeço a compreensão.

Abraços e boa semana,

É uma coisa de louco ou não? Ou seja, quando telefonei no dia 12, o Auditório já estava ciente da suspensão do espetáculo.  Da mesma forma que disparam newsletters com a programação, poderiam ter disparado uma nota sobre o cancelamento de imediato. Isso se chama competência, proatividade, compromisso, um mínimo de raciocínio lógico, e mais uma série de coisas que bons profissionais têm, os não tão bons não.  Aliás, nem a bilheteria de fato sabia do caso e deveria ter sido informada de imediato, e eu teria a informação correta quando liguei no dia 12. Ou seja, displicência total com o público!  Falta de processos e procedimentos claros de atuação que privilegiem a qualidade de atendimento, de prestação de serviços.

Quanto ao espetáculo gratuito, obviamente não recebi nem receberei qualquer retorno.  Fica esse processo burro, incoerente, improdutivo, sacrificante, sem nenhuma necessidade. Eu mesma dei algumas sugestões, já utilizadas por exemplo pelo SESC para espetáculos gratuito, sem nenhum atropelo, problema, dificuldade. A questão é: o espetáculo será para poucos? Sim, será, e não será o tormento de ficar em uma fila por hora ou horas que vai mudar a questão. Deu para perceber como estão raciocinando por ali?  Aquela coisa paternalista e pseudoassistencialista. Ai, poupe-me!!!

Mas a coisa não terminou…conto daqui a pouco.

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