Gostaria de relatar alguns fatos anedóticos, para dizer o mínimo, que vivenciei no Centro Cultural SP.
Apesar de ir continuamente a teatro, cinema, exposições, jamais, até recentemente, havia ido ao CCSP. As notícias de sua construção há 25 anos, falhas estruturais (chovia dentro), programação alternativa demais, nunca me atraíram. No entanto, acabei indo a 2 peças (uma em 25 de setembro e outra ontem (4/10) ali.
A primeira ida não foi tão traumática, pois era noite, não fiquei muito tempo no espaço antes da peça. No entanto, na segunda visita (ontem) a coisa foi diferente. Conto meu fado desde o começo para que saboreiem os lances folclóricos do que é um espaço cultural (talvez um dos maiores) público em SP, a maior, mais importante e mais rica cidade da Amérca do Sul, submetido a uma administração míope, incompetente e pouco amante do que gestionam: cultura.
(1) Liguei para obter informações sobre a peça na 3a. feira - 29/9. Às 9.30h., uma pessoa atende o telefone da Central de informações (33974002). Peço informações e a pessoa não sabe informar nada. Pergunto se não é a CI e a pessoa me diz que sim, mas só há atendimento a partir das 10h. Era provavelmente um segurança. Como é possível que alguém totalmente desqualificado para fornecer informações atenda o telefone? Por que não há simplesmente uma gravação indicando o horário de atendimento? Não seria mais proveitoso, simples, barato, etc.?
(2) conforme instruído,liguei após as 10h. Aliás,liguei às 10.30h, às 10.35h, às 10.45h e nada! Normalmente, há duas pessoas ali para atender, pois vi isso na primeira vez que fui ao CCSP. Estranhei o fato e liguei no PABX (33974000). Perguntei e a telefonista confirmou que a CI atendia a partir das 10h. Expliquei que o telefone direto não atendia. Ela, gentilmente, tentou passar a chamada. De novo, toca, toca, toca, e nada;
(3) ligo novamente para o PABX, explico a situação, e a telefonista (a mesma) me passa para outra área (não entendi o nome do setor) que finalmente me deu a informação que eu procurava;
(4) ontem, conforme instruído, cheguei ao CCSP umas 17.30h. e aguardei a abertura da venda das entradas para a peça a que queria assistir, supostamente duas horas antes do início do espetáculo. Fui à bilheteria, onde havia 3 pessoas. Duas estavam ali para vender entradas para o show de uma banda de roque, e outra era funcionária do CCSP. Ninguém tinha informação nenhuma de nada. Instruíram-me a procurar uma das pessoas de jaleco vermelho (funcionários do CCSP) para obter as informações que procurava. Como assim? Como não há ninguém habilitado a dar informações sobre qualquer coisa relativa à bilheteria uma vez que ela está aberta? Como terceiros recebem a posse do lugar sem nenhuma supervisão de alguém do CCSP. Vejam bem, aquilo é uma instituição pública, mantida com o meu dinheiro inclusive, então como permitem essa bagunça, essa falta de controle?
(5) mas o pior estava por vir: como cheguei cedo, fui dar uma volta pelo CCSP, e presenciei o começo do tal show de roque (havia uma fila de adolescentes e pós para entrar) num espaço que tem o formato de arena. Além de ser um absurdo fazer algo ali, pois mesmo não querendo (e eu não queria) se ouve aquela barulheira infernal por todo o CCSP (só não se ouve no prédio da biblioteca), graças à acústica capenga do local. Por que se permitem esses tipos de shows? Por que todos são obrigados a ouvir esse ou outro som qualquer sem o desejar? É impossível conversar, ler. O ruído é absurdo! Por que se privilegiam algumas dezenas (era esse número presente no tal show) em detrimento de tantos outros? Não tem estrutura para fazer competentemente um espetáculo como esse, não faça!
Importante: um pequeno aparte: Santo IPOD salva! Nunca saia de casa sem ele, pois é companheiro certo nas horas incertas, podem acreditar!
(6) acabei parando para ouvir o tal conjunto de roque (Skylab) porque começaram a tocar o hino nacional. Achei estranho, então parei no corredor. Antes de continuar minha narrativa é importante dizer que:
-todo o som ou o que diziam se espalhava pelo CCSP como um todo;
-havia um funcionário do CCSP na entrada monitorando o acesso à arena;
-havia um segurança fardado dentro do espaço da arena fiscalizando o show;
-essa arena fica em frente à CI, onde havia duas funcionárias, e dali se ouvia perfeitamente o som/o que é dito na arena.
O tal grupelho de roque (composto por alguns “tios”, ie., pessoas de mais de 40 seguramente) cantou uma música e, em seguida, (segunda múscia) a primeira parte do hino só COM PALAVRÕES, dos quais o que mais ouvi foi FILHO DA PUTA! E ninguém, absolutamente ninguém, do CCSP fez nada. Eu sei o nome do conjunto pois perguntei ao funcionário do CCSP que estava controlando a entrada. Infelizmente não vislumbrei ninguém do CCSP para pedir providências. Vejam bem, não sou nacionalista extremada, não faço perorações sobre o tema e não gosto de ouvi-las, mas bom senso é bom e eu aprecio demais: como é possível que em um lugar público, mantido com meus impostos e dos demais cidadãos, chamado de Centro Cultural, se permita tal desrespeito a um símbolo nacional? Os palavrões já seriam o suficiente para uma suspensão do show, mas fazer isso com um símbolo nacional? O pior é que constatei que ninguém, mas ninguém mesmo da instituição tem regras claras sobre o que é civilidade, do que se pode ou não fazer, do que é bem comum, etc. etc.
Claro que eu não iria enfrentar pessoalmente aquela turba que estava assistindo ao show (turba que o aplaudiu muito após o final do hino, diga-se de passagem - oooh, babacas, esse tempo já passou, ficou lá atrás com a ditadura. E mais, esses babacas não estavam lá, mas eu estava…), pois quem garantiria minha integridade física?
A minha tristíssima conclusão: não só na aparência - as clarabóias estão sendo consertadas talvez pela milésima vez, porque chove, chove, chove no interior dos prédios; a lanchonete é um verdadeiro nojo (estabelecimentos melhores não passariam pela Vigilância Sanitária); solário largado, cheio de mato, feio, mal cuidado; vão central sem bancos suficientes, sem plantas que poderiam melhorar muito a acústica do lugar e torná-lo mais agradável, menos estéril-, vê-se que aquilo está ao deus-dará, não há controle, é um órgão público em sua pior definição: preguiça, falta de manutenção, falta de controle, falta de interesse, gente fazendo o que quer (um dos tais de “jaleco vermelho” ouvia um jogo em seu radinho à toda,ali, no meio do salão central). Ou seja, uma bagunça! Um espaço como esse, bem localizado, em qualquer cidade do mundo estaria tinindo, seria referência, serviria de espaço para uma cidade carente de espaços bem tratados como é S. Paulo, atrairia pessoas de todos os lados. Claro que há muitos frequentadores que vão ali regularmente (estudantes para os tabralhos escolares, pesquisas na biblioteca - o que até me surpreendeu, senhores jogando xadrez, etc.), afinal o local é de acesso fácil e gratuito, mas o que também vi ali foram pelo menos uns 3 sem-teto andando com seus pertences, sua sujeira, seu falar-sozinho, seus desequilíbrios. Obviamente, o espaço é público e eles não podem ser forçados a sair (é lei, minha gente!), mas algum controle deveria haver. Difícil imaginar essa cena (sem-teto circulando livremente junto com os demais frequentadores) no SESI Paulista (também gratuito), no Itau Cultural (também gratuito), no CCBB ou CEF Cultural (também grauitos). Ou seja, fica provada a inépcia de quem gere hoje um patrimônio como o CCSP, e, mais, permitindo o desrespeito, a falta de bom senso, o mau uso do espaço, i.e., a afronta cultura!
Bem, fiquei 25 anos sem ir ao CCSP (desde quando inaugurou) e considerando a gestão que dele é feita, acho que vou passar outros 25 sem ir ali. Pelo menos não vou me aborrecer.
nota importante: falando sério: há eventos interessantes ali (vejam meu blog Vaso Ruim) que devem ser vistos/frequentados, mas vá com o espírito armado, para não cair em prantos (choro nervoso, tá?) diante do megadesmazelo e amodorismos do local.