3
de
setembro
Vade retro ou Anticristo para os Ãntimos
Entãããoooo, fui ver Anticristo (Antichrist - http://www.imdb.com/title/tt0870984/), de Lars von Trier (http://www.imdb.com/name/nm0001885/bio). Não gosto muito, já de saÃda, de filmes com esses tÃtulos. Parecem-me sempre algo apelativos, para vender, e de quebra com pouco conteúdo.  Mas em se tratando de von Trier, de quem aprecio imensamente os filmes- (a) Dança no Escuro (Dancer in the Dark com Björk, Catherine Deneuve), que é um dos filmes mais bonitos, mais poéticos, mais comoventes a que assisti na vida; (b) Dogville (com Nicole Kidman): filme de uma criatividade estonteante e que consolidou NK como atriz para mim.  Um verdadeiro marco em cinema pela linguagem inovadora; (c) The boss of it all, uma comédia dinamarquesa (dinarmarquesa mesmo) rocambolesca, com um enredo para lá de esperto- eu não ia perder de jeito nenhum Anticristo!  Bem com um tÃtulo desses soft é que não poderia ser. O filme está classificado como drama+horror, e é.
Já faz alguns dias que vi o filme. Normalmente escrevo meus posts logo após o evento (filme, peça, museu, passeio) para não deixar detalhes de fora. Mas neste caso não deu: tive de processar o que vi por uns dois ou três dias, antes de poder escrever.  Isso não quer dizer que tenha sido ruim, absolutamente, apenas surpreendente demais, difÃcil de assimilar.  Tão diferente do que eu esperava, ou estou acostumada a ver, que tive de digerir lentamente.  Talvez as pessoas até vejam coisas com enredos, ou cenas similares em filmes trash, mas num filme do von Trier é bem provocante, surpreendente, de tirar o fôlego.
Só para localizar: o filme é uma mistura de Bruxa de Blair (http://www.imdb.com/title/tt0185937/), Império dos Sentidos (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Imp%C3%A9rio_dos_Sentidos) e alguma coisa de Bergman (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ingmar_Bergman)+Ibsen+Strindberg, arte medieval (http://www.medievalscript.com/) e muito do gênio de von Trier, claro.  Ah, sim, me esqueci, também tem um pouco de Jason ou O louco da serra elétrica (será que este aqui existe?).
É também uma produção superglobalizada: Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Itália, Polônia.
O filme se passa na Inglaterra, basicamente em uma cabana no meio da mata, com aquele tempinho inglês superconvidativo (frio, neblina, chuva).  Se fosse o caso de um casal em harmonia, poderia ser algo bem cosy, romântico, mas não é assim. O casal formado por Willem Defoe(http://www.imdb.com/find?s=all&q=willem+defoe) (ótimo!) e Charlotte Gainsbourg (ótima!) é o filme e o filme é o casal. No entanto, preciso dizer que os primeiros 5 minutos do filme têm uma densidade, uma dramaticidade, uma beleza, uma sensualidade, que a grande maioria dos filmes não consegue prover em hora e meia ou mais de filme.  É de tirar o fôlego. Apesar de dolorosos, esses minutos são de uma beleza, de uma plasticidade, que eu, pelo menos, gostaria de ver e rever, ver e rever.
A história é sobre um casal (ele terapeuta, ela pesquisadora em fase de escrever uma tese) que tenta se recuperar de uma grande tragédia, talvez a maior de todas para um casal.  A partir daÃ, o desequilÃbrio da mulher vai se acentuando; na verdade é um vai e vem inacreditável de melhoras, pioras, até chegar a um ponto crÃtico e sem volta.  WD é o marido dedicado, movido por amor e pela curiosidade e desafio do terapeuta. Há cenas fortÃssimas - se você tiver problema com sangue, mutilações (isso mesmo que você leu, m u t i l a ç õ e s), gritos, coisas soturnas, vá ver Up que é melhor.
Apesar disso tudo, não dá para levantar e ir embora. A gente fica grudada na cadeira, de olho na tela, mesmo nos momentos mais “ecas”.
A fotografia é um elemento de peso no filme (aà é que me lembrou A Bruxa de Blair), reforça o clima de um jeito contundente. O imaginário em alguns momentos, bem no finalzinho, por exemplo, é estonteante. A trilha sonora também é muito interessante. Aliás, os tais 5 minutos iniciais ao som de Haendel ganham o peso de um aperto no coração.  Lindo!
L. von Trier tem dois filmes no forno. Vamos ver o que vem por aÃ. Não perco por nada.



