3
de
julho
O bom do resfriado…
Não, não estou delirando. Não é efeito dos espirros, das sacudidelas cerebrais produzidas pela tosse, ou qualquer outro efeito colateral de meu resfriado, que já vai completar aniversário graças ao ar-condicionado do escritório e a minha teimosia também, claro!
Mas tudo, tudo mesmo, tem um lado bom (post 21/06 - Fim de resfriado…). E a continuação desta novela resfriante resultou numa leitura inédita, surpreendente, majestosa!
Uma colega do trabalho, sabendo que gosto de ler e que sou novidadeira, me emprestou a revista Arte e Letra Estórias B. Dei uma olhadinha, achei interessante, então providenciei um exemplar para mim. Aproveitei e comprei também os C e D. Uma revista, isso mesmo! Deixei de lado para ler quando viesse a inspiração. E com esse resfriado, além de outros dois livros que estou lendo - depois conto, já que me parecem muito bons até o momento - quis ler concomitantemente (viu Ju e Gui, eu uso isso!) algo mais leve, então lancei mão da Arte e Letra Estórias D. São revistas publicadas por uma editora de Curitiba (http://www.arteeletra.com.br/index.php) que tem títulos que parecem muito interessantes. Aliás, difícil acreditar que nestes tempos de internet, globalização, etc., tenha sido difícil alguém que conhecesse essa publicação aqui em S. Paulo, capital cultural do país e da ASul. Até conseguir a revista foi meio complicado.
Os colaboradores, i.e. alguns autores e tradutores, são todos da região Sul, Paraná sobretudo. A revista que li (D. Vou ler as outras em seguida) é muito bem cuidada. Há alguns poucos problemas de revisão, o que não empana as traduções e os ótimos textos escolhidos. Aliás, a combinação de textos é primorosa, inspirada mesmo. Tem Saul Bellow - Um futuro pai (A father-to-be), Edgar Allan Poe - Um retrato oval, Artur de Azevedo - A “Não-me-toques”!, Domingos Pellegrini com o “saboroso” A semana das sardinhas e muito mais. Mas, para mim, a grande obra publicada é O Diário de Eva (http://en.wikipedia.org/wiki/Eve’s_Diary) de Mark Twain (http://www.arteeletra.com.br/index.php). Para quem gosta do autor (Tom Sawyer, Huckleberry Finn), e mesmo para quem não o conhece, um texto excelente! Impressionante como um homem, no final do século XIX/começo do XX, tivesse tal visão sobre as relações, diferenças, semelhanças entre homens e mulheres. Alguns trechos são hilariantes (a tradução é primorosa). Brilhante é um adjetivo justo para o texto. Claro que não concordo com a postura de Eva em determinado momento do texto, afinal eu travei, vivi e venci batalhas para viver minha vida como ela é hoje, então a visão “feminina” externada ali não é confortável para mim. Mas, sem dúvida, o texto é, sobretudo, observação arguta do que são mulheres e homens de fato há milênios. Essa “nossa” pequena discordância não ofusca em nada para mim o humor de alto nível, o texto ágil, criativo e até terno de M. Twain. O texto é de domínio público, até onde eu saiba, então deliciem-se com o texto (sorry, mas consegui em inglês) do genial M. Twain: http://www.eastoftheweb.com/short-stories/UBooks/EvesDiar.shtml.
Além de tudo isso: textos excelentes, bem escolhidos, boas traduções, na edição D as ilustrações são todas de Gustave Doré (http://pt.wikipedia.org/wiki/Gustave_Doré). GD, ilustrador do século XIX, que ilustrou Dom Quixote, A Divina Comédia, O Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, O Corvo, Barba Azul, e um montão de outros textos; enfim, o melhor da ilustração do século! Uma alegria para os olhos: a beleza, a modernidade de suas gravuras. Um presente!
Bem, fica então a sugestão quanto às publicações da Arte e Letra. Não sei se tudo é tão bom quanto o volume que acabo de ler, mas não custa dar uma olhadinha. Talvez tenhamos outras surpresas tão boas quanto Estórias D.



