20
de
maio
Blind dinner rides again!
Ontem foi meu segundo jantar no escuro (post 15/5 - Blind date, no, blind dinner!). A organização geral foi similar à anterior, só que desta vez foi no Capim Santo (http://www.capimsanto.com.br/portugues.html). O restaurante é maior, bem gostoso, bonito de dia ou de noite. Utilizamos um espaço fechado para grupos e/ou degustações me parece. Desta vez o grupo era bem menor que o anterior (acho que éramos uns 15).
O ritual inicial foi o mesmo: preleção das organizadoras, apresentação de quem as ajudaria durante o jantar, vendagem dos participantes, que foram encaminhados dois a dois para o local do jantar (não vimos o espaço antes, como aconteceu no Goa). Indicação do que estava à nossa frente, na mesa. E desta vez só tomei água.
O cardápio foi muito bom. Como a comida já é mais “estruturada”, naquela parte em que vemos os pratos montados, ao final do jantar, não houve tanta surpresa. Surpresa houve com alguns componentes dos pratos. Como as pessoas têm de informar se têm alguma restrição a algum ingrediente, quatro pessoas tiveram um cardápio diferente (sem peixe), à base de pato se não me engano. Para o restante do grupo foi um cardápio baseado em peixes, crustáceos. Só a sobremesa foi igual para todos.
Eu comi tartar de atum (foi fácil comer! Estava em uma colher de cerâmica, do tipo das que são comuns em restaurantes japoneses); depois quatro camarões empanados acompanhados de um molho agridoce, com base de manga, quase um chutney (também fácil, comi com as mãos). A seguir, o prato principal: filé de linguado recheado com palmito pupunha - o palmito não deu para eu distinguir e saber exatamente o que era -, acompanhado de um flã de banana. Uma delícia! Instada por meu amigo-acompanhante (aporrinhada, mais precisamente), comi o peixe com as mãos, mas o flã não deu! Foi com garfo mesmo! E por último um sorvete de coco, bem gostoso, sobre abacaxi em calda (bem levinho) e rede (tipo de bolacha fininha) de amendoim. Tudo muito saboroso!
Ao final tiramos as vendas. Que surpresa! Estávamos em uma mesa redonda!
Impressionante! Nenhum dos participantes tinha ideia disso. A mesa era em módulos, então dava a impressão de que estávamos em uma mesa retangular, mas todos separados, i.e., em grupo separados, em mesas separadas. Mas não! Havia uma moça do meu lado direito, a não mais de 50 cm. Meu amigo ficou do meu lado esquerdo (estranhei no início, mas…). A revelação foi surpreendente!
Como no outro jantar, a Maria, a Elis e a Gabriela, que ajudou as duas desta vez, foram gentilíssimas! Uma graça de meninas mesmo. De novo tivemos uma música de primeira, com o mesmo músico que esteve no Goa, e poemas lindos.
As diferenças deste grupo para o outro ficaram por conta: 1) de ser menor; 2) por isso ou por serem pessoas de outra natureza, a conversa esteve por tons mais amenos, falaram mais baixo, mas foi de novo uma falação sem fim. Do mesmo jeito que no outro jantar, quando as pessoas estão vendadas, i.e. não enxergam, “pensam” que os outros não escutam também, e o volume vai subindo. No entanto, houve momentos de silêncio total (o que não aconteceu no Goa), mas logo irrompia a conversa. Minha mãe dizia: as pessoas não conseguem se ouvir ou conviver consigo mesmas, instrospectivamente, por muito tempo (na verdade, acho que por tempo nenhum), então há a dependência de falar e ouvir (não escutar) o outro. Junta-se a isso a ansiedade dos dias de hoje, e está feito um burburinho federal!!
No mais, tivemos uma interação maior ao final, com pessoas externando suas opiniões para o grupo e não apenas para a equipe que trabalhou no jantar. Isso foi possível, sobretudo, pela disposição da própria mesa (uma mesa só, redonda). E, desta vez, como já conhecia o esquema e sabia que não causaria nenhum desastre, eu estava mais relaxada. Também apreciei mais a comida (lembram-se? Eu NÃO sou veggie!). Além disso, o impacto da primeira vez sem enxergar nada foi mais ameno desta vez, mas ainda assim me mostrou claramente como é difícil a vida de quem não vê.
Da outra vez passei todo o jantar usando talheres. Como escrevi, mesmo sabendo que ninguém, a não ser a equipe organizadora, me via, não consegui usar as mãos. Mais que barreira, foi uma luta! Luta mesmo! Acho que, naquele jantar, eu tive de provar para mim que era capaz, que podia, a escuridão não me derrotaria em algo tão comezinho como usar talheres. E foi aí, ou depois, caminhando e pensando e conversando com as pessoas, que tive o insight: acho que entendi um pouco (só um pouco) a batalha de uma pessoa cega ou com outra deficiência. Mesmo que ela sempre tenha sido assim, pelas limitações que uma sociedade feita por e para “perfeitos” cria, esses lutadores têm de dizer para si todos os dias, mas todo santo dia mesmo: hoje eu consigo, hoje eu vou ganhar, ou eu vou vencer! E se não for assim, eles não sairiam de casa, não levantariam da cama, não se mexeriam, tais as dificuldades que lhes são impostas a cada passo, a cada movimento! Aí deu para perceber a força interior que o mais simples deficiente tem de ter para estar vivo e levar a vida.
Bem, haverá outros jantares.Eu gostaria de participar de pelo menos mais um. Vamos ver se dá certo. Se tiver algo de muito diferente, eu conto.












