16
de
abril
Nós somos as escolhas que fizemos ou quase…
Amigas desde os tempos de escola. Cresceram juntas, estudaram juntas. Mesmo quando frequentaram faculdades diferentes, quando começaram a namorar, deram um jeito de não perder contato, de sempre se ver, conversar. Depois Uma casou e a Outra foi morar com um rapaz. Uma engravidou, teve dois filhos, divorciou, casou de novo. Outra só foi mudando de casas; uniões oficiais não eram com ela. Mesmo com todas essas alterações de curso, nunca passaram mais de duas semanas sem se falar ou se ver. a Outra passou três anos no exterior, depois do quarto, não,não, acho que quinto casamento. E a conta de telefone das duas foi às alturas. Se fosse nos dias de hoje, com internet, MSN, Skype, a coisa seria muito mais fácil. Pois é, mesmo com as dificuldades, limitações tecnológicas e com os custos para se manter em contato, nunca tinham deixado de se comunicar. Almas gêmeas? De jeito nenhum! Só pessoas que se gostavam demais, respeitavam-se, alimentavam a convivência e as afinidades.
Naquele dia, a Outra chamou Uma para sair. Disse que precisava conversar com ela sobre um assunto bem sério. Uma ficou preocupada! Sempre fora a mais preocupada, a mais “encanada” com as coisas, pequenas ou grandes, não importava.
Marcaram de se encontrar diante do shopping que era perto do trabalho da Outra e da casa de Uma.
U- Como foi seu dia hoje?
O- Muito bem! Mesmo com o estresse do trabalho deu pra sobreviver. Ha,ha,ha!
U- Ah,ah,ah! Ai, só você mesmo Outra, pra ver essa loucura desse jeito! Você sabe que eu não consigo…vida corporativa não é pra mim.
O- Pois é, mas seu eu não fizer isso, morro “loca”…qua,qua,qua,qua,qua…
U- Então, que assunto sério você queria conversar comigo?
O- Olha, você é a primeira pessoa com quem converso sobre isso. Primeiro passei uma semana digerindo o assunto. Depois fiquei pensando se falava com alguém ou não sobre isso.
U- Nossa, você está me deixando preocupada!
O- Pois é, mas não fique, afinal vou ter de contar muito com você…
U- Para com esse suspense!
O- Tá bom! Mês passado fiz meus exames de rotina. Na mamo, a gineco achou uma mancha. Me encaminhou para um especialista. Aí você já pode imaginar o desenrolar da história…
U- (olhos esbugalhados, já lacrimejantes) Você tá brincando…
O- Acho que não…mas não precisa ficar assim. Hoje em dia é tudo mais simples,mais seguro, nesse campo. Vou ter de extirpar o tumor, talvez parte do seio direito. Se for o caso, já faço uma mamoplastia, tomo quimio ou radio, dependendo do que acharem melhor e pronto! O tumor ainda é bem pequeno, felizmente. Mas vou ter de ter acompanhante para algumas coisas, e você sabe que não dá para contar nem com meu pai, nem meu irmão, nem com nenhum ex-companheiro para essas coisas. Aliás, prefiro você, se puder.
U- (chorando de soluçar) Cla…cla..claro que eu posso! Pooo…poooo…..posso, claro que posso!
O- Mas olha, Uma, se você ficar desse jeito vai ficar difícil…ha,ha,ha,ha…eu é que vou precisar amparar você. O que talvez não seja uma má idea…que tal?
U- Ai, Outra, para com isso! Foi o susto, e você sabe que eu sou uma “manteiga” mesmo. Pode deixar, depois de eu chorar uns três dias, vou estar pronta pro que você precisar!
O- Que bom! Porque vai haver dias em que vou estar melhor, em outros pior, um caco. Sabe, isso é assim mesmo pelo que já vi acontecer com outras pessoas e pelo que a médica me explicou. Você vai precisar de paciência comigo.
U- Pode deixar! Paciência é comigo mesmo…afinal, não estou casada com o Cleverson há 10 anos? Não aguento os pestinhas da Bia e do Caco, pré e pós-adolescentes? Quer mais que isso?
O- Que bom que posso contar com você! Isso já é meio caminho pro sucesso do tratamento. Bom que tal um cineminha e depois um lanchinho mais reforçado?
U- Nossa, tirou daqui! Ia dizer isso mesmo! A gente tem um timing louco!!! Incrível! Ha,ha,ha, ha. Assim, posso te contar o que aconteceu na festa de aniversário da minha cunhada…
O- O quê? A VM? Ah, ha, ha, ha, ha, ha…
U- Ah, ha, ha, ha, ha, ha… ela mesma…aí juntou o VC…
O- Hi,hi,hi,hi,hi, ha, ha, ha, ha…ai para, não vou aguentar… Só você mesmo pra inventar esses codinomes.
U- Iiiih, você não sabe de nada…deixa eu te contar os detalhes…
E lá se foram as duas, juntas, achando graça na vida, apesar de tudo. Acarinhando-se e se amparando. Juntas pela vida que escolheram compartilhar, acho que até o fim.












