14
de
março
Por ordem alfabética: cinema, depois gastronomia
O que dizer de Slumdog (Quem quer ser um milionário?) (www.imdb.com/title/tt1010048/ , pt.wikipedia.org/wiki/Slumdog_Millionaire ,
www.foxsearchlight.com/slumdogmillionaire/)? Dá até medo, afinal ganhou mais de um Oscar, se não me engano (faz algum tempo que não presto muita atenção nesse tipo de evento). Já vi muito filme de Oscar, de Mostras de Cinema, de outros prêmios para a produção cinematográfica que se mostra um engodo, um verdadeiro caça-níquel, ou ser louvado até para atender a interesses nem sempre dos mais transparentes.
Mas vamos lá (a minha sorte é que, pela idade, poderão até dizer: ah, tá meio alopradinha, coroca, mesmo…isso é bem mais soft do que o que poderia vir de gente com visão mais radical se meu estado etário não fosse levado em conta): lendo sobre a temática, já achei a coisa meio esquisita, mas sendo o diretor quem é (o mesmo de Trainspotting), quem sabe? E aí se falou do orçamento exíguo, da temática, da direção compartilhada com um local (indiano), etc., etc. Ah, sim, até a trilha sonora foi colocada em evidência.
Então…como me senti? Saindo de um cinema em Calcutá ou Mumbai, depois de ter visto um legítimo produto de Bollywood. Nada contra, mas esse estardalhaço, essa premiação absurda? Give me a break!!! (e com sotaque indiano, por favor!).
Aí fico pensando: então se qualquer um dos nossos diretores (de Central do Brasil, Ensaio sobre a Cegueira, Tropa de Elite, Carandiru, Estômago, etc.) tivesse se submetido a ser o segundo (o codiretor), e fizesse uma fita (antigo, né?) com um diretor bambambã de um país rico a gente já tava lá! Claro que estava!
Slumdog é uma história simpatiquinha, mas bem shallow, em que um rapaz com muita determinação, aliás, teimoso e sortudo, sobretudo, eu diria, vai atrás de seu grande amor e se submete a uma aventura incrível: participar de um quizz show para ser visto por ela e ganhar muito dinheiro por inércia. O que se vê é muita miséria, muita sujeira, seres subumanos, ignorância, crime, gangsteres, o pobre explorando o roto, e por aí vai. Bom, tudo isso junto no que dá? Numa tremenda dor de consciência, culpa mesmo, nos países ricos, desenvolvidos, nos próprios premiadores do filme. Imagine, que horror!! Até eu fiquei meio embaraçada com tudo aquilo. E, olha, que nós vivemos em um país pobrinho, sujinho, ignorantinho. Eu reclamo toda semana da sujeira na rua, da falta de estrutura, da falta de transparência, vontade e competência das autoridades (não sei como ainda não fui presa…), mas o que se vê ali é terrível, mil vezes mais! Ah, sim, e em 60% do filme me deu a impressão de estar assistindo a um documentário da Discovery; só o restante tem a mão de um cineasta mais ou menos.
Voltando ao peso na consciência: você viu, você bateu três vezes no peito: mea culpa, corre pro telefone, pra internet e manda uma grana para não sei que ONG ou comissão humanitária e, pronto, já pode respirar e voltar pro seu castelo (castelo que está meio combalido recentemente com essa tal crise). Enfim, uma premiação paternalista ao extremo, tentando o politicamente correto sem limites, que deixou totalmente de lado o que pretende, supostamente, o Oscar: premiar o grande talento de quem se dedica à arte do cinema.
Pior, localmente, com esse negócio de novela com tema indiano, é capaz de o mercado pirata de DVDs ser invadido por filmes de Bollywood; até mesmo o mercado oficial. Afinal, com um incentivo desses…Aí é que a coisa vai pegar!
Claro que o ator principal é ótimo, a trilha é bem boazinha (eu mesma compraria para ter aquela batida num dia de inverno, chuva, pra animar a alma. Apenas lembrando:o Olodum também pode fazer isso por você), mas eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee????? Pois é, para mim não há comparação entre Frost/Nixon, Milk e mesmo o original (enredo) de Benjamin Button com o tal Slum dog. Tudo é imensamente previsível, o Kiss me final dá até enjôo, o “it is destiny” repetido à exaustão então é de matar! Nunca pensei que iria dizer isso: que injustiça com a indústria americana de cinema.
Bem, gente, por favor, faça o dever de casa, salvem a Humanidade, senão ano que vem tem outro, e assim eu não aguento. E tem uma coisa boa: eu não sabia muito bem como era esse programa (http://en.wikipedia.org/wiki/Who_Wants_to_Be_a_Millionaire%3F ), agora já sei. Quem sabe? Afinal participei, há uns 20 anos, de um programa na TV Cultura (De Olho na Notícia) apresentado pelo falecido e adorável Blota Junior. Não ganhei a viagem para os EUA, mas várias assinaturas de revistas e jornais (os outros prêmios que nos davam, afinal a TV Cultura era meio pobre). Mas o fantástico era a minha torcida organizada, com faixas, pompons, grito de guerra! Isso é que foi bom de fato. Pois é, know-how já tenho, só falta a vontade.



