Escrever para viver!

Tudo que der na telha e que eu achar que vale a pena

30

de
novembro

Programão, o retorno!


Depois do ótimo Mil anos de orações, lá veio Macbeth - como nasce um deserto (  www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=139680 ), em exibição no SESC da Av. Paulista.

Bem, comprei minha entrada semana passada, quando fui ver O Homem no Escuro (post de 22/11).  Hoje, tentei comprar para a peça Duas Rainhas, que também está em exibição ali mas, seguramente devido ao "efeito Vejinha", todos os ingressos para a temporada estão esgotados. E há, também, claarooo, a maldição dos convites.  Não sou totalmente contra os convites, absolutamente, mas o problema é que muitas vezes há mais convidados, entenda-se não-pagantes, do que aqueles que se dão ao trabalho de comprar um ingresso, pagar, e são os que de fato constituem o público de teatro.  Enfim, nada de Duas Rainhas.  Talvez para Macbeth ainda haja ingressos - só checando.

Bom, o SESC foi uma boa surpresa pra mim, que nunca tinha ido ali. Já virei fã de carteirinha.  Além de preços bem acessíveis, as montagens são de excelente qualidade, e acho que o tempo das montagens totalmente alternativas já passou, então fica bem palatável pra quem gosta de teatro como eu, ou seja, espectadora amadora, sem grandes conhecimentos ou pretensões técnicas.

Bem, esta montagem de Macbeth leva umas 2 horas (ah, sim, a única coisa é que o físico do teatro não é dos mais confortáveis: são cadeiras de plástico dispostas em arquibancada.  Se você tem problema de coluna, ciático, muscular, não vá!). O texto foi lindamente adaptado!  A iluminação complementa o cenário mais que enxuto (lembrem-se que em todos os palcos do SESC Paulista a área é exígua, os atores ficam cara a cara com o público), o qual também consegue enriquecer a peça.   Os atores vão numa batida segura até o fim.  Lembrem-se: estamos falando de Shakespeare…portanto, it is not little cake não!  A adaptação, que conseguiu tornar naturais um cenário árido, roupas de nossa gente do interior, e até a participação das cantadoras de Campina Grande, merece aplausos.  A peça é um thriller e não perde nada de seu impacto sob a batuta de Ederson José e Arieta Correa.  Lady Macbeth está majestosa!  Enfim, fui muito feliz na escolha desta peça também.

Pena que não vá conseguir ver Duas Rainhas. Quem sabe numa outra vez?!

30

de
novembro

Programão - parte 1!


Depois de um almoço ótimo  comemorando antecipadamente o niver da Sany (não Sandy, tááá?!) (depois mando fotos e vídeos para quem sabe de quem estou falando), lá fui eu aproveitar minha tardinha.

Primeiramente Mil anos de orações (A thousand years of good prayers - www.imdb.com/title/tt0838233/) que foi apresentado na 32a. Mostra de Cinema de SP. O filme também é de Wayne Wang (ver post de 22.11 - A princesa de Nebraska), mas quanta diferença!.  O ritmo não é lento mas compassado, tranqüilo, sólido. Na medida para o que se coloca na tela.

É uma pintura da alma humana no que ela tem de melhor e pior: lá está aquele que não é capaz de se expor para os outros, porque não se expõe para si; aqueles que fazem a "mea culpa" muito tarde e esperam consertar uma situação próxima do irreparável; aquele que espera, confia nos seus, e por eles é "traído"; aquele que pede perdão e o que sabe perdoar; e o silêncio (eu me repito: se há silêncio, há ou haverá problema. Pra mim esse é/ tem sido  um termômetro confiável de relações que não devem ser mantidas, porque lá na frente vai ser pior para os interessados).  Enfim, nós todos estamos ali,  numa expressão compungente, lírica, profunda.

Há momentos hilariantes como diálogos do Sr. Chen (Henry O.) com sua amiga iraniana.  70% de alguns diálogos são em chinês x farsi.  E eles se entendem! 

Os atores não são grandes estrelas, pelo menos não conheço a maioria, exceto por Henry O. ( www.imdb.com/name/nm0642912/ ), que eu vejo desde menina em todo tipo de filme (até de bang-bang, eu acho). Pros mais novinhos uma lista respeitável de realizações: The Lost Empire, The Sopranos, E.R., The Last Emperor, e muitas mais.  Henry O. está maravilhoso: contido, denso e contundente.

Também aqui a trilha sonora é ótima.

Então, se não viu nenhum dos dois filmes, veja este primeiro e só então vá para A Princesa de Nebraska, se estiver com o espírito bem aberto pra coisas muito diferentes.

29

de
novembro

Não foi desta vez…


Agora à noite fomos experimentar o Vito ( revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/0,,EMI11666-15370,00-VITO.html ).  Além de ficar fora do circuito Jardins, Moema, Vila Madalena (fica na Vila Beatriz, vizinha da V. Madalena), também está localizado em uma rua tranqüila, cheia de prédios  (eu morei ali perto por pouco mais de 15 anos, e eram só casinhas pra todos os lados. Ainda há muitas, mas o bairro começou a mudar há vários anos e espigões despontam em várias partes).

Fui até lá porque ouvi comentários sobre a qualidade do local, CV do chef, etc..  É bem pequeno (menos de 30 lugares), mas é igualmente vítima da praga nacional: tem quase mais funcionários que clientes (na porta são 3, lá dentro uns 4 ou 5, na cozinha sei lá quantos, além do chef, enfim…), e um serviço mediano; mas tem um som agradável, o ambiente é bem cuidado, aconchegante. 

Fomos esperando aquela cozinha de autor, o que não encontramos ali.  O cardápio é relativamente enxuto e traz algumas opções interessantes.  Comi uma polenta de colher bastante boa, meus amigos comeram ravioli de rabo, de bacalhau e um peixe.   Estava tudo saboroso, bom, mas nada que nos surpreendesse, que nos faça lembrar o local por um prato, que nos faça ir até lá de novo.  A sobremesa que escolhi - um bolo cremoso de chocolate também não estava essas coisas.  O vinho aconselhado pelo maître caiu bem tanto para mim quanto para o George, que está de passagem pelo Brasil, e bebeu um branco.  Foi uma opção razoável em sabor e preço.

A casa estava lotada, afinal 30 lugares são 30 lugares, e ainda mais em S. Paulo!  À volta, hoje, há vários prédios de bom padrão, portanto é uma opção para a vizinhança.  O preço não é abusivo, mas não é barato, acho que está na medida pelo que oferece.

Saímos de lá com a sensação de expectativa não preenchida, e olha que a gente estava com a maior boa vontade, porque estava com a maior fome. Pena mesmo.

De qualquer forma aí vamos os dados do local: de repente não foi um dia bom pro chefe e sua brigada, com algum tempo o quadro mude, etc. Não custa tentar.
Vito R. Pascoal Vita, 329, Vila Beatriz, tel.: 3032-1469. Seg., 12h/15h; ter. a qui., 12h/15h e 19h30/23h; sex. e sáb., 12h/15h e 19h30/0h. Cc: V. Entradas: de R$ 14 a R$ 22; pratos principais: de R$ 21 a R$ 43; sobremesas: de R$ 7 a R$ 11.

29

de
novembro

Os homens do ano que fizeram o filme do ano!

Não vai ter pra ninguém.  Nem pra eles mesmos?!  Afinal quem viu Fargo, e neste ano No Country for Old Men, poderia pensar (eu pensei): não, não vai ser melhor…aaaah, quequiéisso!!!

Incrível, mas Burn after reading (www.imdb.com/title/tt0887883  ou www.burnafterreading.com–live.com )é muuuitooo melhor que esses somados e outros Coen (pt.wikipedia.org/wiki/Joel_e_Ethan_Coen ). 

Foi um pouco sobre isso que escrevi no meu post de 23/11 (Pronto, já estou de castigo!).  É incrível como os Coen ainda conseguem criar a mágica, aquela que eu quero ver no cinema!  A cada momento, quando a gente pensa que não tem nada mais pra ver, que já viu tudo, que sabe tudo (afinal quem assiste a muitos filmes, como quem lê muitos livros, acaba entrando nessa competição com o diretor/autor, é parte da diversão também!), aí eles vêm e introduzem uma ação imprevisível, surpreendente, brilhante!  Além disso, apesar de eu gostar até muito dos dpis atores, os Coen fazem com que B. Pitt e G. Clooney se superem minuto a minuto.  Neste filmes, especificamente, BP está um arraso.   A gente consegue até esquecer que ele é tão bonito!  A gente só vê o ator pela frente (pelo menos foi o que aconteceu comigo). Malkovich está soberbo como sempre!  A Tilda Swinton também está ótima!

Então nada de preguiça, de deixar pra depois.  Não percam, e vejam na tela grande, onde tudo fica melhor!  É o filme do ano, e olha que eu assisti a montes, muito bons, excelentes, mas este é insuperável (ainda tem um mês de movimento e filmes, mas não posso acreditar que venha outra coisa melhor, até mesmo porque meus parâmetros, que até são bem abrangentes, me dizem que 2008 já fechou pro cinema).

E voltando pro meu post de 23/11, um ponto que ratifica pra mim a perda da pegada de W. Allen é sua atriz favorita.  Para os Coen é Frances MacDormand (casada com o irmão Joe), para W. Allen é S. Johanson?!  Essa "preferência" dos Coen me faz lembrar dos áureos tempos, os tais vintage, de W.Allen com D. Keaton e/ou Mia Farrow.  Quem não se lembra?? E é até interessante como a Mia Farrow, em termos de padrão de beleza, está bem perto da F. MacDormand, o que não fazia/faz nenhuma diferença para o espectador, pois o que elas têm de monte é talento, talento, talento.  O paralelo é inegável!  Agora a S. Johanson…pois é, alguém está se contentando com muito pouco!  A sorte é que mesmo assim W. Allen está muito acima de qualquer média…

Mas voltando ao filme: a trilha sonora é tudo! Carter Burwell ( www.carterburwell.com/main ) fez várias trilhas para o cinema e esta é igualmente maravilhosa!

Bom, espero que depois de criar tanta expectativa pra quem vai ver o filme, ninguém se decepcione. Mas eu acho que não.  Bom divertimento!

27

de
novembro

Jingle bells, jingle bells…

Há gente que detesta esta época do ano, outros só não gostam (minha mãe era assim), outros gostam muito (me encaixo aqui), outros só gostam um pouco.

Na verdade, eu gosto não das datas (Natal, Ano Novo) propriamente, nem das festas, nem dos presentes, mas prosaicamente do “espírito” de final de ano. De alguma forma um megajato de esperança é lançado no ar (lembrem-se: sonho é tudo!).

Não que as pessoas fiquem melhores, aliás acho que às vezes acontece o contrário, pois como tem mais trânsito pelas ruas, mais gente circulando, lojas e restaurantes lotados, se gasta mais ($), até o que não se tem, o estresse cresce e algumas pessoas chegam à raia da irracionalidade.

Vejamos: aquele colega de trabalho não ficou mais simpático não, acho que são só seus olhos mesmo; aquele parente, do qual você foge como se fosse a Peste Negra (jogue no Google), também não ficou melhor não – aliás, vai exagerar na bebida como sempre, não vai levar presente nem pras crianças, e vai estar presente em TODAS as comilanças da família (como é que ele conseguiu desenvolver essa ubiqüidade?), sendo sempre o último a sair; seu vizinho não passará a gostar de você depois da época de festas se não gostava antes, talvez venha até a odiá-lo dependendo do barulho, sujeira, gente que entrar e sair de sua casa; casais não vão parar de brigar quando janeiro vier (ou até vão?); filhos não ficarão mais responsáveis, reconhecidos, obedientes pela lufada que dezembro trouxer (ou ficarão?); mesmo assim, o ar fica mais respirável, mais leve, há esperança nos olhos, nos gestos, no pensar…

Eu me lembro que, quando era menina, não havia nem tantas opções de presentes (muita coisa era a mãe da gente mesmo que fazia), nem tanto dinheiro circulando, pelo menos para os seres normais (eu, inclusive). Da mesma forma que as crianças hoje enviam cartas pelo correio pedindo presentes (a campanha dos correios brasileiros é ótima e dá excelentes resultados) para o Papai Noel, eu escrevia (aliás, minha mãe, porque eu ainda não sabia escrever) para o PN nas tampas de Rinso, pedindo o que eu queria ganhar. E nada de 10 brinquedos, era um só pra durar zilhões de anos e não tinha conversa. E acho que justamente por aspectos como esse me lembro de vários Natais com saudade. Mas estou quase certa de que as crianças de hoje não se lembrarão nem do Natal do ano passado. Éééé…cada tempo com suas riquezas!

Além das possibilidades que a época insiste em nos sugerir, há também o colorido, as luzes, decorações vermelhas, verdes, brancas, douradas, prateadas, azuis, enfim multicoloridas, por todos os lados. Isso também alegra a vista e a alma.

Também é inegável que muitos corações se abrandam. Pessoas sacam do colete a generosidade que ficou anestesiada o ano inteiro. De repente percebem (sorte dos que chegam a isso) que dedicaram energia demais à correria pelo dinheiro, sucesso, segurança, auto-afirmação, pessoas que se mostraram não tão confiáveis, relações que se mostraram estéreis, e deixaram de lado quem demonstrou afeto de fato, atenção, carinho, zelo. Aquele que deu sem pedir, só querendo convivência, troca de afeto, de carinho, troca de idéias, uma conversa, um pouquinho da mesma atenção de volta (felizmente, ainda tem gente assim por aí). Mas pena que isso seja cíclico. Em janeiro, as ações viciosas voltam com força total! E quando dezembro chegar, quem sabe, venha outro exercício de conscientização, ou melhor, de volta à sanidade mesmo. Presentes, festas, comidas de monte, exóticas ou não, e bebidas podem ser relegadas (a gente passa sem), mas sem pessoas que gostam da gente não. Isso é artigo cada vez mais raro.

Aaah, sim, e há o Amigo Secreto ou Amigo Oculto. Esse feitiço anual que é lançado sobre a vida de uma imensidão de infelizes mortais será desenvolvido em outro post (espero).

Então, conte pra mim: você gosta desta época? Por que sim ou não? Que Natal deixou você arrasado ou foi a sua redenção? Me conte, me conte…

26

de
novembro

Projeto do Célio

Há alguns meses - talvez uns dois, máximo três - o Célio Scarpa começou  um projeto no Café Paon ( www.cafepaon.com.br ) em Moema.  Um projeto bem interessante, aproveitando o espaço de show dessa casa, que é bem generoso.  Começou com Biba Chuck, num show lindo, depois veio Tropicália 4.0, em homenagem aos 40 anos da Tropicália (meu post de 17/10 - Tropicália em grande estilo), continuou com Eletromovie (meu post de 6/11 - Eletromovie - um cinema elétrico), voltou Tropicália com o Fabiano e André Hã além de superbanda, e agora foi a vez de Vanessa Falabella cantando Cartola. 

A iniciativa do Célio de levar shows de boa qualidade, com intimismo,em um ambiente bem estruturado, é muito elogiável.  Ele conseguiu reunir bons cantores, boas bandas, boas programações em um tempo bem curto.

A série de shows (Quartas Temáticas) encerra-se na próxima semana (3/12) com o retorno de Eletromovie.  Quem não viu, vá ver.  Vale muito a pena!

Tomara que, pra nossa alegria e satisfação, o Célio continue com essa linha de eventos em 2009.  É esperar pra ver.

25

de
novembro

Minha Estação - Elessandra P. G. Silva

Tento ver a vida de longe

Assim não me assusto
Me escondo atrás do poste e finjo que não é comigo
Espero que os vândalos passem

Na expectativa do próximo bonde, continuo esperando
Em vão
Pois escolhi o destino errado
Meu bonde não passa por aqui

Tenho que sair do esconderijo
Deixar que me vejam
Ser vista
Mas isso me assusta

Me aconchego a meu canto
Me recolho
Não vejo nada a meu redor
A não ser a minha própria inquietude

Me retraio a espera do meu bonde
Mas ele não vem
Mudou de caminho
Sem que eu soubesse

Olho para esquina e não vejo nada
Olho para o alto e vejo somente a luz da lua
No chão a minha sombra
Reflexo da minha covardia

Ninguém me cerca
E ainda me escondo
Não saio daqui nem por decreto

Mas aí vem meu bonde
Corro e pulo para dentro dele
Sei que é ele
Mas, sinceramente, não sei para onde vai
Só sei que é ele

Respiro. Não olho em volta pois sei que olham para mim
Baixo minha cabeça e rezo baixinho
Não sei bem porque
Nem sei bem para quem

Bonde, bonde
Não sei para onde me levas
Mas sei que quero seguir
Não tenho coragem de guiar meu destino
Só quero que me leve

Ah, esta vida…
Conflituosa
Por ora nos dá o caminho
Por ora nos dá o bonde
Mas nunca os dois…
Qual deles escolher?

Prefiro ser timoneiro que imediato
Escolhi isso da minha vida
Esta história de medo é bravata
Conto que conto por diversão

Não me escondo atrás de postes
Não espero que meu bonde passe
Nem sempre tenho a chance de escolher o meu caminho, é verdade
Nem sempre escolho o bonde e nem sempre ele passa
Minha sombra nunca será o reflexo do meu embaraço
E sempre, sempre saberei para quem e porque rezo.

24

de
novembro

Pérolas da gurizada (Silvia M. C. de Souza)

Em meio às brincadeiras, lá vem Eusébio: “ Professora, professora, ‘marra o teni’ pra mim?”

Professora - (zelosa…) O que você quer, Eusébio?
Eusébio - “Marra meu teni”, professora?
Professora - Não entendi, Eusébio.
Percebendo que algo estava errado.
Eusébio - A-MAR-RA meu “teni”?
Professora - Ah, agora melhorou, mas ainda falta a palavra mágica, não é?
Eusébio - ??
Professora - Por… Como é que se fala, mesmo?
Ele pensa mais um pouco:
Eusébio - A-mar-ra meu TE-NIS ?
Professora - Por…por… – ajuda para que ele se lembre da maneira educada que ela ensinou para se pedir algo.
Eusébio - POR-QUE TÁ DE-SA-MAR-RA-D0 !!

23

de
novembro

Pronto, já estou de castigo!!!

Eu sei, eu sei, eu sei…havia prometido, mas não deu.  No post de 15/11 - Lição de casa ainda não terminada, havia dito que veria mais um filme do Mix Brasil.  Na 5a. não deu, porque cheguei tarde de viagem.  6a. nem pensar - a volta ao trabalho acabou comigo e tinha outro compromisso marcado.  Ontem, impossível - vejam meu post de ontem; movimento demais!  Hoje ia ao segundo e último filme do Mix Brasil só para ter uma referência melhor do que está sendo apresentado, já que é a primeira vez que vou ao festival.  Mas não deu!  Eu estava prontinha para ir ao Centro de Cultura Judáica (os locais de exibição diminuíram muito neste final de semana), para assistir, às 14h., a The Quest for the Missing Piece, de Oded Lotan (Israel 2007).  Mas não deu coragem, principalmente depois de ler o título em português (Em busca do prepúcio perdido).  É isso, tenho que me programar e preparar melhor para o próximo ano.  Se eu estiver viva e em condições, vou ver uns tantos e relato minha experiência.  Sorry ter falhado com meus leitores que, tenho certeza, só estavam esperando pelo post do filme do Mix Brasil.  Mas que se há de fazer??

Em compensação, mudei o rumo e fui ver Vicky Cristina Barcelona (www.imdb.com/title/tt0497465 ) de Woody Allen.  Gostaria de deixar claro que, até pela minha longevidade, provavelmente vi muito mais filmes de W. Allen do que a maioria de meus leitores.  Gosto, respeito e defino W. Allen como "gênio", não apenas talentoso (gifted) mas como "genius", só que mesmo assim ele não acerta sempre, não é infalível.

Então vejamos: gosto muito da SJohanson, JBardem, RHall, e por aí vai. Mas quando um filme começa a ficar bom quando entra a Penélope Cruz, temos um problema!! E olhe, que depois dos mais recentes trabalhos da PC, Elegy e sobretudo Volver,  eu até passei a gostar bastantes dela, acho que ela melhora a cada filme.

Pois é, o que aconteceu para mim, que assisto ao W.Allen há décadas (décadas, vejam bem) e vou continuar vendo seus filmes, é que ele deixou de ser reconhecível em seus filmes.  Longe de dizer que não sejam muito bons, pelo contrário, são melhores que a grande maioria na praça, mas eu não reconheço mais como um "legítimo W. Allen". 

Esclareço que sou leiga, só sei do que gosto ou não, por isso mesmo a minha percepção é bem purinha, bem despojada de tudo menos de um mínimo de sensibilidade.  A conclusão a que chego é a seguinte: até Melinda and Melinda, Anything Else, e por aí vai, eu assistia a um filme de W. Allen e pensava: esse é o W.Allen!  Estou longe de me lembrar de muitos deles (afinal já faz muito tempo (de 1965 ou 66 pra cá) no caso de alguns e eu vejo muitos filmes sem a preocupação de me lembrar depois, o momento na frente da tela grande é que me mesmeriza e suga/abosrve integralmente), mas o interessante é que a sensação fica. Com Match Point e Scoop, dos quais gostei muito, já foi diferente: grandes filmes, mas onde estava o W.Allen?  Com Cassandra’s Dream (com o irritante C. Farrell) foi pior ainda.  Grandioso, grandioso, música de P. Glass, etc., etc., mas the genius had a day-off, for sure.

A comparação que faço é a seguinte:hoje os irmãos Coen têm uma assinatura (vou ver o novo filme, e sei que ao assistir ao filme vou ser capaz de reconhecer como obra dos Coen. Se não for assim, oh, oh…), Almodóvar é reconhecível em cada filme, até Clooney tem firmado um estilo!  Enfim, W. Allen perdeu a digital.  Aliás, este filme especificamente só começa a ficar bom mesmo quando fica parecido com um filme de Almodóvar!  Depois ele encontra ou reencontra seu caminho.  Mas da mesma forma que em Sonho de Cassandra faltou alguma coisa. Acho que faltou W. Allen.

A trilha sonora é muito boa e as intrepretações dos espanhóis, sobretudo, são as melhores!  Como sempre, W. Allen constrói as personagens com maestria, põe humor, e explora conflitos humanos brilhantemente, os diálogos têm agilidade, mas ainda assim faltou alguma coisa, acho que a provocação,não aquela dos subtextos sensuais do filme, mas a que eu esperava é que não estava lá.

De qualquer forma, nem pensem em deixar de ver o filme, pois ele vale a ida ao cinema e a entrada. Só não esperem um vintage W. Allen.

22

de
novembro

Na Carne - Milton Ayres - 29/5/2006

(mmayres.blog.uol.com.br)

Seus pensamentos estavam a mil. Àquela hora da manhã era bem comum isso acontecer. Enquanto executava as mesmas tarefas diárias, mecanicamente, seus pensamentos viajavam soltos por seu mais profundo eu. A preocupação com o final do mês chegando e com as contas que ainda tinha pra pagar. Os probleminhas de saúde de sua mãe, agora com quase setenta anos. O filho pequeno que andava tendo dificuldades na escola e ela não sabia como resolver. A filha adolescente que começava a namorar e vivia pensando em viagens, baladas e roupas novas. O marido que não a ajudava em nada. Era como se não se importasse com os problemas da casa que ela tinha de enfrentar. Algumas vezes suspeitou que ele já não a amava como antes. Que talvez tivesse encontrado outro alguém em suas andanças, em suas viagens de negócios, em sua rotina de gerente comercial de uma empresa de médio porte. Mas nunca descobriu nenhuma evidência. Também, o que faria se descobrisse? Ruim com ele, pior seria se ele a abandonasse com todos aqueles problemas que agora rememorava. Uma vez pegou seu marido cochichando ao telefone. Noutra, ela atendeu e ouviu a pessoa batendo o fone no gancho. Uma noite seu marido chegou atrasado para o jantar dizendo-se sem fome. Havia um perfume diferente no ar, mas ela preferiu ignorar. Jantou sozinha com as crianças. Das noites em que recusara seu marido alegando uma dor de cabeça, agora ela sentia falta. Ele é que se desculpava ultimamente, alegando muito cansaço e stress no trabalho. Mesmo assim não quis acreditar que alguma coisa pudesse estar desmoronando entre eles. Todo dia levantava-se com a mesma determinação e punha-se a fazer as tarefas domésticas com resignação. Havia sido preparada para aquilo. Tinha recebido uma educação austera e nunca ousara contestar seus pais. Cresceu e preparou-se para levar a vida que agora levava. Não podia reclamar. Sua irmã mais nova enfrentou a família e hoje se encontrava numa posição mais confortável. Separada e sem filhos, gozava os benefícios que a vida de uma executiva moderna e independente podia proporcionar. Não precisava dar satisfações de sua vida a ninguém. Ela, porém, se via refém de tudo. Tinha muitas responsabilidades com a família e ninguém para se queixar ou pedir ajuda. As amigas trabalhavam fora; não estavam acostumadas com a rotina doméstica. Ademais tinham empregadas. Ela não! Sempre sozinha, era obrigada a cuidar de tudo. Compras no supermercado, os remédios da mãe, material escolar para os filhos, roupas, sapatos, as contas de água, luz, telefone… Não sobrava tempo nem para que ela ajeitasse o cabelo, fizesse as unhas, cuidasse da pele, uma boa massagem. Não! Ela não tinha esse direito. Mas provavelmente a moça com quem seu marido vinha se encontrando há alguns meses tivesse direito a tudo isso. Talvez ela fosse linda, jovem, perfumada, de cabelos escovados, maquiada, unhas bem tratadas, inteligente e desocupada. Sim, porque ninguém poderia se manter linda todo o tempo se não fosse desocupada. Ela era prova disso. Ao final do dia, encontrava-se quase sempre descabelada, com as mãos cheirando a alho, a pele ressecada, sem nenhum encanto. De repente, as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos sem que ela se desse conta, tão absorta estava em seus pensamentos. Passou o braço no rosto, enxugando-o, e continuou a picar cebola, inconsolável. Do outro lado da pia, alguns bifes aguardavam temerosos a hora em que eles seriam violentamente espancados para que a paz voltasse a reinar naquele coração sofrido. Mas só até a manhã seguinte.

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